rafaeldasilva

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🔵 O doutrinador

O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.




Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola.  Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).




No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.




A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”. 




Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que  ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.




Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
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Poemas

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🔵 O prefeito no motoclube







A motocicleta era emprestada, mas eu ia para o motoclube mesmo sem moto, sem correntes, sem jaqueta de couro e sem cara de mau. E, depois dessa noite, percebi que outras tribos estavam frequentando o local.




O imaginário popular, o visual estereotipadamente agressivo (muitas vezes anedótico) e a mística gerada pelos “Hells Angels”, criou uma impressão exagerada acerca de integrantes de motoclubes. Engenheiros, policiais, médicos, advogados etc transformam-se em cima da motocicleta e resolvem brincar de ‘Sons of Anarchy’.




Um senhor, que alternava sua vida entre candidato, deputado, prefeito e de vez em quando empresário de Guarulhos, chamado Paschoal Thomeu resolveu passar algumas horas mergulhando no submundo da noite alternativa. Tentou a sorte, para colher um punhado de votos no encontro de motociclistas.




Sinceramente, me enganei ao imaginar que o político encontraria ambiente hostil para lograr êxito no seu objetivo. Pelo contrário, apesar do seu visualzinho destoar bastante da frequência avessa aos representantes do “status quo” o velho prefeito se saiu bem.




Entre motos acelerando, cerveja barata, carne de segunda e rock and roll, Paschoal Thomeu se deslocou com desenvoltura. O magnata “colou” na nossa roda de amigos. Ele parecia disposto a se humilhar para conquistar mais alguns votos. Esquecendo-se do abismo social que separava o eterno chefe do Executivo Municipal da, aparentemente, escória da sociedade, ele estava disposto a agradar aquela turma.




Meu amigo, durante o dia um prestativo motoboy de farmácia, à noite no motoclube, se vestia do jeito mais repugnante (punk mesmo), talvez querendo chocar a Humanidade. Pois esse sujeito, fazendo um gesto banal, foi acender mais um cigarro. O candidato se aproximou e capturou o fumante. Num gesto rápido, parecendo ter prática naquilo, Paschoal Thomeu apanhou cigarro e isqueiro e se submeteu a um indiferente punk.




Sentindo que o momento lhe parecia bastante favorável, aceitou os serviços do inacreditável garçom. Vendo aquilo, acho que todos pensaram ser a ocasião ideal para pedir o asfaltamento de uma rua, a limpeza de um terreno ou o desentupimento de um córrego, mas aquela reunião de motociclistas já estava parecendo uma reunião de condomínio ou diretório partidário.




Após a evasão daquele intruso, o encontro do motoclube voltou a sua normalidade. Entre motos, cerveja, churrasco e rock ‘n’ roll, nossa rotina era bem melhor longe do Poder Público, mesmo que interesseiro.
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🔴 O homem de plástico







João Doria desistiu de ser presidente. E eu desisti de namorar a modelo israelense Yael Shelbia Cohen. Sei que é crueldade deixar a menina chorando, mas, além de possuir um nome impronunciável, a garota mora longe.




Voltando ao Doria, o cara é tão vaidoso que transformou sua despedida num espetáculo lamentável com dois capítulos. Acontece que o ex-governador não abdicou de concorrer à Presidência, o povo, já havia muito tempo, tinha desistido dele. O homem de plástico ainda tentou sinalizar que a decisão era sua, mas não colou.




Doria conspirou contra o governo federal, aumentou impostos, quis fazer uma propaganda com a vacina, adotou medidas insanas sanitárias, fingiu que se mascarava e trancou tudo. Comprometeu o estado de São Paulo, levando adiante uma rixa pessoal; quem levou a pior foi o paulista, que sentiu o alívio provocado por sua saída prematura. O morador dos Jardins fez o estrago e saiu fora.




