rafaeldasilva

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🔵 O doutrinador

O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.




Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola.  Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).




No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.




A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”. 




Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que  ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.




Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
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Poemas

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🔵 Jornal pra embrulhar peixes e bananas







Não perdia tempo. Assim que anunciavam que havia uma pilha de jornais, eu corria resgatá-los. Eu vendia os impressos na feira, que usava-os para embrulhar bananas e peixes. Era um triste fim para textos de excelentes jornalistas, mas poderia ser bem pior. Os periódicos eram das semanas anteriores, portanto velhos para manter-me por dentro dos últimos assuntos, porém novos para embrulhar peixes e bananas.




Essa era uma maneira de juntar algum dinheiro e exigir uma esfirra, um copo de ‘Coca’ e troco de bala no recreio da escola.




Essa prática laboral era precocemente capitalista, embora voluntária. Atualmente seria considerada trabalho infantil, talvez abandono de incapaz, e eu estaria condenado a engolir a merenda escolar servida pela prefeitura de Guarulhos. Também ficaria entregue à completa ignorância, isso porque não me desfazia dos jornais sem que fossem folheados. Com esse ritual, não deixava escapar as principais reportagens, colunas, opiniões, suplementos de cultura, esportes e, lógico, as tirinhas. Comigo, os noticiosos exerciam a nobre função de formar alguém intelectualmente. Após minha pueril triagem, a Folha de São Paulo cumpriria uma função menos nobre.




Na feira-livre de domingo, não sei por qual motivo, eu conseguia realizar o meu comércio com certa vantagem. Talvez fosse romântica a imagem de um garotinho arrastando um carrinho cheio de jornais entre frutas, legumes e verduras.




Antigamente, a Folha de São Paulo era escrita por escritores melhores, não militantes políticos por isso era mais confiável; hoje, com tiragem muito menor, é eivada de “fontes” (“bucha de canhão”) pouco confiáveis: é um tal de “dizem especialistas” (escolhidos) e “diz leitor (quem?).




Manchetes confundem-se com “click bait” (caça clique) e matérias são escritas com a profundidade de um tuíte. “Ideias” já não são submetidas a uma reflexão mais embasada ou à lata do lixo.




Atualmente, jornalistas escrevem ameaças de morte: soma de militância política barata, falta de criatividade e sabe-se lá o que mais, talvez ausência de caráter. Nesse caso, os jornais já não sirvam nem para embrulhar bananas e peixes. A única utilidade é algo que nem sequer citarei.




“Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”.

Raul Seixas cantou, alertou ou profetizou?
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🔵 Máfia Ceciliana




Máfia Ceciliana, aquele letreiro roubava a atenção de quem passava ali. Comigo e minha namorada não foi diferente. Gostando muito do assunto, não perderia a oportunidade de furar a “Lei Seca” numa casa que fazia alusão ao crime organizado do longínquo início do século XX, mesmo que quase 80 anos depois.




Entramos no recinto como se estivéssemos invadindo um território sagrado ou proibido. Melhor dizendo, como se ali fosse uma “speakeasy” (bar disfarçado para enganar a Lei Seca), e estivessem presentes alguns dos “capos” das famílias mafiosas dos Estados Unidos.




Mesmo sem a indicação de alguém, puxamos as cadeiras e começamos a examinar o local. A “omertà” (código de silêncio) apenas permite contar uma pequena parte do que vimos. Pois  bem, a primeira impressão, desagradável, foi de que entrávamos de penetras no final de uma festa.  Enquanto éramos observados, reparávamos na decoração do bar temático; o que mais chamou nossa atenção, era uma, digamos, instalação artística — uma mesa de pôquer e alguns gângsteres pendurados no teto.




Apenas duas mesas estavam ocupadas: em uma delas havia uma única pessoa, um sujeito pouco afeito aos cuidados de quem sai de noite, estava acompanhado de um copo e um toco de cigarro. Introspectivo, circunspecto e depressivo, parecia querer compartilhar sua solidão. Sua alternativa seria, com a televisão sintonizada num canal de televendas, perambular por um apartamento minúsculo e imundo do Minhocão.




