O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Logicamente, aconselho que ninguém faça algo parecido. É perigoso em vários sentidos. Entretanto, trabalhando durante o dia e estudando de noite, ducha quente, jantar no prato e cama aconchegante se tornam urgentes. Assim, cabular aula não era uma infração, mas uma necessidade.
Fugir do colégio era muito desafiador, lembrando a dificuldade enfrentada por quem tentava ganhar o lado de fora da prisão de Alcatraz.
O primeiro desafio era juntar e convencer um punhado de rebeldes que “não dessem pra trás”. Reunida a turma, que bem parecia ser a escória do sistema estudantil da época, era chegado o momento de despender um esforço muito maior que qualquer equação exigiria. Mas antes, uma observação: o aspecto era desanimador. Roupas mal ajambradas, cadernos e canetas insistindo em desafiar a gravidade, postura alquebrada e disposição que denunciava que não conseguiríamos chegar muito longe. Contudo, o motivo da fuga parecia nobre, apesar de estar ciente que alguns de nós, assim que ganhassem as ruas, iriam ao fliperama (casa de jogos eletrônicos).
De qualquer maneira, aqueles maltrapilhos haveriam de estar lá fora, sob o risco de ficarem entregues aos vícios de fora da sala de aula: cigarro e truco. A aula de matemática, de qualquer forma, ficaria fora do cardápio.
Apesar de não frequentarmos as aulas de Educação Física, era necessário algum preparo físico, porque, logo de cara, escalaríamos um alambrado de um 3,5 mts. Vencido o alambrado, tivemos que atravessar uma quadra poliesportiva. Cumprimos esta etapa, correndo curvados para diminuir a silhueta da fila de fugitivos na escuridão, sempre tomando cuidado para não despertar a atenção do inspetor de alunos.
Logo depois, uma valeta imunda acrescentaria cuidado à fuga. Era tarde demais para haver algum desistente, então seguimos o longo percurso tomando cuidado para não aumentar a escatologia da ideia porca. A valeta seguia por um caminho que, provavelmente, terminaria na sarjeta, logo, na rua. Não poderia haver lugar mais apropriado para 5 jovens “matando” aula: a sarjeta. Porém, havia mais um empecilho, a valeta seguia íngreme e poderia causar um acidente constrangedor. Como a combinação de fatores era vergonhosa, decidimos subir por uma floresta que devia ser resquício da Mata Atlântica. Como não troquei um punhado das malditas equações por rudimentos de ornitologia e botânica resolvi enfrentar aquela pequena selva sem maiores observações.
Aquele pequeno matagal ao longo da montanha úmida seria a etapa mais difícil, porém a derradeira, por isso o ânimo, já que estávamos a um passo de conquistar a tão sonhada liberdade. Foi perseguindo este objetivo, sujos, machucados, suados e quase chorando, mas com “sangue nos olhos”que pulamos o muro que separava o interior opressor da escola da imensidão permissiva da rua.
Alcançando o lado de fora da escola, acreditamos ter conquistado a sonhada liberdade; anos depois, mas a tempo, descobri que o caminho mais curto, seguro e fácil de conquistá-la é dentro da sala de aula. Em concursos públicos e vestibulares, tenho certeza, as questões que eu não soube responder foram ensinadas nas aulas que cabulei.
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🔵 Máfia Ceciliana
Máfia Ceciliana, aquele letreiro roubava a atenção de quem passava ali. Comigo e minha namorada não foi diferente. Gostando muito do assunto, não perderia a oportunidade de furar a “Lei Seca” numa casa que fazia alusão ao crime organizado do longínquo início do século XX, mesmo que quase 80 anos depois.
Entramos no recinto como se estivéssemos invadindo um território sagrado ou proibido. Melhor dizendo, como se ali fosse uma “speakeasy” (bar disfarçado para enganar a Lei Seca), e estivessem presentes alguns dos “capos” das famílias mafiosas dos Estados Unidos.
