O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Fora o excelente repertório, o que se vê hoje é o que restou da banda de rock Guns n’ Roses. Em 1992, a banda californiana estava no auge. E foi nessa época que fui a um show deles no Anhembi.
O show foi ótimo e turbulento, como previsto. Previsto porque o temperamento do vocalista, Axl Rose, era sujeito a chuvas e trovoadas. De fato, o repertório foi executado para agradar aos fãs, apesar das interrupções e xingamentos. Provavelmente, os organizadores tiveram sua correria de praxe para atender pedidos extravagantes, exóticos, estapafúrdios ou excêntricos: flores, comidas, decoração ou as icônicas toalhas brancas. Também devem ter agido como as grandes bandas de rock: quebrado quartos de hotel e esvaziando extintores.
A volta para casa revelou a realidade dos fãs de rock e, mais especificamente, dessa banda. O show foi espetacular, e o Guns arrebentou, mas demorei a compreender o que me pareceu somente falta de amor próprio. Presenciando aquele cenário, apesar dos meus irresponsáveis 17 anos de idade, comecei a cultivar uma certa desesperança na Humanidade.
As cercanias do local do show estavam povoadas de gente jogada nas sarjetas e calçadas. O meio-fio virou um “fast-food” para doidões à procura de fragmentos de estupefacientes suficientes para aplacar a abstinência. Os que pareciam melhores revelavam seu bom estado caçando bitucas de cigarros e restos de cerveja em latas colhidas no chão. Essa impressão é só um recorte da decrépita cena. Tudo lembrava um apocalipse zumbi ou, na mais generosa conclusão, um salve-se quem puder. Vendo aquilo tudo com muito boa vontade e inclusive a empatia de quem assistiu o que aconteceu dentro do estacionamento do Anhembi, entendi a dificuldade em voltar para a realidade.
Contudo, estávamos na Zona Norte de São Paulo, o caótico e histórico show havia terminado, então cada um teria que retornar à sua vida, muitas vezes, suburbana e/ou sub-humana. Pensando nisso, era até compreensível que muitos se recusassem a esperar um ônibus e recorressem aos restos de nada.
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🔵 Um pênalti perdido é para a vida toda
Mochila com “short” de nadar, toalha, tênis de futebol, bomba de ar e algumas ferramentas. Com esta configuração, bastava subir na bicicleta Caloi Extra-nylon e desafiar motos, carros, caminhões e ônibus para chegar ao Esporte Clube Vila Galvão. O “Vila” ficava em Guarulhos e durante um tempo foi minha segunda casa. Mesmo assim era sempre um pouco mais seguro prender a “bike” enrolando uma corrente e fechando um cadeado.
Até hoje, me persegue um pênalti que desperdicei no campo do “Vila”. Um penal perdido nunca será esquecido. Por isso, apesar da pouca relevância do desperdício, carrego a maldita imagem do goleiro defendendo uma simples bola. Pouco importava a relativamente eficiente execução de várias modalidades esportivas de quadra, campo e salão de jogos. Até jogo “dos véio” eu me arrisquei, como é o caso da “bocha” (esporte dos octogenários da colônia italiana). Pois é, gols, golaços, dribles e campeonatos conquistados, nada supera a lembrança desse maldito pênalti.
1985, Bangu e Coritiba disputaram o título brasileiro daquele ano. Por causa de um pênalti perdido o ex-jogador Ado do Bangu chora como criança sempre que dá entrevista lembrando daquilo. Tornou-se uma tragédia eterna e um fantasma a persegui-lo. Apesar de muito bom jogador, não conseguiu conquistar o maior campeonato da equipe do estádio de Moça Bonita.
Certa vez, voltando do clube, acostumado com o trajeto, correndo “que nem louco” de bicicleta (como sempre), apesar das condições temerárias, realizei uma estupidez digna de “videocassetada”: Acostumado a andar sem freio, parando a geringonça metendo o pé no pneu, meu pé enroscou no garfo. Assim, dei um “duplo twist carpado” e, com esta incrível manobra, involuntariamente extraí um dente. Realmente, para quem presenciou o “salto”, deve ter sido um espetáculo de encher os olhos, digno do “Cirque du Soleil”.
