Nunca te aconteceu no silêncio sedutor da noite, Olhares para o fio de prumo de luz que te namora o rosto, Sem paternidade de madrugada ou de dia, E descreres de mim com um despegar lento mas feito de um transparente doloroso?...
Pergunto-te a pergunta muda e irrepetivel porque me sobra o Fumo de mais este cigarro, A subir apressado em serpente venenosa de despreocupação, A espera de nada, Mas desejando muitos tudos,
Não há riso nem portes de envio de solidão , nem sequer um adeus sacrificado quando o sol dá os sinais primeiros e últimos de ditadura dos dias sem cor,...
Só há um foste sem voltar á primeira casa do monopólio em que me tens preso para a eternidade .
Desfazes-te do mar com um aceno, Acordaste ontem com a força de mil retornos no universo debaixo da tua convicção, E foi assim que permitiste a permissão de te desautorizares perante a morte,...
Com a chuva ácida de mil terminares do mundo, A resolução está tomada, A vida acaba com um mergulho de ave pela vida, E o regresso em mil formas de azul transparente
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Rosa e quem a vê
Ontem à noite houve amor, a julgar pelo sorriso transversal. Uma boca assim diametralmente oposta ao pescoço, esforçando-se por assegurar os primeiros raios de uma madrugada preguiçosa. Se calhar é Rosa, porque Margarida é branca. Sem sal. Incongruências que não há, quando se observa de perfil. Salta à vista um golpe. Não, dois. Com certeza três. Estão na coxa translúcidamente morena, pouco acima da rótula. Rosa é recatada, da porta para fora. Mal o último fio de cabelo cor de noz se escapa à prensa da porta do apartamento, muda. E muda porque sim. Simplesmente, porque o mundo não tem nada a ver com um universo de petulâncias auto-impostas. E Rosa gosta. E Rosa delirou na noite passada. A tranquilidade da auto-confiança, ajudou a que caísse peixe na rede. Foi trazido para casa, dissecado toscamente.Abusado, mas não violado. Rosa gosta do vento que lhe afaga a boca quando tem na mão o coração de um homem. Por isso deixa a janela do quarto aberta. O ângulo é o suficiente para o néscio olho do mundo ver tudo o que se passa. E depois comentar.A manhã rompeu, não particularmente. Observatório de emoções, não contundentes. E quem escreve sobre o que vê, assume que adora o que descreve. Mede a profundidade dos supra-citados golpes de paixão. Admira curvas que não são dizíveis na retórica de um criador.Participa, quanto muito, na acção. Na côncava descrição de factos. Não opina sobre eles. Relata-os, esperando que eles se desfaçam na bruma da aceitação de quem lê. Rosa é por muitos, aquilo que nunca foi por ninguém. Espera pelo mundo, quando ele já há muito que não espera por ela. Nota-se isso, quando deixa cair um toque sensível nas costas de quantos estranhos lhe passam por casa. Afaga-os, dilata-os, diminui esperanças. E hoje saiu de casa com uma vida invisível pela mão. Um, dois, três golpes para trancar o seu mundo, e dois passos para entrar no outro. Aquele que despreza, e dava tudo para exterminar. Segura a bolsa dos desejos reprimidos, enquanto passa olhos de amendoa pelas primeiras da manhã. Rosa queria que o mundo estivesse sempre de pijama. Que fizesse amor com ele numa perspectiva de desvario cósmico, talvez porque o homem é um eterno apaixonado pelo contínuo da criação. E a mulher imita, porque sempre imitou tudo, para fazer melhor que o homem. A história acaba, porque tem de acabar. Quem descreve, não é omnipresente. Quem é descrito, não pode perceber que é dissecado. E Rosa vai voltar logo à noite
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...se o tempo recomeçasse
pedrinhas soltas no fundo de uma sombra em concha de praia,
dois equívocos à conversa,
e risos,
risos de mais, com o entardecer a brisa,...
cheira a novelos de lã, com gatos escritos no desejo de
ver o tempo romanceado,
menos difícil de digerir,
e com remendos de luz a sobra da criação
dá sono às marés,...
afasta o mar até ao limite do mundo,
deixando o pé marcado no que
passou desta repetição de nós
todos em cadeia....
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Primordial mente
Disseste que me davas o céu rasgado, desfeito até só sobrarem estrelas filhas da explosão primordial,...
A manhã rompia com uma gélida sensação de falhanço, Ao longe pequenos pontos de conformismo caminhavam irregularmente para qualquer coisa igual a ontem, E sem fim descrito em parte nenhuma,...
Conversámos até o planeta parar, Ouvia a criação presa ao invisível á espera que tudo fosse normal em sangue novamente,...
Só que das flores veio o poema, Só se me desses o luar poderia haver vida desenhada num novo entardecer, Até lá criámos o desnorte controlado pelo som dos oceanos
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Nuvens
....dos cães só se via o desespero, Lambiam o socorro das paredes de vielas seguidas, como se a vida escorresse num dia que eram dias de calor embrulhado em sufoco,..
do alto o sol cosia o céu a tons de carne viva,...
200
...de noite qualquer coisa
A cidade descalçava-se de ti, Espreguiçava-se por cima das Torres recortadas num céu de chumbo que acolhia a noite num longo abraco, Em finos chuviscos de lama figurada, Desceste sobre as ruas que escorriam pessoas em calçadas gastas, Como sangue nas veias finas de um moribundo, ...
Foi a um poema triste, Decantado, Depurado de otimismos impossíveis de descrever, Que recorri para acordar sons adormecidos na cadência ritmada de vida que trazes...
215
...de azuis silêncios
fazes-me quer o sim, quer o não, talvez o possível de entre qualquer coisa para ser muito pouco de assim-assim,...
e ao anoitecer de dias infindos, perto longe das partes metades do todo que coça a noite nos rebordos do teu sorriso de dia,....
e para o fim rochas agudas em notas mudas de discos opacos de qualquer coisa para afinar portentos,......
de azuis silêncios...
208
...esperar por qualquer coisa
....de todas as coisas o frio,
vestido com as pedras soltas de um
inverno despido de estórias de morte,
é o menos parecido com o que um país
sonha em cada raiar caldo de dia,...
..não fará sentido falar de metáforas desta
forma dorida,
bolorenta até,
mas se o homem evoluiu em círculos concêntricos,
o futuro será de humanidades cosidas em novelos
de expetativas congeladas,
e despidas de sentidos expectáveis e desesperantes....
174
Astrofelicinauta
Desembainhado das calças de sol, Desfeitas as golas de estrela de uma camisa empoeirada de luar, E feitos os aprumos num colete desenhado a fios de constelações, Sobrou o silêncio do limite do universo esquadrinhado a lápis de morte...
207
...de dentro de tudo
De dentro de tudo, de dentro do tempo, por fora dos segundos perdidos, Na roda, Dos minutos ganhos enviesados a mirar, De dentro de tudo sobes por qualquer coisa difícil nos rebordos que o Vento deixa,... Faço-me de pintor do Sol que é juiz de toda esta contenda, E com cuidados de som, Fica abafado, O rumor que a morte deixa, Por dentro de tudo...