Mesmo sem a indicação de alguém, puxamos as cadeiras e começamos a examinar o local. A “omertà” (código de silêncio) apenas permite contar uma pequena parte do que vimos. Pois bem, a primeira impressão, desagradável, foi de que entrávamos de penetras no final de uma festa. Enquanto éramos observados, reparávamos na decoração do bar temático; o que mais chamou nossa atenção, era uma, digamos, instalação artística — uma mesa de pôquer e alguns gângsteres pendurados no teto.
Apenas duas mesas estavam ocupadas: em uma delas havia uma única pessoa, um sujeito pouco afeito aos cuidados de quem sai de noite, estava acompanhado de um copo e um toco de cigarro. Introspectivo, circunspecto e depressivo, parecia querer compartilhar sua solidão. Sua alternativa seria, com a televisão sintonizada num canal de televendas, perambular por um apartamento minúsculo e imundo do Minhocão.
O músico ocupou o seu banquinho e começou a executar algumas canções. Depois, descobri que o sujeito solitário com cara de filósofo suicida era o autor de algumas das canções. O violonista parecia ter consciência de que o palquinho de um restaurante era pouco pra ele; o nosso filósofo de botequim demonstrava certo orgulho por seu pensamento estar, enfim, sendo espalhado nas noites de São Paulo; ambos, provavelmente, julgavam-se “gênios incompreendidos”.
Do nada, apagaram-se as luzes. Aumentou uma trilha sonora e alguns focos de luz iluminaram um artista no teto e um pano. Sabendo que aquele número foi preparado para nós, paramos tudo e prestamos atenção no espetáculo. O conjunto de evoluções no tecido (do teto ao solo) resultou em algo muito bom. Atendemos as expectativas e aplaudimos o artista.
Pronto, um artista mambembe, um poeta maldito, uma mama italiana, uns garçons meio preguiçosos e um casal avulso. Naquele cenário que emulava o clima mafioso, era fácil adivinhar que o papel de vítima já estava reservado para nós. Não restando outra saída, pedimos mais uma cerveja.
Como se colocássemos uma ficha, assim que chegamos cada funcionário foi acionado e exerceu sua obrigação: os garçons nos serviam como a nobreza, o músico tentou nos agradar, o artista executou seu número, quase perdendo a vida, porque quis dar o melhor de si e impressionar a pequena plateia. E a “Chefa” orientando cada um a ocupar sua função.
Somente quando saímos do recinto, fizemos a bem sacada associação do nome do lugar ao bairro paulistano onde estávamos: Santa Cecília. Era o ano 2.000, bebida alcoólica liberada, São Paulo, Brasil, entretanto, por algumas horas, experimentávamos algo que emulava um ambiente proibido, secreto e alheio à capital paulista.
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🔵 Jornal pra embrulhar peixes e bananas
Não perdia tempo. Assim que anunciavam que havia uma pilha de jornais, eu corria resgatá-los. Eu vendia os impressos na feira, que usava-os para embrulhar bananas e peixes. Era um triste fim para textos de excelentes jornalistas, mas poderia ser bem pior. Os periódicos eram das semanas anteriores, portanto velhos para manter-me por dentro dos últimos assuntos, porém novos para embrulhar peixes e bananas.
Essa era uma maneira de juntar algum dinheiro e exigir uma esfirra, um copo de ‘Coca’ e troco de bala no recreio da escola.
Essa prática laboral era precocemente capitalista, embora voluntária. Atualmente seria considerada trabalho infantil, talvez abandono de incapaz, e eu estaria condenado a engolir a merenda escolar servida pela prefeitura de Guarulhos. Também ficaria entregue à completa ignorância, isso porque não me desfazia dos jornais sem que fossem folheados. Com esse ritual, não deixava escapar as principais reportagens, colunas, opiniões, suplementos de cultura, esportes e, lógico, as tirinhas. Comigo, os noticiosos exerciam a nobre função de formar alguém intelectualmente. Após minha pueril triagem, a Folha de São Paulo cumpriria uma função menos nobre.
Na feira-livre de domingo, não sei por qual motivo, eu conseguia realizar o meu comércio com certa vantagem. Talvez fosse romântica a imagem de um garotinho arrastando um carrinho cheio de jornais entre frutas, legumes e verduras.