Agora, João Doria poderá frequentar restaurantes estrelados e dar seus pulos no ‘Copacabana Palace’ e em Miami sem ser importunado. Se quiser, só será obrigado a encontrar alguém da plebe, quando esbarrar com algum dos seus empregados: aí basta cumprimentar com um meneio de cabeça ou, no máximo, perguntar se “esse ano o Curintia vai?”. Sem essa de comer pastel.




Doria sai da política para ser apenas um triste retrato no Palácio dos Bandeirantes, lembrando um mandato incompleto de poucas realizações. Lembrando que a Prefeitura também recebeu uma gestão inconclusa. Sabendo que Doria usava seus cargos como trampolins, o que viria após a Presidência? A ONU?




O ex-postulante a postulante ao Palácio do Planalto foi protagonista de um dos episódios mais abjetos da política brasileira: o Impagável Bolsodoria. O que parece o nome de um super-herói atrapalhado, é a tentativa desesperada de Doria derrotar Márcio França, seu concorrente ao governo paulista. Depois da bajulação explícita, numa outra atitude desastrada, ele abandonou Bolsonaro. Deixou de ser Bolsodoria, tornou-se Calça-apedada.




João Doria deixa a vida pública para voltar para a privada.
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🔵 Baixo Augusta, fundo do poço







Eu realmente não sabia que aquela região (da Rua Augusta) era conhecida como Baixo Augusta. Isso dá a impressão que aquela “quebrada” pertencia a uma espécie de grupo ou “tribo”. A gente só queria fazer um “esquenta” para ir na “Fun House”, porém os “piercings” estrategicamente exibidos, as tatuagens bacaninhas e os cabelos coloridos davam exatamente a impressão de estarmos invadindo um espaço hostil pertencente a uma tribo pouco amigável.




A “Fun House” foi um templo do “rock indie”. Funcionava numa residência da rua Bela Cintra. Foi lá que eu determinei o fim das baladas daquele tipo. Do alto dos meus 32 anos, parei e observei aquela “criançada” na casa dos vinte e poucos anos de idade. Era triste admitir, havia chegado o final de uma “belle époque” particular: me senti o “tiozão” da festa.




Voltando à rua Augusta, foi lá que fomos submetidos a um enquadro “monstro”. Encontramos um barzinho legal: rock, bilhar e cerveja gelada, porém uma frequência “alternativa”. Como o “esquenta” seria rápido, entramos e nos diluímos na “festa estranha com gente esquisita”. Tudo estaria sob controle, se ali não fosse um ponto “manjado” pela polícia.




Como numa pesca de arrasto, fomos capturados como uma fauna acompanhante. Entre náufragos, traficantes e degredados, fomos convidados a compor uma gigante fila (em posição de revista). Após breve conversa (e tirocínio), um policial sabia que não pertencíamos àquela realidade, então fomos dispensados da “geral”




Num outro sábado a noite, no “prafrentex” Baixo Augusta, numa atitude quase masoquista, fomos beber cerveja barata. Masoquista porque não havia como negar: destoávamos daquela multidão “tchaptchura” (moderninha) e sentirmo-nos “tiozões na balada”. 




Olhando para cima, naquele bar do enquadro histórico, vários jovens (em posição de revista) aguardavam a procura minuciosa de entorpecentes. Realmente, eu recebera o sinal dos lugares que deveriam ser evitados. Desses lugares, o Baixo Augusta era o fundo do poço.
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⚫️ Sucesso internacional







Ouvi que a cantora Anitta é sucesso internacional. Parabéns. O sucesso, atualmente, é medido por visualizações; vendas, esqueça. Dizem que a Anitta (a equipe dela) impulsionou o número de visualizações. Não precisava. Por curiosidade, eu talvez escute alguma composição musical da cantora. Talvez.




Ouvindo Quincy Jones no Spotify, trombei com a canção Desafinado de Newton Mendonça e Antonio Carlos Jobim. Isso, sim, é sucesso internacional. Eu já tive a feliz experiência de ver e ouvir alguém da Bossa Nova sendo paparicado pelos “gringos”, não o contrário. Agora, no Spotify, estava ouvindo música americana, de repente toca uma música brasileira de 1959.




