Lista de Poemas
Entrando numa fria 🔵
Uma inocente guloseima infantil pode dar cadeia. Culpa da irresponsabilidade do excesso de cuidado.
Eu juro que apenas queria comprar um gelinho, vendido num Fusca azul. Mas minha mãe afirmava que aquele carrinho vendia drogas e raptava crianças. Hoje, me afastaria, até correria apavorado, se avistasse o fusquinha azul dobrando a esquina.
Gelinho (geladinho ou sacolé) pode ser definido como sorvete de pobre. Consiste em um suco (diversos sabores) congelado num saquinho. Pois bem, o veículo, a cor e o local afastado, onde ficava, já eram muito suspeitos, juntamente com a denúncia da minha mãe, o conjunto tornava-se algo que eu deveria manter distância devido a periculosidade. Atualmente, eu compararia todo aquele método na porta da escola a um serial killer americano.
Na segunda série, em outro colégio a mesma maldade foi aplicada como estratégia para economizar alguns centavos. Dessa vez a vítima foi a pobre velhinha que vendia gelinho em frente ao colégio.
Eu fico imaginando a senhorinha levantando às cinco da madrugada, preparando o suquinho, embalando, congelando, acomodando o produto no isopor e empurrando o carrinho de feira até a escola. Todo esse trabalho para receber a acusação de tráfico de drogas. Pior, dessa vez o doce também era servido na modalidade “água de fossa”. Calculando que esse sabor não era bom, passei o ano à base de merenda escolar.
Vivíamos os estertores do Regime Militar, se a frágil e trabalhadora idosa fosse “dedurada”, seria, facilmente, capturada, levaria uma surra- receberia algumas sessões de tortura no DOPS (até entregar os guerrilheiros e comunistas), terminaria jogada numa cela fétida, julgada e condenada por subversão à ordem e, com sorte, sua ossada poderia ser encontrada num cemitério clandestino. Tudo isso, para o complementar a aposentadoria, ganhando uns trocados! Eu acho injusto.
Na verdade, o perigo estava mais perto da que eu pensava. Minha mãe armazenava toda sorte de estupefacientes caseiros: acetona, esmalte, querosene e removedor de tinta. Eu ficaria entorpecido só de entrar na lavanderia de casa e respirar o ar dos produtos de limpeza.
Não aconteceu nada com os proprietários do Fusca azul, nem com a velhinha. Muitas vezes, eu trafiquei gelinho e consumi o produto. Hoje, estou limpo.
Eu juro que apenas queria comprar um gelinho, vendido num Fusca azul. Mas minha mãe afirmava que aquele carrinho vendia drogas e raptava crianças. Hoje, me afastaria, até correria apavorado, se avistasse o fusquinha azul dobrando a esquina.
Gelinho (geladinho ou sacolé) pode ser definido como sorvete de pobre. Consiste em um suco (diversos sabores) congelado num saquinho. Pois bem, o veículo, a cor e o local afastado, onde ficava, já eram muito suspeitos, juntamente com a denúncia da minha mãe, o conjunto tornava-se algo que eu deveria manter distância devido a periculosidade. Atualmente, eu compararia todo aquele método na porta da escola a um serial killer americano.
Na segunda série, em outro colégio a mesma maldade foi aplicada como estratégia para economizar alguns centavos. Dessa vez a vítima foi a pobre velhinha que vendia gelinho em frente ao colégio.
Eu fico imaginando a senhorinha levantando às cinco da madrugada, preparando o suquinho, embalando, congelando, acomodando o produto no isopor e empurrando o carrinho de feira até a escola. Todo esse trabalho para receber a acusação de tráfico de drogas. Pior, dessa vez o doce também era servido na modalidade “água de fossa”. Calculando que esse sabor não era bom, passei o ano à base de merenda escolar.
Vivíamos os estertores do Regime Militar, se a frágil e trabalhadora idosa fosse “dedurada”, seria, facilmente, capturada, levaria uma surra- receberia algumas sessões de tortura no DOPS (até entregar os guerrilheiros e comunistas), terminaria jogada numa cela fétida, julgada e condenada por subversão à ordem e, com sorte, sua ossada poderia ser encontrada num cemitério clandestino. Tudo isso, para o complementar a aposentadoria, ganhando uns trocados! Eu acho injusto.
Na verdade, o perigo estava mais perto da que eu pensava. Minha mãe armazenava toda sorte de estupefacientes caseiros: acetona, esmalte, querosene e removedor de tinta. Eu ficaria entorpecido só de entrar na lavanderia de casa e respirar o ar dos produtos de limpeza.
Não aconteceu nada com os proprietários do Fusca azul, nem com a velhinha. Muitas vezes, eu trafiquei gelinho e consumi o produto. Hoje, estou limpo.
55
O silêncio 🔵
Meu cunhado e eu nos deparamos com algo muito inusitado: uma câmara silenciosa. Quem já esteve na Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, sabe que não é anormal encontrar um objeto surpreendente. Mas aquela instalação era intrigante, inclusive provocativa. Como experienciar uma inédita ausência de sons no coração da cidade que não dorme?
Nada poderia surpreender quem estava numa exposição do filme Star Wars, por isso, no mesmo ambiente que Darth Vader e os Stormtroopers. Já acharia normal, até entediante, pedir licença ao R2-D2 ou ao C-3PO. Também já não me espantaria se o Mestre Yoda, caminhando com certa dificuldade, passasse ao meu lado. Em São Paulo, sobretudo nos finais de semana, era normal cruzarmos com criaturas bizarras (humanos ou interplanetárias).