Antigamente, a Folha de São Paulo era escrita por escritores melhores, não militantes políticos por isso era mais confiável; hoje, com tiragem muito menor, é eivada de “fontes” (“bucha de canhão”) pouco confiáveis: é um tal de “dizem especialistas” (escolhidos) e “diz leitor (quem?).
Manchetes confundem-se com “click bait” (caça clique) e matérias são escritas com a profundidade de um tuíte. “Ideias” já não são submetidas a uma reflexão mais embasada ou à lata do lixo.
Atualmente, jornalistas escrevem ameaças de morte: soma de militância política barata, falta de criatividade e sabe-se lá o que mais, talvez ausência de caráter. Nesse caso, os jornais já não sirvam nem para embrulhar bananas e peixes. A única utilidade é algo que nem sequer citarei.
“Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”.
Raul Seixas cantou, alertou ou profetizou?
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⚫️ FeNeMê
Esse cara faz jus ao nome. Com aspecto ameaçador, esse veículo parece que apelidou o veículo pesado para transporte de cargas. A sigla FNM (Fábrica Nacional de Motores), que deu o fama ao bicho, batizou o possante com um nome tão pesado e jurássico quanto a estatal. Não era, mas tinha um jeitão soviético. Todo errado, tinha a maçaneta, bem como sua abertura, invertida. Sua aproximação causava medo, pois sua “cara” de assassino e o barulho (ou som) do motor turbinado pareciam me perseguir, como no filme, de Steven Spielberg, “Encurralado”.
Cada peça parece que foi pensada para causar horror. Essas particularidades amedrontadoras só eram aplacadas quando desembarcava um motorista com características humanas. Mesmo assim, estacionado, com o motor ligado e a “cara” feia, a máquina continuava repelindo qualquer aproximação.
Símbolo da industrialização getulista (Getúlio Vargas), carregou o Brasil nas costas, a partir de 1949.
Como virou item de colecionador, se eu avisto um FNM em bom estado de conservação, sei que está indo em uma exposição. É isso aí, o “pau véio” que ainda era avistado, como um OVNI, nos anos 80, se esgoelando numa subida, arrastando uma carga baratinha, tornou-se decoração de valiosas garagens. É um descanso digno.
Esse caminhão merece o apelido de “Bruto” ou “Pesado”. Pois sua aparência e nome transmitem o conceito. FNM (Fábrica Nacional de Motores), o nome do “bicho”, passa a noção de todo o peso da máquina estatal.
O ameaçador veículo parece ter vida própria e, dispensando a presença de um motorista, parece sempre pronto a esmagá-lo. Provavelmente, a indústria cinematográfica se inspirou nesse monstro sobre rodas para filmar veículos assassinos.
O caminhão parece ter sido planejado para intimidar, assustar e/ou, pelo menos, ameaçar: as cores geralmente eram “mortas”; a abertura das portas, invertidas; o barulho do motor turbinado, amedrontador e o conjunto, mais pesado do que realmente era.
Parecendo uma britadeira, o barulho do motor trabalhando avisava que um ‘FNM’ estava por perto. E sempre ameaçador surgia, dobrando a esquina, o caminhão que foi feito para botar medo.
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🔵 Fiscais do Sarney
Final do Regime Militar, início do governo, dito, democrático. Com o Plano Cruzado, o governo tentava mais uma vez derrotar a inflação. Com apenas 11 anos, eu estava no meio desse fogo cruzado.
Em termos laborais, acho que estava fadado a flertar com a ilegalidade. Nos anos 80, com o povo topando bancar um “dedo-duro” oficial ou um perseguidor (portador da chancela governamental), ser flagrado segurando uma maquininha de remarcação de preços era se tornar um alvo vivo.
Nunca imaginei que trabalhar num mercadinho de bairro fosse algo tão temerário como ferver numa carvoaria ou me mutilar cortando cana. De repente, até então, inofensivos aposentados e donas de casa nos perseguiam como párias. Etiquetar uma mercadoria se transformou em algo pior do que roubar.
Vivendo na marginalidade, eu alternei esse período entre estudos, as brincadeiras próprias da infância e me esquivando da revolta dos consumidores assalariados.
A hiperinflação ficou no passado, mas hoje, errado seria uma criança trabalhando. Meus pais perderiam a minha guarda por exploração infantil e, provavelmente, abandono intelectual.