A Anitta está garimpando o espaço dela. Ainda que seja numa dancinha do Neymar, na bandeira de escanteio, depois de um gol; no”Brazilian Day”; num festival (categoria “World Music”); até mesmo ganhando o “Grammy” de música latina, a cantora tem méritos. Mas impulsionar o número de visualizações é covardia. Chega a dar saudade da entrega de disco de ouro no Cassino do Chacrinha.




Meu “sucessômetro” é sintonizar o rádio e ser obrigado a ouvir uma música que você odeia;  ligar a TV e deparar com a apresentação ao vivo daquele grupo que você não quer ver; passar em frente a Casas Bahia e ter que aguentar a canção antes, durante e depois da passagem em frente à loja; e ir dormir lembrando toda a melodia. Não tem como fugir nem negar, a música chiclete, isso é sucesso. 




Visualizações não significam sucesso, muito menos talento. É muito comum algum vídeo “trash” render uma enxurrada de cliques atrás de boas risadas: quem se lembra de Rebecca Black e seu “hit” Friday? Justamente, a má qualidade pode atrair audiência.




Os LP’s e CD’s eternizaram o fenômeno de levar às lojas quem realmente curtia alguma faixa do disco; diferentemente, o clique não custa nada, isso gera distorções.




Sinceramente, só conheço uma canção da Anitta, antiga. Atual, não conheço nenhuma nem estou com vontade de escutar alguma no Spotify ou Deezer. Talvez eu espere uma dancinha do Neymar ou algum “hit” grudar na minha cabeça.
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🔵 A Praça do Pôr do Sol




Saindo da FNAC Pinheiros, cinco da tarde, no inverno o Sol se escondia às cinco e vinte. Sábado, só sairia umas dez da noite, então não custaria me infiltrar entre uma turma que abraça árvores e aplaude o pôr do sol. 




Não seria novidade, para quem passou a tarde entre uma “galerinha natureba” que acha que vai salvar o planeta e a si bebendo suco detox, usando canudo de papel, usando copo reutilizável, construindo móveis com madeira de reúso, armazenando água da chuva e reciclando lixo, mas queimando diesel. Para completar minha inserção no universo “esquerda de IPhone” e elevar meu ranking de “bichogrilisse” ao máximo, fugi, sem sucesso, das onipresentes “contações de histórias”. Eu fui à FNAC sabendo que de sábado era, infalivelmente, assim. A livraria ficava muito perto da Vila Madalena, portanto sabia onde eu estava pisando.




Cheguei a pé à Praça Cel. Custódio Fernandes Pinheiro. Tá, Praça do Pôr do Sol, no Alto de Pinheiros. O lugar ganhou esse nome, porque é um dos raros locais agradáveis, em São Paulo, onde se pode acompanhar a fuga da bola de fogo até a última borda.




Não deu outra, em meio à “selva de pedra”, o corre-corre, o trânsito, as cracolândias e “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”, aquele bando de gente aplaudia efusivamente — aos gritos de “ú-hú” — o pontual espetáculo da natureza que resolvia embasbacar diariamente os paulistanos para lembrar quem é que manda.




Depois da concessão à natureza, após lembrar o que há além dos apartamentos, dos automóveis, dos eletrodomésticos, dos eletroeletrônicos, enfim, das facilidades do dia a dia, todos voltam à rotina da cidade grande. A Praça do Pôr do Sol é só uma lembrança.




A Praça do Pôr do Sol está muito popular. Eu comecei a frequentar ali quando ainda era agradável, parei de ir ali quando um arranha-céu cobriu a réstia dos raios solares que brigavam com o vento gelado e a Praça ficou tão popular que a frequência e a sujeira transformaram o tranquilo e limpo local numa filial da Cracolândia.
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🔵 Livros, café e rock and roll

Depois de ver (e ouvir) os últimos lançamentos de CD’s e alguns mais antigos, nada mais óbvio que fazer a mesma coisa com os livros. Tratando-se de uma livraria, era tudo o que eu poderia fazer, certo? Errado.




