A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
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“ Poesia Eterna Parte I”
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A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.
No vento procuro consolo amigo, Que ninguém mais me poderá dar, Murmura-me onde encontrar abrigo, Onde eu me possa lamentar.
Nas planícies embrumadas eu caminho, Em busca dum destino meu e só, Transtornado e em pleno desalinho, Acabo apenas por lhes fazer sentir dó.
Deixem-me para lá das montanhas, Sucumbir escoando-me pelo rio, Construir pequeninas casinhas, Rodeadas de tumbas em pousio.
Lx, 11-11-1993
741
Noctívago
Acordo prostrado como um mal nascido, Escondo-me nos livros da minha estante, Acalmo os meus soluços com música perdido, Estático vegeto consumido e irrelevante,
Só com a noite instalada consigo enfrentar, A sociedade comigo impiedosa e contrastante, Do chão mal consigo os olhos levantar, Sob o luar pálido curo minha dor lancinante.
Lx, 23-3-1995
686
Como Um Raio De Sol
Não sei se haverá poema capaz algum, De mostrar o que na minha alma vêem, Não sei se valerá apenas escrever um Quando só nostalgia e solidão saem.
Brilham ao sol teus cabelos doirados, Guiando-me por caminhos agrestes, Consolam-me os lamentos irados, O calor de mil estrelas ardentes.
Passeias-te como uma fresca brisa, Deixas no ar cheiros de fantasia, Refrescas-me a mente submissa, Sonhos ao luar com maresia.
Bela e formosa de olhar apelativo, Serei para sempre teu até ao fim, Assim meu coração ficou cativo, Perdurando a tua imagem em mim.
Encanta-me a tua jovialidade carnal, Esteticamente pura e ilusória, Deixa-me contemplar-te trivial, Platonicamente desejar-te peremptória.
Como andorinha-do-mar te vi chegar, Perdido no Oceano vieste-me encontrar, Levaste-me para tua casa a pernoitar, Como sereia aos meus braços vieste pousar.
Lx, 7-9-1994
710
Monotonamente Escrevendo
Farto-me de Ser simplesmente, De viver o que não quero ser, De nascer tão fluentemente, Para no fim morrer sem querer.
Ansioso por vida complexa e completa, E vergando-me perante o seu peso, Acabo por ser uma alma discreta, Liberto-me gritando .
Nada me faz andar, Nada me faz correr, Continuarei até quando a pensar, Se continua eternamente a chover.
Lx, 12-6-1994
639
Para Vós
Quem vos dera a liberdade dos pardais, A coroa real sumptuosa dum rei felino, Quando é que pela mãe natureza exaltais, Cantando em uníssono a vida num hino.
Lx, 23-3-1995
682
Dunas
Dunas douradas esquecidas, De areias mil, A brilhar ao Sol perdidas, Com o Mar de perfil.
Recebes a teus pés as ondas, Coroadas de puro branco, Trazem com elas as conchas, Que te dão tanto encanto.
Deixas-te pelo vento acariciar, Quando te sussurra paixão, Vergas-te à nortada polar, Quando cometes traição.
E de noite ao luar, Com o céu iluminado, De mil estrelas a brilhar, Recebeste meu corpo inanimado.
Cansado de tanto esperar, Tão frio e desencantado, Que até a dor fez chorar, No meu coração desvanecido.
Lx, 28-6-2005
671
Sociedade Cruel
Mergulhado num ninho de vespas estou, Aterrorizado com todas as gentes fico, Sob o peso do mundo minha alma vergou, O semblante do meu ser desiste pacífico.
As ruas exalam carências sencientes, Amor gratuito demora a encontrar-se, Os corações resistem deprimentes, E a sua jovialidade volátil esvai-se.
Como fantoches pavoneiam-se enfim, Como bonecos com a corda partida, Como escravos vagueiam até ao fim, Até quando rastejar sob gente pervertida.
Lx, 5-11-1994
671
Versos de Lamentação
Contigo nasci para amar, Sob o leito da dor, Vou para sempre encarnar, A dúvida num mito incolor.
A terra a lamentar me chama, Glorioso de sonhos proclamo, Não somos mais do que lama, Lançada pelo vento ao nosso Amo.
Todos nascemos para morrer, Gozar a vida a sonhar, Vamos com certeza renascer, Para divinalmente a utopia adorar.
Ao alvorecer acordamos em busca de alguém, Objectivamente tentamos esculturar belezas, Em faces e corpos que julgamos ser do além, Mas as suas almas há muito caíram nas profundezas.
A chuva cai fria pela madrugada, Anseio por braços quentes ao meu regresso, A chuva impiedosa cai desalmada, Continuo à tua espera sem sucesso.
Uma história inesquecível eu tinha para contar, Com ela muitos iriam sorrir, Acabaram por me interpelar, E perguntar se era verdade o que iriam ouvir.
A noite cai uma vez mais escura, Com ela a vida parece hibernar, Para quê torná-la ainda mais obscura, Se dela não nos podemos alienar.
Lx, 17-12-1990
982
Uma Deusa Menor
No calor do teu regaço só quero descansar, Ser afagado por cabelos longos perfumados, Imergir no azul profundo dos teus olhos, Como num lago espelhado onde me lançar, Aveludada a tua pele em tons bronzeados, Com travos florais onde percorro atalhos, Apelas-me com tuas mãos para amar, Sob o céu estrelado juntos pernoitados, Afagos, caricias e beijinhos aos molhos, Odes e cantigas de amor te quero rogar, Largos sorrisos soltas dos teus lábios molhados, O vento testemunha é um para o outro talhado.
Lx, 28-3-1995
702
O Fogo e as Cinzas
Que agradável o cheiro a queimado, Do fogo não conseguirei sair, O vento quente a ele associado, Não me deixará jamais fugir.
As labaredas deixaram-me cercado, Condenado eu fiquei ao nascer, Em ter de viver desamparado, Sem lucidez que me fizesse florescer
Sentir-me sempre a viver ao lado, E pensar ter já tudo dado, Não é que me tivesse importado, Por estes mares já eu tinha navegado.
Já me tinham perguntado, Se me sentia aprisionado, Eu respondi infortunado, Ao mar as cinzas tinha lançado.