rafaeldasilva

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🔵 O doutrinador

O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.




Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola.  Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).




No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.




A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”. 




Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que  ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.




Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
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Poemas

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🔴 A revolução dos imbecis e a revelação do imbecil 🔴







Tem uma turminha que cospe palavras e expressões fora de contexto. Tudo dá a entender que nem sabem o sentido do que dizem, nem sequer o significado das palavras e expressões, que funcionam como coringas. Fiquem espertos, estão querendo te enganar, quando tascam: democracia (e variações), republicano e Estado democrático de direito. Quem diz isso, do nada, para se livrar de uma questão embaraçosa, provavelmente, está querendo tergiversar e, por sua vez, te engambelar. Afinal, quem seria contra o Estado democrático de direito (seja lá o que isso signifique)? Quem contestaria uma frase que contivesse a palavra “democracia” (essa palavra tão linda)?

 

Temos visto ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), principalmente Luís Roberto Barroso, Edson Fachin e Alexandre de Moraes e o presidente do Senado Federal se inflando com arrogância, suntuosidade e pompa para embutir um (ou mais) destes termos. Tenha certeza, esse fingimento todo é para nos enganar. Ultimamente, esta  estratégia está sendo usada para “rasgar” a Constituição.




Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, exerce a função em prol apenas dos seus interesses advocatícios. Esqueceu-se das prerrogativas de equilibrar os pesos e contrapesos dos três poderes e se lembrou do “quem quer rir, tem que fazer rir”, “cê me ajuda que eu te ajudo” ou “uma mão lava a outra”.




Pacheco acha que sua covardia e “rabo preso” soam como postura conciliadora. Nessa crença, deve ter se entupido de remédio tarja preta e lançou (como balão de ensaio) seu nome como uma possível terceira via (mais uma). Seu principal atributo (segundo ele mesmo): parecer com o conterrâneo Juscelino Kubitschek. Esse cara gosta de brincar de presidente da República em seus pronunciamentos.




Blindado, o STF segue urdindo nossa fraude eleitoral a céu aberto. No esquema “Diga aonde você vai, que eu vou varrendo”. Essas eleições, nas quais já se escolheu quem pode e quem não pode ganhar, só não serão tão absurdamente roubadas quanto o escrutínio norte-americano.
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🔵 Os porões da 25 de Março 🔵







Zonas Norte, Sul, Leste, Oeste, Centro e outras cidades. Trabalhando como promotor de vendas em São Paulo, conheci pessoas, experimentei sabores e tive contato com idiossincrasias de cada bairro. No entanto, foi na região central que cheguei à pior situação que eu jamais havia arriscado conhecer. Se eu houvesse sonhado com essa asquerosa provação, acordaria aliviado, sem desejar tão triste realidade ao meu pior inimigo ou à mais ignóbil das criaturas que vagou pelo planeta Terra.




Pois bem (ou mal), visitei uma intransitável loja, na intransitável rua 25 de Março. Fiz os procedimentos, abasteci a mercadoria e saí da loja. A caminho de outra loja, me lembrei de cortar o número do CNPJ das caixas de papelão para comprovar o abastecimento e, assim, complementar o salário. Fácil, era só ir à rua detrás e localizar as caixas que eu esvaziara há pouco. Só que não foi tão fácil.




Tive que procurar as caixas desmontadas num lixão desconhecido por mim. Aquilo era o submundo do paraíso das compras populares que eu conhecia. De repente me vi à caça do que restou do meu trabalho de reposição da mercadoria. Mas aquele subproduto tinha algum valor e eu estava ali, entre ratos, baratas e o chorume fétido procurando o meu precioso lixo. Essa busca incessante e heroica me renderia umas indispensáveis moedas a mais.




Localizados os invólucros, seria moleza a captura. A minha sensação de propriedade esbarrou com a dura realidade da importância das caixas vazias para quem estava alheio ao “paraíso das compras” e das sacolas cheias. Eu, diluído no vai e vem de pessoas, sempre estive distante daquele universo quase paralelo.




Fui direto arrancando as caixas de papelão para destacar o CNPJ para arrecadar uns suados trocados a mais no quinto dia útil. O novo dono dos papelões descartados registrou a minha investida como tentativa de furto. Ou seja, naquele lugar e momento, eu significava o perigo. Com a disposição para brigas e discussões e a insensibilidade próprias da pouca idade, engatei um entusiasmado bate-boca por, aparentemente, um punhado de lixo.