Havia também uma exposição/homenagem à Bossa Nova. Ali, não cruzamos com nada estranho. A coisa mais esquisita, e que sempre pareceu que não era um ser deste mundo, era o João Gilberto, mas ele não estava lá.
Não sei se por curiosidade, desafio ou pura falta de alguma coisa melhor para fazer — talvez tudo isso —, o brinquedo, digo, a instalação nos convidou a desafiá-la. Aguardamos e entramos na intrigante caixa com duas cadeiras. Seguimos as orientações para, segundo a proposta da engenhoca, por assim dizer, ter uma perfeita experiência sensorial.
Realmente, o silêncio era ensurdecedor, mas, como sempre foi muito comum, surgiram muitos assuntos urgentes na minha cabeça e na ponta da língua. Os inadiáveis assuntos transbordaram, de modo que disparei a falar. Vendo que eu estava desperdiçando e estragando uma oportunidade única, cessei a verborragia.
Entretanto, o diálogo interno insistia em conturbar o momento. A tentativa de aplicar técnicas de meditação apenas tornava inteligível o debate que rolava na minha caixa craniana. Talvez essa seja a grande surpresa do brinquedo, digo, instalação. O resultado pode ser muito mais embaraçoso: as monitoras, provavelmente, devem estar rindo. O riso se transformará em escárnio e desprezo quando saírmos atordoados da disruptiva experiência.
Concluí que a poluição sonora que sempre atribuí à capital paulista já estava introjetado na minha cabeça. Apesar de perceber que aquela caixa vedava as sirenes, as buzinas, os motores, o falatório e os demais sons, ou barulhos, ambientes, eu transportava comigo ideias, projetos, objetivos e grilos que nunca se silenciavam.
Nada poderia surpreender quem estava numa exposição do filme Star Wars, por isso, no mesmo ambiente que Darth Vader e os Stormtroopers. Já acharia normal, até entediante, pedir licença ao R2-D2 ou ao C-3PO. Também já não me espantaria se o Mestre Yoda, caminhando com certa dificuldade, passasse ao meu lado. Em São Paulo, sobretudo nos finais de semana, era normal cruzarmos com criaturas bizarras (humanos ou interplanetárias).
Havia também uma exposição/homenagem à Bossa Nova. Ali, não cruzamos com nada estranho. A coisa mais esquisita, e que sempre pareceu que não era um ser deste mundo, era o João Gilberto, mas ele não estava lá.
Não sei se por curiosidade, desafio ou pura falta de alguma coisa melhor para fazer — talvez tudo isso —, o brinquedo, digo, a instalação nos convidou a desafiá-la. Aguardamos e entramos na intrigante caixa com duas cadeiras. Seguimos as orientações para, segundo a proposta da engenhoca, por assim dizer, ter uma perfeita experiência sensorial.
Realmente, o silêncio era ensurdecedor, mas, como sempre foi muito comum, surgiram muitos assuntos urgentes na minha cabeça e na ponta da língua. Os inadiáveis assuntos transbordaram, de modo que disparei a falar. Vendo que eu estava desperdiçando e estragando uma oportunidade única, cessei a verborragia.
Entretanto, o diálogo interno insistia em conturbar o momento. A tentativa de aplicar técnicas de meditação apenas tornava inteligível o debate que rolava na minha caixa craniana. Talvez essa seja a grande surpresa do brinquedo, digo, instalação. O resultado pode ser muito mais embaraçoso: as monitoras, provavelmente, devem estar rindo. O riso se transformará em escárnio e desprezo quando saírmos atordoados da disruptiva experiência.
Concluí que a poluição sonora que sempre atribuí à capital paulista já estava introjetado na minha cabeça. Apesar de perceber que aquela caixa vedava as sirenes, as buzinas, os motores, o falatório e os demais sons, ou barulhos, ambientes, eu transportava comigo ideias, projetos, objetivos e grilos que nunca se silenciavam.
56
Budismo high-society 🔵
Só poderia ser ali, a única casa em estilo oriental da região. A decoração “muito louca e os sininhos na porta não deixavam mais dúvidas. Se fosse centro de macumba a localização seria em Itaquera, Cidade Tiradentes, Parelheiros ou qualquer bairro de periferia. Mas como era a religião dos ricos e famosos, o endereço do templo budista era no bairro de Perdizes, barro nobre de São Paulo.
Chegando lá, tive que encarar uma turminha que estampava o arquétipo perfeito de quem fazia mapa astral, jogava tarô, acreditava em ETs, bruxas, gnomos, energia, esse tipo de coisa. Ah, também viajava para lugares como São Tomé das Letras. Ninguém poderia descobrir, mas eu era um corintiano comum e superficial sem análises muito embasadas da existência, apenas à procura de uma cerimônia diferente da missa católica. Me adaptei como pude: só com meias, falei mansamente “namastê” (fazendo o gesto) até para o porteiro.
Me apresentei e segui todo o ritual. Como não conseguia ficar na posição de lótus, nem relaxar, nem meditar, me senti um impostor. Além disso, eu ficava com um olho fechado e o outro aberto, sempre alerta (ou tenso), verificando se alguém, como eu, se sentia ali ainda — no meio da metrópole. Enquanto os outros pareciam ter voado sobre montanhas, nadado em rios cristalinos, tomado banho de cachoeira e descansado cercados de verde, eu somente ouvia ônibus, motos, buzinas e uma impressora matricial que deveria estar preparando o meu boleto.
