Lista de Poemas
🔴 O que é isso, companheiro?
Jean Wyllys promete retornar. Seja lá qual buraco da Europa ele se escondeu, certamente resolveu externar essa vontade sabendo que isso é uma ameaça. Mais que isso, como a ameaça é mediante a saída do Bolsonaro do Palácio do Planalto, o político filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT) imagina que será carregado em ombros amigos, no saguão do aeroporto, na sua imaginária volta à democracia.
O ex-deputado quer repetir a história, e como ela se repete como farsa, ele pode cumprir a promessa, já que a mentira é sua zona de conforto. Sua eleição foi uma mentira, a qual ele logo fez questão de “presentear” um amigo com o cargo.
Jean Wyllys diz que voltará para “reconstruir o Brasil. A questão é: se essa bravata não for sua arrogância habitual, por que ele não reconstrói a si mesmo? Um sujeito que cospe nas pessoas e gostaria de esperar um suposto fim do mundo entretido com sexo promíscuo e drogas não tem nada pra reconstruir.
Logicamente, a única chance de ele voltar ao País para, digamos, reconstruí-lo será com a vitória do Lula. Entretanto, pelo contrário, a ideia do presidenciável petista, que promete, sim, destruir o Brasil e não precisa de ajuda, é colocar o plano em ação junto a quem tenha alguma coragem.
Seja lá onde estiver, Jean Wyllys é muito mais útil longe, pois ficamos afastados das suas ideias ruins, do seu ódio e de sua raiva, bem como de sua pusilanimidade. E é bom sempre lembrar, como sua arma é o cuspe, sua ausência é uma medida sanitária.
O petista inventou um exílio para chamar de seu. Já que ninguém se incomodou com ele, o jeito foi inventar e “denunciar” uma falsa ou paranoica perseguição. Mais uma vez, o ex-deputado planejou a própria farsa para estrelar. Ele teria medo de estar na pele do Allan dos Santos, este sim, exilado e não pode pisar em solo brasileiro para evitar ser preso.
Jean Wyllys leu algum livro, viu algum filme ou ouviu algumas histórias fascinantes da emocionante década de 60 e resolveu roteirizar sua vida de acordo com um tempo que ele não viveu. O maior empecilho é que ele obriga outras pessoas a entrarem nessa “piração” particular e representarem um papel compulsório.
Esse cara já se fantasiou de Che Guevara. É compreensível, para psicólogos. É melhor não contrariá-lo.
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🔵 A ilha do medo
O objetivo era fugir do Carnaval. Fantasias, a música e a alegria de plástico poderiam ser trocadas por um retiro à base de cerveja, um feriadão longe da Capital e rock. Providenciamos o local ideal, barraca e partimos em dois casais para a “escondida” Prainha Branca.
De fato, a tal Prainha Branca era afastada. Difícil de chegar. Ônibus, trem, ônibus intermunicipal, balsa e trilha. Havia aquele sacrifício para desbravar uma prainha deserta. Depois daquela peregrinação, o que encontramos não foi um pedaço de areia inexplorado, ocultado por falésias e a Mata Atlântica. Para nossa surpresa, depois de vencer a Mata Atlântica, chegamos à sucursal da Grande São Paulo ou uma filial da piscina do Sesc Itaquera. Estava muito lotada, e não parava de chegar gente. A conclusão óbvia era que todos tiveram a mesma ideia: turistas querendo distância… de turistas.
A vantagem era que a praia era muito bonita e conseguimos escapar do Carnaval – em algum lugar tocava um disco do Steve Vai, esse som tomava conta de todo aquele trecho de litoral. Achamos um espacinho em frente ao Oceano Atlântico e levantamos acampamento. Se viesse um tsunami, assistiríamos resignados nossa própria morte, sem escapatória. Mas acordar pelo menos uma vez na vida com aquela vista valia o risco. Finalmente, tínhamos nossa “residência” com aquele quintal, em frente ao oceano ao som das ondas e Steve Vai – que tocava em “looping” eterno.
A rotina foi difícil, mas perfeita para quem estava disposto a abdicar dos confortos do planalto: tomar banho com água da montanha e viver a rotina de uma barraca. A adaptação ao novo dia a dia foi rápida.