A pendenga pelo monturo estava ganhando proporções inimagináveis e juntando um tipo de gangue. Deduzi que todos ali conhecessem o meu antagonista ou automaticamente o defendessem por simples corporativismo. A minha situação não era nada boa e a conta do hospital ou os gastos funerários seriam maiores que o epopeico abono.




Analisando com distanciamento a situação que me meti, calculei que estava indo longe demais e era o momento de recuar. Expliquei o meu lado, cortei o tal CNPJ e fugi dali.




Na falta de estudos e alguma ambição, eu poderia imaginar acabar nos porões da rua 25 de Março, disputando uma caixa de papelão, mas não brigar por isso, proporcionando um espetáculo digno da repreensão dos camelôs, lojistas, transeuntes e outros catadores da região.




Me arriscar nos “porões do navio”, proporcionaram um choque inesperado com a realidade. A partir desse dia, vi que existia uma outra realidade escondida das sacolas cheias e do “fantástico paraíso das compras”.
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🔵 Eu poderia estar roubando, matando...







Eu apenas preciso que o transporte me leve do ponto A para o ponto B. Mas não é isso o que acontece. Sobretudo nos trens, vendedores oferecem comidas — à base de corante, aromatizante, conservante, acidulante e gordura vegetal — vencidas em troca do meu sagrado dinheirinho.




Eles surgem por baixo das catracas dos ônibus ou do fundo do vagão do Metrô ou trem ameaçando os passageiros com o seguinte discurso: “Eu poderia estar roubando, poderia estar matando, mas estou vendendo estas balas…”. Para despertar alguma empatia, a desgraça não podia ser pouca, então ele elencou um combo de mazelas para todos os seus familiares. Exemplos: unha encravada, câncer, desemprego e dívidas. De cara, sou levado a pensar: Que cara legal! Depois, penso: Que azar, mas ao menos ele tem alternativas, eu sou obrigado a cumprir meu horário na empresa. Finalmente, raciocino melhor e concluo: se ele poderia estar roubando ou matando, a vítima poderia ser eu. Isso foi uma ameaça. 




Entretanto, enquanto eu fiquei filosofando, o vendedor — que tão generosamente optou por trabalhar em vez de roubar e matar —, ligeiramente, equilibrou um pacote de balas sobre minha coxa esquerda. Eu observei aquilo, confesso, ignorando a desastrosa estratégia de venda, esperando que o objeto fosse recolhido ou minha estação chegasse. Mas resolvi examinar a embalagem. Além de exibir um vencimento digno de interdição da Anvisa, o pacotinho denunciava que o doce viajou, em diversos colos, do Tucuruvi ao Jabaquara umas quatro vezes.




Dirigindo, também não escapo dos ambulantes. Percebo que não há nada por perto, quando sou retido pelo semáforo (sinaleira) vermelho. Durante algum tempo, foi uma coqueluche em São Paulo os circos-escolas. A iniciativa foi boa, contudo o que se viu foi a proliferação de mendigos malabaristas nos semáforos. Começaram a aparecer mímicos. Bastava acender a luz vermelha para a faixa de pedestres virar um picadeiro. No início, até que era legal, os mímicos, com a cara cheia de pó-de-arroz e usando um chapéu coco, coloriam o dia com ares de Cirque du Soleil; mas, pouco tempo depois, eu tinha vontade de, quando o farol verde abrisse, sair como um carro de Fórmula 1.




No trânsito, nas Marginais ou nas rodovias, por mais isolado que seja o local, sempre surge, do nada, um vendedor de videogame ou carregador de celular. Eu me pergunto: quem compra um videogame Polystation nessa situação (os em qualquer outra)? Nunca me passou pela cabeça, alguém resolvendo comprar um videogame no trânsito. Tem que ser muito desavisado e ter muita fé para crer que um aparelho da Polystation, adquirido nessas condições, vai funcionar.
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Se beber, não dirija 🔵







Entrei no meu carro e comecei a persegui-lo. Era um Voyage antiguinho, portanto equivalente ao meu Gol L 86 (“Gol quadrado”, portanto equivalentemente antigo), também da Volksvagen. A perseguição insana e implacável não poderia acabar bem. A busca frenética terminou depois de uma curva, de maneira abrupta, contra a vontade de ambos, mas cumprindo a previsibilidade. 