Tive que conviver com os doloridos resultados da original e abrupta interrupção do pedalar. Como desisti do eficaz, mas dolorido, método de extração, nunca mais executei a intervenção improvisada.
Um pênalti perdido jamais será encontrado; esse dente perdido, embora facilmente encontrado, fez com que eu achasse um método mais apropriado para frear a bicicleta em casos de emergência.
31
🔵 A fuga
Liguei o carro e saí cantando os pneus. Nunca me esquecerei daquele 7 de julho de 1998. Sem sequer olhar para os lados e às vezes conferindo o retrovisor, reparei que as ruas estavam vazias e as lojas, fechadas. Acelerava fundo, exigindo mais do que aquele “golzinho quadrado” podia oferecer. Nesse ritmo, entrava em pequenas ruas, grandes avenidas, rotatórias, lombadas e intermináveis faróis. Eu até arrisquei, às vezes, a perigosíssima “roleta paulista” porque a cidade estava deserta, apesar de ser terça-feira. De vez em quando, alguns estrondos, ora próximo, ora longe, aumentavam minha ansiedade.
Enfim, cheguei a tempo de assistir à semifinal da Copa do Mundo de 1998 de futebol. Aquele Brasil e Holanda era o pano de fundo perfeito para fazer um pacote de tolices: sair do trabalho mais cedo, gritar palavrões, xingar, beber e, em caso de vitória, dirigir como um maluco bêbado. Nesses dias, fingimos que o Brasil ainda é o “País do Futebol” e que o próximo jogo é a coisa mais importante do mundo. A vida dos integrantes de torcida organizada finalmente parecia ter lógica! O mais sinistro é que o mulherio também entra nessa “vibe”, talvez como uma concessão a essa infantilidade masculina. Aí é um tal de: dá de bico que o jogo é de taça, pra cima deles e vaaaii, Brasil. Quando sai um gol, não há coronavírus que impeça um abraço, tampouco uma aglomeração.
O difícil êxito nos pênaltis gerou maior confiança em alguém que sugeriu a estupidez de saírmos para comemorar. Estávamos bêbados e felizes, achando a ideia genial e providenciando a insanidade “juvenil”. Entupimos o automóvel com 8 pessoas e fomos desfilar naquela “Marquês de Sapucaí” do Fim do Mundo.
Aquilo era uma experiência antropológica. Vendo as pessoas comemorando nos carros, nas ruas, praças, casas e bares exacerbou a minha alegria de plástico. Eu realmente gostaria que aquela euforia fosse porque o PIB fechou com dois dígitos, o índice Bovespa bateu em 200 mil pontos ou fôssemos os primeiros em IDH... De repente, uma buzina interrompeu meu devaneio e voltei a gritar: Brasil! Braaasssiiilll!
No centro da cidade, a bexiga me lembrou que a cerveja é diurética. Até que aguentei bastante, deu tempo de uns “brasilinos” obstruírem minha visão com bandeiras no para-brisa e gritos ensandecidos. Quando não aguentava mais, saí do carro para urinar. Foi como levantar uma telha cheia de baratas. A espera por um banheiro era coletiva, porque, quando eu saí, saíram outros, cada um em uma direção, correndo meio curvado. Não teve jeito, uma das principais ruas do centro de Guarulhos me ajudou sem importar o endereço profanado. Descobri que havia chegado ao fundo do poço quando um motorista de ônibus anunciou o meu ato.
Eu havia ido longe demais, aquilo era o suficiente. Uma voz sensata e, claro, feminina sugeriu sensatamente: vamos embora. Todos concordaram. O meu parâmetro é quando começo a me sentir um estrangeiro em meu próprio país.
Nos outros dias: trabalho, boletos e, de vez em quando, uma cervejinha. Mas a “Pátria de Chuteiras” só durante o jogo.
25
🔴 O homem de plástico
João Doria desistiu de ser presidente. E eu desisti de namorar a modelo israelense Yael Shelbia Cohen. Sei que é crueldade deixar a menina chorando, mas, além de possuir um nome impronunciável, a garota mora longe.