Feito o “upgrade” musical e literário, alimentando o espírito, era hora de alimentar o corpo.  Pedi um salgado e um café no Fran’s Café da FNAC da Avenida Paulista. Encontrei uma mesa vaga. Sorte, para um sábado. Coloquei o diminuto, embora caro, café da tarde na mesinha e sentei.




Os “roadies” “plugaram” os amplificadores e retornos, afinaram a guitarra e o baixo, ajeitaram os microfones e a bateria, pronto. Era só a banda entrar e tocar. O “pocket show” do ‘Doctor Sin’ compensaria o caro desjejum, dando até uma boa vantagem no custo-benefício.




   ***




São Paulo, 16 de janeiro de 1993, estádio do Morumbi. O Dr. Sin subiria ao palco, naquele inesquecível Hollywood Rock, antes das bandas Engenheiros do Hawaii, L7 e Nirvana, respectivamente. Todas as apresentações foram OK, mas o Nirvana, no auge, foi uma porcaria. Diz a lenda que João Gordo (Ratos de Porão) falou pro “consciente” Kurt Cobain (vocalista e guitarrista do Nirvana) que ele tocaria num festival patrocinado por uma marca de cigarros. Sabendo disso, ele avacalhou o show. Uma banda cover teria tocado bem melhor. Tocar num evento financiado pela indústria tabagista, com absoluta e comprovada certeza, era o menor dos problemas para Kurt. Foi uma inicial, visionária e clara sinalização hipócrita de virtude.




A melhor performance foi do “power” trio Andria  Busic, Eduardo Ardanuy e Ivan Busic, o Dr. Sin. Dessa vez, eu não enfrentei longas filas, mega lotação, as dificuldades de permanecer em pé e a distância do palco. Assistiria ao show de maneira corriqueira, apenas comendo algo numa lanchonete, não sentado numa cafeteria.




Pouco mais de um ano depois,  Kurt Cobain (líder do Nirvana) estourou os miolos. A banda entrou para a história. Livros e documentários foram lançados. O mundo até ficou politicamente correto como o suicida Kurt. No show do Nirvana, mesmo que avacalhado, quem foi, foi.




   ***




Anos depois, eu estava assistindo ao show da mesma banda do Hollywood Rock, só que tomando um café da tarde numa cafeteria de livraria. Foi um sinal de que a idade estava se impondo.
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🔵 Figuras







Acordar no sábado e descobrir que seus amigos começaram uma coleção de figurinhas de futebol sem te avisar é considerado alta traição. Como forca, cadeira elétrica ou injeção letal, além de não utilizados no Brasil, são castigos incompatíveis com o delito, as penas não foram aplicadas. Preferi adquirir, mesmo depois, o álbum e algumas figurinhas.




O meu senso de qualidade e valor financeiro ainda não estavam apurados, talvez por causa do orgulho infantil de obter “a grande novidade”. O fato é que: os cromos eram porcamente impressos, o álbum era interminável, havia times insignificantes, como o Tuna Luso e “prêmios” como: utilidades domésticas incompletáveis. Não bastasse a péssima qualidade do produto, o nome daquilo era... ‘Trá-lá-lá  de Ouro’. O “de Ouro” talvez fosse para agregar valor à porcaria toda. Funcionou.




Viramos escravos do lixo e, pior, só pretendíamos largar aquela coisa quando terminássemos a coleção. Isso não se faz com uma criança, neste caso, três. Como todo estelionato, esse, atraiu pela cobiça.




A coleção foi bem, até certo ponto. Mas as horríveis panela de pressão, batedeira e liquidificador, enfim as utilidades domésticas, nunca completavam. A perspicácia tardia nos ajudou a concluir que havíamos sido enganados. Para dramatizar mais a situação, não encontramos mais ninguém com o material. A qualidade era tão desprezível, que não havia comércio, nem troca, nem “bafo” (jogo). “Morremos” com o material... Ir à banca de jornal e pedir o reembolso não era uma opção. A solução mais sensata foi admitir a derrota e abandonar o álbum incompleto.




