Lista de Poemas
Capítulo 1 — Oftalmologista 💊
Algumas complicações talvez fossem dificuldades oftalmológicas (mesmo que também motoras), afinal tudo surgiu juntamente à vista dupla. Como o relato, em casa, do que estava acontecendo não surtia efeito, fui ao médico oftalmologista, achando que a complicação era por causa da falta do uso dos óculos.
No consultório, o médico surgiu. A primeira impressão do que vi, me deixou ressabiado. A cara de fugitivo de manicômio não assustaria muito, contanto que o diagnóstico fosse preciso e animador. A real preocupação começou quando notei algo muito errado com o homem de branco.
Com a proximidade da traquitana para “as vista”, ouvi os intermináveis estalinhos bilabiais que o doutor disparava. Certamente, numa distância socialmente aceitável eu não teria percebido o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Mas com a proximidade do exame oftalmológico eu ouvia muito próxima e com muita frequência a emissão dos estalinhos. Isso só me deixava mais nervoso. Era assustador ter que admitir, mas o responsável pelo tratamento talvez fosse beneficiado pela política antimanicomial. Pior, um fugitivo de algum sanatório para pacientes psiquiátricos de alta periculosidade. Lógico que fiquei apavorado ao constatar que o doutor precisava de tratamento urgente.
A espera causava angústia à medida que só aumentava a suspeita de que o resultado não seria nada animador, de modo que eu já lembrava (como num filme) dos excelentes dias vividos (até o atual 2009), adivinhando que dali pra frente tudo seria diferente.
Resultado: solicitação de tomografia computadorizada. Saí do oftalmologista que necessitava de ajuda médica e fui ao Hospital do Servidor Público. O doutor com tique nervoso estava no caminho correto. O que estava desencadeando os sintomas era neurológico, portanto grave. Dei o fora dali antes que eu saísse com TOC herdado do “médico maluco”.
Corri para o Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE), no Ibirapuera, a fim de realizar o exame solicitado. Atravessei a Avenida Tiradentes correndo. Não sabia que aquele seria meu último pique e ficaria internado por 2 meses (incluindo UTI).
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Polarização 🔴
A polarização é boa. Não, é ótima. Pensando bem, é excelente! A polarização significa dois pensamentos diferentes. O contrário é o pensamento único, que tacha a discordância como “fake news”, discurso de ódio, atos antidemocráticos ou coisa de robôs.
Cuidado com a intenção de quem quer rotular e eliminar a polarização, principalmente quem lança mão da palavra/coringa: democracia e suas variantes. A polarização só é ruim quando gera briga e separação. Os Estados Unidos, exemplo de democracia e liberdade, vivem uma polarização eterna: republicanos e democratas.
Alexandre de Moraes, copiando o pensamento de Umberto Eco, disse: “a internet deu voz aos imbecis”. Concordo em parte. Dou razão a ele quando vejo suas “lives” e tenho acesso a fragmentos do seu, por assim dizer, pensamento fora dos autos. Discordo por perceber que a internet também deu voz a gênios, norte-americanos, russos, brancos, negros, corintianos, palmeirenses, você e eu. Democracia, igualdade, tolerância, liberdade de expressão não são apenas palavras.
O Brasil levantou do berço esplêndido e abriu mão de ser o eterno “país do futebol” e começou a discutir política. Percebeu que quem chamava o brasileiro de acomodado por sempre acreditar que o Brasil era o “país do futebol”, “o país do futuro”, “Deus é brasileiro”, “o brasileiro não sabia votar” etc é quem se incomoda com o brasileiro informado politicamente e deseja que a novela, o carnaval e o futebol ocupem as mentes e corações.
A grande rede de comunicação surgiu com a intenção de distraí-los com animaizinhos fazendo gracinhas e demais meiguices. No entanto, mentes mais privilegiadas vislumbraram vastas possibilidades. Quando a tecla mágica “Enter” começou a exibir “a coisa real” (the real thing) as mídias tradicionais perderam a narrativa, aí era tarde demais.
