O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Tornou-se célebre o discurso de ódio da filósofa Marilena Chauí. Em monólogo libertador, a, vá lá, filósofa exalou todo seu rancor e raiva contra a classe média. A manifestação vocal demoníaca foi proferida sob risos e aplausos concordantes de Lula e alunos da USP. Os alunos que aplaudiram também devem ser ricos ou pertencer à desprezada classe. Marilena Chauí, musa do PT, odeia tanto a classe média que tratou de abandoná-la, tornando-se rica. O vídeo, que já é um clássico, está disponível no YouTube.
Recentemente, foi a vez do Lula revelar o desejo de eliminar a classe média. Com um texto assustador, Lula definiu quantos aparelhos de TV essa classe social pode ter. Ato falho ou sinceridade crua, são dois bons motivos para temer um novo governo do bandido.
A classe média é a que mais sofre os solavancos da Economia. Sua mobilidade social tende para baixo por causa da insegurança do nosso país. Uma crise mais séria significa liquidação e bazar de garagem na combalida classe. Tirar os filhos do curso de inglês, da natação, da escolinha de futebol, do “ballet” ou do colégio particular e, nos casos mais graves, vender o carro e a casa garantem a adimplência das contas e prestações, afinal quem rala para manter-se na classe média zela para não “sujar o nome”.
Em termos financeiros, há uma amplitude grande que impossibilita aferir qual é a renda dessa tal classe média. De qualquer forma, a disparidade é tão gritante que revela o desconhecimento e distanciamento da realidade. Distanciamento que enganou Lula e o dirigiu ao “sincericídio”.
Sua (Lula) realidade é entre jatinhos (sempre de um amigo), vinhos premiados e praia particular, portanto, classe alta. Há muito tempo desconhecendo um carrinho popular e um cômodo puxadinho, o eterno presidenciável acredita que é rico quem a classe média pertence.
Eles odeiam a classe média porque ela não recorre ao BNDES nem recebe o Auxílio Brasil (antigo Bolsa Família), portanto, não depende de governo nenhum. Alguns serviços, apesar de pagos nos impostos, são readquiridos na iniciativa privada: plano de saúde, segurança privada e ensino particular.
É isso.
83
A Ilha da Fantasia 🔵
Aquilo não era uma ilha, mas era alguma cerveja cercada por muita sede. O imóvel era, injustamente, chamado de restaurante. Talvez por causa do salão grande com pé-direito alto e uma mesa de sinuca com feltro grudento, madeira estufada e tacos disformes.
Um deserto no meio do oásis: era isso o que aquele bar parecia representar para o dono. Quando fazia um belo dia de sol, para nós era um convite para prestigiar o estabelecimento comercial do Português, molhando a goela e beliscando um tira-gosto. Para o Português, significava trabalho. Isso era péssimo, motivo para uma preguiçosa reclamação. Se o dia fosse ensolarado, pior, pois interrompia seu planejamento diário: fazer nada pela manhã; de tarde, descansar; à noite, não fazer coisa nenhuma; depois, descansar. Naquele paraíso, a definição de bom e ruim era inversamente proporcional para o Português e sua clientela.
O proprietário só queria evitar a fadiga e nós, representantes de uma terrível ameaça cheia de sede, um modesto refúgio. Para nós, uma inocente e geladíssima cerveja num dia ensolarado; para ele, o dia ensolarado não tinha o menor nexo causal com o bar cheio. O que era um dia bonito, para ele era um dia horrível que interromperia seu descanso.
A mesa de sinuca, com um pano parecendo uma toalha de mesa, representava algum desafio e pertencimento — por saber jogar naquela porcaria; o atendimento tinha um lado cômico — a gente tinha uma desculpa para sermos péssimos clientes, mas essa licença tácita nunca foi exercida; a preguiça, a indisposição, a inércia e a falta de visão empreendedora do Português vinha carregada de humor involuntário também; e o ambiente do bar incrustado no meio do mato, com uma represa, naturalmente agradáveis, concedia uma permissividade bucólica, quase uma licença poética.