Seria melhor eu ser flagrado com uma metralhadora, sendo considerado uma pobre vítima da sociedade, em vez de ser surpreendido “armado” com o equipamento aumentador de preços, sendo identificado como o inimigo número 1 do brasileiro assalariado.
Felizmente, a hiperinflação foi afastada, a máquina remarcadora voltou a ser um objeto inofensivo, entretanto o trabalho infantil proscreve automaticamente os pais ou responsáveis. Os dedos-duros de sempre afastaram os amadores “Fiscais do Sarney”, tomando o seu lugar de direito. Unf... fiscais do Sarney...
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🔴 Ele não desiste
Sabendo da péssima safra de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e a disposição deles falar mal do Brasil, “pipocam” palestras, convenções, fóruns, bate-papos e, acho, rodinhas de fofoca. Se for no exterior, mesmo que com uma plateia lusófona, gera mais credibilidade.
Surgiu um cartaz duma tal “Brazil Conference”. A iniciativa é do LIDE, grupo de João Doria (olha ele aí). Incansável quando a inveja domina suas atitudes, ele não suportou a derrota que o afastou da vida pública e voltou a exercer a razão de sua vida política: conspirar.
Para esse evento, foram convidados detratores do governo federal para praticar o principal esporte da oposição ao presidente: “descer a lenha” no Brasil. Usando belas palavras, mas com raciocínio estreito, esses magistrados não conseguem impressionar ninguém com o mínimo de desconfiança. Quase sempre lendo ou contando com ouvintes abobalhados, soltam teorias persecutórias. Nos devaneios desses ocupantes do STF, existe um Gabinete do Ódio, “hackers” russos (tentando invadir o TSE) e manifestações (pacíficas como um piquenique) são chamadas de “atos antidemocráticos”.
Pegando carona nesse clima pesado, sempre covarde, João Doria ressurge, rapidamente, se dispondo a ser reconhecido como o principal “puxador de tapete” do presidente. Tenho certeza, o ex-pré-candidato dará um jeitinho de aparecer reivindicando a autoria de algum acontecimento que possa ser interpretado como uma derrota do Bolsonaro.
A pandemia surgiu como um dádiva para Doria abusar de toda a sua tirania, disfarçando-se de democrata e empático, fingindo chorar, ele mandou fechar tudo. Sempre agindo sorrateiramente, o colecionador de mandatos incompletos, por telefone, tentou enfraquecer o governo arrancando Paulo Guedes da Economia. Sabe-se lá, se outros nomes também receberam suas investidas.
Agora era o momento ideal para o ex-político pegar uma praia em Miami ou estender-se numa espreguiçadeira do Copacabana Palace; entretanto ele preferiu ser flagrado furando suas próprias ordens. Fique em casa, João Doria, por favor.
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🔵 Morrison Rock Bar
O “grande astro” da noite subiu ao palco. O barzinho de rock era bem acanhado, escondido na parte baixa da Vila Madalena, na verdade, Pinheiros. O local não lembrava nem de longe as grandes casas de espetáculos, muito menos os estádios. Havia pouquíssimo tempo para executar o rock mais tocado nas rádios em 97. Quem sabe, depois disso os mais distraídos se lembrariam de quem se tratava.
Embora digno, Henrique Lima não planejava isso para sua carreira: cantar e tocar para um punhado de bêbados num boteco de São Paulo. Pior que isso: alguém, embriagado e saudoso, berrando ininterruptamente para tocar “Bagulho no Bumba”, seu solitário sucesso.
Você que, sem ligar o nome à pessoa, pergunta: quem diabos é Henrique Lima? Eu respondo: o vocalista da banda “Os Virgulóides”. A banda, “descontraída”, surgiu no vácuo deixado com o desaparecimento dos “Mamonas Assassinas”.
O, então, despercebido músico paulistano sabia (estava acostumado) que após os primeiros acordes de ‘Bagulho no Bumba’ as coisas mudariam: Ele deixaria de ser o famoso “quem(?)” e a plateia olharia com mais atenção, talvez inveja.