Enquanto eu torrava meus surrados trocados no álbum de figurinhas pessimamente acabado, ridiculamente impresso e grudado porcamente com uma tóxica cola escolar, minha irmã desfilava com os impecavelmente acabados, cuidadosamente impressos e minuciosamente colados (autocolantes), mas enfadonhos ‘Amar é...’ e ‘Bem Me Quer’. Era muita humilhação.




Por mais que eu desqualificasse os álbuns femininos, faltavam argumentos para defender um produto de estelionato que chamava... ‘Trá-lá-lá de Ouro’.
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🔵 Nocaute doméstico







Todo irmãozinho atormenta a vida dos mais velhos. E eu, como um irmão menor comum, cumpri o meu papel, enchi a paciência da minha irmã.




Não sei se o mais irritante era a minha voz infantil ou as “groselhas” que eu disse, também infantis, Eu, exercendo os meus direitos universais de criança, falei até ser neutralizado com um direto de direita. Confesso, fiz uma doação de sangue compulsória. Como a sala de minha casa não era um ambiente apropriado para o que poderia ser interpretado como um gesto altruísta, nem havia o recipiente adequado, o chão recebeu uma enxurrada de A .




Também tenho que admitir, chorei. A cena deve ter sido bem dramática: ajoelhado e chorando, espalhei o líquido vermelho na barra da calça da minha irmã, gastando o meu pequeno dicionário de impropérios.




No meu respeitoso cartel de combates, essa foi a única vez que alguém me deu um soco; pela educação, bem como os modos de minha irmã mais velha, acredito que essa deve ter sido a solitária oportunidade que ela “enfiou a mão na cara” de um outro ser humano. Se bem que eu não era dotado de tanta humanidade assim. Uma criança e uma adolescente pode ser uma combinação explosiva. E foi. Se alguém ali tivesse o mínimo de conhecimento jurídico, eu teria sido recolhido dali direto para a FEBEM (atual Fundação CASA). Porém, fui poupado de mais esta humilhação. 




Poderia durar apenas uns dias, entretanto demorou décadas para essa mágoa cicatrizar. Confesso aqui, toda vez que andei armado pensei em me vingar daquele direto de direita. Contudo, não o fiz. Achei que seria deprimente demais confessar o porquê do assassinato e, além de tudo, ser aprendido. Preferi esconder esse rancor, guardar a mágoa e manter o silêncio, acreditando que a outra parte adotaria igual comportamento. Sem testemunhas, botei fé que o ocorrido permaneceria guardado a 7 chaves e enterrado. No entanto, não foi isso o que aconteceu e desde então mantenho conspurcado o meu desempenho nos ringues amadores.




Sei que esse embaraçoso episódio foi vergonhoso o bastante para ser eternizado numa crônica, mas finalmente me livrei desse fardo. Agora eu me sinto bem mais leve. Já era tempo. Graças a Deus...
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🔵 Sai, capeta







Um sábado de noite. Uma pista de dança. Músicas com vozes guturais. Uma tribo urbana: os góticos. A casa noturna tinha um nome pouco convidativo: Morcegóvia, o figurino da galera dava credibilidade ao nome da casa. Entretanto, o nome anterior da lendária casa noturna era bem mais assustador: Madame Satã.




Frequentei algumas vezes o lugar, de modo que os góticos começaram a ficar mais parecidos com os humanos, e as garotas vestidas com roupas emulando o século XIX (Inglaterra Vitoriana), contrastando com meu “jeans” e camiseta, eram bem interessantes.