Recapitulando, sem chances de neutralização, o motorista seguia em ininterrupta e veloz corrida. Impossibilitado de detê-lo, mas sem perdê-lo de vista, eu me aventurava com o valente Gol. A perseguição só cessou após uma curva. Depois da inoportuna esquina, na rua transversal, vinha outro veículo. Isto fez com que o Voyage fosse freado, e o golzinho também parasse. Só que em sua traseira.




A caçada frenética findou somente com um desastre automobilístico. Eu e o outro piloto saímos dos carros para conferir os prejuízos. Os outros motoristas, pedestres e alguns moradores da região aguardavam uma briga, tiros ou, pelo menos, uma ofensa e alguns xingamentos.




[Minutos atrás] 




Depois de várias cervejas (antes da lei: “Se beber, não dirija”), saímos com o Gol e o Voyage rumo à casa das nossas amigas. Chegando lá, mais álcool e um pouco de “stress” foram suficientes para o alterado piloto do Voyage ser visto arrancando e “cantando os pneus”, procurando um desastre automobilístico e consequentemente a morte. Diante do espanto e das súplicas, não me restava outra atitude senão persegui-lo.




[Voltando  à batida]




O desfecho do desastre frustrou todos os expectadores. Contrariando as expectativas, não houve as esperadas vias de fato.




Diálogo dos proprietários dos automóveis envolvidos no mini-engavetamento:




— O que a gente fez!?




— Amanhã a gente conversa.




Acredito que todos perceberam que se tratava de dois amigos numa infeliz jornada. Cada um saiu com seu veículo, algum prejuízo e muita dor de cabeça.




Minha única batida de carro não causou nenhum ferimento, não atropelou ninguém e não deu em perda total (PT), mas talvez entre para o “Guiness Book” (Livro dos Recordes) como um ridículo “menor engavetamento do mundo”.
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Vingança 🔴

Alexandre de Moraes é movido pela vingança, não pela justiça. O símbolo da Justiça tem os olhos vendados significando que é cega, ou seja, não vê quem julga. Contudo, com Alexandre não é assim: ele persegue os que ele escolhe como inimigos pessoais.

Várias pessoas ligadas a Jair Bolsonaro já foram presas injustamente ou sofreram perseguição. As ordens do ministro são tão kafkianas que são ignoradas e descumpridas. Cumpri-las é ironicamente “rasgar” a Constituição. Sua obsessão é grudar alguma punição no deputado federal Daniel Silveira. Nesse jogo de xadrez entre o ministro do STF e o presidente, Daniel está em disputa.

Parece cada vez mais lógico que Alexandre mantém uma imaginária “faca no pescoço” daqueles que corroboram suas absurdas decisões.
Outro ministro,  que nunca saberá sua razão existencial sem a figura do Bolsonaro, é Luís Roberto Barroso. Por ter um vocabulário razoável e arranhar um inglesinho intermediário, ele consegue ofender outras pessoas facilmente e até impressionar os mais distraídos e limitados  cognitivamente.

Barroso ficou encantado com a investida mediúnica única de João de Deus (me livre!), foi facilmente convencido de que Cesare Battisti era inocente e (des)informou, quando disse que Nicolás Maduro é de, vá lá, direita. Com esse histórico, não dá para acreditar numa só palavra que o sujeito diz.

Lewandowski tropeçou na interpretação do texto do “impeachment” de Dilma, deu um “duplo twist carpado” na lei, separando as votações e tornando a petista elegível. Depois, o povo mineiro fez justiça, não a elegendo senadora.

O TSE, que conta com a turminha do STF, diz que as urnas são seguras, entretanto tentam manter o Exército longe da “sala misteriosa”. A resistência em realizar eleições claras, torna todo o processo suspeito.

A recente exposição do STF não foi boa para a Corte. Imaginava-se que os melhores magistrados alcançavam o Tribunal. No entanto, não é necessário nem ser juiz. Sinceramente, pelo nível, eu refletiria muito se seria vantajoso contratá-los para resolver uma pendenga de internet no PROCOM.

