O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Colegas orelhudos, narigudos, “zóiudos”, baixinhos, magrelos, gordos e branquelos. Sobrenomes árabes, judeus e de várias outras origens. Tudo isso, em vez de gritar a diversidade étnica e cultural da sala de aula, era motivo para “zoação” ou “bullying”, como dizem há alguns anos. Afinal, eram todos brasileiros, alguns mais estranhos.
Nos anos 80, a “década perdida”, a hiperinflação desembocava um lote de “filhinhos de papai” oriundos de colégios particulares. Quando esse fenômeno financeiro acontecia, a classe média alta cortava o inglês, o balé, as aulas de música e, no desespero, as “escolas de ricos”. Era aí que tínhamos contato com produtos importados do Paraguai — tempos de “reserva de mercado”.
Como índios, éramos apresentados a relógios G-shock, réguas com calculadora, caneta de 20 cores, tênis Forward (“Faroait”), calça da OP e outras bugigangas. A turminha nascida em berço de ouro, por outro lado, tinha a oportunidade de conhecer a merenda escolar da Prefeitura, a quadra de cimento e sem cobertura, o futebol com bola de papel e a total falta de perspectiva com a Humanidade.
Esse choque cultural causava um certo estranhamento antropológico e um automático e defensivo distanciamento, entretanto, o comportamento antissocial prevalecia. Os neófitos se condicionavam ao comportamento predominante e acostumado a sobrevivência com baixíssimo orçamento. No fim, parecia até mais divertido estudar enquanto digeria a merenda escolar, chutava canelas fingindo mirar um simulacro de bola de futebol e entrava na sala de aula sujo e sangrando.
O estilo de vida, por assim dizer, alternativo era “draconianamente” oferecido em troca de boas notas e o uso de alguns materiais importados do Paraguai. Onde eu estudava, quem se desse bem poderia sobreviver em qualquer presídio de segurança máxima.
Depois, eu soube que as turmas eram separadas por letras: A, B, C, D e E. O fato de eu “cair” quase sempre na turma C explica muito minha classe social e meu interesse por estudos, na época. Os alunos que vinham de colégios nobres também não deviam ter um histórico escolar muito bom. O que igualava todos, eram os efeitos da hiperinflação.
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🔵 Eu já comprei pão
Em cidades interioranas tudo é mais corriqueiro, mais comum, mais tranquilo. Pelo menos era essa imagem que eu tinha. Talvez essa fosse uma visão arquetípica, idealizada, confrontando o dia a dia impessoal do corre-corre da metrópole paulista. Acredito que até tenha sido assim há muito tempo, antes da globalização cultural.
Mas com essa ideia — inocência minha —, agi da maneira que minhas elucubrações fabricaram. Sim, um preconceito romântico, mas honesto. Andando pelas ruas estreitas de uma cidadezinha, vendo minha irmã no outro carro a caminho do que poderia ser a padaria, temi que ela pudesse comprar o café da tarde em duplicidade — acredite, essa era uma das mais preocupantes ocorrências que poderia alterar ou interromper o sossego da cidade.
O fato: dirigindo, nada discreto, coloquei meio corpo para fora do carro e gritei: “EU JÁ COMPREI PÃO. Creio que o recado foi recebido — como uma bomba atômica ou a explosão de uma usina nuclear — por quem se encontrava num raio de uns 300 metros. Apesar do aviso escandaloso, suplantando o susto, acho que a mensagem foi escutada e compreendida.
Tímido, em quaisquer momentos da minha vida, jamais teria agido daquela maneira, mas, equivocadamente, supus que ali aquilo seria normal. Com o desprendimento demonstrado, sacando que exagerei na manifestação, torci para que o ensurdecedor recado passasse despercebido, a não ser pelo alvo. Impossível. Fechei os vidros, abaixei e fui embora.
Toda a vergonha, todo o ônus da tresloucada atitude, parecendo urgente, ficaria para minha irmã que conhecia todo mundo; não para mim, um desconhecido forasteiro.