Entretanto, logo pela manhã, depois de dormir ao som das ondas e Steve Vai e abrir a barraca pr’aquele visual de pintura, num passeio pela areia, havia um cadáver obstruindo o feriado prolongado. Infelizmente, lembramos de quem, no dia anterior, era apenas um bêbado muito louco com um copo na mão. Ele, talvez, entrou no mar naquele estado, e o mar o devolveu morto.
O acontecimento fatal derrubou nosso astral e estabeleceu como seria o clima.
Aquele final de semana era a configuração ideal para uma sequência trash de Sexta-feira 13. Em vez de uma cabana na floresta, uma barraca numa praia paradisíaca. Como, no final, apenas sobrevive o casal mais comportado, comecei a planejar como escapar dali, antes que começasse o massacre.
Ônibus urbano, metrô, trem, ônibus interestadual, balsa e trilha, na ida, era aventura. Na volta, o mesmo trajeto, apenas invertido, tornou-se interminável. Pelo menos o objetivo inicial foi alcançado: fugir do Carnaval.
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🔵 Tyson Free
Bairro de Santana, São Paulo, podia ser uma boa. Um barzinho com banda ao vivo: legal. O nome do bar era “Overdrive”; um lugar cuja tradução do nome é “ultrapassagem” não representava nenhuma ameaça. Detalhe importante: o ‘Overdrive’ era um reduto “punk”; passado o impacto inicial, todos conseguiram disfarçar o medo, prevalecendo a postura de quem não temia tribo urbana alguma que já pisou as ruas de São Paulo.
A bordo de um ônibus velho rumo a Santana, não havia motivo nem alguém admitiria a desistência. Chegando lá, pegamos algumas cervejas e fomos ao fundo do bar, onde uma banda destruía os tímpanos que insistiam em permanecer intactos. Mas éramos jovens e roqueiros, portanto ninguém teve a personalidade para reconhecer que aquele barulho era horrível. Então seguimos dentro da, digamos, casa... Através do corredor, examinando todo o trajeto, apenas piorou minha impressão. Espelunca foi a palavra perfeita que encontrei para descrever o local. A descrição inicial seria suficiente para manter-me longe dali, entretanto já era tarde demais, por isso sabia que a noite seria longa.
No fundo da espelunca, onde a banda “punk” ofendia o bom gosto, um sujeito repelia à base de socos e pontapés, todos que ousavam se aproximar arriscando “dançar” da mesma maneira. Observei a figura, assustado com a cena, do coturno ao boné: como disse, coturnos militares, calça camuflada e uma camiseta com a estampa do lutador Mike Tyson atrás das grades, com a “singela” frase: Tyson Free. O conjunto todo foi cuidadosamente composto para dissuadir qualquer um de nós a tentar uma proximidade num raio de 1 metro. Vendo aquele “punk”, entendi o que é enfrentar o vilão “master” na fase final do videogame. O “Tyson Free” levava a “dança” “punk” a sério, de maneira que entrar na pista e desafiá-lo era como subir num ringue. O resultado eram moleques sendo expulsos com socos e chutes, apesar da coragem.
No dia seguinte, passados o efeito do álcool e a adrenalina da música, as dores disseminadas pelo corpo trouxeram o arrependimento de ter ousado entrar, muito menos “dançar”, num local onde existia um “punk” gigante, de coturno, calça do exército camuflada e uma camiseta exigindo “Tyson Free”.
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🔵 Fecham-se os portões
O Corinthians estava com seu estádio em Itaquera quase pronto. O próximo jogo seria contra o Flamengo, adversário que nunca pude assistir porque não consegui entrar nesse mesmo estádio. Comprei o ingresso com antecedência, para evitar ficar de fora mais uma vez. O último jogo no Pacaembu, como mandante, antes do estádio próprio, seria contra a equipe carioca.
Durante o caminho e o jogo relembrei cada local, dentro e fora do estádio, onde assisti a vários jogos: arquibancada, numerada, tobogã, geral, alambrado, portões e morro. O morro era um terreno baldio onde se via algo como um sexto do campo. Coisa de corintiano (maloqueiro e sofredor). Além disso, entrei no gramado (em show de rock), conheci o Museu do Futebol e algumas partes internas do complexo esportivo.