Terminada a improdutiva sessão, nossa guru questionou se todos haviam “viajado” para terras distantes. Como os outros, aquiesci para não frustrar a hippie de butique. Creio que alguns não obtiveram os resultados prometidos, mas, como eu, não quiseram admitir em público.
Não consegui escapar dali sem antes visitar a lojinha. Suvenires, estátuas, objetos de decoração e livros, muitos livros. Publicações ensinando a meditar me fizeram sentir menos estranho.
Finalmente, fugi da experiência esotérica. Saí da estranha casa e ganhei as ruas. Voltei para a minha realidade, os veículos, as buzinas e o preenchimento sonoro urbano.
“Há mais coisas entre os céu e a Terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”
(William Shakespeare)
Chegando lá, tive que encarar uma turminha que estampava o arquétipo perfeito de quem fazia mapa astral, jogava tarô, acreditava em ETs, bruxas, gnomos, energia, esse tipo de coisa. Ah, também viajava para lugares como São Tomé das Letras. Ninguém poderia descobrir, mas eu era um corintiano comum e superficial sem análises muito embasadas da existência, apenas à procura de uma cerimônia diferente da missa católica. Me adaptei como pude: só com meias, falei mansamente “namastê” (fazendo o gesto) até para o porteiro.
Me apresentei e segui todo o ritual. Como não conseguia ficar na posição de lótus, nem relaxar, nem meditar, me senti um impostor. Além disso, eu ficava com um olho fechado e o outro aberto, sempre alerta (ou tenso), verificando se alguém, como eu, se sentia ali ainda — no meio da metrópole. Enquanto os outros pareciam ter voado sobre montanhas, nadado em rios cristalinos, tomado banho de cachoeira e descansado cercados de verde, eu somente ouvia ônibus, motos, buzinas e uma impressora matricial que deveria estar preparando o meu boleto.
Terminada a improdutiva sessão, nossa guru questionou se todos haviam “viajado” para terras distantes. Como os outros, aquiesci para não frustrar a hippie de butique. Creio que alguns não obtiveram os resultados prometidos, mas, como eu, não quiseram admitir em público.
Não consegui escapar dali sem antes visitar a lojinha. Suvenires, estátuas, objetos de decoração e livros, muitos livros. Publicações ensinando a meditar me fizeram sentir menos estranho.
Finalmente, fugi da experiência esotérica. Saí da estranha casa e ganhei as ruas. Voltei para a minha realidade, os veículos, as buzinas e o preenchimento sonoro urbano.
“Há mais coisas entre os céu e a Terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”
(William Shakespeare)
75
Corinthians X Bahia 🔵
Sábado de sol, Pacaembu lotado. Jogo em casa, não tem como dar errado. Perfeito para meu cunhado, meus sobrinhos e eu irmos ao Estádio ver o Corinthians massacrar o visitante Bahia.
Estava tudo dando certo: o disputado estacionamento foi resolvido da melhor maneira; a difícil, e aparentemente esgotada, entrada foi, inexplicavelmente, solucionada. As pistas já apontavam, o espírito era de goleada: bandeiras, camisas e badulaques à venda; torcedores de diversas classes sociais. Depois de resolvidos os problemas, era só entrar no clima do “já ganhou” acompanhando canções, ou gritos de guerra, como: “Corinthians veio pra vencer”, “Porópopó” e “Caiu na rede é peixe lêlêaá, o Timão vai golear”. Com esse ambiente positivo, tudo dando certo e a vitória iminente contra o fraco Bahia, era só aguardar o momento de comemorar o primeiro gol. Só que não.
Dois detalhes saíram diferentes do combinado. Frustrando a mais básica das expectativas, nesse dia não houve nem um golzinho, muito menos, logicamente, vitória. Saímos do estádio com o peso da vergonha que só quem vai a um jogo conhece: tudo começa na saída de casa.
A gente saiu com um certo ar de superioridade, como se fôssemos os próprios jogadores, arrogando sermos escolhidos por desfrutar da vitória, que a Humanidade apenas conhece de quatro em quatro anos. Voltaríamos para casa como confrades, retornando de uma experiência mística e hermética incompreendida por pessoas comuns.
Como perdemos nessa aposta, a volta para casa foi pesada. A cada metro mais próximo da residência, sentíamos toda a carga de enfrentar a pergunta acompanhada de um sorrisinho sacana: E aí, como foi o jogo? Isso é pior que pergunta de vestibular.
Antes de encarar todos e ouvir a perguntinha vingativa, entramos em casa, tentamos estufar o peito e fingir que tudo foi excelente, mas é impossível mascarar que voltamos murchos e com aspecto de derrota.
McDonald’s ou Habib’s são dois honrosos finais de sábado. Num outro jogo, tudo se repete; se for com vitória, o desfecho é outro. A empáfia vai até o fim. Nós achamos que vencemos algo; os outros fingem que acreditam para não estragar essa doce ilusão.