Quando percebi que nunca deveria ter sentido vergonha pela desequilibrada atitude, inclusive ri da situação e dos comentários dos conhecidos que minha irmã provavelmente ouviria. No máximo ela deve ter se “desculpado” com essa: meu irmão apenas exibiu seus péssimos modos guarulhenses de convivência.
Decidi que nunca mais lançaria mão de inconveniente ou semelhante atitude, apesar de ser bom rir de si mesmo por ridículas e inofensivas atitudes.
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🔵 Um pênalti perdido é para a vida toda
Mochila com “short” de nadar, toalha, tênis de futebol, bomba de ar e algumas ferramentas. Com esta configuração, bastava subir na bicicleta Caloi Extra-nylon e desafiar motos, carros, caminhões e ônibus para chegar ao Esporte Clube Vila Galvão. O “Vila” ficava em Guarulhos e durante um tempo foi minha segunda casa. Mesmo assim era sempre um pouco mais seguro prender a “bike” enrolando uma corrente e fechando um cadeado.
Até hoje, me persegue um pênalti que desperdicei no campo do “Vila”. Um penal perdido nunca será esquecido. Por isso, apesar da pouca relevância do desperdício, carrego a maldita imagem do goleiro defendendo uma simples bola. Pouco importava a relativamente eficiente execução de várias modalidades esportivas de quadra, campo e salão de jogos. Até jogo “dos véio” eu me arrisquei, como é o caso da “bocha” (esporte dos octogenários da colônia italiana). Pois é, gols, golaços, dribles e campeonatos conquistados, nada supera a lembrança desse maldito pênalti.
1985, Bangu e Coritiba disputaram o título brasileiro daquele ano. Por causa de um pênalti perdido o ex-jogador Ado do Bangu chora como criança sempre que dá entrevista lembrando daquilo. Tornou-se uma tragédia eterna e um fantasma a persegui-lo. Apesar de muito bom jogador, não conseguiu conquistar o maior campeonato da equipe do estádio de Moça Bonita.
Certa vez, voltando do clube, acostumado com o trajeto, correndo “que nem louco” de bicicleta (como sempre), apesar das condições temerárias, realizei uma estupidez digna de “videocassetada”: Acostumado a andar sem freio, parando a geringonça metendo o pé no pneu, meu pé enroscou no garfo. Assim, dei um “duplo twist carpado” e, com esta incrível manobra, involuntariamente extraí um dente. Realmente, para quem presenciou o “salto”, deve ter sido um espetáculo de encher os olhos, digno do “Cirque du Soleil”.
Tive que conviver com os doloridos resultados da original e abrupta interrupção do pedalar. Como desisti do eficaz, mas dolorido, método de extração, nunca mais executei a intervenção improvisada.
Um pênalti perdido jamais será encontrado; esse dente perdido, embora facilmente encontrado, fez com que eu achasse um método mais apropriado para frear a bicicleta em casos de emergência.
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🔵 Uma reflexão tão vasta quanto um oceano, mas tão profunda quanto um pires
Sei que dizer que assistiu ao filme ‘Titanic’ no cinema soa igual a assumir que assistiu ‘E o vento levou...’. Porém, os ingressos e as filas quilométricas transformaram uma simples ida ao cinema numa epopeia.
O ano era 1997, século XX, milênio passado (essa nomenclatura dá mais antiguidade ao passeio). Minha namorada queria muito assistir ao filme no qual todos falavam. Confesso que fui vítima da curiosidade, então queria ver na telona o naufrágio mais famoso do mundo.
Passavam os dias, e as sessões estavam todas esgotadas. A frustração crescia à medida que encontrávamos as bilheterias com ingressos esgotados. Conclusão: como já era questão de honra encontrar assentos na sala escura para ver à fita que estava na boca do povo e testemunhar a história de um barco que todos sabem que afundou, resolvi levar minha namorada nem que fosse num cineminha itinerante. Tamanho sacrifício não foi preciso. Depois de deparar com várias salas de cinema convertidas em templos religiosos, foi indo a uma praça de alimentação, num shopping de lojas de móveis, que encontrei e comprei bilhetes para a sessão da meia-noite. Entretanto, isso não significava o fim do périplo.