Indesejável para muitos, mas esse poder chegou aonde jamais sonhariam, suspeitaram e desejariam que chegasse. Essa briga aconteceu nas indústrias fonográfica e cinematográfica. Spotify e Netflix são exemplos de quem venceu. Tudo isso chegou a um ponto sem volta.
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Dilma e o diabo 🔴
Dilma Vana Roussef, nossa mais fiel tradução da incapaz capaz de tudo. Sem pudor, e com o poder destrutivo de uma variante do coronavírus, governando, ela quase destruiu o Brasil em favor de uma causa muito particular.
A presidenta guarda uma intimidade muito grande com o “Coisa Ruim”. Em momentos difíceis, ela invoca o Bicho. Essa simbiose só pode ser fruto de uma amizade muito antiga. Talvez um acordo. Nada pode ser duvidado de quem arrematou a refinaria de Pasadena. Nunca se sabe o que foi assinado, muito menos num remoto passado, numa encruzilhada qualquer. Não é de graça que qualquer pessoa chega ao poder.
Para derrotar o adversário do PT, Dilma prometeu “aliança até com o diabo”. Novamente, estreitando laços com o Cramunhão. Talvez fosse pela democracia. Não foi a primeira vez.
Querendo vencer a eleição de 2014, a “Querida” ameaçou botar em campo seu parceiro de todas as horas. Na ocasião, ela disse: “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Eu acredito nisso. A propósito, ela alcançou seus desejos. Deve ser sido, de novo, pela democracia.
Minha indagação é a seguinte: Se Dilma tem coragem, e até desenvoltura, de recorrer ao Cão-Tinhoso em público, o que não faria no escuro do seu quarto?
Embora a ex-presidente já tenha arriscado se comunicar em inglês, espanhol e francês, sem ao menos se fazer entender em português, não conseguiu evitar o “impeachment” — ou, como dizem, golpe.
O impeachment e a não eleição para senadora talvez sejam parte dos benefícios que não entraram no pacote do acordo obscuro. Mas uma pessoa como ela ter chegado à Presidência! Isso é obra digna de feijões mágicos ou coisa do gênio da lâmpada.
Quando a Dilma falava em “pacto” social dava calafrios. O ato falho talvez revele porque a governanta presidiu o Brasil e era aplaudida em seus inesquecíveis discursos.
Enfim, têm pessoas que fazem de tudo para vencer eleições e sabemos que o que os move não é a vontade de ajudar o Brasil. Na briga pelo voto cristão tem candidato rezando pra Deus e acendendo a uma vela pro Cão.
A presidenta guarda uma intimidade muito grande com o “Coisa Ruim”. Em momentos difíceis, ela invoca o Bicho. Essa simbiose só pode ser fruto de uma amizade muito antiga. Talvez um acordo. Nada pode ser duvidado de quem arrematou a refinaria de Pasadena. Nunca se sabe o que foi assinado, muito menos num remoto passado, numa encruzilhada qualquer. Não é de graça que qualquer pessoa chega ao poder.
Para derrotar o adversário do PT, Dilma prometeu “aliança até com o diabo”. Novamente, estreitando laços com o Cramunhão. Talvez fosse pela democracia. Não foi a primeira vez.
Querendo vencer a eleição de 2014, a “Querida” ameaçou botar em campo seu parceiro de todas as horas. Na ocasião, ela disse: “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”. Eu acredito nisso. A propósito, ela alcançou seus desejos. Deve ser sido, de novo, pela democracia.
Minha indagação é a seguinte: Se Dilma tem coragem, e até desenvoltura, de recorrer ao Cão-Tinhoso em público, o que não faria no escuro do seu quarto?
Embora a ex-presidente já tenha arriscado se comunicar em inglês, espanhol e francês, sem ao menos se fazer entender em português, não conseguiu evitar o “impeachment” — ou, como dizem, golpe.