O músico ocupou o seu banquinho e começou a executar algumas canções. Depois, descobri que o sujeito solitário com cara de filósofo suicida era o autor de algumas das canções. O violonista parecia ter consciência de que o palquinho de um restaurante era pouco pra ele; o nosso filósofo de botequim demonstrava certo orgulho por seu pensamento estar, enfim, sendo espalhado nas noites de São Paulo; ambos, provavelmente, julgavam-se “gênios incompreendidos”. 




Do nada, apagaram-se as luzes. Aumentou uma trilha sonora e alguns focos de luz iluminaram um artista no teto e um pano. Sabendo que aquele número foi preparado para nós, paramos tudo e prestamos atenção no espetáculo. O conjunto de evoluções no tecido (do teto ao solo) resultou em algo muito bom. Atendemos as expectativas e aplaudimos o artista.




Pronto, um artista mambembe, um poeta maldito, uma mama italiana, uns garçons meio preguiçosos e um casal avulso. Naquele cenário que emulava o clima mafioso, era fácil adivinhar que o papel de vítima já estava reservado para nós. Não restando outra saída, pedimos mais uma cerveja.




Como se colocássemos uma ficha, assim que chegamos cada funcionário foi acionado e exerceu sua obrigação: os garçons nos serviam como a nobreza, o músico tentou nos agradar, o artista executou seu número, quase perdendo a vida, porque quis dar o melhor de si e impressionar a pequena plateia. E a “Chefa” orientando cada um a ocupar sua função.




Somente quando saímos do recinto, fizemos a bem sacada associação do nome do lugar ao bairro paulistano onde estávamos: Santa Cecília. Era o ano 2.000, bebida alcoólica liberada, São Paulo, Brasil, entretanto, por algumas horas, experimentávamos algo que emulava um ambiente proibido, secreto e alheio à capital paulista.
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🔵 Um bom espetáculo







Cheguei no histórico teatro da PUC, o Tuca. Ao mesmo tempo, vinha o grupo musical, com visual típico de roqueiros. Tinha certeza que eu não havia errado, aquele ‘show’ mudaria minha relação com a Música.




Adentrei um ambiente novo, para mim, e estranho para os espetáculos musicais que eu conhecia, mas não hostil. Tudo era diferente e muito confortável, comparado aos festivais de estádios. Lá, sim, nos antigos estádios o território era hostil e tudo concorria para que o espectador vivesse a pior experiência possível. Mas, ignorando os obstáculos — talvez pela pouca idade, muita energia e disposição para enfrentar quaisquer autoridades e proibições —, aquilo era divertido.




Alguma mudança estava acontecendo. Cabelo bem penteado, bem vestido e comportado, parecia até que eu estava indo a um casamento.  Mas não, ali era o teatro da PUC, mas a apresentação não seria associada a nenhuma manifestação estudantil. Acostumado a encher a cara com cerveja em festivais de rock, talvez fosse chegado o momento de degustar um café e mastigar um ‘croissant’.




Encontrei a fileira e minha cadeira na plateia. Em vez de AC/DC, Nirvana e L7, ouvia Gilberto Gil, Djavan e outros músicos que, ao invés de gritarem, apenas cantam. Enquanto lia um programa do teatro, relaxava ao som da MPB ambiente. E assim foi, até desligarem o som, apagarem as luzes, informarem as instruções de segurança, darem três toques sonoros e uma voz desejar “um bom espetáculo”.




O conjunto Boca Livre entrou no palco do Tuca e “destruiu”. Aquilo representou uma disrupção — ou um chamado — em tudo o que eu entendia como música tocada ao vivo. A partir dali, um semitom não seria mais tolerado e era hora de eu tomar uma atitude e aprender a tocar violão. 




Saí dali sem tomar o café, mas crente de que a música boa e inspiradora não vinha de tão longe, como Seattle, e arremessada num estádio de futebol para uma multidão ensandecida; poderia estar aqui no Brasil, num teatro de Perdizes ou num barzinho do Bexiga sendo executada para um auditório bem comportado.




O grupo sempre me remeteu a um passado distante. Quando, no rádio, tocavam boas, contudo velhas canções, vinham como algo empoeirado. Entretanto, na década de 90, na casa da minha irmã, assisti a uma rápida entrevista, bem como a nova formação do Boca Livre, num programa de TV. Já não tinha ficado perdido no passado.




A apresentação do Tuca foi só a primeira que vi, depois fui a muitas. 