Chegando ali, a sensação era muito boa em todos os sentidos: a experiência inédita de atravessar um “shopping center” vazio e a iminência de ver ao tão esperado filme. No entanto, eu já havia me esquecido que o tamanho da fila certamente seria proporcional à disputa pelas entradas. A enorme concentração de ansiosos expectadores surpreendeu, pois, ainda haveria várias exibições até chegar a da aguardada meia-noite.
A anedota do momento era correr a fila gritando o suposto “spoiler” do longa-metragem. Então, de vez em quando, passava um chato informando à fila de que o Titanic naufragava.
O Titanic foi a pique, as Torres Gêmeas foram derrubadas, uma pandemia varreu o mundo e há uma guerra entre Rússia e Ucrânia. O mais trágico, Kate Winslet faz papéis de mulher madura, Leonardo DiCaprio é um chato ambientalista e eu não atravesso mais a cidade procurando entradas de cinema. O tempo passou...
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🔵 A fuga
Liguei o carro e saí cantando os pneus. Nunca me esquecerei daquele 7 de julho de 1998. Sem sequer olhar para os lados e às vezes conferindo o retrovisor, reparei que as ruas estavam vazias e as lojas, fechadas. Acelerava fundo, exigindo mais do que aquele “golzinho quadrado” podia oferecer. Nesse ritmo, entrava em pequenas ruas, grandes avenidas, rotatórias, lombadas e intermináveis faróis. Eu até arrisquei, às vezes, a perigosíssima “roleta paulista” porque a cidade estava deserta, apesar de ser terça-feira. De vez em quando, alguns estrondos, ora próximo, ora longe, aumentavam minha ansiedade.
Enfim, cheguei a tempo de assistir à semifinal da Copa do Mundo de 1998 de futebol. Aquele Brasil e Holanda era o pano de fundo perfeito para fazer um pacote de tolices: sair do trabalho mais cedo, gritar palavrões, xingar, beber e, em caso de vitória, dirigir como um maluco bêbado. Nesses dias, fingimos que o Brasil ainda é o “País do Futebol” e que o próximo jogo é a coisa mais importante do mundo. A vida dos integrantes de torcida organizada finalmente parecia ter lógica! O mais sinistro é que o mulherio também entra nessa “vibe”, talvez como uma concessão a essa infantilidade masculina. Aí é um tal de: dá de bico que o jogo é de taça, pra cima deles e vaaaii, Brasil. Quando sai um gol, não há coronavírus que impeça um abraço, tampouco uma aglomeração.
O difícil êxito nos pênaltis gerou maior confiança em alguém que sugeriu a estupidez de saírmos para comemorar. Estávamos bêbados e felizes, achando a ideia genial e providenciando a insanidade “juvenil”. Entupimos o automóvel com 8 pessoas e fomos desfilar naquela “Marquês de Sapucaí” do Fim do Mundo.
Aquilo era uma experiência antropológica. Vendo as pessoas comemorando nos carros, nas ruas, praças, casas e bares exacerbou a minha alegria de plástico. Eu realmente gostaria que aquela euforia fosse porque o PIB fechou com dois dígitos, o índice Bovespa bateu em 200 mil pontos ou fôssemos os primeiros em IDH... De repente, uma buzina interrompeu meu devaneio e voltei a gritar: Brasil! Braaasssiiilll!
No centro da cidade, a bexiga me lembrou que a cerveja é diurética. Até que aguentei bastante, deu tempo de uns “brasilinos” obstruírem minha visão com bandeiras no para-brisa e gritos ensandecidos. Quando não aguentava mais, saí do carro para urinar. Foi como levantar uma telha cheia de baratas. A espera por um banheiro era coletiva, porque, quando eu saí, saíram outros, cada um em uma direção, correndo meio curvado. Não teve jeito, uma das principais ruas do centro de Guarulhos me ajudou sem importar o endereço profanado. Descobri que havia chegado ao fundo do poço quando um motorista de ônibus anunciou o meu ato.
