Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Sou um rasgo em tua vida, um mascarado a me fingir de anjo branco,
o vilão disfarçado de herói, o infalível herói e dom ruam, o infinito ponto com que podes sonhar,
amante apimentado, companheiro de chãos, de possas e de ilusórios reinados,
chego-me, seduzo-te e contigo faço amor cvompleto sem desagrados,
de tal modo que, ao te servir e ao me beberes, não te contém e te embriagas extática e absurdamente!
199
EM CERTAS NOITES
Em certas noites, ela chegava tentando esboçar um sorriso amarelo como quem tenta levantar mil toneladas,
acomodava-se em silêncio e, de repente, começava a manusear o verbo volátil como um hábil malabarista de adagas afiadas;
e eu, espremido entre a tentativa de manutenção da calma e a entenebrecida vontade de reagir com o ego em chamas.
Sim, em certas noites - prolíficas em chuvas e sombras - não parecia ser ela que estava ali na minha frente, com o siso do ego inflamado.
Nestas noites, dava para perceber a dolorosa confusão que lhe havia entre paradoxais labirintos da mente,
como que perdida entre sinuosas trilhas de lava-pés tendo que decidir, sufocada e angustiadamente, que caminho tomar com relação a nós dois, que nos pendulávamos incautos entre o voo e a queda, o amor e a cólera, a loucura e a sanidade, a vida e a morte, enfim.
Sim, dava até para sentir os gritos de dor como que a pedir socorro, ao grande sonho de nuvens brancas que se iam tingindo de sombras nossas.
158
SEM A PAZ, CHEGOU A DEFINITIVA MORTE
Nuvem que carrega esplendores e tempestades, não sei exatamente quando perdi minha paz ilhada,
mas ainda me lembro de quando caminhava por uma estrada sinuosa e esburacada, e você chegou sem hesitar, toda alvissarada.
Ainda não tinhas a adaga nem o verbo afiado - eras só flores e sonhos esplendorosamente anuviados, que me davas com gosto declarado -,
isso veio depois, bem depois de andarmos por serras e montes elevados; e eu nem me lembro mais de quando nos caímos pela primeira vez, mas a terra tremeu sob meus pés e as sombras balouçaram às minhas madrugadas.
Até tentei fugir do iminente naufrágio, mas todas as portas e janelas já estavam fechadas, e a bela luz da morte de não sentir, de não querer, de não amar já havia inexoravelmente me abandonado;
hoje tomo meu café, fumo meu cigarro de palha enrolado e ando pelas avenidas dos vivos e dos mortos, com o pouco que de mim haja restado,
que todo o mais a ti também fora com mesmo gosto ofertado sob sóis e chuvas, às noites e às noites ausentes, entre as brisas e as tempestades ferventes neste incomensurável, mas ébrio amor degenerado.
121
ABOMINADOR
Chovo o verbo volátil e abomino a loucura dos homens;
e, por isso, é que vivo lhes expondo as espúrias, acidentais e sencientes abnormidades:
mas ainda espero conhecer, ao incerto porvir, algum sublime ser,
capaz de mostrar-me o erro fatal e de redimir-me desta tênebra capacidade
de não crer nos ditos, nos feitos e nos enredos sapiens.
163
SEM MAIS ESTAÇÕES
Tua presença
me é urgente, minha boca
reclama um beijo
de tua boca,
meu corpo
deseja teu corpo em nossa
cama onde agora me deito
sozinho,
sem mais esperanças
de que possas vir durante
a passagem pela ponte
existencial,
tive de abandoner
meus desejos e meus sonho, e me
fincar na esperança de um dia poder,
além, contemplar tua alma!
202
ENVELHECER
... após os 45, tornamo-nos tão pequenos diante da força da juventude,
que passamos e nos sentimos como inexistentes num mundo que não cabe mais em nossas senciências pretenças;
então, é que mais deixamos de sonhar, e caímos, em autoenganos macabros de reinos encatados,
como que a imaginar um porto seguro nas ignorâncias, nos desejos e nas imundícies humanas!