O impeachment e a não eleição para senadora talvez sejam parte dos benefícios que não entraram no pacote do acordo obscuro. Mas uma pessoa como ela ter chegado à Presidência! Isso é obra digna de feijões mágicos ou coisa do gênio da lâmpada.
Quando a Dilma falava em “pacto” social dava calafrios. O ato falho talvez revele porque a governanta presidiu o Brasil e era aplaudida em seus inesquecíveis discursos.
Enfim, têm pessoas que fazem de tudo para vencer eleições e sabemos que o que os move não é a vontade de ajudar o Brasil. Na briga pelo voto cristão tem candidato rezando pra Deus e acendendo a uma vela pro Cão.
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🔵 14 Bis e as meninas dançarinas do Centro Cultural 🔵
Chegamos atrasados, mas o show não havia começado. A sorte foi não existir lugar para sentar. O jeito era ficar em pé ou sentado no chão... ao lado e da mesma altura do palco. Foi simplesmente o melhor lugar para se assistir a um show musical: o 14 Bis.
Foi muito interessante testemunhar a tensão de um show. Estávamos tão próximos que os impropérios do Claudio Venturini e Marcão pareciam endereçados a nós. Entretanto, era o “roadie” que, entre fios e botões, recebia os xingamentos, procurando a regulagem ideal do som.
Ver uma apresentação tão próximo do palco era uma experiência única, mas também frustrante, porque eu estava acostumado a assistir, de longe, a uma ilusão. Contudo, pelo contrário, o que testemunhei foi o conjunto musical, cujas letras falam de futuro, esperança e amor, distribuindo farto repertório de palavrões para o pobre funcionário. Sendo assim, a magia da música e seus significados perderam sua magia e tudo parecia uma fábrica de salsichas. Diria mais, eu paguei para testemunhar o Claudio Venturini e o Marcão agindo como quem briga no trânsito ou em um boteco. Jamais pagaria para isso. A decepção foi como visitar a cozinha de um restaurante francês e encontrar larvas, ratos e baratas.
No entanto, algo longe do concerto chamava mais a atenção. Duas moças dançavam, cabelos compridos soltos, roupas indianas e descalças. As duas pareciam estar num transe, numa dança pagã, reverenciado o Lua. Confesso, aquilo estava muito mais interessante que o show do 14 Bis e seu festival de reclamações.
O ineditismo e a inesperada performance foi notada pelo 14 Bis, de modo que o humilde roadie teve um descanso merecido. Suspeito até que o incrível número de dança ocupou a atenção do garoto. Enfim, o técnico, depois de “comer o pão que o diabo amassou”, teve seu sossego, assistindo de graça a um show na hora do trabalho.
Justamente quando fiquei no pé do palco, teoricamente no melhor lugar, o melhor espetáculo estava na plateia.
Foi muito interessante testemunhar a tensão de um show. Estávamos tão próximos que os impropérios do Claudio Venturini e Marcão pareciam endereçados a nós. Entretanto, era o “roadie” que, entre fios e botões, recebia os xingamentos, procurando a regulagem ideal do som.
Ver uma apresentação tão próximo do palco era uma experiência única, mas também frustrante, porque eu estava acostumado a assistir, de longe, a uma ilusão. Contudo, pelo contrário, o que testemunhei foi o conjunto musical, cujas letras falam de futuro, esperança e amor, distribuindo farto repertório de palavrões para o pobre funcionário. Sendo assim, a magia da música e seus significados perderam sua magia e tudo parecia uma fábrica de salsichas. Diria mais, eu paguei para testemunhar o Claudio Venturini e o Marcão agindo como quem briga no trânsito ou em um boteco. Jamais pagaria para isso. A decepção foi como visitar a cozinha de um restaurante francês e encontrar larvas, ratos e baratas.
No entanto, algo longe do concerto chamava mais a atenção. Duas moças dançavam, cabelos compridos soltos, roupas indianas e descalças. As duas pareciam estar num transe, numa dança pagã, reverenciado o Lua. Confesso, aquilo estava muito mais interessante que o show do 14 Bis e seu festival de reclamações.