Eu havia ido longe demais, aquilo era o suficiente. Uma voz sensata e, claro, feminina sugeriu sensatamente: vamos embora. Todos concordaram. O meu parâmetro é quando começo a me sentir um estrangeiro em meu próprio país.
Nos outros dias: trabalho, boletos e, de vez em quando, uma cervejinha. Mas a “Pátria de Chuteiras” só durante o jogo.
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🔵 O mundo estranho de Jacko
Era meio constrangedor dizer aos meus amigos roqueiros que eu iria ao show do Michael Jackson. Tudo bem, o Jacko é bem estranho: possui um zoológico e um parque de diversões em sua residência, mantém hábitos estranhos, cultiva amizades infantis e é acusado de ter cometido alguns crimes. Entretanto o cara é talentoso e é o ídolo da minha infância. Afinal, eu ía à apresentação do “Rei do Pop” ou do sujeito esquisito?
1993, Estádio do Morumbi, marquei de encontrar minhas amigas no “gol” oposto ao palco. Só depois notei que a minha ideia foi insana. Como a administração retira as traves do campo, seria impossível executar o meu plano. Pronto, agora a “Dangerous World Tour” acabaria com a minha “gincana”. Talvez encontrasse as traves jogadas em algum depósito poeirento do Morumbi. Somente nas minhas expectativas o “gol” estaria em campo.
Espetáculo fantástico, inesquecível, porém não é o cerne desta crônica. Entretanto, era a hora do, talvez impossível, encontro.
No fim do espetáculo, dirigi-me ao tal ponto de encontro. Para minha surpresa e alívio, o “gol” não havia sido retirado. Escalei a trave e aguardei sentado no travessão. Por alguns minutos, o tempo parou e parecia não existir mais nada. Imaginei a perspectiva que sempre tive, daquela trave, da arquibancada. De repente eu estava lá “onde a coruja faz o ninho”. Vendo as pessoas saindo. Do alto, eu me senti soberano no Estádio do Morumbi. Só voltei à realidade quando avistei as minhas amigas. Quando elas atingiram a meta (em ambos os sentidos), saltei do objeto que eu sempre vi como o objetivo do Corinthians e da seleção brasileira.
Em 2009, Michael Jackson não aguentou, depois de tantos acontecimentos e perseguições, sucumbiu. Após sua morte, aquele show ganhou mais ainda ares de exclusividade e evento que ficou perdido no tempo.
Ainda, o assunto divide opiniões. É farto o número de material do louco e do artista. Até hoje não sei se fui ao show de um doente mental ou de um gênio. Talvez os dois!
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💥 Por que deixei de assistir à Globo
O título é falso, pois vejo os jogos de futebol. Tirando as denúncias de interferência nos resultados, as partidas não são realizadas pela empresa de comunicação. Então, não vejo e não sinto falta de qualquer produto da emissora.
Há alguns anos, troquei qualquer programa da televisão aberta por “produções” do YouTube. Parece que apenas sigo uma tendência. Pelo que tudo indica, a TV aberta está em processo avançado de extinção. Sim, os altos custos com estúdio, câmeras, apresentadores, repórteres etc foram superados por alguém que liga a filmadora do celular e dá sua opinião e exibe “prints” e vídeos com uma liberdade que William Bonner desconhece.
Não à toa, a chamada velha mídia, numa tabelinha com o Superior Tribunal Federal (STF), apelidou quase tudo o que é produzido na internet de “fake news”. Os termos em inglês nunca foram usados para designar “notícia falsa”, como é a real tradução, mas para estigmatizar tudo o que não pode ser dito ou o que, simplesmente, não se quer ouvir.
A velha mídia sempre mentiu sem concorrência e sem ser importunada. O monopólio da mentira já produziu pérolas: Boimate e o caso Escola Base, por exemplo. Ninguém quer consumir inverdades. Sem subestimar o consumidor de notícias, cada um possui o discernimento e a obrigação de descartar o que é exibido com a finalidade de desinformar ou, deliberadamente, mentir.