Em 2021, a polêmica dessas vacinas e tudo o que envolve a polarização cindiu o Boca. Concluindo: aquela reformulação do conjunto, nos anos 90, ficou muito no passado, empoeirada.
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🔵 Liberdade ainda que tardia




Logicamente, aconselho que ninguém faça algo parecido. É perigoso em vários sentidos. Entretanto, trabalhando durante o dia e estudando de noite, ducha quente, jantar no prato e cama aconchegante se tornam urgentes. Assim, cabular aula não era uma infração, mas uma necessidade.




Fugir do colégio era muito desafiador, lembrando a dificuldade enfrentada por quem tentava ganhar o lado de fora da prisão de Alcatraz.




O primeiro desafio era juntar e convencer um punhado de rebeldes que “não dessem pra trás”. Reunida a turma, que bem parecia ser a escória do sistema estudantil da época, era chegado o momento de despender um esforço muito maior que qualquer equação exigiria. Mas antes, uma observação: o aspecto era desanimador. Roupas mal ajambradas, cadernos e canetas insistindo em desafiar a gravidade, postura alquebrada e disposição que denunciava que não conseguiríamos chegar muito longe. Contudo, o motivo da fuga parecia nobre, apesar de estar ciente que alguns de nós, assim que ganhassem as ruas, iriam ao fliperama (casa de jogos eletrônicos).




De qualquer maneira, aqueles maltrapilhos haveriam de estar lá fora, sob o risco de ficarem entregues aos vícios de fora da sala de aula: cigarro e truco. A aula de matemática, de qualquer forma, ficaria fora do cardápio.




Apesar de não frequentarmos as aulas de Educação Física, era necessário algum preparo físico, porque, logo de cara, escalaríamos um alambrado de um 3,5 mts. Vencido o alambrado, tivemos que atravessar uma quadra poliesportiva. Cumprimos esta etapa, correndo curvados para diminuir a silhueta da fila de fugitivos na escuridão, sempre tomando cuidado para não despertar a atenção do inspetor de alunos.




Logo depois, uma valeta imunda acrescentaria cuidado à fuga. Era tarde demais para haver algum desistente, então seguimos o longo percurso tomando cuidado para não aumentar a escatologia da ideia porca. A valeta seguia por um caminho que, provavelmente, terminaria na sarjeta, logo, na rua. Não poderia haver lugar mais apropriado para 5 jovens “matando” aula: a sarjeta. Porém, havia mais um empecilho, a valeta seguia íngreme e poderia causar um acidente constrangedor. Como a combinação de fatores era vergonhosa, decidimos subir por uma floresta que devia ser resquício da Mata Atlântica. Como não troquei um punhado das malditas equações por rudimentos de ornitologia e botânica resolvi enfrentar aquela pequena selva sem maiores observações.




Aquele pequeno matagal ao longo da montanha úmida seria a etapa mais difícil, porém a derradeira, por isso o ânimo, já que estávamos a um passo de conquistar a tão sonhada liberdade. Foi perseguindo este objetivo, sujos, machucados, suados e quase chorando, mas com “sangue nos olhos”que pulamos o muro que separava o interior opressor da escola da imensidão permissiva da rua. 




Alcançando o lado de fora da escola, acreditamos ter conquistado a sonhada liberdade; anos depois, mas a tempo, descobri que o caminho mais curto, seguro e fácil de conquistá-la é dentro da sala de aula. Em concursos públicos e vestibulares, tenho certeza, as questões que eu não soube responder foram ensinadas nas aulas que cabulei.
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🔴 Ele não desiste




Sabendo da péssima safra de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e a disposição deles falar mal do Brasil, “pipocam” palestras, convenções, fóruns, bate-papos e, acho, rodinhas de fofoca. Se for no exterior, mesmo que com uma plateia lusófona, gera mais credibilidade.




Surgiu um cartaz duma tal “Brazil Conference”. A iniciativa é do LIDE, grupo de João Doria (olha ele aí). Incansável quando a inveja domina suas atitudes, ele não suportou a derrota que o afastou da vida pública e voltou a exercer a razão de sua vida política: conspirar.