Estou envergonhado, mas tenho que revelar: Corinthians 0 X 1 Bahia
Estava tudo dando certo: o disputado estacionamento foi resolvido da melhor maneira; a difícil, e aparentemente esgotada, entrada foi, inexplicavelmente, solucionada. As pistas já apontavam, o espírito era de goleada: bandeiras, camisas e badulaques à venda; torcedores de diversas classes sociais. Depois de resolvidos os problemas, era só entrar no clima do “já ganhou” acompanhando canções, ou gritos de guerra, como: “Corinthians veio pra vencer”, “Porópopó” e “Caiu na rede é peixe lêlêaá, o Timão vai golear”. Com esse ambiente positivo, tudo dando certo e a vitória iminente contra o fraco Bahia, era só aguardar o momento de comemorar o primeiro gol. Só que não.
Dois detalhes saíram diferentes do combinado. Frustrando a mais básica das expectativas, nesse dia não houve nem um golzinho, muito menos, logicamente, vitória. Saímos do estádio com o peso da vergonha que só quem vai a um jogo conhece: tudo começa na saída de casa.
A gente saiu com um certo ar de superioridade, como se fôssemos os próprios jogadores, arrogando sermos escolhidos por desfrutar da vitória, que a Humanidade apenas conhece de quatro em quatro anos. Voltaríamos para casa como confrades, retornando de uma experiência mística e hermética incompreendida por pessoas comuns.
Como perdemos nessa aposta, a volta para casa foi pesada. A cada metro mais próximo da residência, sentíamos toda a carga de enfrentar a pergunta acompanhada de um sorrisinho sacana: E aí, como foi o jogo? Isso é pior que pergunta de vestibular.
Antes de encarar todos e ouvir a perguntinha vingativa, entramos em casa, tentamos estufar o peito e fingir que tudo foi excelente, mas é impossível mascarar que voltamos murchos e com aspecto de derrota.
McDonald’s ou Habib’s são dois honrosos finais de sábado. Num outro jogo, tudo se repete; se for com vitória, o desfecho é outro. A empáfia vai até o fim. Nós achamos que vencemos algo; os outros fingem que acreditam para não estragar essa doce ilusão.
Estou envergonhado, mas tenho que revelar: Corinthians 0 X 1 Bahia
56
Diga aonde você vai,que eu vou varrendo 🔴
O STF deu uma mãozinha. Não, foi uma mãezona e deu uma mãozona. O Supremo Tribunal Federal retribuiu a generosidade e tornou Lula elegível. Os senadores fingem que os ministros possuem notório saber jurídico e a conduta ilibada e os ministros também fingem na hora do julgamento. Os resultados são inconstitucionalidades normalizadas.
Mas o assunto é outro. Com toda a ajuda a Lula, a imprensa não podia ficar de fora e colocou o ex-presid... em primeiro nas pesquisas. Fora a própria imprensa, pouca gente “comprou” essa ideia. Logo, quem duvidava das tais pesquisas era tachado de bolsonarista, que usava chapéu de alumínio ou acreditava na teoria da Terra Plana.
Mas o maior erro foi atribuir aos pesquisadores a detecção de um cara, que tem medo de sair às ruas sem sua claque, quase vencendo em primeiro turno. Como nem o PT engoliu a lorota, resolveram trocar o marqueteiro. Aí “a casa caiu”.
Como uma equipe que substitui o técnico líder do campeonato, o Partido dos Trabalhadores surpreendeu todos quando resolveu demitir o marqueteiro responsável que colocou um bandido no topo das principais pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. A atitude, que pune um vencedor, pareceria tresloucada se não confirmasse o que todos (bolsonaristas e petistas) já suspeitavam: isso é um manjado engodo para induzir os mais distraídos.
O marqueteiro escolhido irá amargar a dura realidade, ou seja, a derrota. Tomado pelo medo de enfrentar as ruas e os debates, Lula e seu novo marqueteiro terão que mentir como nunca — no caso de Lula: como sempre.
A pesquisa informal chamada de “Datapovo” leva em consideração aquilo que vemos, não aquilo que ninguém constata no dia a dia. Os resultados apurados, quando não são colhidos na porta de um sindicato, são apenas números. Preferência irreal, não se sustenta a uma rápida pergunta ao taxista.
Ao candidato dos sindicalistas, só restará o consolo de não ter que fazer chover picanha.
Mas o assunto é outro. Com toda a ajuda a Lula, a imprensa não podia ficar de fora e colocou o ex-presid... em primeiro nas pesquisas. Fora a própria imprensa, pouca gente “comprou” essa ideia. Logo, quem duvidava das tais pesquisas era tachado de bolsonarista, que usava chapéu de alumínio ou acreditava na teoria da Terra Plana.
Mas o maior erro foi atribuir aos pesquisadores a detecção de um cara, que tem medo de sair às ruas sem sua claque, quase vencendo em primeiro turno. Como nem o PT engoliu a lorota, resolveram trocar o marqueteiro. Aí “a casa caiu”.
Como uma equipe que substitui o técnico líder do campeonato, o Partido dos Trabalhadores surpreendeu todos quando resolveu demitir o marqueteiro responsável que colocou um bandido no topo das principais pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. A atitude, que pune um vencedor, pareceria tresloucada se não confirmasse o que todos (bolsonaristas e petistas) já suspeitavam: isso é um manjado engodo para induzir os mais distraídos.
O marqueteiro escolhido irá amargar a dura realidade, ou seja, a derrota. Tomado pelo medo de enfrentar as ruas e os debates, Lula e seu novo marqueteiro terão que mentir como nunca — no caso de Lula: como sempre.