O Português faleceu. Talvez agora ele tenha o descanso que nunca iria encontrar aqui na Terra.
*
Chegou o novo proprietário, prontamente apelidado de Capitão Roarke. O restaurante ganhou novos ares e se tornou parada “obrigatória” para lanchas da represa. Tudo mudou, chegávamos na Ilha da Fantasia (o restaurante) e íamos para a Távola Redonda (uma mesa velha, de madeira, redonda e isolada). Demonstrando tino para os negócios, O Anfitrião (Sr. Roarke) vinha dar as boas-vindas, sempre com o sorriso e a caixa registradora abertos.
PS: Os apelidos Ilha da Fantasia, Sr. Roarke e O Anfitrião são conhecidos por gente muito velha ou quem acumula cultura inútil.
112
Crenças de luxo 🔴
Dava muito trabalho e custava muito ostentar um estilo de vida exclusivo e ao menos aparentemente nobre; agora basta aderir a causas aparentemente nobres como: “Black Lives Matter” ou levantar uma bandeira progressista qualquer (quaisquer diversidades). Achar a Greta Thunberg “do caramba” já é um bom começo. Basta sinalizar virtude para parecer um ser humano melhor e mais engajado (mais preocupado com as classes menos favorecidas).
O problema é quando a dissonância cognitiva deixa a diferença entre o que se pensa e o que se fala transparecer, ficando óbvio que a ostentação de uma bandeira progressista é resultado de uma elite culpada, pedágio intelectual ou o preço para pertencer a uma turminha. Transpondo todas as barreiras, é muito mais acessível frequentar o clube exclusivo e imaginário das “pessoas inclusivas e empáticas”.
As crenças de luxo são o novo passaporte de livre acesso a este clube que confere “status” social. Entretanto, o preço comportamental é alto. Como nas máfias, é impossível sair sem algum estrago. Cancelamento, perda de patrocínios, perda de seguidores e isolamento social são as retaliações mais imediatas (antes reservadas aos inimigos).
Justiça seja feita àqueles que realmente atuam naquilo que pregam. É muito difícil um idiota útil ou uma vítima da doutrinação escolar persistir com as crenças de luxo quando chegam suas primeiras contas de luz, água, aluguel etc. Tudo isto, considerando, é claro, a honestidade.
Tão útil como um colar de pérolas é fingir que sente pelas crianças da África; eficaz como o bracelete de ouro é levantar um cartaz contra o derretimento das geleiras do Ártico; e tão transformador quanto a ostentação de um anel de diamantes é protestar contra as queimadas na Amazônia. O paroxismo da inútil, porém visível demonstração de virtude é a genuflexão contra o racismo. É claro que as pautas ambientais e humanitárias são legítimas quando reais, mas é claro que a mera ostentação dessas bandeiras viraram a nova moeda, como a Bitcoin ou a cota de carbono.
Adotar uma ou mais crenças de luxo traz o conforto do pertencimento e “estar bem na fita” e, andando na linha, evita cancelamentos.
Bens materiais ficaram acessíveis, portanto ineficazes para distinguir sinais de riqueza. Enquanto a ralé se preocupa com saneamento básico, uma pracinha cuidada e água potável, os novos (e velhos) ricos reivindicam banheiros trans, defendem pautas ambientais e humanitárias inalcançáveis.
“Salvem as baleias”.
67
Bar do Léo 🔵
Avistamos o local, era bem simples. O tanto que falavam desse bar, levou as expectativas a um patamar que tinha alto potencial para frustração. E foi assim. O famoso Bar do Léo era bem comum, até pior que vários outros. O lendário barzinho do Centro de São Paulo tinha como símbolo um simpático leão. Mas não chegamos ali por causa do leãozinho e sim do tão falado chope.