Para esse evento, foram convidados detratores do governo federal para praticar o principal esporte da oposição ao presidente: “descer a lenha” no Brasil. Usando belas palavras, mas com raciocínio estreito, esses magistrados não conseguem impressionar ninguém com o mínimo de desconfiança. Quase sempre lendo ou contando com ouvintes abobalhados, soltam teorias persecutórias. Nos devaneios desses ocupantes do STF, existe um Gabinete do Ódio, “hackers” russos (tentando invadir o TSE) e manifestações (pacíficas como um piquenique) são chamadas de “atos antidemocráticos”.




Pegando carona nesse clima pesado, sempre covarde, João Doria ressurge, rapidamente, se dispondo a ser reconhecido como o principal “puxador de tapete” do presidente. Tenho certeza, o ex-pré-candidato dará um jeitinho de aparecer reivindicando a autoria de algum acontecimento que possa ser interpretado como uma derrota do Bolsonaro.




A pandemia surgiu como um dádiva para Doria abusar de toda a sua tirania, disfarçando-se de democrata e empático, fingindo chorar, ele mandou fechar tudo. Sempre agindo sorrateiramente, o colecionador de mandatos incompletos, por telefone, tentou enfraquecer o governo arrancando Paulo Guedes da Economia. Sabe-se lá, se outros nomes também receberam suas investidas.




Agora era o momento ideal para o ex-político pegar uma praia em Miami ou estender-se numa espreguiçadeira do Copacabana Palace; entretanto ele preferiu ser flagrado furando suas próprias ordens. Fique em casa, João Doria, por favor.
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🔵 Diversões eletrônicas




Entrei naquele cenário que era a descrição mais perfeita do que sempre classifiquei como “inferninho”. A descrição é desoladora: um bando de desocupados e escravos do vício. Entregues ao álcool e ao tabaco, largavam latas vazias e bitucas ou tocos de cigarros semi consumidos.




Fora outras cenas incompreensíveis, era esse o panorama encontrado no “fliperama” Colorado. Esse “inferninho” provavelmente abrigava o que havia de pior e mais desolador na sociedade oitentista.




Revelando a desesperança de mais de vinte anos de governo militar, aquela juventude gastava o seu tempo e algum dinheiro num “fliperama” imundo, entretendo e esquecendo a monotonia, entre máquinas de diversões eletrônicas. 




Distraindo pessoas escondidas no concreto impessoal da Grande São Paulo, restavam as companhias do Pac-man, Rally-X, Cavaleiro Negro, Shark... Prevendo que alguém que se divertia com seres pixelizados ou uma esfera doida precisavam de entorpecentes, as máquinas vinham equipadas com cinzeiros. Variando entre “arcades” e “pimballs”, a juventude da incipiente “década perdida. gastava tempo,  fichas e o troco do pão com a “brincadeira viciante”.




Somente a idade contada em algarismos unitários pode explicar o impacto daquele panorama, bem como a atual idade pode produzir uma reflexão mais aprofundada do que significava aquilo.




Esse hábito — ou melhor, esse vício — se estendeu por outros CEPs; em cada cidade, a localização do “fliperama” tinha a mesma prioridade que a sorveteria. Essa febre se esgotou, felizmente, no Atari. Apesar de eu não substituir o futebol na rua pelo joguinho eletrônico, gastei algumas tardes esfarelando o “joystick” inconfundível do disruptivo videogame. 




A máquina preta que “estraga as vista” virou febre em 1983, e (sabe-se lá em quantas parcelas) meus pais conseguiram obter um exemplar do revolucionário brinquedo. O objeto que veio da falecida Mesbla mudou os hábitos da casa: em horários inimagináveis, sempre havia uma alma insone sentada diante do console. “Flashs” estroboscópicos e tiros vindo da sala preenchiam a escuridão. Sem saber, meus pais recuperaram um menor hipnotizado pelas luzes coloridas do Colorado.
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🔵 Restaurante impagável







Chega de peixe! Cansados de frutos do mar e seu respectivo cheiro, bem como, dizem, o sabor da água, fomos a uma pizzaria de São Vicente, litoral paulista.




O que era para ser um tranquilo momento para matar a fome, se transformou num episódio inesquecível de suspense, paranoia e, às vezes, terror.




Um garoto até esquece da vida quando saboreia uma pizza sem se preocupar com a conta. Mas quando decidem sair sem pagar e... correndo. O que seria uma noite no calçadão do litoral, ganhou um enredo de filme policial dos anos 70, com trilha sonora. 