A pesquisa informal chamada de “Datapovo” leva em consideração aquilo que vemos, não aquilo que ninguém constata no dia a dia. Os resultados apurados, quando não são colhidos na porta de um sindicato, são apenas números. Preferência irreal, não se sustenta a uma rápida pergunta ao taxista.
Ao candidato dos sindicalistas, só restará o consolo de não ter que fazer chover picanha.
43
A Ilha da Fantasia 🔵
Aquilo não era uma ilha, mas era alguma cerveja cercada por muita sede. O imóvel era, injustamente, chamado de restaurante. Talvez por causa do salão grande com pé-direito alto e uma mesa de sinuca com feltro grudento, madeira estufada e tacos disformes.
Um deserto no meio do oásis: era isso o que aquele bar parecia representar para o dono. Quando fazia um belo dia de sol, para nós era um convite para prestigiar o estabelecimento comercial do Português, molhando a goela e beliscando um tira-gosto. Para o Português, significava trabalho. Isso era péssimo, motivo para uma preguiçosa reclamação. Se o dia fosse ensolarado, pior, pois interrompia seu planejamento diário: fazer nada pela manhã; de tarde, descansar; à noite, não fazer coisa nenhuma; depois, descansar. Naquele paraíso, a definição de bom e ruim era inversamente proporcional para o Português e sua clientela.
O proprietário só queria evitar a fadiga e nós, representantes de uma terrível ameaça cheia de sede, um modesto refúgio. Para nós, uma inocente e geladíssima cerveja num dia ensolarado; para ele, o dia ensolarado não tinha o menor nexo causal com o bar cheio. O que era um dia bonito, para ele era um dia horrível que interromperia seu descanso.
A mesa de sinuca, com um pano parecendo uma toalha de mesa, representava algum desafio e pertencimento — por saber jogar naquela porcaria; o atendimento tinha um lado cômico — a gente tinha uma desculpa para sermos péssimos clientes, mas essa licença tácita nunca foi exercida; a preguiça, a indisposição, a inércia e a falta de visão empreendedora do Português vinha carregada de humor involuntário também; e o ambiente do bar incrustado no meio do mato, com uma represa, naturalmente agradáveis, concedia uma permissividade bucólica, quase uma licença poética.
O Português faleceu. Talvez agora ele tenha o descanso que nunca iria encontrar aqui na Terra.
*
Chegou o novo proprietário, prontamente apelidado de Capitão Roarke. O restaurante ganhou novos ares e se tornou parada “obrigatória” para lanchas da represa. Tudo mudou, chegávamos na Ilha da Fantasia (o restaurante) e íamos para a Távola Redonda (uma mesa velha, de madeira, redonda e isolada). Demonstrando tino para os negócios, O Anfitrião (Sr. Roarke) vinha dar as boas-vindas, sempre com o sorriso e a caixa registradora abertos.
PS: Os apelidos Ilha da Fantasia, Sr. Roarke e O Anfitrião são conhecidos por gente muito velha ou quem acumula cultura inútil.
Um deserto no meio do oásis: era isso o que aquele bar parecia representar para o dono. Quando fazia um belo dia de sol, para nós era um convite para prestigiar o estabelecimento comercial do Português, molhando a goela e beliscando um tira-gosto. Para o Português, significava trabalho. Isso era péssimo, motivo para uma preguiçosa reclamação. Se o dia fosse ensolarado, pior, pois interrompia seu planejamento diário: fazer nada pela manhã; de tarde, descansar; à noite, não fazer coisa nenhuma; depois, descansar. Naquele paraíso, a definição de bom e ruim era inversamente proporcional para o Português e sua clientela.
O proprietário só queria evitar a fadiga e nós, representantes de uma terrível ameaça cheia de sede, um modesto refúgio. Para nós, uma inocente e geladíssima cerveja num dia ensolarado; para ele, o dia ensolarado não tinha o menor nexo causal com o bar cheio. O que era um dia bonito, para ele era um dia horrível que interromperia seu descanso.
A mesa de sinuca, com um pano parecendo uma toalha de mesa, representava algum desafio e pertencimento — por saber jogar naquela porcaria; o atendimento tinha um lado cômico — a gente tinha uma desculpa para sermos péssimos clientes, mas essa licença tácita nunca foi exercida; a preguiça, a indisposição, a inércia e a falta de visão empreendedora do Português vinha carregada de humor involuntário também; e o ambiente do bar incrustado no meio do mato, com uma represa, naturalmente agradáveis, concedia uma permissividade bucólica, quase uma licença poética.
O Português faleceu. Talvez agora ele tenha o descanso que nunca iria encontrar aqui na Terra.
*
Chegou o novo proprietário, prontamente apelidado de Capitão Roarke. O restaurante ganhou novos ares e se tornou parada “obrigatória” para lanchas da represa. Tudo mudou, chegávamos na Ilha da Fantasia (o restaurante) e íamos para a Távola Redonda (uma mesa velha, de madeira, redonda e isolada). Demonstrando tino para os negócios, O Anfitrião (Sr. Roarke) vinha dar as boas-vindas, sempre com o sorriso e a caixa registradora abertos.
PS: Os apelidos Ilha da Fantasia, Sr. Roarke e O Anfitrião são conhecidos por gente muito velha ou quem acumula cultura inútil.