Cenas tristes: porradas, bombas, sirenes, brigas de torcidas, tentativas de (e) invasão de campo e o saque do produto de um vendedor de amendoins (“de um lado esse carnaval, do outro a fome total...”).
Lembrei das pessoas que foram àquele campo comigo: pai, irmã, tio, primo, sobrinhos, namorada e amigos. Ali, Ronaldo Fenômeno fez um ‘hat trick’ (3 gols), a Gaviões da Fiel derrubou o portão do alambrado numa derrota, o Corinthians empatou, perdeu e ganhou.
O Pacaembu foi palco do último jogo de muitos jogadores e torcedores, literalmente. Aquele Corinthians 2 X 0 Flamengo foi o meu último jogo. Atualmente, vejo a destruição do Tobogã com a mesma tristeza, e até melancolia, de quem lembrava a antiga Concha Acústica do Pacaembu dos anos 40 como se fosse extirpado um pedaço de sua história. Faz parte.
O final da partida já havia sido há uns 30 minutos, o Pacaembu já estava fazendo eco e dava pra escutar os últimos jornalistas e funcionários do Estádio. Esperei até quase o fechamento dos portões. Quando vi a Gaviões da Fiel evadindo-se cantando Saudosa Maloca, de Adoniran Barbosa, calculei que era chegado o momento, saltei da cadeira e saí...
“... saudosa maloca, maloca querida
Que din donde nós passemos dias feliz de nossa vida...”
(Adoniran Barbosa)
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🔵 Should I stay or should I go? (Devo ficar ou devo ir?) Café The Wall - Bixiga
O que esperava de um bar de rock, na Rua 13 de Maio? Uma boa banda de rock e uma noite agradável. No entanto, a atitude rock n’ roll e o comportamento “punk” foram suficientes para destruir o banheiro e alterar a rotina do barzinho.
Tudo normal (considerando-se o estilo da casa), até que uma turminha de, digamos, delinquentes juvenis adentrou o banheiro. Todos muito loucos (como quem nunca se divertiu tanto), ao som de “Should I Stay Or Should I Go” do “The Clash”, os desajustados começaram a destruir o banheiro no ritmo da música. Também com pouca idade, achei conveniente aquela manifestação e corri usar o mictório. Sem conseguir segurar o riso (por causa da atividade inusitada), ouvi a sinfonia da destruição, composta de vários barulhos (inclusive vidros). O furacão foi embora. Um silêncio sepulcral denunciou que coisa boa não viria.
Na saída, notei que o cenário era pior do que eu previa: espelho, “dispensers” de sabonete líquido e papel toalha e demais objetos todos fragmentados. O que sobrou foi: sujeira, destroços e estilhaços de vidro e... claro, apenas eu como o responsável por tudo aquilo. Do lado de fora, os seguranças já me aguardavam. Sem nenhum sinal dos revoltados reais executores da destruição, não encontrei alternativa senão calmamente explicar tudo, justificando que se eu conseguisse fazer aquele estrago sozinho seria melhor chamar um padre exorcista.
A balada parou. Garçons, músicos, clientes e mais seguranças vieram me perguntar o que havia acontecido. Não sei se meu amigo ficou espantado quando descobriu que eu era o epicentro daquele contratempo, mas por outros motivos isso já seria esperado.
A gangue destruidora não teve coragem de fazer a acareação. Fui dispensado e saí da confusão, como quem caminha tranquilamente deixando uma explosão para trás (imagem cinematográfica).
Sem saber, não só pelo ritmo, a trilha sonora era conveniente: “Should I Stay or Should I Go?”.
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🔵 Noite dos clichês
Todos faziam questão de estampar uma cara de quem estava num bar de rock. Eu estava num território manjado, onde quase todos se esforçavam para parecer alguém mais interessante do que realmente eram. Com meu jeito despojado, bem como a parada repentina naquele barzinho, me faziam, sem esforço, parecer alguém pior do que realmente eu era. Isso às vezes funcionava, porque o campo para surpreender é enorme. Entretanto, algo poderia me introduzir num “lugar-comum”: o gosto por clichês.