Várias figuras suspeitas usam a palavra “democracia” como um coringa legitimando tudo e todos. Conclusão: quando sacarem a palavra “democracia”, preste atenção qual é a pegadinha.
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Vikings — Minnesota 🔵

Eu já estava acostumado a assistir à finalíssima do futebol americano (Super Bowl). Então já era tempo de eu escolher uma equipe para torcer. O futebol americano é bem legal e fácil entender o básico, mas a regra completa é muito complicada. 

Pois bem, já estava me empanturrando de frango frito, vibrando com “touchdowns”, infiltrações, lançamentos do “quarterback”, me segurando para não levar a mão ao peito no hino americano. Ou seja, quase agindo como um “redneck”.

Eu escolhia um time para torcer por causa de qualquer detalhe e foi assim que pincei o Minnesota Vikings. Escolhi esse o time roxo, branco e ouro, porque tem um símbolo legal que remete a uma historia que gosto bastante. Para a fantasia de torcedor não bastava um balde de frango frito e um comportamento importado, era urgente um figurino adequado. Adquiri boné e camiseta da distante equipe.

Os primeiros jogos foram decepcionantes. O time era um saco de pancadas, eu me senti torcendo para a infrutífera Portuguesa de Desportos. Devia ser apenas uma fase ruim, isso também acontece com o Corinthians. Para afundar de vez meu entusiasmo inicial, fui verificar o histórico do Vikings. Constatei que era apenas um time com um escudo legal.

A franquia tem um passado OK e, algum dia, será vencedor, mas quando eu for escolher um time para torcer, vou antes examinar o desempenho, dessa maneira sortearei algo como o New Engjand Patriots. Aí encherei a pança de frango frito e hambúrguer. Decidi acabar de vez com aquela farsa: doei o boné para o meu sobrinho e fiquei com uma camiseta de estampa legal.

Eu não conseguia enganar nem a mim. Não se escolhe para quem torcer, isso é coisa de gente que torce para um time em cada estado. Como nasci corintiano, no Rio Grande do Sul torço para o Corinthians; no Rio de Janeiro sou corintiano; na Argentina, no Japão etc, não importa onde. Esse tipo de coisa não se escolhe.

Como não tinha a quem recorrer, disfarçadamente abandonei aquela palhaçada e, conformado com a pecha de “maloqueiro e sofredor” e sabendo que não iria além do Parque São Jorge, nascido corintiano, fiquei somente com o sofrimento genuíno.






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O silêncio 🔵

Meu cunhado e eu nos deparamos com algo muito inusitado: uma câmara silenciosa. Quem já esteve na Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, sabe que não é anormal encontrar um objeto surpreendente. Mas aquela instalação era intrigante, inclusive provocativa. Como experienciar uma inédita ausência de sons no coração da cidade que não dorme?

Nada poderia surpreender quem estava numa exposição do filme Star Wars, por isso, no mesmo ambiente que Darth Vader e os Stormtroopers. Já acharia normal, até entediante, pedir licença ao R2-D2 ou ao C-3PO. Também já não me espantaria se o Mestre Yoda, caminhando com certa dificuldade, passasse ao meu lado. Em São Paulo, sobretudo nos finais de semana, era normal cruzarmos com criaturas bizarras (humanos ou interplanetárias).

Havia também uma exposição/homenagem à Bossa Nova. Ali, não cruzamos com nada estranho. A coisa mais esquisita, e que sempre pareceu que não era um ser deste mundo, era o João Gilberto, mas ele não estava lá.

Não sei se por curiosidade, desafio ou pura falta de alguma coisa melhor para fazer — talvez tudo isso —, o brinquedo, digo, a instalação nos convidou a desafiá-la. Aguardamos e entramos na intrigante caixa com duas cadeiras. Seguimos as orientações para, segundo a proposta da engenhoca, por assim dizer, ter uma perfeita experiência sensorial.

Realmente, o silêncio era ensurdecedor, mas, como sempre foi muito comum, surgiram muitos assuntos urgentes na minha cabeça e na ponta da língua. Os inadiáveis assuntos transbordaram, de modo que disparei a falar. Vendo que eu estava desperdiçando e estragando uma oportunidade única, cessei a verborragia. 