Não deu outra, como esperado o velho sucesso, de tanto que tocou nas rádios e nas areias das praias, quando reproduzido ao vivo gerou comoção, um coralzinho honesto e despertou a memória afetiva na mais insensível das criaturas.
Por uns minutos até que foi legal lembrar da musiquinha que embalou alguns dos irresponsáveis finais de semana no litoral; mas, terminada a exumação da canção, tudo voltou a resumir apenas mais uma noite de sábado,
Entre conversas, risadas, vai e vens dos copos e alguns aplausos, Henrique Lima tocava como nos tempos de Rock In Rio ou com a mesma aplicação de quando vendia mais de 200 mil cópias.
É isso. Um dia você dedilha as cordas da guitarra e canta para milhares de pessoas; no outro, a mesma coisa distrai uma galera ensandecida, numa espelunca da Vila Madalena.
Henrique Lima parecia se vingar quando cantou: “É, é, é, é... Eu acho que o bagulho é de quem tá de pé”.
56
🔴 O terrível retrato
O menor dos males que a horrorosa reprodução poderia causar era o superfaturamento. Pois como a corrupção é praticamente obrigatória, a bem-intencionada suposta “homenagem” foi muito mal executada. O retrato dá calafrios em qualquer um que o encare.
A sinistra moldura foi encomendada por Geraldo Alckmim. A movimentação financeira talvez seja a explicação para a curiosa homenagem. Tentando reproduzir o que somente tecnologias como a toxina botulínica (botox), o Photoshop ou um filtro de imagens conseguiriam, o artista encarnou Leonardo da Vinci e pintou um José Serra parecido com um mordomo de filme de terror. Exibindo um sorriso sinistro, nada poderia ser mais parecido com a realidade. Na verdade, parecida é a cara macabra; o sorriso é que tentou dar um aspecto mais jovial. Sem sucesso.
Geraldo Alckmin, como se não demonstrasse um inconfessável péssimo gosto ao encomendar a horrenda peça, também expôs o lado mais obscuro da sua índole, aproveitando a oportunidade para exercer corrupção.
Agora, quem passa em frente ao retrato tem a desconfortável impressão de ser observado pela criatura da moldura. O ser enigmático retratado no quadro, justamente por representar José Serra, na tentativa de exaltar suas características mais positivas, exagerou no sorriso. Foi no exagero que o, vá lá, artista estampou um sorriso que, combinado com a artificialidade do conjunto, gerou um olhar jocoso, denunciador e reprovador. A simples presença do quadro deveria dissuadir um possível meliante de exercer seus métodos sub-reptícios.
A pretensa obra de arte acertou onde não pretendia e agora ameaça assombrar aqueles que cruzarem o caminho da incidental exposição. Se se duvidava que algo fosse mais terrível que uma encarada do próprio José Serra, a resposta é sim. Encarar a imagem do ex-governador é tão maléfico quanto.
O fato é que a, digamos, obra foi superfaturada. Encomendada para, por assim dizer, decorar o Palácio dos Bandeirantes, o autor pecou ao querer retratar um José Serra “filtrado”; se seguisse a carranca habitual, a reprodução sairia fiel ao modelo.
31
🔵 Uma infância destruída
Uma história de tristeza e lágrimas, um desenho desanimado. Essa pequena obra traumatizou toda uma geração. Era muito provável que crianças perderam o sono ao ver o infeliz Pinóquio ser impiedosamente torturado e espancado. Com o pior bordão de todos os tempos, nosso herói, chorando e lamentando tanto sofrimento, chamava: “vovozinhoooo”. A súplica chegava carregada de drama, o que aumentava a carga emocional de cada episódio.
Talvez por obra da globalização — ou, sendo um teórico da conspiração, do globalismo? — a historinha foi criada na Italia; depois de rodar o mundo, foi recriada no Japão e veio ser exibido aqui no Brasil.
Algum japonês, de mal com a vida, abusando da liberdade criativa e licença poética, barbarizou a criação italiana, meteu uma cabeleireira azul e um gorrinho ridículo. Não bastasse isso, em todos os episódios o boneco, insistindo em se comportar como gente, sofria um “bullying” insuportável e terminava tomando uma surra humilhante.