O bar até que era bem legal, parecia e tinha o clima do porão de um navio — foi essa minha melhor descrição —, tinha uma boa banda de rock e estava lotado. Tudo dava a impressão de estarmos numa festa americana, na qual todos sabem os papéis que tinham a obrigação de representar. Cada grupinho refratário a interferências ou alguma mistura comprometedora: populares, atletas, nerds, esquisitos e os sem-grupo. Essa configuração é muito ‘Sessão da Tarde’, muito clichê. Esse desenho já seria o bastante para eu observar a ridícula movimentação, a diferença é que eu estava no meio daquele filminho meio bobo.
Para agitar mais ainda o que já não prometia tédio, um cara covarde e embriagado além da conta espancava sua (dele) namorada no banheiro. O boteco parou para conferir o que interrompia aquele caos organizado. Os seguranças aproveitaram a oportunidade de encontrar um indivíduo mais covarde que eles, então surraram, com alguma legitimidade, o rapaz. Com algum eufemismo, eu diria que o cliente foi “convidado a se retirar. Na verdade, ele foi jogado pra fora do nosso novo “templo de diversões”. Contudo, o baterista aproveitou o clima permissivo para tirar sua “casquinha”. O baterista, vendo que os seguranças transportavam um corpo desfalecido pelo álcool e alguns golpes, juntou as baquetas numa mão e castigou o outrora agressor como o bumbo de sua bateria.
Meio que querendo voltar para o ambiente de confraternização e seguindo aquele tácito roteiro clichê de classificação livre acima dos 14 anos, eu fui impulsionado a romper aquele silêncio constrangedor. Gritei “ROCK AND ROLL”, a banda começou a tocar e os clientes a beber, rir e conversar. Assim, a festa seguiu seu roteiro previsto, sem cortes, previsto como os clichês.
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🔵 Luz, câmera, ação
Parecia que finalmente havia chegado a hora. A equipe de filmagem era obrigada a me focalizar, bem como a iluminação revelar a minha atuação, em rede nacional. Bastava eu ficar atento e, quando anunciasse a matéria, liberasse o “play/rec”. Só isso.
Depois, com a gravação feita, coloquei a fita VHS no videocassete 4 cabeças. A cópia não estava muito boa, mas o registro histórico já valia a pena, ficaria para a posteridade.
O resultado não foi como esperei. Inicialmente, numa mistura de euforia e expectativa, quis exibir o material, achando que portava uma relíquia sagrada. Segundos depois, decepção, vergonha e constrangimento. Conformado com a ausência de registro, apontei o meu braço que surgiu num canto da tela da televisão. Gesticulando, avisei, chamando a atenção de todos: “Sou eu, sou eu”.
Sim, apareci no extinto noticiário policial do SBT, Aqui Agora. Estilo “espreme que sai sangue”, o programa vespertino policialesco era muito pior que Brasil Urgente e Cidade Alerta. Para imaginar o nível, basta contextualizar que o telejornal, de gosto duvidoso, foi exibido no canal do Silvio Santos no início dos anos 90 — época do “vale tudo” pela audiência, sem o politicamente correto para frear a apelação. O ‘Aqui Agora’, jocosamente apelidado de “Caqui e Amora”, possuía uma fauna bem exótica de apresentadores e, claro, de populares.
A “obra cinematográfica” na qual fui filmado, tratava-se de um assassinato. Correto, uma sangrenta cena de crime. Meu amigo e eu, sabendo da ocorrência, fomos engrossar a massa de curiosos. Foi quando a câmera circulou, que fomos capturados pelas lentes do popularesco ‘Aqui Agora’ e espalhados do “Oiapoque ao Chuí”. Entre policiais, repórteres, a vítima e muito sangue, tive um breve registro entre outros populares.
Estrelar esse jornaleco, como curioso, numa cena de crime, na periferia de Guarulhos, não foi nada edificante. Só mesmo o tempo, um tantinho de maturidade e saber rir dessa situação para tornar esta historia digna de ser contada.
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🔵 Liberdade ainda que tardia
Logicamente, aconselho que ninguém faça algo parecido. É perigoso em vários sentidos. Entretanto, trabalhando durante o dia e estudando de noite, ducha quente, jantar no prato e cama aconchegante se tornam urgentes. Assim, cabular aula não era uma infração, mas uma necessidade.