Entretanto, o diálogo interno insistia em conturbar o momento. A tentativa de aplicar técnicas de meditação apenas tornava inteligível o debate que rolava na minha caixa craniana. Talvez essa seja a grande surpresa do brinquedo, digo, instalação. O resultado pode ser muito mais embaraçoso: as monitoras, provavelmente, devem estar rindo. O riso se transformará em escárnio e desprezo quando saírmos atordoados da disruptiva experiência.

Concluí que a poluição sonora que sempre atribuí à capital paulista já estava introjetado na minha cabeça. Apesar de perceber que aquela caixa vedava as sirenes, as buzinas, os motores, o falatório e os demais sons, ou barulhos, ambientes, eu transportava comigo ideias, projetos, objetivos e grilos que nunca se silenciavam.
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Obrigado 🔵

Se a investida pacífica não fosse o suficiente, a próxima abordagem seria no velho e eficaz método Viking. Felizmente, nunca abrimos mão da extorsão civilizada, de modo que as coisas sempre ficavam melhores para todos.

Esgotados os piões, as bolinhas-de-gude e os “quadrados” (pipas) com cortante, restava a venda de doces. Era véspera de Natal, e como havíamos torrado moedas e algumas notas amassadas, era chegado o dia de exigirmos algumas guloseimas grátis. Jamais soube se por pena, gratidão ou achar aquela cena inusitada, éramos sempre atendidos. Certamente, o fato de a dona do humilde estabelecimento comercial, a japonesa, conhecer nossas mães contribuía muito.

A “venda da japonesa”, por mais acanhada que fosse, era o endereço escolhido para sempre trocarmos nossas economias por uma justa variedade de doces e um punhado sortido de balas. Assim, mal tratando os dentes, encerrávamos um dia de mãos cortadas, pés sangrando e hematomas.

Cobrar nossa porção de doces foi uma “tradição” inventada por nós. A “venda da japonesa” foi prontamente eleita como a vítima perfeita para obedecer nossa pequena tradição. Além dos motivos que eu já elenquei, o pequeno comércio foi o selecionado por estocar nossos exemplares favoritos de alimentos supérfluos, bem como abastecer-nos o ano inteiro (mediante pagamento).

A ameaça velada era anunciada pastosamente como “Natal”. Apesar do prejuízo iminente, éramos sempre atendidos com um sorriso oriental. Então, como quem vai ao caixa eletrônico ou ameaça com travessuras quem não ofertar gostosuras, começávamos a escolher a “oferta”. Invadíamos o comércio com as mãos vazias e saíamos carregando sacos cheios de produtos comestíveis. Aqui é Brasil!

Finalmente, consumindo, conferíamos o resultado da ameaça tácita. Entre pé-de-moleque, balas, paçoca, doce de leite, pipoca rosa e doce de amendoim, vinham doce de abóbora e maria-mole escondidos no fundo do pacote. Tudo bem, era de graça!

Aquilo era nosso São Cosme e Damião particular. A atitude não era nada santa, já que era posta em prática mediante intimidação e não incluía a reza — a desculpa é que era sincrética, já que era exercida por um católico e um luterano.

Essa foi uma época em que o Natal era, literalmente, mais doce.
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Polarização 🔴







A polarização é boa. Não, é ótima. Pensando bem, é excelente! A polarização significa dois pensamentos diferentes. O contrário é o pensamento único, que tacha a discordância como “fake news”, discurso de ódio, atos antidemocráticos ou coisa de robôs. 




Cuidado com a intenção de quem quer rotular e eliminar a polarização, principalmente quem lança mão da palavra/coringa: democracia e suas variantes. A polarização só é ruim quando gera briga e separação. Os Estados Unidos, exemplo de democracia e liberdade, vivem uma polarização eterna: republicanos e democratas.




Alexandre de Moraes, copiando o pensamento de Umberto Eco, disse: “a internet deu voz aos imbecis”. Concordo em parte. Dou razão a ele quando vejo suas “lives” e tenho acesso a fragmentos do seu, por assim dizer, pensamento fora dos autos. Discordo por perceber que a internet também deu voz a gênios, norte-americanos, russos, brancos, negros, corintianos, palmeirenses, você e eu. Democracia, igualdade, tolerância, liberdade de expressão não são apenas palavras.




