Domingo como nenhum outro domingo
Num dia de domingo o tempo passava triste como o bacalhau dos pobres,
Havia os homens de soluções encardidas que em vez de falar optavam por estranhos sinais
Com os sobrolhos unidos,
O sofrimento das esposas era uma figura disforme e sem pernas que caminhava pelos
Intervalos da chuva sem cor que o céu vomitava,
E depois os pequenos,
Os sorrisos de ouro e transparências escritas em inocências
que saltitavam pelas poças douradas de lama,
Num dia de domingo somos tudo isto e nada ao mesmo tempo,
Só querendo se volta a este andar para o lado como o caranguejo,
Em que o tempo flui,
Mais doce,
Mas menos timidamente infeliz do que no resto dos sítios em que existem
Domingos de manhã,
Neste, como noutros dias,
Só se olha pelos segundos disformes que faltam para que o tempo passe a ponte
Vagarosa que o torna velho,
Num dia de domingo,
Escreve-se assim porque ontem foi o resto da vida do
universo que vai morrer alegre....
Writing
Quero escrever,
Dizer o que penso sem falar ,
Resumir o que inseguramente me mata o riso,
Lavar a alma,
Fazer o lindo abstrair se do feio,...
Quero escrever porque a vida me deve o que de belo eu sou,
E o que de feio não quero nunca mais ser,
Se escrevo bem ou mal isso que digam os que vierem depois,
E os que estão agora,
E os que do passado me disseram a mim e outros que sim,
Que continuar é desafiar tudo isto fazendo o suficiente para dormir,
E regressar para mais, sempre mais,...
Passar por aqui é dizer a quem vem depois que somos o avesso do que nunca quisemos ser ...
Refletir
guardo a dor no pé mais
solto das conversas que
tenho com a fantasia,...
se me falo no meio destas
intransigências de desnorteado,
faço-o porque quero
criar transparências,...
coisas onde possa refletir a percepção dos dias que encontro nos fòlegos
perdidos dos minutos
quentes,...
nos anseios incolores,..
sobretudo em tudo,
e no nada que é saber
que se sabe tudo,
sem concretamente passar do zero dos
choros da ignorância....
Despertador interrompeu este poema
Desnorteado andas putridamente perdido no vento,
Sorvido no turbilhão do correr do tempo,
És as mãos nos bolsos do sol abrasivo, abrasador, indubitável na morte que caminha na berma da estrada que ninguém vê,...
Foi lá que te encontrei,
Falavas de coisa nenhuma com os olhos,
Ouviam-te dezenas de sombras a encolherem ao sol,
Prometias paraísos invisíveis,
Com riqueza de suspiros,
Lúcidas noções de felicidade,
Mar,
Amar por cima de todos os ódios,...
Até anoitecer foste rei no meio do clero da ignorância,
E quando a noite veio,
Subimos ao monte arredondado da dúvida,
E por lá ficamos ainda,
À espera que a espera nos leve para o mundo das coisas reais..
Dececiona-nos
Dececiona-nos,
Incentiva-os pelo medo,
A soma dos percalços desta confiança é a terra a transpirar gritos indecifráveis ao amor dos mortos que respiraram o fim juntos,...
Tudo isto escrito dá os escritores amordaçados que ninguém conhece,
E o respirar dos dias iguais aos minutos seguidos de segundos esganados de solidão ..
Auto-confiança em loop
Cresces dos bolsos do pessimismo,
Como engulho na rotina suspiras pelo fim de mais um dia,
Desejando que das árvores nasçam esconderijos subtis,
Máscaras que façam desaparecer a falácia de seres um equívoco por admitir,...
Na noite,
Em cada noite tudo é renovável com o som que brota das paredes fechadas,
Sobre si mesmas e por cima do ser que te decalca a pele em chagas indolores,..
Podias ser diferente,
Saberias ser outro assim o outro tivesse olhos transparentes de conivência,...
Não havendo isso há mais um sol,
E mais outro,
E outro,
Até que a manhã do eterno te vista outra pele alva,
e irrepetivel...
Outono quente
A praça espera pelo teu sorriso,
Todos as luzes adormeceram sufocadas por um choro surdo,
Ansiosas pelo resplendor ao sol que cada passo teu representa,...
Já não há noites estreladas,
Só dias iguais ao entardecer
E diferentes na ânsia de quererem calor morno de um sol desenhado a tons de alegria,...
Volta,
Levanta te desse sono indissociável do silêncio que me arranha a alegria de estar vivo ...
Se de hoje a mil milhões de anos
Se de hoje a mil milhões de anos eu ainda estiver aqui sentado à tua espera,
Não me irás ver mais,
A tua memória ficará no éter do que o universo for na altura,
Eu serei pó,
O resto do que foi a experiência de te ter sorrindo,
Capaz de me desfazer no mais pequeno átomo de felicidade,
Que com a explosão das coisas reais me devolvia à infelicidade da felicidade desenhada,...
Se de hoje a mil milhões de anos eu ainda aqui estiver sentado á tua espera,
Olha em frente e verás que estás a um segundo de não me largares na infinidade do para sempre..