Por ser pequeno, você podia optar por desviar de mesas e cadeiras espremidas ou ficar na calçada, em pé. Preferimos a segunda opção, mesmo não tendo outra escolha. A espelunca era bastante concorrida e todos tinham estampada na cara a expressão de estarem bebendo o premiadíssimo Chope Brahma com um colarinho cremoso de milimétricos três dedos de espessura em um ambiente “vintage” do veterano Bar do Léo e beliscando deliciosos petiscos.
Além da tradição do estabelecimento, outros diferenciais prometidos não chamavam a atenção, desde que a bebida chegasse bem gelada ou o cliente fosse muito detalhista: os barris, à sombra, em câmara fria e a lavagem “especial” dos copos (ah,tá!), tudo meticulosamente planejado e organizado. Mas o que importava era um chope bem tirado, bem gelado e um preço justo (só que não). A antiguidade dos garçons e o atendimento não importavam tanto.
Essa frescura toda ruiu quando descobriu-se que o chope não era Brahma, mas um mais barato chamado Ashby, também foram encontrados alimentos vencidos. Fui enganado. Todas as vezes que fui até o boteco me dei mal. A tradição, as minúcias e a qualidade eram propaladas para inflacionar a conta. Essa é a tática de pontos históricos, da moda ou, simplesmente, concorridos. Exemplos: Ponto Chic, Bar Brahma, Mezanino do Mercadão (sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau) etc.
“A casa caiu” porque o (ir)responsável “lobo em pele de cordeiro” vendia “gato por lebre” perto da delegacia e onde “us hômi” “molhavam a goela” depois do expediente.
A Cracolândia, que fica lá perto, vai bem, obrigado; mas não venham “colocar água no meu chope”, que isso é caso de polícia.
56
Canarinho Pistola ⚫️
Essa brava avezinha ganhou esse singelo apelido porque carrega a aparência assustadora, espantando qualquer tentativa de aproximação amigável dos torcedores de seleções adversárias ou manifestando todo o seu descontentamento com o futebol demonstrando pela Seleção.
Dizem as más línguas (as boas também) que o passarinho representa o estado de espírito do nosso povo após o 7 x 1. Dizem que depois do fatídico placar, o bicho desenvolveu a expressão que estampa seu crônico aborrecimento. No entanto, isso não passa de maledicência, porque, além do infortúnio ter sido há muito tempo, o descontentamento e a aparente cara de poucos amigos ter se eternizado, a figurinha cosmopolita atrai diversos torcedores, independente da origem.
Nosso animal já é um vencedor, porque não é obrigado a exibir aquela expressão facial besta (eternamente alegre) dos sorridentes mascotes vendedores de algodão doce. É sempre oportuno esclarecer, que escondido atrás da máscara com um falso sorriso de alegria está alguém mal-humorado, triste, mal pago, suado, sem a mínima vontade de brincar e com raiva do patrão e da Humanidade.
A expectativa é grande para que o guerreiro “franguinho” demonstre sua carinha enfezada nas ruas do Catar. O bichinho já esbanjou toda a sua “antipatia” caminhando na Copa da Rússia. Apesar da óbvia má disposição, o mascote não conseguiu fugir da efusiva aproximação de torcedores brasileiros (inclusive estrangeiros).
A decepção será grande, se o contrariado mascote for substituído por um coelhinho felpudo e sorridente ou uma chinchila escovada e brincalhona. Definitivamente, independente dos resultados dos jogos, a torcida verde-amarela exige a soltura do Canarinho Pistola na Copa do Mundo Catar 2022.
Com as testas franzidas, o eternizado Canarinho Pistola está convocado para desfilar toda a sua simpatia involuntária que contrasta com sua expressão sempre enfezada. Se o futebol não convencer, ao menos o périplo do nosso mascote atrairá multidões. Entretanto, tenho pena do nosso animal emplumado, porque ele poderá ficar proibido de circular. Certamente, ele contrastará o mascote oficial da Copa.