O Brasil levantou do berço esplêndido e abriu mão de ser o eterno “país do futebol” e começou a discutir política. Percebeu que quem chamava o brasileiro de acomodado por sempre acreditar que o Brasil era o “país do futebol”, “o país do futuro”, “Deus é brasileiro”, “o brasileiro não sabia votar” etc é quem se incomoda com o brasileiro informado politicamente e deseja que a novela, o carnaval e o futebol ocupem as mentes e corações.




A grande rede de comunicação surgiu com a intenção de distraí-los com animaizinhos fazendo gracinhas e demais meiguices. No entanto, mentes mais privilegiadas vislumbraram vastas possibilidades.  Quando a tecla mágica “Enter” começou a exibir “a coisa real” (the real thing) as mídias tradicionais perderam a narrativa, aí era tarde demais.




Indesejável para muitos, mas esse poder chegou aonde jamais sonhariam, suspeitaram e desejariam que chegasse. Essa briga aconteceu nas indústrias fonográfica e cinematográfica. Spotify e Netflix são exemplos de quem venceu. Tudo isso chegou a um ponto sem volta.
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Velhão — Conspiração do Jogo 🔵

Parece que estamos no cenário do início de um filme de terror. Se o destino for uma residência afastada sei que o enredo é o pior para todos nós. Estamos subindo a serra cortando uma floresta escura e densa. Para completar o enredo maldito, chegaremos numa mansão linda, porém sinistra; contaremos com a companhia de um cachorro raivoso e sinistro que late olhando para o vazio; e uma vizinha misteriosa carregará a expressão amedrontadora de quem sabe o que ocorreu na casa e a besteira que nós (forasteiros) estamos nos metendo.

A composição do grupo parece favorável, mas eu entendo o truque. Algumas garotas atraem a gente para a armadilha mortal. Dessa maneira, provavelmente seremos esquartejados pelo maluco psicopata local, sobrando apenas o casal mais bonzinho, aposto. Já vi esse filme, eu sei como isso acaba.

Apesar do prólogo de filme B de horror “gore”, o que veio a seguir não foi tão trágico. Na verdade, estávamos somente cortando a Serra da Cantareira. Escura e fechada, sim, mas o “quintal” de casa. A montanha sagrada que deve ter significado deus e ficado responsável por poderes sobrenaturais e uma farta colheita para as antigas tribos guarulhenses. No entanto, o acidente geográfico apenas tinha o poder de manter Mairiporã afastada.

Eu já fiquei mais calmo quando tive certeza que o destino era uma das mansões ou barzinhos da Serra. O carro embicou num endereço estranho do topo da montanha. Eu já tinha estado naquela região. Atravessamos o tal do Complexo chamado Velhão — um antiquário, várias lojinhas, bares e restaurantes. A escadaria íngreme e comprida aumentava a expectativa e constituía o ambiente Medieval.

O abrir e fechar da porta (que pareceu um portal) nos transportou a outra dimensão. Além de estancar o frio, o interior do bar era musical e descontraído. Chegamos no lendário bar Conspiração do Jogo.

Contudo, tudo parecia perfeito demais. Não seria justo eu estar em boa companhia e num lugar incrível, enquanto, num sábado à noite outras pessoas assistiam ao Zorra Total ou ao Supercine. Aquele bar perfeito não me enganaria muito tempo, logo todos virariam vampiros sanguinários. Isso existe, eu sei de tudo. Já vi isso acontecer no filme do Quentin Tarantino, Um Drink no Inferno.

Aquela aparente perfeição só podia ser artificial, talvez efeito do álcool. Minhas desconfianças esvaíram com a oferta de jogos de tabuleiro: ludo, damas, Banco Imobiliário, Jogo da Vida, Master etc. Finalmente, eu havia desvendado toda a trama: a tal “conspiração do jogo” era nos capturar, num sábado à noite, prometendo uma casa noturna, com todas as suas benesses, e prender-nos numa mesinha com jogos de tabuleiro. Só faltava pijama, pipoca e um cobertor. Eu precisava escapar dali, antes que eu acabasse a noite jogando dominó.

No fim, tudo ocorreu sem grandes surpresas, numa espelunca qualquer, mas verdadeira. Bar modinha é facilmente reconhecível: um nome legal e ambiente descolado, para incluir tudo isso na conta. Boteco é inconfundível: sujinho, sempre rola uma discussão, mas a cerveja e o tira-gosto são baratos.
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