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n. 1976 PT PT

Jornalista, e escritor nas horas vagas. Na juventude já deu a volta ao mundo à conta da imaginação. Agora, limita-se a escrever.

n. 1976-07-27

Perfil
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Indubitável

Nunca te aconteceu no silêncio sedutor da noite,
Olhares para o fio de prumo de luz que te namora o rosto,
Sem paternidade de madrugada ou de dia,
E descreres de mim com um despegar lento mas feito de um transparente doloroso?...

Pergunto-te a pergunta muda e irrepetivel porque me sobra o
Fumo de mais este cigarro,
A subir apressado em serpente venenosa de despreocupação,
A espera de nada,
Mas desejando muitos tudos,

Não há riso nem portes de envio de solidão , nem sequer um adeus sacrificado quando o sol dá os sinais primeiros e últimos de ditadura dos dias sem cor,...

Só há um foste sem voltar á primeira casa do monopólio em que me tens preso para a eternidade .
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Poemas

28

Falésia de desinspiração

Desfazes-te do mar com um aceno,
Acordaste ontem com a força de mil retornos no universo debaixo da tua convicção,
E foi assim que permitiste a permissão de te desautorizares perante a morte,...

Com a chuva ácida de mil terminares do mundo,
A resolução está tomada,
A vida acaba com um mergulho de ave pela vida,
E o regresso em mil formas de azul transparente
406

Rosa e quem a vê

Ontem à noite houve amor, a julgar pelo sorriso transversal. Uma boca assim diametralmente oposta ao pescoço, esforçando-se por assegurar os primeiros raios de uma madrugada preguiçosa. Se calhar é Rosa, porque Margarida é branca.
Sem sal.
Incongruências que não há, quando se observa de perfil.
Salta à vista um golpe.
Não, dois.
Com certeza três.
Estão na coxa translúcidamente morena, pouco acima da rótula.
Rosa é recatada, da porta para fora. Mal o último fio de cabelo cor de noz se escapa à prensa da porta do apartamento, muda. E muda porque sim. Simplesmente, porque o mundo não tem nada a ver com um universo de petulâncias auto-impostas. E Rosa gosta.
E Rosa delirou na noite passada. A tranquilidade da auto-confiança, ajudou a que caísse peixe na rede. Foi trazido para casa, dissecado toscamente.Abusado, mas não violado. Rosa gosta do vento que lhe afaga a boca quando tem na mão o coração de um homem. Por isso deixa a janela do quarto aberta. O ângulo é o suficiente para o néscio olho do mundo ver tudo o que se passa. E depois comentar.A manhã rompeu, não particularmente.
Observatório de emoções, não contundentes.
E quem escreve sobre o que vê, assume que adora o que descreve. Mede a profundidade dos supra-citados golpes de paixão. Admira curvas que não são dizíveis na retórica de um criador.Participa, quanto muito, na acção. Na côncava descrição de factos. Não opina sobre eles. Relata-os, esperando que eles se desfaçam na bruma da aceitação de quem lê.
Rosa é por muitos, aquilo que nunca foi por ninguém. Espera pelo mundo, quando ele já há muito que não espera por ela. Nota-se isso, quando deixa cair um toque sensível nas costas de quantos estranhos lhe passam por casa. Afaga-os, dilata-os, diminui esperanças. E hoje saiu de casa com uma vida invisível pela mão. Um, dois, três golpes para trancar o seu mundo, e dois passos para entrar no outro. Aquele que despreza, e dava tudo para exterminar.
Segura a bolsa dos desejos reprimidos, enquanto passa olhos de amendoa pelas primeiras da manhã. Rosa queria que o mundo estivesse sempre de pijama. Que fizesse amor com ele numa perspectiva de desvario cósmico, talvez porque o homem é um eterno apaixonado pelo contínuo da criação. E a mulher imita, porque sempre imitou tudo, para fazer melhor que o homem.
A história acaba, porque tem de acabar. Quem descreve, não é omnipresente. Quem é descrito, não pode perceber que é dissecado.
E Rosa vai voltar logo à noite
385

...se o tempo recomeçasse

pedrinhas soltas no fundo de uma sombra em concha de praia,

dois equívocos à conversa,

e risos,

risos de mais, com o entardecer a brisa,...



cheira a novelos de lã, com gatos escritos no desejo de

ver o tempo romanceado,

menos difícil de digerir,

e com remendos de luz a sobra da criação

dá sono às marés,...



afasta o mar até ao limite do mundo,

deixando o pé marcado no que

passou desta repetição de nós

todos em cadeia....
191

Primordial mente

Disseste que me davas o céu rasgado, desfeito até só sobrarem estrelas filhas da explosão primordial,...

A manhã rompia com uma gélida sensação de falhanço,
Ao longe pequenos pontos de conformismo caminhavam irregularmente para qualquer coisa igual a ontem,
E sem fim descrito em parte nenhuma,...

Conversámos até o planeta parar,
Ouvia a criação presa ao invisível á espera que tudo fosse normal em sangue novamente,...

Só que das flores veio o poema,
Só se me desses o luar poderia haver vida desenhada num novo entardecer,
Até lá criámos o desnorte controlado pelo som dos oceanos
187

Nuvens

....dos cães só se via o desespero,
Lambiam o socorro das paredes de vielas
seguidas,
como se a vida escorresse num dia que
eram dias de calor embrulhado em sufoco,..



do alto o sol cosia o céu a tons de carne viva,...
200

...de noite qualquer coisa

A cidade descalçava-se de ti,
Espreguiçava-se por cima das Torres recortadas num céu de chumbo que acolhia a noite num longo abraco,
Em finos chuviscos de lama figurada,
Desceste sobre as ruas que escorriam pessoas em calçadas gastas,
Como sangue nas veias finas de um moribundo, ...

Foi a um poema triste,
Decantado,
Depurado de otimismos impossíveis de descrever,
Que recorri para acordar sons adormecidos na cadência ritmada de vida que trazes...
215

...de azuis silêncios

fazes-me quer o
sim,
quer o não,
talvez o possível
de entre qualquer
coisa para ser
muito pouco
de assim-assim,...


e ao anoitecer de
dias infindos,
perto longe das
partes metades
do todo
que coça a
noite nos rebordos
do teu sorriso de dia,....


e para o fim rochas
agudas em notas
mudas de discos
opacos de qualquer coisa para afinar portentos,......


de azuis silêncios...
208

...esperar por qualquer coisa

....de todas as coisas o frio,

vestido com as pedras soltas de um

inverno despido de estórias de morte,

é o menos parecido com o que um país

sonha em cada raiar caldo de dia,...



..não fará sentido falar de metáforas desta

forma dorida,

bolorenta até,

mas se o homem evoluiu em círculos concêntricos,

o futuro será de humanidades cosidas em novelos

de expetativas congeladas,

e despidas de sentidos expectáveis e desesperantes....

174

Astrofelicinauta

Desembainhado das calças de sol,
Desfeitas as golas de estrela de uma camisa
empoeirada de luar,
E feitos os aprumos num colete desenhado a fios de constelações,
Sobrou o silêncio do limite do universo esquadrinhado a lápis de morte...
207

...de dentro de tudo

De dentro de tudo, de dentro do tempo, por fora dos segundos perdidos,
Na roda,
Dos minutos ganhos enviesados a mirar,
De dentro de tudo sobes por qualquer coisa difícil nos rebordos que o
Vento deixa,...
Faço-me de pintor do Sol que é juiz de toda esta contenda,
E com cuidados de som,
Fica abafado,
O rumor que a morte deixa,
Por dentro de tudo...
222

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