Voltando ao Doria, o cara é tão vaidoso que transformou sua despedida num espetáculo lamentável com dois capítulos. Acontece que o ex-governador não abdicou de concorrer à Presidência, o povo, já havia muito tempo, tinha desistido dele. O homem de plástico ainda tentou sinalizar que a decisão era sua, mas não colou.
Doria conspirou contra o governo federal, aumentou impostos, quis fazer uma propaganda com a vacina, adotou medidas insanas sanitárias, fingiu que se mascarava e trancou tudo. Comprometeu o estado de São Paulo, levando adiante uma rixa pessoal; quem levou a pior foi o paulista, que sentiu o alívio provocado por sua saída prematura. O morador dos Jardins fez o estrago e saiu fora.
Agora, João Doria poderá frequentar restaurantes estrelados e dar seus pulos no ‘Copacabana Palace’ e em Miami sem ser importunado. Se quiser, só será obrigado a encontrar alguém da plebe, quando esbarrar com algum dos seus empregados: aí basta cumprimentar com um meneio de cabeça ou, no máximo, perguntar se “esse ano o Curintia vai?”. Sem essa de comer pastel.
Doria sai da política para ser apenas um triste retrato no Palácio dos Bandeirantes, lembrando um mandato incompleto de poucas realizações. Lembrando que a Prefeitura também recebeu uma gestão inconclusa. Sabendo que Doria usava seus cargos como trampolins, o que viria após a Presidência? A ONU?
O ex-postulante a postulante ao Palácio do Planalto foi protagonista de um dos episódios mais abjetos da política brasileira: o Impagável Bolsodoria. O que parece o nome de um super-herói atrapalhado, é a tentativa desesperada de Doria derrotar Márcio França, seu concorrente ao governo paulista. Depois da bajulação explícita, numa outra atitude desastrada, ele abandonou Bolsonaro. Deixou de ser Bolsodoria, tornou-se Calça-apedada.
João Doria deixa a vida pública para voltar para a privada.
77
🔴 Os meninos de Lula
Não é novidade, mas o “sincericídio” não era esperado. Luiz Inácio Lula da Silva, sem economizar o curto vocabulário, propõe tudo o que queremos longe. Ele defende o roubo de celular para quem sente vontade de tomar uma cervejinha, mas não tem condições financeiras. O chefe confessou que “adiantou o lado de sequestradores internacionais.
Lula emprega eufemismos muito simpáticos aos ouvidos, para, digamos, amaciar a periculosidade e retirar a gravidade da declaração. Ele amenizou o roubo (muitas vezes, um latrocínio), trocando a palavra “cerveja” pela inofensiva “cervejinha”; e chamou sequestradores de “meninos”; e denominou sequestro como “erro”.
O candidato à Presidência da República promete, digo, ameaça botar em prática tudo o que é a receita perfeita para destruir um país. Talvez seja a tática do “não digam que eu não avisei”. Desfazer e interromper privatizações, revogar a Reforma Trabalhista, acionar o Movimento Sem Terra (MST) e Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) etc são algumas das ameaças do petista.
Recolocar no comando um cara com essa vontade de destruição, raiva e rancor só pode ser explicado como “Síndrome de Estocolmo”, na qual a vítima se afeiçoa pelo seu algoz. Se alguém ainda duvida do mal que o Lula fez, é só lembrar do intenso trânsito de dinheiro em caixas, cueca e malas que o seu governo protagonizou. É fácil notar quem sente saudade desses tempos e sabe quem pode trazer esse estado de coisas de volta. A resistência para que não haja transparência nas eleições, o silêncio de grande parte da imprensa e movimentos sabotadores evidenciam a abstinência de setores.
Apesar dos avisos, o sujeito admite quais são seus planos de governo, o que virá numa eventual vitória deve ser terrível. Isso não merece nem ser chamado de plano de governo. O que mais parece uma patente ameaça, pode ser chamado de plano macabro. A coisa é tão evidente que muitos estão achando que ele não quer ser candidato ou enlouqueceu.
O Brasil é a fundamental peça que falta para implementar o “Plano Bolivariano” na América do Sul — quem ainda duvida disso, na internet tem vasto material. Basta procurar por “Foro de São Paulo”.