O som facilmente transportava para um estado alterado de consciência, e a atenção focada nas danças repetitivas geravam noção periférica restrita. O conjunto de estímulos facilmente levava muitos a um estado de transe. A farta oferta de álcool completava o serviço imundo. Pronto, um bando de jovens com os dois pés em outra dimensão e “abraçados” com entidades obsessoras. Nesse clima, iluminado apenas pela luz estroboscópica, tive a impressão de que o porão, que servia de pista de dança, estava mais frequentado do que meus olhos podiam enxergar.




Estava tudo armado para ocorrer o que de fato aconteceu. Uma moça linda, com um vestido preto e badulaques, entrou no centro do porão (pista) e iniciou alguns movimentos muito particulares. Ela era uma bruxinha moderna ou, no mínimo, uma praticante da religião neopagã   “Wicca”. Foi como se a bruxa caísse ajoelhada, se contorcendo no centro de um pentagrama cercado por velas. Os frequentadores da casa, como fiéis, idolatraram a moça convertida a uma divindade. Eu, entre eles, inocentemente poderia estar invocando forças ocultas. 




Ainda não cheguei à conclusão se aquilo foi um ritual pagão ou uma dança macabra, só sei que fui cooptado e, compulsoriamente, celebrei o que pode ter sido uma missa negra. Já não me surpreenderia se um sacerdote do Mal adentrasse o recinto carregando um cálice e servisse sangue humano. Se eu bebesse, fatalmente estaria entregue ao Reino das Sombras.




Um evento dá legitimidade ao ocorrido e corrobora a desconfiança de que aquilo não era mais uma pista de dança, e as forças presentes não eram positivas. Meu amigo usou esta história como “Testemunho” para se converter para uma igreja evangélica.




Definitivamente, esta não foi uma noite de sábado qualquer, e aprendi a não seguir qualquer canto de sereia.









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⚫️ Emojis ou emoticons







Não, ninguém deve ficar contente ou triste, ou melhor, dotado de ataraxia, não deve reagir ao receber o aparentemente inofensivo “emoji” Os emojis tem a nobre função de simplificar um pensamento. Com uma, quase infantil, imagem, o emissor exerce seu poder de concisão, desde a ofensa até o elogio. 




O emoji do cocô, ao qual me refiro, cumpre esta função, mas vai além; ofende, carregando o eufemismo patente ao exibir olhos e boca amigáveis. Quem envia a figura revela, ao mesmo tempo, covardia de enfiar a mão na cara e a intenção de rejeitar a pessoa ou o que ela diz.




Às vezes, a pessoa não tem o menor traquejo para zombar de outro ser vivo. Porém, essa criatura, que sempre foi vista como alguém incapaz de pisar numa formiguinha, destrói uma vida apenas com um desenho simples.




Seja para depreciação, seja para elogio, o envio da figurinha resolve dois problemas: o primeiro, dá coragem para ofender qualquer um e segurança, ao evitar o tapa imediato; o segundo, também traz a súbita coragem, entretanto, impossibilita um rápido “feedback”.




Em tempos de Rivotril, Dormonid, Diazepan e demais remédios “tarja preta”, bem como os tratamentos infantis, tentam aplacar o estrago que um emoji pode causar.




Entretanto, existe a ‘carinha feliz’ para salvar tudo. Esta outra figurinha traz consigo o poder de salvar o dia ou a vida de uma pessoa. Se “like” ou “deslike” tem o poder de liberar neurotransmissores responsáveis pelo prazer, os emojis “do bem”, dependendo de quem envia, exercem um resultado muito mais satisfatório.




A existência era mais simples com os emoticons. Bastavam alguns caracteres para gritar para o mundo o seu estado de espírito: alegre :-) e triste :-( . Havia outras modalidades, mas essas, apesar da tosquice extrema, não elevavam a baixa autoestima de ninguém.




Esta filosofia de boteco é um exercício sobre algo não levado a sério, até ignorado, mas que revela muito da alma humana. Muito parecido com o que já representaram os ‘bichinhos virtuais’ (Tamagochi) e os ‘caçadores de Pokemons’
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