101
Carnaval fora de época 🔴
Pandemia, guerra e eleições. Quase não discutimos futebol — em ano de Copa do Mundo e onde já foi considerado o país do futebol. O Carnaval oficial, copiando o carnaval fora de época, ocupou um cantinho da agenda, em abril. Afinal, para alguns, têm que haver os dias do “golden shower” público e aceitável.
Mesmo para quem gostava da festa, o feriadão se tornou a oportunidade ideal para cair na estrada, fugindo de foliões exagerados (do tipo: ”eu nunca me diverti tanto”).
Esse “Carnabril” (outono), depois das múltiplas doses das vacinas, das máscaras, do isolamento social e do “lockdown”, pareceu-me uma concessão governamental para a diversão. A alegria carnavalesca, por ser datada, sempre exalou artificialidade; este ano, por ter sido adiado, pareceu mais mecânico — tipo: a partir de hoje e daqui pra lá tudo é permitido. De repente, apesar de tudo, era obrigatório, pelo menos, aparentar estar feliz. É a “Facebooklização da Festa de Momo.
Nessa folia permitida, emulando pseudo-artistas, o que sempre se vê são performances tentando chocar, vá, lá, a sociedade, a classe média ou a “família brasileira — nesse pacote devem estar, obrigatoriamente, incluídos: velhos, brancos e heterossexuais. Para começar a inverter a avaliação de quem é o verdadeiro “careta” na realidade, é só perguntar ao vovô e a vovó como foi 1968. Se eles responderem com um sorrisinho safado, vá ao banheiro, deite em posição fetal e recolhasse à sua insignificância em termos de contestação do padrão de sociedade.
Com o preciosismo de algumas semanas e seguindo uma nova denominação religiosa chamada “Ciência”, os governantes deram um drible no coronavírus. O maldito vírus, é claro, obedecendo à nossa sempre zelosa terceira via (usando alinhadíssimos ternos, falando um belo português e respeitando a liturgia do cargo), não atacou em datas, horários e locais especiais.
Segundo os respectivos protocolos da ONU - OMS, os políticos (sempre eles) mantiveram o povão controlado e liberaram (em ano de eleições) a soltura das bruxas. Agora segurem...
Mesmo para quem gostava da festa, o feriadão se tornou a oportunidade ideal para cair na estrada, fugindo de foliões exagerados (do tipo: ”eu nunca me diverti tanto”).
Esse “Carnabril” (outono), depois das múltiplas doses das vacinas, das máscaras, do isolamento social e do “lockdown”, pareceu-me uma concessão governamental para a diversão. A alegria carnavalesca, por ser datada, sempre exalou artificialidade; este ano, por ter sido adiado, pareceu mais mecânico — tipo: a partir de hoje e daqui pra lá tudo é permitido. De repente, apesar de tudo, era obrigatório, pelo menos, aparentar estar feliz. É a “Facebooklização da Festa de Momo.
Nessa folia permitida, emulando pseudo-artistas, o que sempre se vê são performances tentando chocar, vá, lá, a sociedade, a classe média ou a “família brasileira — nesse pacote devem estar, obrigatoriamente, incluídos: velhos, brancos e heterossexuais. Para começar a inverter a avaliação de quem é o verdadeiro “careta” na realidade, é só perguntar ao vovô e a vovó como foi 1968. Se eles responderem com um sorrisinho safado, vá ao banheiro, deite em posição fetal e recolhasse à sua insignificância em termos de contestação do padrão de sociedade.
Com o preciosismo de algumas semanas e seguindo uma nova denominação religiosa chamada “Ciência”, os governantes deram um drible no coronavírus. O maldito vírus, é claro, obedecendo à nossa sempre zelosa terceira via (usando alinhadíssimos ternos, falando um belo português e respeitando a liturgia do cargo), não atacou em datas, horários e locais especiais.
Segundo os respectivos protocolos da ONU - OMS, os políticos (sempre eles) mantiveram o povão controlado e liberaram (em ano de eleições) a soltura das bruxas. Agora segurem...
74
Por que eles odeiam a classe média? 🔴
Tornou-se célebre o discurso de ódio da filósofa Marilena Chauí. Em monólogo libertador, a, vá lá, filósofa exalou todo seu rancor e raiva contra a classe média. A manifestação vocal demoníaca foi proferida sob risos e aplausos concordantes de Lula e alunos da USP. Os alunos que aplaudiram também devem ser ricos ou pertencer à desprezada classe. Marilena Chauí, musa do PT, odeia tanto a classe média que tratou de abandoná-la, tornando-se rica. O vídeo, que já é um clássico, está disponível no YouTube.
Recentemente, foi a vez do Lula revelar o desejo de eliminar a classe média. Com um texto assustador, Lula definiu quantos aparelhos de TV essa classe social pode ter. Ato falho ou sinceridade crua, são dois bons motivos para temer um novo governo do bandido.
A classe média é a que mais sofre os solavancos da Economia. Sua mobilidade social tende para baixo por causa da insegurança do nosso país. Uma crise mais séria significa liquidação e bazar de garagem na combalida classe. Tirar os filhos do curso de inglês, da natação, da escolinha de futebol, do “ballet” ou do colégio particular e, nos casos mais graves, vender o carro e a casa garantem a adimplência das contas e prestações, afinal quem rala para manter-se na classe média zela para não “sujar o nome”.
Em termos financeiros, há uma amplitude grande que impossibilita aferir qual é a renda dessa tal classe média. De qualquer forma, a disparidade é tão gritante que revela o desconhecimento e distanciamento da realidade. Distanciamento que enganou Lula e o dirigiu ao “sincericídio”.