O petista deve estar frustrando as estratégias que o marqueteiro tinha para edulcorá-lo, mas dessa vez vai ser sem “Lulinha paz e amor”. Quem quiser, terá que aceitar o Lula ladrão, escroto e mal educado. E tem quem queira.
40
🔵 Fábrica de sucessos e Galeria do Rock
Minha internet, através do YouTube, voltou a disparar propagandas. Nesse novo lote, vieram coisas muito desagradáveis, como, por exemplo: videoclipes odiosos. Apesar de não gostar das músicas, por impossibilidade de interromper a exibição, devo computar mais uma execução da faixa.
Atualmente, é dessas audiências involuntárias que se faz um sucesso. Por pior que seja a canção, pode acumular reproduções acidentais. Numa saída ao banheiro, indo à cozinha ou simplesmente porque ficou impossibilitado de “pular” o vídeo compulsório, você enganosamente será registrado como fã daquilo.
O que também induz ao erro, é quando você clica num clipe para “ver com seus próprios olhos” o quanto aquilo é ridículo. Não importa, para a gravadora e/ou empresário aquela atitude contará como um “view”, e cada “view” conduz qualquer coisa ao sucesso. Parabéns, você é um novo fã.
Uma dancinha ridícula no ‘TikTok’, uma coreografia da moda depois de um gol ou um cantor inacreditável de tão ruim estimulam muitos “views”, parecendo que temos um novo artista.
Antes, um verdadeiro artista tinha que ter mais consistência, e quem gostava de sua música ía até a loja comprar o LP ou CD.
É nesse contexto que aparece a ‘Galeria do Rock’. MPB, mas muito rock, lá era o shopping center dos excluídos da sociedade. LP’s, CD,s, camisetas, pôsteres, acessórios e bares com cerveja barata, sujeitos mal encarados e pessoas nada amigáveis, misturados com caras simples à procura de um “lançamento” ou fazendo um “esquenta” antes de um show.
Headbangers, skinheads, punks, góticos e pessoas que não se identificavam com nenhuma tribo urbana misturavam-se a essa fauna nem sempre amistosa. Os únicos aspectos comuns eram o gosto pelo rock (diferentes gêneros) e o figurino preto.
Quando fui conhecer o lendário local, ainda criança, tive a impressão de estar no filme ‘Warriors — Os selvagens da noite’. Naqueles tempos isso foi meio assustador, mas a animosidade entre gangues, com o tempo, arrefeceu. Entretanto, o visual escuro permaneceu.
***
A última vez que estive na ‘Galeria do Rock’ tive certeza de que ela nem sequer merecia mais o nome que a consagrou. Pelo colorido das lojas e o tipo de produto à venda atrai um público mais, digamos, “moderninho”. Por essas e outras, a galeria se tornou um shopping “descolado” e, pelo ramo e frequência, poderia estar localizado na rua Oscar Freire.
35
🔵 Tudo resolvido na bala
Não havia outra opção, as diferenças seriam resolvidas num duelo justo. Essa maneira de acertar uma desavença já estava fora de época. Contudo, a influência dos filmes de “faroeste”, mais precisamente do Bang Bang à Italiana (Western Spaghetti), tornou praticamente inevitável o triste desfecho. Não tínhamos alternativa, as coisas teriam que ser desse jeito horrível.
Depois de contados os passos, eu e meu irmão viramos, revólver fazendo mira..., PÁ PÁ. Os estampidos das espoletas, o cheiro de pólvora e o ritual mimetizado dos filmes, emprestaram dramaticidade à nova brincadeira. Porém, a encenação acabou por aí. Nenhum dos pirralhos admitia tombar. Mesmo depois dos tiros, não houve baixa. Ser derrubado no duelo, ainda que simulado, era humilhante demais. Os novos revólveres de espoleta estavam unanimemente aprovados, aposentando definitivamente a pistolinha d’água. Não bastasse o objeto politicamente incorreto, ainda teria um Forte Apache para brincar de genocídio indígena.