O ineditismo e a inesperada performance foi notada pelo 14 Bis, de modo que o humilde roadie teve um descanso merecido. Suspeito até que o incrível número de dança ocupou a atenção do garoto. Enfim, o técnico, depois de “comer o pão que o diabo amassou”, teve seu sossego, assistindo de graça a um show na hora do trabalho.
Justamente quando fiquei no pé do palco, teoricamente no melhor lugar, o melhor espetáculo estava na plateia.
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Bolsa Família 🔵
Cada estande ou palestra só tinha um assunto: dinheiro; os papos com amigos e parentes giravam em torno de um único tema: investimento; eu gostava de visitar dois lugares: corretora e Bovespa; meu computador era ligado quando abria o pregão e desligado ao término da transação de papéis; bancas de jornal, programas de rádio e “sites”, praticamente tudo o que remetesse ao mercado bursátil era do meu interesse; até o “economês” foi instalado no meu vocabulário.
Entrei nessa no auge da crise de 2008. Não deixou de ser uma estratégia, pois o mercado estava em baixa (barato). Acontece que os outros investidores estavam saindo correndo, talvez da vida. Contrariando o conhecido “efeito manada”, o mercado acalmou. A longo prazo compensava.
O Mercado de Capitais era meu novo videogame, a diferença eram os valores que eu ganhava ou perdia em compras e vendas que foram realizadas com a volúpia e a facilidade de um toque no teclado do computador on-line. Eu fui um investidor classificado como “agressivo”. Meus “day trades” (compra e venda) talvez revelassem mais um sinal patológico de ansiedade do que uma aversão ao risco de “dormir comprado”.
Eu percorria corredores, entrava em estandes, assistia a palestras e pegava brindes na Expomoney, a Disneylândia de um legítimo porco capitalista.
“Initial Public Offering” (IPO), dividendos, “day trade”, bastava decorar algumas palavras e expressões (várias em inglês) e falar um “economês” castiço e demonstrar alguma desenvoltura no universo de compra e venda de ações, para servir-se na mesa de café-da-tarde que a corretora dispunha aos investidores. Para dispor do maravilhoso banquete, bastava mimetizar o Sardenberg ou, inclusive, a Miriam Leitão. Nesse debate, eu pude, enfim, aplicar meus conhecimentos da Crise de 1929.
Observando a voracidade como os outros investidores atacavam a mesa de comida, tive a absoluta impressão de que não era só eu que, apesar da roupa social, dava prejuízo à corretora. Acredito que naquele auditório só havia picaretas fingindo ser Warren Buffet, inclusive a turma da mesa diretora. Nem alta da Petrobras e Vale eram mais importantes que aquele sanduíche de presunto e queijo. Pelo menos naquele momento.
Éramos uma turma brincando de gente séria. Igual a políticos, fingíamos estar preocupados com o futuro da nação. Na verdade, como interesseiros que éramos, tudo o que nos unia eram: a ganância, o medo e a fome.
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🔵 Corinthians - Série B (a arte de cair para cima)
Não seria um domingo qualquer. Apesar de eu ir a um jogo de futebol, não era uma partida normal e eu assistiria num local diferente. O Corinthians poderia ser rebaixado de divisão e eu torceria para que isso não ocorresse. Fui ao Parque São Jorge, clube do Corinthians.
Desci do ônibus na Estação Carrão e fui andando até o clube. Confiante, comprei um bandeirão na rua São Jorge.
O espaço armado para a torcida era estrategicamente localizado ao lado da lanchonete. Havia mais gente do que eu esperava e, surpreendentemente, uma turminha da temida torcida uniformizada. O clima geral era bom e a expectativa, muito positiva. Alguns repórteres e fotógrafos esperavam, como sempre, entrevistar algum corintiano revoltado ou em prantos. Isso, provavelmente, venderia muitos jornais, revistas e renderia matérias icônicas. Seria uma boa aparecer na televisão, mas nunca nessa situação.