Fugir do colégio era muito desafiador, lembrando a dificuldade enfrentada por quem tentava ganhar o lado de fora da prisão de Alcatraz.
O primeiro desafio era juntar e convencer um punhado de rebeldes que “não dessem pra trás”. Reunida a turma, que bem parecia ser a escória do sistema estudantil da época, era chegado o momento de despender um esforço muito maior que qualquer equação exigiria. Mas antes, uma observação: o aspecto era desanimador. Roupas mal ajambradas, cadernos e canetas insistindo em desafiar a gravidade, postura alquebrada e disposição que denunciava que não conseguiríamos chegar muito longe. Contudo, o motivo da fuga parecia nobre, apesar de estar ciente que alguns de nós, assim que ganhassem as ruas, iriam ao fliperama (casa de jogos eletrônicos).
De qualquer maneira, aqueles maltrapilhos haveriam de estar lá fora, sob o risco de ficarem entregues aos vícios de fora da sala de aula: cigarro e truco. A aula de matemática, de qualquer forma, ficaria fora do cardápio.
Apesar de não frequentarmos as aulas de Educação Física, era necessário algum preparo físico, porque, logo de cara, escalaríamos um alambrado de um 3,5 mts. Vencido o alambrado, tivemos que atravessar uma quadra poliesportiva. Cumprimos esta etapa, correndo curvados para diminuir a silhueta da fila de fugitivos na escuridão, sempre tomando cuidado para não despertar a atenção do inspetor de alunos.
Logo depois, uma valeta imunda acrescentaria cuidado à fuga. Era tarde demais para haver algum desistente, então seguimos o longo percurso tomando cuidado para não aumentar a escatologia da ideia porca. A valeta seguia por um caminho que, provavelmente, terminaria na sarjeta, logo, na rua. Não poderia haver lugar mais apropriado para 5 jovens “matando” aula: a sarjeta. Porém, havia mais um empecilho, a valeta seguia íngreme e poderia causar um acidente constrangedor. Como a combinação de fatores era vergonhosa, decidimos subir por uma floresta que devia ser resquício da Mata Atlântica. Como não troquei um punhado das malditas equações por rudimentos de ornitologia e botânica resolvi enfrentar aquela pequena selva sem maiores observações.
Aquele pequeno matagal ao longo da montanha úmida seria a etapa mais difícil, porém a derradeira, por isso o ânimo, já que estávamos a um passo de conquistar a tão sonhada liberdade. Foi perseguindo este objetivo, sujos, machucados, suados e quase chorando, mas com “sangue nos olhos”que pulamos o muro que separava o interior opressor da escola da imensidão permissiva da rua.
Alcançando o lado de fora da escola, acreditamos ter conquistado a sonhada liberdade; anos depois, mas a tempo, descobri que o caminho mais curto, seguro e fácil de conquistá-la é dentro da sala de aula. Em concursos públicos e vestibulares, tenho certeza, as questões que eu não soube responder foram ensinadas nas aulas que cabulei.
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🔵 Jornal pra embrulhar peixes e bananas
Não perdia tempo. Assim que anunciavam que havia uma pilha de jornais, eu corria resgatá-los. Eu vendia os impressos na feira, que usava-os para embrulhar bananas e peixes. Era um triste fim para textos de excelentes jornalistas, mas poderia ser bem pior. Os periódicos eram das semanas anteriores, portanto velhos para manter-me por dentro dos últimos assuntos, porém novos para embrulhar peixes e bananas.
Essa era uma maneira de juntar algum dinheiro e exigir uma esfirra, um copo de ‘Coca’ e troco de bala no recreio da escola.
Essa prática laboral era precocemente capitalista, embora voluntária. Atualmente seria considerada trabalho infantil, talvez abandono de incapaz, e eu estaria condenado a engolir a merenda escolar servida pela prefeitura de Guarulhos. Também ficaria entregue à completa ignorância, isso porque não me desfazia dos jornais sem que fossem folheados. Com esse ritual, não deixava escapar as principais reportagens, colunas, opiniões, suplementos de cultura, esportes e, lógico, as tirinhas. Comigo, os noticiosos exerciam a nobre função de formar alguém intelectualmente. Após minha pueril triagem, a Folha de São Paulo cumpriria uma função menos nobre.