Nos anos 80 as brincadeiras mais leves eram assim. O politicamente correto não seria sequer compreendido, por analfabetismo ou por incompreensão do conceito da expressão. Trabalho infantil, surra correcional, “brincadeira de mão” e guerrinha com pedra, o que hoje é visto com espanto, nessa época, era socialmente aceitável. Armas, mesmo que “de brinquedo”, seriam, ainda que num duelo pueril, vistas sem assombro. Detalhe importante: as armas infantis não vinham com identificação, o que habilitava o brinquedo (simulacro) a ser empregado num assalto a banco ou outra atividade criminosa.
Atualmente, esse tipo de brinquedo e, consequentemente, a modalidade de brincadeira seriam prontamente reprovados. Meu pai, certamente, seria cancelado e chamado de “macho tóxico”, e a diversão considerada “hétero normativa”.
Tratando-se de outros tempos, meu pai, provavelmente, viu naqueles revólveres o que realmente eram: ao invés de instrumentos para ceifar vidas, peças de divertimento que disparavam tiros de festim, menos realistas que os de John Wayne ou Giuliano Gemma.
Nós, inocentemente, nos inspirávamos em Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Terence Hill, Franco Nero ou quase tudo do “Bang Bang à Italiana”.
Hoje, contando com a boa vontade do Ministério Público, teríamos acesso à “Bazuquinha D’água do Gugu”.
81
🔵 Baixo Augusta, fundo do poço
Eu realmente não sabia que aquela região (da Rua Augusta) era conhecida como Baixo Augusta. Isso dá a impressão que aquela “quebrada” pertencia a uma espécie de grupo ou “tribo”. A gente só queria fazer um “esquenta” para ir na “Fun House”, porém os “piercings” estrategicamente exibidos, as tatuagens bacaninhas e os cabelos coloridos davam exatamente a impressão de estarmos invadindo um espaço hostil pertencente a uma tribo pouco amigável.
A “Fun House” foi um templo do “rock indie”. Funcionava numa residência da rua Bela Cintra. Foi lá que eu determinei o fim das baladas daquele tipo. Do alto dos meus 32 anos, parei e observei aquela “criançada” na casa dos vinte e poucos anos de idade. Era triste admitir, havia chegado o final de uma “belle époque” particular: me senti o “tiozão” da festa.
Voltando à rua Augusta, foi lá que fomos submetidos a um enquadro “monstro”. Encontramos um barzinho legal: rock, bilhar e cerveja gelada, porém uma frequência “alternativa”. Como o “esquenta” seria rápido, entramos e nos diluímos na “festa estranha com gente esquisita”. Tudo estaria sob controle, se ali não fosse um ponto “manjado” pela polícia.
Como numa pesca de arrasto, fomos capturados como uma fauna acompanhante. Entre náufragos, traficantes e degredados, fomos convidados a compor uma gigante fila (em posição de revista). Após breve conversa (e tirocínio), um policial sabia que não pertencíamos àquela realidade, então fomos dispensados da “geral”
Num outro sábado a noite, no “prafrentex” Baixo Augusta, numa atitude quase masoquista, fomos beber cerveja barata. Masoquista porque não havia como negar: destoávamos daquela multidão “tchaptchura” (moderninha) e sentirmo-nos “tiozões na balada”.
Olhando para cima, naquele bar do enquadro histórico, vários jovens (em posição de revista) aguardavam a procura minuciosa de entorpecentes. Realmente, eu recebera o sinal dos lugares que deveriam ser evitados. Desses lugares, o Baixo Augusta era o fundo do poço.
71
🔵 O mundo estranho de Jacko
Era meio constrangedor dizer aos meus amigos roqueiros que eu iria ao show do Michael Jackson. Tudo bem, o Jacko é bem estranho: possui um zoológico e um parque de diversões em sua residência, mantém hábitos estranhos, cultiva amizades infantis e é acusado de ter cometido alguns crimes. Entretanto o cara é talentoso e é o ídolo da minha infância. Afinal, eu ía à apresentação do “Rei do Pop” ou do sujeito esquisito?
