Lista de Poemas

Indignas


Não sois dignas dos meus poemas finados sentidos,
Antes deixá-los amarelecer podres aos bichos-de-conta,
Afastai dos meus versos vossos corpos pervertidos,
Não quero vê-los cobiçados como roupa de montra,
São sublimes e luxuriantes como peles de lontra,

Eles são os tormentos pela minha alma auferidos,
Afogados em dor e solidão submergiram numa onda,
Senti-me só e os meus olhos choraram entristecidos,
Quem me dera ser eterno pastor de mitos antigos,
Abandonado ter só a chuva e o vento como abrigos.

Lx, 29-12-1994
682

Para Vós


Quem vos dera a liberdade dos pardais,
A coroa real sumptuosa dum rei felino,
Quando é que pela mãe natureza exaltais,
Cantando em uníssono a vida num hino.

Lx, 23-3-1995
671

O Fogo e as Cinzas


Que agradável o cheiro a queimado,
Do fogo não conseguirei sair,
O vento quente a ele associado,
Não me deixará jamais fugir.

As labaredas deixaram-me cercado,
Condenado eu fiquei ao nascer,
Em ter de viver desamparado,
Sem lucidez que me fizesse florescer

Sentir-me sempre a viver ao lado,
E pensar ter já tudo dado,
Não é que me tivesse importado,
Por estes mares já eu tinha navegado.

Já me tinham perguntado,
Se me sentia aprisionado,
Eu respondi infortunado,
Ao mar as cinzas tinha lançado.


. Lx, 8-11-1993
675

Vento Amigo


No vento procuro consolo amigo,
Que ninguém mais me poderá dar,
Murmura-me onde encontrar abrigo,
Onde eu me possa lamentar.

Nas planícies embrumadas eu caminho,
Em busca dum destino meu e só,
Transtornado e em pleno desalinho,
Acabo apenas por lhes fazer sentir dó.

Deixem-me para lá das montanhas,
Sucumbir escoando-me pelo rio,
Construir pequeninas casinhas,
Rodeadas de tumbas em pousio.

Lx, 11-11-1993
734

Para Ti


Com um simples sorriso rasgado teu,
Afastas de mim o negrume mais denso,
Da noite soturna onde minha alma se perdeu,
Ao teu lado sonho estar num jardim suspenso.

Com um simples beijo adocicado teu,
Desabrochas a Primavera no meu coração,
Com um toque de mágica assim nasceu,
O nosso amor hipnótico tão intenso em vão.


Lx, 15-1-1996
636

Anónima


Espero ansioso pelo raiar do dia,
Só nasce quando surges no horizonte,
Radiosa e quente com o sol à porfia,
Misteriosa como o luar no monte.

Exalas ao passar doces fragrâncias,
Das mais lindas flores do campo,
Tens o sorriso leve de mil infâncias,
Que guardarei na alma ao longo do tempo.

Exaltas-me os sentidos quando te observo,
Tão calma e serena de gestos tão meigos,
Cativaste meu coração para sempre teu servo,
Encarnaste em ti toda a filosofia dos gregos.

Tenho passado a vida a te procurar,
Paro e escuto para te ouvir a sonhar,
O próximo indignado irá vociferar,
Mas eu apenas e só te queria amar.

Lx, 21-4-1996
746

Sonho Benigno


Pelo campo andavas a deambular,
Esquiva pelos beirais em devaneio,
Dei por ti um dia assim ao sonhar,
E logo me ficou o coração cheio.

Cheio com a presença do teu olhar,
Perdido no perfume do teu cabelo,
Louco e apaixonado pelo teu pensar,
Fazes-me viver em tons d'amarelo.

Estou bem quando encantado por ti,
Amanso quando a tua boca sorri,
Só para mim, enfim só por mim.

Deleito-me com a tua contemplação,
Tão servil e pura na minha imaginação,
Tão-somente e sempre, até ao fim.

Lx, 25-1-1994
699

Sono Eterno


Deixai-me a dormir sozinho,
Um sono eterno e profundo,
Não me deixem sonhar mesquinho,
Na solidão imensa deste mundo.

Lx, 23-3-1995
674

A Vida Por Um Fio


Ansioso por ver o tempo escoar,
Desconfiado por ele me vir a faltar,
Desconheço o meu futuro próximo,
Sei que não darei o meu máximo.

A vida desvanece corporeamente,
Concisa, lenta e impiedosamente,
Não tenho saudades para reter,
Mas choros ébrios latentes a tecer.

Deixei passar tudo ao meu lado,
Dei o destino como um achado,
Porfiarei só a caminho do eterno,
Não cobiçarei um só coração terno.

Sons ecoam na mente inebriante,
Delicados e suaves com semblante,
Estonteiam-me a alma fugaz e vil,
Enlouquecem-me o espírito senil.

Deixei o tempo correr impiedoso,
Já se cumpriu o meu ser lastimoso,
Sentado na tumba espero recolher,
À noite a espera fez-me entristecer.

Lx, 20-6-1999
640

Noctívago


Acordo prostrado como um mal nascido,
Escondo-me nos livros da minha estante,
Acalmo os meus soluços com música perdido,
Estático vegeto consumido e irrelevante,

Só com a noite instalada consigo enfrentar,
A sociedade comigo impiedosa e contrastante,
Do chão mal consigo os olhos levantar,
Sob o luar pálido curo minha dor lancinante.

Lx, 23-3-1995
675

Comentários (1)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
António Azevedo - Vila do Conde
António Azevedo - Vila do Conde

Escreveu no jornal ou revista Alma Nova de Espinho em 1919 e 1920 com José Maria dos Reis Pereira que depois iria adoptar o pseudónimo José Régio.

Para Comprar:
http://www.lulu.com/shop/search.ep?type=&keyWords=paulo+gil&sitesearch=lulu.com&q=&x=8&y=9

Reservados Todos os Direitos de Autor

“ Poesia Eterna Parte I”
Registado em www.safecreative.org sob o nº 1208142122416

A poesia fatalista e decadentista é um exemplo sublime da exaltação da morte em todo o seu esplendor, e desde sempre eu retiro satisfação pessoal deste saborear tétrico da vida.