Meu cunhado e minha irmã começaram a planejar a fuga. Mesmo assustado com a situação e mastigando (com dificuldade) os últimos pedaços (amargos) da borda com catupiri, eu calculei qual seria o meu papel no pinote caloteiro. Enquanto o plano era urdido, eu, olhando para a cara deles, sem querer acreditar muito naquilo, pensava, balançando a cabeça em desaprovação: eu sempre desconfiei desse cara, mas minha irmã... Eu não posso me envolver nessa sujeira e tenho que tirar a minha irmã do mundo do crime.




Quando retornei do solilóquio moral a estratégia havia avançado e, pior, eles haviam decidido qual seria minha participação na prática delitiva.




A pizza já havia sido devorada. Aquele cenário de assadeira somente com farelo, talheres abandonados e pratos com tomates e caroços de azeitonas desprezados, ilustravam meu ânimo e indicavam, num tic-tac imaginário, que a hora estava chegando. 




Nessas alturas, eu já me sentia partícipe de um roubo a banco. Não teria alternativa, nosso destino seria algo como o presídio de Ilha Grande ou Alcatraz. Nunca me importei com isso,  sabia que o estado de nossas prisões era deplorável. Na tal “escola do crime” eu, que iria fugir   duma pizzaria sem pagar, seria preso com assaltantes de bancos, assassinos e traficantes.




No auge da “brincadeira” eles revelaram a farsa. Meu “background” cinematográfico facilitou um planejamento que jamais revelei. No fim, tentando rir daquilo tudo, eu disse que sempre soube que se tratava de “zoeira”. Acho que nunca convenci, mas com a dificuldade para juntar os trocados e quitar a redonda, acredito que a ideia de sair correndo sem pagar foi realmente debatida entre o casal.



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🔵 Fiscais do Sarney




Final do Regime Militar, início do governo, dito, democrático. Com o Plano Cruzado, o governo tentava mais uma vez derrotar a inflação. Com apenas 11 anos, eu estava no meio desse fogo cruzado.




Em termos laborais, acho que estava fadado a flertar com a ilegalidade. Nos anos 80, com o povo topando bancar um “dedo-duro” oficial ou um perseguidor (portador da chancela governamental), ser flagrado segurando uma maquininha de remarcação de preços era se tornar um alvo vivo. 




Nunca imaginei que trabalhar num mercadinho de bairro fosse algo tão temerário como ferver numa carvoaria ou me mutilar cortando cana. De repente, até então, inofensivos aposentados e donas de casa nos perseguiam como párias. Etiquetar uma mercadoria se transformou em algo pior do que roubar.




Vivendo na marginalidade, eu alternei esse período entre estudos, as brincadeiras próprias da infância e me esquivando da revolta dos consumidores assalariados. 




A hiperinflação ficou no passado, mas hoje, errado seria uma criança trabalhando. Meus pais perderiam a minha guarda por exploração infantil e, provavelmente, abandono intelectual.




Seria melhor eu ser flagrado com uma metralhadora, sendo considerado uma pobre vítima da sociedade, em vez de ser surpreendido “armado” com o equipamento aumentador de preços, sendo identificado como o inimigo número 1 do brasileiro assalariado.




Felizmente, a hiperinflação foi afastada, a máquina remarcadora voltou a ser um objeto inofensivo, entretanto o trabalho infantil proscreve automaticamente os pais ou responsáveis. Os dedos-duros de sempre afastaram os amadores “Fiscais do Sarney”, tomando o seu lugar de direito. Unf... fiscais do Sarney...
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🔴 Ônibus elétrico




Apesar de veículo elétrico aludir a algo futurista, tratando-se de ônibus, resgato à memória afetiva, quando eu era muito jovem, porém estes coletivos já eram arcaicos.




Os ônibus de 1949, antes do Tucuruvi, pareciam ter como destino algum país da Cortina de Ferro. Sempre que embarquei nesse trólebus, tive a impressão de ir, voluntariamente, a um Gulag (campo de concentração soviético). Só caía na real ao ver trabalhadores ou baladeiros (dependendo do horário).




Enquanto o ônibus elétrico esteve em circulação, tive um impasse “esquizofrênico”: o carro era exótico, feio, muito feio, ridículo ou mal executado? Depois da sua retirada de circulação (aposentadoria), exibido como peça de museu, cheguei à conclusão de que o veículo é lindo. Tá bem, exótico. Digo isso, com certa licença poética; se dissesse isto na época, eu seria excêntrico.