Como cantava Raul Seixas: “Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”. Aproveitando-se de que o brasileiro só lê as manchetes, é aí que o jornalista aproveita para distorcer os fatos. Com um jogo de palavras, que só quem domina o idioma consegue, o escritor engana na manchete e informa a verdade somente nas colunas. Esta artimanha é colocada em prática sem explicitar a mentira. Atualmente, a tática é adotada sem qualquer cuidado, ou seja, mentem “na cara dura”. A combinação “mentira” e “veículo de credibilidade” geram a desinformação. São as redações transformadas em diretórios acadêmicos, e os jornalistas, militantes.
Cresci assistindo às programações da Globo, acreditando que o Jornal Nacional apresentava a verdade. Passei décadas sendo enganado e me contentando com o “Boa noite” do Cid Moreira e demais apresentadores. Hoje, não sinto dó quando gritam: “Globolixo”.
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🔵 A terapia dos dinossauros
No Dinossauros Rock Bar, em Pinheiros, São Paulo, subiam ao palco cada um dos integrantes da banda Dinossauros. Notei que entre os músicos estavam duas figuras conhecidas: José Luís Tejon Megido (violão e voz), jornalista, publicitário, escritor e exemplo de superação, entre outras atividades e Roberto Shinyashiki (guitarra), psiquiatra, escritor e palestrante. Sendo que o segundo é um manjado escritor e palestrante de, digamos, auto-ajuda.
No princípio, achei que aquela cena toda se tratava de uma “pegadinha” ou um “telegrama animado”. Pronto, um simples chope ao som de “rock and roll” havia se transformado num momento catártico do tipo terapia em grupo. Então, meu propósito era descobrir onde estavam as câmeras, microfones e para que emissora seria a transmissão da armadilha, bem como quem era o apresentador da palhaçada toda.
Sempre fugi de “coachs” animadões. Eles entram no palco pulando, vomitando um lote de frases feitas e afirmando que você é um vencedor (sabendo que muitos ali vieram de ônibus) e logo você se vê abraçando uma pessoa estranha ao lado, chorando, batendo palmas e gritando “u-hu”. Eu tinha que escapar daquela arapuca. Nunca imaginei que um simples sábado de noite poderia ser convertido numa enfadonha e inesperada convenção do Anhembi. Para alguém tímido, esse tipo de evento deve ser evitado.
As horas passavam, a banda voltava a tocar (após os intervalos), entretanto nada diferente acontecia. Quando reparei, minha paranoia não se realizou, ficou apenas na minha cabeça. Chope, banda ao vivo, conversas e risos..., tudo o que eu esperava de um bar de rock sábado a noite.
Os palestrantes de superação e auto-ajuda tocaram e cantaram direitinho, eu não precisei me submeter a nenhuma cura holística. Nunca encontrei alguma alma penada procurando uma jornada interior num boteco de rock. Isso pode ser facilmente encontrado lá pelos lados da Vila Madalena, mas essa aventura deve ser evitada.
No meio de gente mentindo em alto e bom som, gargalhando exageradamente, enfim, fingindo ser alguém, interpretando no teatro da vida, entre cinzeiros sujos e copos vazios, muitos tinham mais a revelar num banquinho de bar do que num divã. Os psiquiatras não poderiam estar em um ambiente mais confessional que num barzinho, sob o efeito do álcool e num sábado de noite.
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🔵 Criaturas da noite
A notícia correu alcançando ouvidos atentos. A novidade que um amigo agora era sócio de uma casa noturna no coração da Vila Olímpia (São Paulo) correu feito rastilho de pólvora. Para nós, que não curtíamos música “dance”, apenas iríamos prestigiar a balada, mas, rapidamente, surgiriam os “amigos” de ocasião.
E a ocasião não frustrou a previsão. Como era esperado, o telefone não parou de tocar. Os “amigos” de ocasião, sempre atentos, nunca perderiam essa boquinha. Estes, embora com algum atraso, mas vigilantes e atentos, trataram de manter acesa a chama de uma grande amizade. Para atender a sanha por uma pulseirinha VIP, um camarote e talvez um copo de whisky, meu ciclotímico amigo precisaria contratar um “call center”.