O Timão, em 2007, tinha uma equipe que não fazia jus ao apelido. Além de estar jogando muito mal, dependíamos de outro jogo. As garrafas de cerveja foram esvaziando, o álcool correndo no sangue da galera, os semblantes de preocupação se instalando, algumas unhas sendo roídas e os jornalistas se preparando para uma longa jornada de trabalho.
Final Grêmio 1 X 1 Corinthians e Goiás 1 X 0 Internacional. Caiu para a Segunda Divisão! Série B! Rebaixado! Isto não estava previsto para aquele 2 de dezembro. Mas o clima de incredulidade impedia a movimentação, exceto dos repórteres. Até voar a primeira cadeira. O clima de indignação tomou conta. Detalhe: a equipe e comissão técnica estavam muito longe (Porto Alegre) para a torcida descontar toda a sua fúria. O que havia ali ao lado: sala da diretoria, sala de troféus etc.
Ao primeiro sinal, a revolta foi geral. Como o clube era o único objeto “danificável” que representasse a revolta corintiana por perto, em pouco tempo a rua São Jorge, 777 estava lotada de “corintiano, maloqueiro e sofredor (graças a Deus)” e policiais.
Os jornalistas estavam à caça de uma imagem de alguém chorando, xingando ou quebrando tudo. Conclui que não seria uma boa sair na capa do Lance com a legenda: Vive um drama! Tampouco me orgulharia ser reconhecido como o “cara do Globo Esporte”. Me afastei de tudo aquilo.
Eu até que demorei para sair do pior lugar para estar naquele momento: a representação do fracasso futebolístico, o clube. Para piorar, o bandeirão ficou com essa “marca”, além de ter caído o preço majorado pela esperança.
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O quadro do médico/diabo 🔵
Esta história parece um conto fantástico do Edgar Allan Poe, um surpreendente episódio de Além da Imaginação ou um capítulo horripilante de Contos da Cripta, entretanto é uma aventura verdadeira. A passagem foi tão inacreditável, que para escrevê-la tive que recorrer ao meu irmão para confirmar se o que meus olhos testemunharam foi o mesmo que os dele. Tudo aconteceu há uns 40 anos, portanto na infância, por isso a desconfiança se aquilo realmente ocorreu ou é uma construção de uma imaginação fértil.
Entre um amigo, meu irmão e eu, alguém teve a mente devidamente desocupada para sugerir a invasão de uma casa abandonada. A residência antiga tinha um aspecto bem fantasmagórico. Seus antigos ocupantes estavam todos mortos, porém a mobília permanecia em seu interior. Tudo isso agregava com a atmosfera assustadora.
Então, com idade insuficiente e coragem (ou curiosidade) de sobra, enfrentamos a velha casa que guardava mistérios e lendas. Chegando lá, o ranger da porta, a escuridão e o assoalho de madeira não foram suficientes para nos dissuadir da infeliz ideia e recuarmos.
Os pertences intactos davam a clara ideia de que a antiga moradia não fora saqueada nem serviu de abrigo a moradores de rua ou usuários de drogas. Mas uma coisa intrigava: havia um maquiavélico laboratório, que provavelmente pertencia ao médico falecido. Maquiavélico porque nele constavam recipientes com substâncias destruidoras. Exemplo: ácido sulfúrico.
Observando cada detalhe e exclamando qualquer descoberta que reconstituísse os estranhos hábitos dos moradores excêntricos, alguém viu, apontou e avisou com voz trêmula e apavorada um objeto que faria nos arrepender de ter entrado naquela casa abandonada: um quadro com uma pintura do diabo (com traje de médico) tratando um paciente. Aquela pintura trazia várias dúvidas: quem (e com qual inspiração) se sujeitaria a retratar tão horrorosa cena? A imagem é real ou veio da “inspiração” do artista? Quem se sentiria à vontade tendo um quadro com aquela figura decorando a sala da residência?