Rumo ao Butantan, Pinheiros, Mandaqui ou Tucuruvi, ía, devagar e sempre, o velho, pesado e lento, porém intrépido, estranho meio de transporte. Somente com muita atenção poder-se-ia (com uma arcaica mesóclise) perceber se ía ou vinha. 




Velhos ou muito velhos, às cinco da manhã vinha subindo a rua Augusta a quinze por hora. Lento, contudo salvador, acolhedor e eficiente carro. Esse transporte público de características humanas, mostrava-se generoso com trabalhadores e baladeiros, gente de todos os cantos do Brasil, sóbrios e ébrios, pagantes e impostores. Estes, rastejavam embaixo de uma burocrática, porém ineficiente, borboleta (roleta ou catraca). Como o carro era elétrico, nos semáforos vermelhos e paradas de ônibus estabelecia-se um incômodo silêncio muito semelhante ao dos elevadores.




Hoje, aquele trólebus de 1949, com aspecto soviético, porém estadunidense, realiza passeios turísticos. Para quem sentou em seus bancos de couro, o coletivo, com características humanas, leva a uma volta ao passado.




O transporte coletivo parecia pouco convidativo por fora, mas era muito acolhedor, confortável e sonífero do lado de dentro. O que decretava o sono era o ranger das peças internas presas por parafusos gastos. Talvez essa aceitação e o saudosismo sejam frutos da visão do velho ônibus surgindo na subida da rua Augusta. Às cinco horas da manhã o sono só não era mais forte que a expectativa de aparecer o valente veículo exibindo o destino: Tucuruvi.




Cruzando ruas e avenidas de São Paulo, aquele trólebus se impunha e abria caminhos, transportando baladeiros e trabalhadores.




Hoje, aquele ônibus elétrico da CMTC (Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos) não circula mais, fica exposto no Museu dos Transportes Públicos. Virou peça de museu...
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🔵 Classe social







Colegas orelhudos, narigudos, “zóiudos”, baixinhos, magrelos, gordos e branquelos. Sobrenomes árabes, judeus e de várias outras origens. Tudo isso, em vez de gritar a diversidade étnica e cultural da sala de aula, era motivo para “zoação” ou “bullying”, como dizem há alguns anos. Afinal, eram todos brasileiros, alguns mais estranhos.




Nos anos 80, a “década perdida”, a hiperinflação desembocava um lote de “filhinhos de papai” oriundos de colégios particulares. Quando esse fenômeno financeiro acontecia, a classe média alta cortava o inglês, o balé, as aulas de música e, no desespero, as “escolas de ricos”. Era aí que tínhamos contato com produtos importados do Paraguai — tempos de “reserva de mercado”. 




Como índios, éramos apresentados a relógios G-shock, réguas com calculadora, caneta de 20 cores, tênis Forward (“Faroait”), calça da OP e outras bugigangas. A turminha nascida em berço de ouro, por outro lado, tinha a oportunidade de conhecer a merenda escolar da Prefeitura, a quadra de cimento e sem cobertura, o futebol com bola de papel e a total falta de perspectiva com a Humanidade.




Esse choque cultural causava um certo estranhamento antropológico e um automático e defensivo distanciamento, entretanto, o comportamento antissocial prevalecia. Os neófitos se condicionavam ao comportamento predominante e acostumado a sobrevivência com baixíssimo orçamento. No fim, parecia até mais divertido estudar enquanto digeria a merenda escolar, chutava canelas fingindo mirar um simulacro de bola de futebol e entrava na sala de aula sujo e sangrando. 




O estilo de vida, por assim dizer, alternativo era “draconianamente” oferecido em troca de boas notas e o uso de alguns materiais importados do Paraguai. Onde eu estudava, quem se desse bem poderia sobreviver em qualquer presídio de segurança máxima.




Depois, eu soube que as turmas eram separadas por letras: A, B, C, D e E. O fato de eu “cair” quase sempre na turma C explica muito minha classe social e meu interesse por estudos, na época. Os alunos que vinham de colégios nobres também não deviam ter um histórico escolar muito bom. O que igualava todos, eram os efeitos da hiperinflação.
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