Conforme a história original, toda vez que mentia, seu nariz crescia. Só que, por crueldade do autor oriental, sua napa crescia como um galho de carvalho. Às vezes, nem o velho marceneiro Gepeto escapava do trágico desfecho. Gepeto, o marceneiro, era o miserável artífice do imprestável boneco de pau.
A censura, que ainda existia, dormiu no ponto e deixou passar um desenho que, para poupar a sanidade mental infantil, só devia ser reproduzido após a meia-noite e com uma psicóloga de plantão. É inexplicável permitirem que um ser humano, em incipiente formação, acompanhasse a lamuriosa e depressiva trajetória do boneco sofredor. A, aparente, inocente atração vinha com uma carga emocional negativa insuportável para qualquer ser dotado de empatia, ainda mais para um infante sem a completa formação.
O personagem principal possuía uma expressão simpática e uma apresentação amistosa e, ingenuamente, amigável. Essa crença na bondade humana só servia como armadilha para potencializar nosso sofrimento.
O roteiro era sempre esse: o brinquedo de carvalho saía alegremente de casa, então sofria um verdadeiro portfólio de barbaridades. Mesmo conhecendo o terrível destino do Pinóquio japonês, assistíamos, tendo fé na Humanidade e esperando um pouco de respeito ao boneco inflamável com gorrinho besta e cabelo azul.
76
🔴 Ônibus elétrico
Apesar de veículo elétrico aludir a algo futurista, tratando-se de ônibus, resgato à memória afetiva, quando eu era muito jovem, porém estes coletivos já eram arcaicos.
Os ônibus de 1949, antes do Tucuruvi, pareciam ter como destino algum país da Cortina de Ferro. Sempre que embarquei nesse trólebus, tive a impressão de ir, voluntariamente, a um Gulag (campo de concentração soviético). Só caía na real ao ver trabalhadores ou baladeiros (dependendo do horário).
Enquanto o ônibus elétrico esteve em circulação, tive um impasse “esquizofrênico”: o carro era exótico, feio, muito feio, ridículo ou mal executado? Depois da sua retirada de circulação (aposentadoria), exibido como peça de museu, cheguei à conclusão de que o veículo é lindo. Tá bem, exótico. Digo isso, com certa licença poética; se dissesse isto na época, eu seria excêntrico.
Rumo ao Butantan, Pinheiros, Mandaqui ou Tucuruvi, ía, devagar e sempre, o velho, pesado e lento, porém intrépido, estranho meio de transporte. Somente com muita atenção poder-se-ia (com uma arcaica mesóclise) perceber se ía ou vinha.
Velhos ou muito velhos, às cinco da manhã vinha subindo a rua Augusta a quinze por hora. Lento, contudo salvador, acolhedor e eficiente carro. Esse transporte público de características humanas, mostrava-se generoso com trabalhadores e baladeiros, gente de todos os cantos do Brasil, sóbrios e ébrios, pagantes e impostores. Estes, rastejavam embaixo de uma burocrática, porém ineficiente, borboleta (roleta ou catraca). Como o carro era elétrico, nos semáforos vermelhos e paradas de ônibus estabelecia-se um incômodo silêncio muito semelhante ao dos elevadores.
Hoje, aquele trólebus de 1949, com aspecto soviético, porém estadunidense, realiza passeios turísticos. Para quem sentou em seus bancos de couro, o coletivo, com características humanas, leva a uma volta ao passado.
O transporte coletivo parecia pouco convidativo por fora, mas era muito acolhedor, confortável e sonífero do lado de dentro. O que decretava o sono era o ranger das peças internas presas por parafusos gastos. Talvez essa aceitação e o saudosismo sejam frutos da visão do velho ônibus surgindo na subida da rua Augusta. Às cinco horas da manhã o sono só não era mais forte que a expectativa de aparecer o valente veículo exibindo o destino: Tucuruvi.
Cruzando ruas e avenidas de São Paulo, aquele trólebus se impunha e abria caminhos, transportando baladeiros e trabalhadores.
Hoje, aquele ônibus elétrico da CMTC (Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos) não circula mais, fica exposto no Museu dos Transportes Públicos. Virou peça de museu...