Aquilo foi o bastante para concluirmos a triste experiência e decretarmos que aquela edificação era realmente mal-assombrada. Acontecimentos estranhos e desastrosos se sucederam
Tempos depois, tudo foi derrubado e alguém recolheu o quadro. Algumas lojas populares foram construídas no terreno de esquina (encruzilhada), de modo que alguma loja ocupa o exato local do “quadro do médico/diabo”.
Entre um amigo, meu irmão e eu, alguém teve a mente devidamente desocupada para sugerir a invasão de uma casa abandonada. A residência antiga tinha um aspecto bem fantasmagórico. Seus antigos ocupantes estavam todos mortos, porém a mobília permanecia em seu interior. Tudo isso agregava com a atmosfera assustadora.
Então, com idade insuficiente e coragem (ou curiosidade) de sobra, enfrentamos a velha casa que guardava mistérios e lendas. Chegando lá, o ranger da porta, a escuridão e o assoalho de madeira não foram suficientes para nos dissuadir da infeliz ideia e recuarmos.
Os pertences intactos davam a clara ideia de que a antiga moradia não fora saqueada nem serviu de abrigo a moradores de rua ou usuários de drogas. Mas uma coisa intrigava: havia um maquiavélico laboratório, que provavelmente pertencia ao médico falecido. Maquiavélico porque nele constavam recipientes com substâncias destruidoras. Exemplo: ácido sulfúrico.
Observando cada detalhe e exclamando qualquer descoberta que reconstituísse os estranhos hábitos dos moradores excêntricos, alguém viu, apontou e avisou com voz trêmula e apavorada um objeto que faria nos arrepender de ter entrado naquela casa abandonada: um quadro com uma pintura do diabo (com traje de médico) tratando um paciente. Aquela pintura trazia várias dúvidas: quem (e com qual inspiração) se sujeitaria a retratar tão horrorosa cena? A imagem é real ou veio da “inspiração” do artista? Quem se sentiria à vontade tendo um quadro com aquela figura decorando a sala da residência?
Aquilo foi o bastante para concluirmos a triste experiência e decretarmos que aquela edificação era realmente mal-assombrada. Acontecimentos estranhos e desastrosos se sucederam
Tempos depois, tudo foi derrubado e alguém recolheu o quadro. Algumas lojas populares foram construídas no terreno de esquina (encruzilhada), de modo que alguma loja ocupa o exato local do “quadro do médico/diabo”.
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💊 Capítulo 2 — Hospitalizado 💊
Eu me sentia estranho porque eu era um estranho. Quando resolvi sair do quarto, não sabia que iria encontrar um lugar que, para muitos, funcionava como um clube. Mas era um hospital.
Aquele uniforme amarelo claro desbotado, somado à minha crescente dificuldade para caminhar, portanto débil, dava a impressão de ser um louco ameaçador à solta.
Fui ao salão central daquele andar do hospital. A escadaria havia sido dominada pelos fumantes e convertida num irrespirável, embora animado, fumódromo. A cada aproximação, crescia o que parecia ser a reunião de elenco do “The Walking Dead” ou qualquer outro filme de apocalipse zumbi.
Notei um inexplicável orgulho de quem estava institucionalizado. Essas pessoas faziam questão de demonstrar conhecimento de como as coisas funcionavam ali, o dia a dia, horários, atalhos e quem é quem. Eu só queria sair dali. Aquela não era a minha realidade. Ali não era o meu lugar.
Aos poucos, os pacientes voltaram para seus quartos sem precisarem ser chamados, conhecendo a rotina, respeitando o horário do café, dos remédios ou exames. Ainda refletindo como alheio àquilo tudo, concluí que, ali dentro como aqui fora, sempre os mais inseguros precisam de uma turma para se “garantir”. Naquele ambiente, esse local era o fumódromo.