Na feira-livre de domingo, não sei por qual motivo, eu conseguia realizar o meu comércio com certa vantagem. Talvez fosse romântica a imagem de um garotinho arrastando um carrinho cheio de jornais entre frutas, legumes e verduras.
Antigamente, a Folha de São Paulo era escrita por escritores melhores, não militantes políticos por isso era mais confiável; hoje, com tiragem muito menor, é eivada de “fontes” (“bucha de canhão”) pouco confiáveis: é um tal de “dizem especialistas” (escolhidos) e “diz leitor (quem?).
Manchetes confundem-se com “click bait” (caça clique) e matérias são escritas com a profundidade de um tuíte. “Ideias” já não são submetidas a uma reflexão mais embasada ou à lata do lixo.
Atualmente, jornalistas escrevem ameaças de morte: soma de militância política barata, falta de criatividade e sabe-se lá o que mais, talvez ausência de caráter. Nesse caso, os jornais já não sirvam nem para embrulhar bananas e peixes. A única utilidade é algo que nem sequer citarei.
“Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz”.
Raul Seixas cantou, alertou ou profetizou?
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🔵 Um bom espetáculo
Cheguei no histórico teatro da PUC, o Tuca. Ao mesmo tempo, vinha o grupo musical, com visual típico de roqueiros. Tinha certeza que eu não havia errado, aquele ‘show’ mudaria minha relação com a Música.
Adentrei um ambiente novo, para mim, e estranho para os espetáculos musicais que eu conhecia, mas não hostil. Tudo era diferente e muito confortável, comparado aos festivais de estádios. Lá, sim, nos antigos estádios o território era hostil e tudo concorria para que o espectador vivesse a pior experiência possível. Mas, ignorando os obstáculos — talvez pela pouca idade, muita energia e disposição para enfrentar quaisquer autoridades e proibições —, aquilo era divertido.
Alguma mudança estava acontecendo. Cabelo bem penteado, bem vestido e comportado, parecia até que eu estava indo a um casamento. Mas não, ali era o teatro da PUC, mas a apresentação não seria associada a nenhuma manifestação estudantil. Acostumado a encher a cara com cerveja em festivais de rock, talvez fosse chegado o momento de degustar um café e mastigar um ‘croissant’.
Encontrei a fileira e minha cadeira na plateia. Em vez de AC/DC, Nirvana e L7, ouvia Gilberto Gil, Djavan e outros músicos que, ao invés de gritarem, apenas cantam. Enquanto lia um programa do teatro, relaxava ao som da MPB ambiente. E assim foi, até desligarem o som, apagarem as luzes, informarem as instruções de segurança, darem três toques sonoros e uma voz desejar “um bom espetáculo”.
O conjunto Boca Livre entrou no palco do Tuca e “destruiu”. Aquilo representou uma disrupção — ou um chamado — em tudo o que eu entendia como música tocada ao vivo. A partir dali, um semitom não seria mais tolerado e era hora de eu tomar uma atitude e aprender a tocar violão.
Saí dali sem tomar o café, mas crente de que a música boa e inspiradora não vinha de tão longe, como Seattle, e arremessada num estádio de futebol para uma multidão ensandecida; poderia estar aqui no Brasil, num teatro de Perdizes ou num barzinho do Bexiga sendo executada para um auditório bem comportado.
O grupo sempre me remeteu a um passado distante. Quando, no rádio, tocavam boas, contudo velhas canções, vinham como algo empoeirado. Entretanto, na década de 90, na casa da minha irmã, assisti a uma rápida entrevista, bem como a nova formação do Boca Livre, num programa de TV. Já não tinha ficado perdido no passado.
A apresentação do Tuca foi só a primeira que vi, depois fui a muitas.
Em 2021, a polêmica dessas vacinas e tudo o que envolve a polarização cindiu o Boca. Concluindo: aquela reformulação do conjunto, nos anos 90, ficou muito no passado, empoeirada.
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