Sua (Lula) realidade é entre jatinhos (sempre de um amigo), vinhos premiados e praia particular, portanto, classe alta. Há muito tempo desconhecendo um carrinho popular e um cômodo puxadinho, o eterno presidenciável acredita que é rico quem a classe média pertence.
Eles odeiam a classe média porque ela não recorre ao BNDES nem recebe o Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família), portanto, não depende de governo nenhum. Alguns serviços, apesar de pagos nos impostos, são readquiridos na iniciativa privada: plano de saúde, segurança privada e ensino particular.
É isso.
Recentemente, foi a vez do Lula revelar o desejo de eliminar a classe média. Com um texto assustador, Lula definiu quantos aparelhos de TV essa classe social pode ter. Ato falho ou sinceridade crua, são dois bons motivos para temer um novo governo do bandido.
A classe média é a que mais sofre os solavancos da Economia. Sua mobilidade social tende para baixo por causa da insegurança do nosso país. Uma crise mais séria significa liquidação e bazar de garagem na combalida classe. Tirar os filhos do curso de inglês, da natação, da escolinha de futebol, do “ballet” ou do colégio particular e, nos casos mais graves, vender o carro e a casa garantem a adimplência das contas e prestações, afinal quem rala para manter-se na classe média zela para não “sujar o nome”.
Em termos financeiros, há uma amplitude grande que impossibilita aferir qual é a renda dessa tal classe média. De qualquer forma, a disparidade é tão gritante que revela o desconhecimento e distanciamento da realidade. Distanciamento que enganou Lula e o dirigiu ao “sincericídio”.
Sua (Lula) realidade é entre jatinhos (sempre de um amigo), vinhos premiados e praia particular, portanto, classe alta. Há muito tempo desconhecendo um carrinho popular e um cômodo puxadinho, o eterno presidenciável acredita que é rico quem a classe média pertence.
Eles odeiam a classe média porque ela não recorre ao BNDES nem recebe o Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família), portanto, não depende de governo nenhum. Alguns serviços, apesar de pagos nos impostos, são readquiridos na iniciativa privada: plano de saúde, segurança privada e ensino particular.
É isso.
71
Operação Cavalo de Troia 🔴
Não foi tão estranho Geraldo Alckmin externando um pensamento aliado ao de Luiz Inácio Lula da Silva; esquisito foi Alckmin tentando falar com as massas igual ao petista. Faltou voz, faltou carisma e faltou convicção. O ex-governador erra ao trocar de plateia; ele nunca será persuasivo querendo insuflar um bando de sindicalistas sedentos por sangue, como era quando se comunicava como um padre numa homilia. Geraldo tentou esconder o Alckmin que habita aquele corpo, mas foi mais “picolé de chuchu” como nunca.
Mas se engana quem acha que a intenção de Alckmin é unir forças com Lula para construir um país melhor. Político matreiro (“das antigas”), Alckmin está dando o seu jeito de infiltrar-se no Palácio do Planalto. Pelo voto, apesar das tentativas, não surtiu efeito. Vestir um colete estatizante não convenceu, pelo contrário, afastou aqueles, como eu, que pensavam que o PSDB era de direita. Não encontrou outra solução, juntou-se ao líder populista para tenra subir a Rampa. Até imitou o Getúlio Vargas, quando sacou um “Trabalhadores do meu Brasil”, esticando um “L” gaúcho. Mesmo imitando o velho caudilho, não pareceu popular nem populista.
Lula, como sempre, sabe o que está fazendo e deve estar dando boas risadas nos bastidores. Zé Dirceu não deixaria Lula dar um tremendo “ponto sem nó”. Quem já saiu perdendo mais foi o antigo peessedebista, entretanto estamos assistindo a uma briga de serpentes.
O PT já conseguiu retirar Geraldo Alckmin da calçada do Palácio dos Bandeirantes, deixando o caminho mais fácil para Fernando Haddad; Alckmin, na primeira oportunidade, puxará o tapete do presidente ou o “efeito Covas” poupará o trabalho sujo.
Isso tudo não passa de teoria da conspiração. Os caminhos tortos que possibilitaram a soltura e candidatura do velho líder petista não serão suficientes para torná-lo mandatário da Nação. Ambos enterraram suas carreiras políticas nacionais. Para Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva serão possíveis apenas as cadeiras de vereadores de Pindamonhangaba e São Bernardo do Campo, respectivamente.
Mas se engana quem acha que a intenção de Alckmin é unir forças com Lula para construir um país melhor. Político matreiro (“das antigas”), Alckmin está dando o seu jeito de infiltrar-se no Palácio do Planalto. Pelo voto, apesar das tentativas, não surtiu efeito. Vestir um colete estatizante não convenceu, pelo contrário, afastou aqueles, como eu, que pensavam que o PSDB era de direita. Não encontrou outra solução, juntou-se ao líder populista para tenra subir a Rampa. Até imitou o Getúlio Vargas, quando sacou um “Trabalhadores do meu Brasil”, esticando um “L” gaúcho. Mesmo imitando o velho caudilho, não pareceu popular nem populista.
Lula, como sempre, sabe o que está fazendo e deve estar dando boas risadas nos bastidores. Zé Dirceu não deixaria Lula dar um tremendo “ponto sem nó”. Quem já saiu perdendo mais foi o antigo peessedebista, entretanto estamos assistindo a uma briga de serpentes.