165
E SÓ O NIHIL RESTARÁ
... empurra o tempo o rebanho ao frio apagamrnto;
há flocos de neve caindo à negra florestas,
há ilusões servidas nos cafés de manhã,
há fogosd dr incendiando vadiamente pelos leitos,
há frágeis luzes que querem se acender às sombras:
e, assim, cresce a humanidade, sonhando, fantasiando e vadiando,
até que lhes acabem as majestades, chegue -lhesa noite inglória
e se caiam em eterno e insinciente desabamento.
122
O TEMPO
... e o tempo não leva somente o vento
e as alheias coisas onde nos fomos jogados:
levará, um dia, não mais distante que um piscar do Cosmo,
do ser, todo senciente intento.
165
AMANHÃ, VESTIR-ME-ÃO COM AS CINZAS DA NOITE
... lembro-me
de quanto era criança,
despetalava
as flores brincando
e fazendo-as
morrer,
os pássaros
que eu pegavam morriam
ao meu bodoque ou
ao meu prazer,
as masturbações
corriam tenramente sem
a menor culpa
ou pudor:
hoje,
para se vingarem,
as flores se foram a outros
jardins,
os pássaros
fugiram a outros céus
e, por bater punheta, carrego
o peso de ser um puto
pecador!
182
O PARADOXO DO SER
Há um querer cintilar, entre as espectrais coisas a que nos ligamos, com a vesania da mente e com o paradoxo da palavra que me incomoda.
Nas verdade, nenhuma metafísica, fé ou qualquer outra alucinação pode ser verdadeira, além de nossas idéias de que nos sejam.
Assim, nossas projeções e visões de tudo que nos cerca, ou do que abstratamente criamos, são-me tão aterradoras que superam o último ciclo do inferno de Dante, também, logicamente, inaugurado no teatro de nossas existências inconcretas.
Não gosto de ser extensivo diante de velórios, sobretudo quando ele dá sob cintilantes brilhos de alguns de meus irmãos apagados.
O estar tenuamente no meio das coisas (entendam-se: viver entre elas, e sem elas nada ser) de Heidegger; a condição inerente que o homem tem de poder fazer escolhas sob todas as circunstâncias, apregoado por Jean Paul Sartre; o Zaratustra e outros reflexos egocêntricos de Friedrich Nietzsche espalhados com sua assumida soberbia; e aquela estorinha fabulada, contada pelo ébrio pescador, alheio aos imperadores dos verbos, no botequim que eu freqüentava, têm todos suas relevantes verdades verbalizadas, diante, logicamente, das retinas de seus emissores e das idéias que têm delas os demais abnormais que as ouviram ou leram, em concordâncias ou não, uma vez que foram inauguradas e postas por e entre outros abnormais.
De fato não me parece possível exteriorizar em regozijos, contos, invenções ou quaisquer enredos que envolvam o verbum volat, sobre nossos semelhantes e as coisas entre as quais estamos, sem que mostremos reflexos próprios e de nossos semelhantes, ou vice-versa. Ou seja: não me parece plausível um fiel olhar diante do espelho, intrínseco, sem que se veja um pouco de nossos congêneres.
Isso coloca a faustidade do lume ou a verdade do ser como absolutas em suas existências anômalas?
Se tudo reflete de nossos cernes, parece-me haver um grande paradoxo:
Se emanado nos foi algo qualquer de qualquer ser, inaugurado foi, e haverá diante dessa nova gênese a idéia de que esteja certa ou errada, de que exista ou não. Mas sendo idéia que apreendemos do feito, passaram a haver diante de nossas razões sencientes seja para viver ou para morrer entre as demais criações do desalinho. Isso nos torna deuses apócrifos, em que nos tornamos despercebidamente.
Por outro lado, se no valsar concreto das coisas que há, adquirimos, em algum momento, a condição de nada mais emitir, criar ou expurgar com nossos lumes (ao que chamo: "apagamento"), abnômalos somos e, por essa condição nata, condenados a apenas ter idéias próprias das coisas (ao que chamo: "estar na ponte" ou "na grande barreira"), sem que elas sejam como a idealizamos, e sem que deixem de existir concretamente, ausentes nossas ideias do que sejam. E aí se configura a abnormidade singular da existência.
P.S. Assim seja diante de minha ideia do não possa ser, além da grande barreira, objeto de estudo dos abnormais citados e de tantos outros.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*