Noites muito boas, reencontrando velhos amigos e encontrando, é claro, os “parças” (parceiros) no camarote, vestindo a pulseira VIP, exagerando no sotaque paulistano (como em novelas) e grudados em copos de whisky com energético. Mesmo não curtindo músicas de “DJ”, ir a uma balada de “playboy” foi quase uma experiência antropológica.
*
Numa noite qualquer, fomos fiscalizar as ruínas da casa noturna da badalada Vila Olímpia. Foi triste voltar, com o sócio do que sobrou, na avenida Hélio Pellegrino, onde pessoas dançavam, bebiam, conversavam e sorriam. O cenário era de um ambiente bombardeado: imóvel escuro, tudo revirado, alguns vestígios de infiltração e arrombamento eram a evidente suspeita da
frequência de moradores de rua e/ou usuários de drogas. O que tinha algum valor foi levado. Uma garrafa com um pouco de bebida foi a solitária prova de que alguém se divertiu nas noites de sábado dali.
Esse é o lado que nunca tinha testemunhado das casas onde todos se divertem. Muitos dos que frequentam esses lugares talvez estejam nessa situação: nas noites de sábado, conseguem disfarçar o aspecto, entretanto por dentro são somente ruínas.
Observação: os “amigos” de ocasião sumiram. Devem ter “colado”, morrendo de saudades, em outro amigo de infância “dono de balada”. Ah, esses “parças”, sempre querendo manter acesa a chama da amizade.
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🔴 Pequeno ensaio sobre o preconceito
Preconceito não é nada mais que um pré-conceito. Essa palavrinha, de cara, revela um preconceito de quem procura defeito em tudo. Os chamados “haters” acordam aguardando a oportunidade de apontar para alguém e tachá-lo de racista, misógino, homofóbico, preconceituoso etc. A apoteose dessas manifestações de vida é quando chega o esperado: alguém que se possa encaixar a ofensa do dia. Eis o viés de confirmação, o importante não é se a quem se atribui o defeito do dia (ou da moda) tenha o defeito. Se alguém estiver testemunhando, melhor, pois é assim que se sinaliza virtude. Conhecidos popularmente pelo estrangeirismo “haters”, eles vagam lá pelo “Twitter”, mas de vez em quando se perdem e vão amolar “em mares nunca d’antes navegados”.
É patético este modo de viver, entretanto isso existe e sempre está rondando, esperando qualquer tropeço para distribuir seus rótulos ofensivos. Se já é difícil atribuir algum preconceito a alguém ao lado, imagine cometer este crime lendo um pequeno texto, sem conhecer o seu autor.
Não sei se não estou atento ou se sou inocente demais, mas nunca identifiquei um nazista ou um fascista, a não ser pela TV. Mesmo assim, foram os dois maiores estereótipos: Hitler e Mussolini, respectivamente. Essa desatenção talvez seja resultado dos meus parcos conhecimentos de História. Tenho, insisto, dificuldades em reconhecer um preconceituoso. E realmente acredito que é bem melhor viver assim, sem procurar defeitos nos outros.
Em política, se alguém pensa diferente de mim, azar do político. Dispenso o candidato, o partido e a ideologia e continuo a amizade. Com futebol, a “zoeira” prevalece. Como corintiano, sempre vou lembrar que o Palmeiras não tem título mundial. Permanecendo no campo da brincadeira, isso jamais pode estragar uma amizade.
Denegrir, criado-mudo, lista negra e até “Black Friday,”, termos considerados preconceituosos devem ser evitados, senão você, por usar a palavrinha inadequada ganha o carimbo de preconceituoso. As palavras que citei têm, como muitas outras, etimologia ligada ao racismo simplesmente inventada. A repetição tornou essa balela “verdade”. O argumento é, por vezes, deliberadamente falso para alimentar a necessidade de apontar o dedo.
Esta talvez seja a atitude menos eficaz de combater o preconceito. Ficar policiando as palavras utilizadas não ajuda minoria excluída, pelo contrário, pode causar uma certa antipatia. Quando há banalização destes termos, os reais preconceituosos se diluem na multidão.