1993, Estádio do Morumbi, marquei de encontrar minhas amigas no “gol” oposto ao palco. Só depois notei que a minha ideia foi insana. Como a administração retira as traves do campo, seria impossível executar o meu plano. Pronto, agora a “Dangerous World Tour” acabaria com a minha “gincana”. Talvez encontrasse as traves jogadas em algum depósito poeirento do Morumbi. Somente nas minhas expectativas o “gol” estaria em campo.
Espetáculo fantástico, inesquecível, porém não é o cerne desta crônica. Entretanto, era a hora do, talvez impossível, encontro.
No fim do espetáculo, dirigi-me ao tal ponto de encontro. Para minha surpresa e alívio, o “gol” não havia sido retirado. Escalei a trave e aguardei sentado no travessão. Por alguns minutos, o tempo parou e parecia não existir mais nada. Imaginei a perspectiva que sempre tive, daquela trave, da arquibancada. De repente eu estava lá “onde a coruja faz o ninho”. Vendo as pessoas saindo. Do alto, eu me senti soberano no Estádio do Morumbi. Só voltei à realidade quando avistei as minhas amigas. Quando elas atingiram a meta (em ambos os sentidos), saltei do objeto que eu sempre vi como o objetivo do Corinthians e da seleção brasileira.
Em 2009, Michael Jackson não aguentou, depois de tantos acontecimentos e perseguições, sucumbiu. Após sua morte, aquele show ganhou mais ainda ares de exclusividade e evento que ficou perdido no tempo.
Ainda, o assunto divide opiniões. É farto o número de material do louco e do artista. Até hoje não sei se fui ao show de um doente mental ou de um gênio. Talvez os dois!
83
🔴 Pequeno ensaio sobre o preconceito
Preconceito não é nada mais que um pré-conceito. Essa palavrinha, de cara, revela um preconceito de quem procura defeito em tudo. Os chamados “haters” acordam aguardando a oportunidade de apontar para alguém e tachá-lo de racista, misógino, homofóbico, preconceituoso etc. A apoteose dessas manifestações de vida é quando chega o esperado: alguém que se possa encaixar a ofensa do dia. Eis o viés de confirmação, o importante não é se a quem se atribui o defeito do dia (ou da moda) tenha o defeito. Se alguém estiver testemunhando, melhor, pois é assim que se sinaliza virtude. Conhecidos popularmente pelo estrangeirismo “haters”, eles vagam lá pelo “Twitter”, mas de vez em quando se perdem e vão amolar “em mares nunca d’antes navegados”.
É patético este modo de viver, entretanto isso existe e sempre está rondando, esperando qualquer tropeço para distribuir seus rótulos ofensivos. Se já é difícil atribuir algum preconceito a alguém ao lado, imagine cometer este crime lendo um pequeno texto, sem conhecer o seu autor.
Não sei se não estou atento ou se sou inocente demais, mas nunca identifiquei um nazista ou um fascista, a não ser pela TV. Mesmo assim, foram os dois maiores estereótipos: Hitler e Mussolini, respectivamente. Essa desatenção talvez seja resultado dos meus parcos conhecimentos de História. Tenho, insisto, dificuldades em reconhecer um preconceituoso. E realmente acredito que é bem melhor viver assim, sem procurar defeitos nos outros.
Em política, se alguém pensa diferente de mim, azar do político. Dispenso o candidato, o partido e a ideologia e continuo a amizade. Com futebol, a “zoeira” prevalece. Como corintiano, sempre vou lembrar que o Palmeiras não tem título mundial. Permanecendo no campo da brincadeira, isso jamais pode estragar uma amizade.
Denegrir, criado-mudo, lista negra e até “Black Friday,”, termos considerados preconceituosos devem ser evitados, senão você, por usar a palavrinha inadequada ganha o carimbo de preconceituoso. As palavras que citei têm, como muitas outras, etimologia ligada ao racismo simplesmente inventada. A repetição tornou essa balela “verdade”. O argumento é, por vezes, deliberadamente falso para alimentar a necessidade de apontar o dedo.
Esta talvez seja a atitude menos eficaz de combater o preconceito. Ficar policiando as palavras utilizadas não ajuda minoria excluída, pelo contrário, pode causar uma certa antipatia. Quando há banalização destes termos, os reais preconceituosos se diluem na multidão.