O PT já conseguiu retirar Geraldo Alckmin da calçada do Palácio dos Bandeirantes, deixando o caminho mais fácil para Fernando Haddad; Alckmin, na primeira oportunidade, puxará o tapete do presidente ou o “efeito Covas” poupará o trabalho sujo.
Isso tudo não passa de teoria da conspiração. Os caminhos tortos que possibilitaram a soltura e candidatura do velho líder petista não serão suficientes para torná-lo mandatário da Nação. Ambos enterraram suas carreiras políticas nacionais. Para Geraldo Alckmin e Luiz Inácio Lula da Silva serão possíveis apenas as cadeiras de vereadores de Pindamonhangaba e São Bernardo do Campo, respectivamente.
53
Bingo! 🔵
A cada pedra cantada percebi que eu poderia ser o grande vencedor. A coincidência só podia ser um sinal de que, naquele dia, a sorte estaria do meu lado. Adquiri uma autoconfiança típica dos vencedores.
Sim, eu disputava um animado bingo de quermesse numa capela do interior. Com direito a velhas piadas como “dois patinhos na lagoa”, “idade de Cristo”, “uma boa ideia” e “vai começar o jogo”, travei a batalha entre idosos, alguns jovens e viciados numa jogatina legalizada.
Pois bem, a profusão de “números bons” me levou a ficar “pela boa”. Ignorando as reclamações e desistências dos meus concorrentes, grudei os olhos na cartela, guardei o fôlego e fiquei na expectativa de soltar o grande grito.
Não deu outra. Eu gritei com vontade: bingo! Berrei com potência e fiquei ouvindo os protestos da velha guarda. Triunfante, escapando do linchamento e pedindo passagem para ser notado, fui receber o merecido e grandioso prêmio. Cheguei como quem receberia um diploma; saí, meio sem-graça, como saem os que recebem uma medalha de “honra ao mérito”.
O prêmio era um churrasco e um cuscuz. Tinha certeza que eu havia ganhado algo como um rádio de pilha ou um liquidificador. Não desmerecendo o animal sacrificado para satisfazer nossa necessidade de proteína, nem quem preparou a iguaria — que eu não sei escrever o nome —, mas eu me dediquei e mergulhei na jogatina esperando locupletar-me com o disputado torneio. De qualquer maneira, vitória era vitória e precisava disfarçar a decepção: cabeça erguida, peito estufado e estampando um sorriso levemente envergonhado, evadi-me da quermesse, conformado pela benemerência daquele dia.
Exceto o humilde objetivo, o certame foi muito disputado e ajudou na liberação da cota diária de adrenalina e, na vitória, dopamina, ocitocina, serotonina e/ou endorfina. Tudo isso, sem ser flagrado pela Polícia Civil ou Federal, nem me esconder embaixo da mesa ou no banheiro. Sim, quando a fiscalização estoura um cassino clandestino, imagino-me, fila indiana e cabeça baixa, saindo da casa e embarcando num camburão.
O prêmio não correspondeu às minhas expectativas, mas, tenho certeza, o cérebro liberou os mesmos neurotransmissores que derramaria se eu ganhasse uma Ferrari.
Sim, eu disputava um animado bingo de quermesse numa capela do interior. Com direito a velhas piadas como “dois patinhos na lagoa”, “idade de Cristo”, “uma boa ideia” e “vai começar o jogo”, travei a batalha entre idosos, alguns jovens e viciados numa jogatina legalizada.
Pois bem, a profusão de “números bons” me levou a ficar “pela boa”. Ignorando as reclamações e desistências dos meus concorrentes, grudei os olhos na cartela, guardei o fôlego e fiquei na expectativa de soltar o grande grito.
Não deu outra. Eu gritei com vontade: bingo! Berrei com potência e fiquei ouvindo os protestos da velha guarda. Triunfante, escapando do linchamento e pedindo passagem para ser notado, fui receber o merecido e grandioso prêmio. Cheguei como quem receberia um diploma; saí, meio sem-graça, como saem os que recebem uma medalha de “honra ao mérito”.
O prêmio era um churrasco e um cuscuz. Tinha certeza que eu havia ganhado algo como um rádio de pilha ou um liquidificador. Não desmerecendo o animal sacrificado para satisfazer nossa necessidade de proteína, nem quem preparou a iguaria — que eu não sei escrever o nome —, mas eu me dediquei e mergulhei na jogatina esperando locupletar-me com o disputado torneio. De qualquer maneira, vitória era vitória e precisava disfarçar a decepção: cabeça erguida, peito estufado e estampando um sorriso levemente envergonhado, evadi-me da quermesse, conformado pela benemerência daquele dia.
Exceto o humilde objetivo, o certame foi muito disputado e ajudou na liberação da cota diária de adrenalina e, na vitória, dopamina, ocitocina, serotonina e/ou endorfina. Tudo isso, sem ser flagrado pela Polícia Civil ou Federal, nem me esconder embaixo da mesa ou no banheiro. Sim, quando a fiscalização estoura um cassino clandestino, imagino-me, fila indiana e cabeça baixa, saindo da casa e embarcando num camburão.
O prêmio não correspondeu às minhas expectativas, mas, tenho certeza, o cérebro liberou os mesmos neurotransmissores que derramaria se eu ganhasse uma Ferrari.
115
Comentários (0)
Iniciar sessão
para publicar um comentário.
NoComments