Para muitos, aquela janela do 12º andar já significou a solução de todos os problemas. Para mim, aquela ampla janela me separara, temporariamente, de tudo de bom que já vivi e as escadas (ou o elevador), de tudo de bom que viria.
Ficamos eu e uma budista, que parecia ser a única pessoa não institucionalizada, não fumante, ainda com uma vida do lado de fora daquele hospital, por isso, alguém que me entenderia. A budista acertou ao oferecer o que julgou possuir de maior valor. Compartilhou um mantra: nam myoho renge kyo.
Para quem achou que o máximo que ganharia naquela escada era muita fumaça na cara, um mantra ofertado por quem queria sair dali, parecia íntimo, especial, raro e revigorante.
“Todos têm a capacidade de superar qualquer dificuldade e de transformar seu sofrimento a cada instante”.
(Pensamento budista)
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🔵 Os porões da 25 de Março 🔵
Zonas Norte, Sul, Leste, Oeste, Centro e outras cidades. Trabalhando como promotor de vendas em São Paulo, conheci pessoas, experimentei sabores e tive contato com idiossincrasias de cada bairro. No entanto, foi na região central que cheguei à pior situação que eu jamais havia arriscado conhecer. Se eu houvesse sonhado com essa asquerosa provação, acordaria aliviado, sem desejar tão triste realidade ao meu pior inimigo ou à mais ignóbil das criaturas que vagou pelo planeta Terra.
Pois bem (ou mal), visitei uma intransitável loja, na intransitável rua 25 de Março. Fiz os procedimentos, abasteci a mercadoria e saí da loja. A caminho de outra loja, me lembrei de cortar o número do CNPJ das caixas de papelão para comprovar o abastecimento e, assim, complementar o salário. Fácil, era só ir à rua detrás e localizar as caixas que eu esvaziara há pouco. Só que não foi tão fácil.
Tive que procurar as caixas desmontadas num lixão desconhecido por mim. Aquilo era o submundo do paraíso das compras populares que eu conhecia. De repente me vi à caça do que restou do meu trabalho de reposição da mercadoria. Mas aquele subproduto tinha algum valor e eu estava ali, entre ratos, baratas e o chorume fétido procurando o meu precioso lixo. Essa busca incessante e heroica me renderia umas indispensáveis moedas a mais.
Localizados os invólucros, seria moleza a captura. A minha sensação de propriedade esbarrou com a dura realidade da importância das caixas vazias para quem estava alheio ao “paraíso das compras” e das sacolas cheias. Eu, diluído no vai e vem de pessoas, sempre estive distante daquele universo quase paralelo.
Fui direto arrancando as caixas de papelão para destacar o CNPJ para arrecadar uns suados trocados a mais no quinto dia útil. O novo dono dos papelões descartados registrou a minha investida como tentativa de furto. Ou seja, naquele lugar e momento, eu significava o perigo. Com a disposição para brigas e discussões e a insensibilidade próprias da pouca idade, engatei um entusiasmado bate-boca por, aparentemente, um punhado de lixo.
A pendenga pelo monturo estava ganhando proporções inimagináveis e juntando um tipo de gangue. Deduzi que todos ali conhecessem o meu antagonista ou automaticamente o defendessem por simples corporativismo. A minha situação não era nada boa e a conta do hospital ou os gastos funerários seriam maiores que o epopeico abono.
Analisando com distanciamento a situação que me meti, calculei que estava indo longe demais e era o momento de recuar. Expliquei o meu lado, cortei o tal CNPJ e fugi dali.
Na falta de estudos e alguma ambição, eu poderia imaginar acabar nos porões da rua 25 de Março, disputando uma caixa de papelão, mas não brigar por isso, proporcionando um espetáculo digno da repreensão dos camelôs, lojistas, transeuntes e outros catadores da região.
Me arriscar nos “porões do navio”, proporcionaram um choque inesperado com a realidade. A partir desse dia, vi que existia uma outra realidade escondida das sacolas cheias e do “fantástico paraíso das compras”.
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Rosas de Ouro — Uma noite alucinante 🔵
Tudo começou estranho. Em vez de boteco, bar com banda ao vivo, a quadra da escola de samba Rosas de Ouro. Eu deduzi que a noite seria longa, pois teria que fingir gostar dos batuques carnavalescos. Em nome do feriado e da festa, já arrisquei agitar os polegares e enroscar as pernas — como um gringo — ao ritmo do samba.
Dessa vez não tinha nem chope grátis no endereço beirando a Marginal Tietê. Quando começaram as performances das agremiações, logo vi que a noite seria realmente interminável. Rodopiando vinham porta-bandeiras da Gaviões da Fiel, Camisa Verde e Branco, Dragões da Real etc. cada vez que a porta-bandeira parava e oferecia o pavilhão eu tinha que beijar a bandeira e fazer uma reverência, conforme observei, quase como se fosse um objeto sagrado. Meu visualzinho, de quem “caiu” ali por engano, estava mais apropriado para uma ópera no Teatro Municipal. Notei que, quando a porta-bandeira chegava em mim, rolava uma cobrança tácita. Diante dessa pressão, eu beijaria até a bandeira do Palmeiras!
O meu maior temor se concretizou. Como meu amigo era integrante da principal torcida uniformizada do São Paulo, junto deles fiquei. Quando o evento terminou, eu, como um torcedor do time do Morumbi, ajudava a embarcar os instrumentos musicais no ônibus. Assim fui até a sede da tal torcida, sendo ameaçado de ser entregue como um corintiano infiltrado.
Fora a ameaça, sempre foi muito bom ver a cidade à noite, iluminada artificialmente. Voltando para a perigosa realidade de um corintiano entre são-paulinos, ajudei a subir aqueles instrumentos de percussão que eram surrados todas as vezes que o time tricolor marcava um gol no meu time alvinegro. Cumpri a função tranquilamente, porque eu sairia no lucro se continuasse disfarçado, mantendo minha incolumidade física.
Mesclando a beleza das escolas de samba e a cidade à noite com o temor das guerras de torcidas — em plenos anos 90 — foi uma noite fora de qualquer padrão, uma noite alucinante.
Dessa vez não tinha nem chope grátis no endereço beirando a Marginal Tietê. Quando começaram as performances das agremiações, logo vi que a noite seria realmente interminável. Rodopiando vinham porta-bandeiras da Gaviões da Fiel, Camisa Verde e Branco, Dragões da Real etc. cada vez que a porta-bandeira parava e oferecia o pavilhão eu tinha que beijar a bandeira e fazer uma reverência, conforme observei, quase como se fosse um objeto sagrado. Meu visualzinho, de quem “caiu” ali por engano, estava mais apropriado para uma ópera no Teatro Municipal. Notei que, quando a porta-bandeira chegava em mim, rolava uma cobrança tácita. Diante dessa pressão, eu beijaria até a bandeira do Palmeiras!
O meu maior temor se concretizou. Como meu amigo era integrante da principal torcida uniformizada do São Paulo, junto deles fiquei. Quando o evento terminou, eu, como um torcedor do time do Morumbi, ajudava a embarcar os instrumentos musicais no ônibus. Assim fui até a sede da tal torcida, sendo ameaçado de ser entregue como um corintiano infiltrado.
Fora a ameaça, sempre foi muito bom ver a cidade à noite, iluminada artificialmente. Voltando para a perigosa realidade de um corintiano entre são-paulinos, ajudei a subir aqueles instrumentos de percussão que eram surrados todas as vezes que o time tricolor marcava um gol no meu time alvinegro. Cumpri a função tranquilamente, porque eu sairia no lucro se continuasse disfarçado, mantendo minha incolumidade física.
Mesclando a beleza das escolas de samba e a cidade à noite com o temor das guerras de torcidas — em plenos anos 90 — foi uma noite fora de qualquer padrão, uma noite alucinante.
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