65
O espancamento 🔵
J..., o pobre condenado, já estava amarrado no poste. Não havia a menor chance de escapar daquele iminente martírio. A sessão de espancamento iria começar. Todos estavam armados com o que houvesse: paus, pedras, objetos contundentes, perfurantes, cortantes, perfurocortantes, explosivos e um galão de gasolina — que denunciava o triste e cruel final daquela justiça com as próprias mãos.
O desgraçado J... tinha cometido o crime há muito tempo. Curiosos intervieram — na verdade, tentaram —, mas foram rapidamente dissuadidos. Na sede por sangue e na lei da periferia não havia perdão nem prescrição de traição. Sem a menor chance da imolação pública ser adiada e todos já armados, quem discordava da violenta tradição deveria resignar-se e sair de perto.
Arremessaram uma pedra. Começou uma sequência de golpes com paus, pedras e demais instrumentos. De vez em quando lançavam morteiros na direção do infeliz. Alguns, corajosos e mais empolgados ou com muita sede de justiça invadiam a “linha de tiro” com socos, chutes e voadoras.
Pronto. O serviço sujo já estava feito. Mas ninguém arredou pé, pois ainda faltava o principal: a queima do que restou inerte. O próximo episódio era o que todos mais aguardavam. O êxtase, o golpe de misericórdia, o ato final, o que há de pior dentro de cada um, o que desperta os instintos mais primitivos: a vingança. Toda a gasolina foi despejada, foi derramada no que restou do que nem o poste sustentava mais. No chão jazia um boneco, não com vísceras expostas, mas alguns maços de capim e jornais que serviam de enchimento do Boneco de Judas.
A Malhação do Judas foi o evento mais sincrético que já presenciei. Além da molecada católica, judeus, budistas, espíritas, evangélicos, umbandistas, ateus e agnósticos esperavam o dia do espancamento.
O boneco era caprichosamente confeccionado com roupa velha e enchimento, devidamente trajado para a sessão de linchamento, para depois servir como objeto de imolação e, inconscientemente, descarrego de tudo que nos afligia. Tratando-se de crianças: algum vizinho que não devolvia a bola, alguma guloseima negada ou um brinquedo estragado.
Na Sexta-feira da Paixão resistíamos a carne vermelha; no Sábado de Aleluia barbarizávamos Judas, quase 2000 anos depois da traição, mantendo a tradição; e no Domingo de Páscoa, inocentemente, cristãos tementes a Deus, devorávamos ovos de chocolate.
A tradição portuguesa e espanhola, embora violenta, significava apenas mais uma brincadeira. Depois dessa prática inocente, algo também extremamente violento e cruel: futebol de rua.
75
Doutores da agonia 🔵
Não há viagem de ônibus que seja tão entediante que não possa piorar. Pois foi assim que, num ponto lotado, embarcou um sujeito pretendendo alegrar parte do trajeto.
Avaliando que resultado ele poderia obter, calculei o grau de caracterização do ator: maquiagem mal-feita (borrada) e avental surrado e encardido. A composição toda era muito triste. O cabelo desgrenhado era a única coisa que gerava uma graça involuntária. O palhaço triste pretendia ser um “doutor da alegria” genérico, mas estava muito claro que o infeliz precisava de ajuda, não o contrário. Nem a maquiagem escondeu sua angústia. Infelizmente, sua atormentada realidade apenas se somou à de outros quando ele embarcou naquele coletivo.
O número, ou a tentativa de alegrar alguém, foi constrangedor, o que só tornava o ambiente pior. Pensei: palhaço, você não é engraçado. Só não vocalizei minha conclusão por medo que o pretenso parlapatão fosse linchado. Provavelmente, isso só tornaria as coisas piores e me causaria dó e arrependimento.
Sua vulnerabilidade e risco social revelaram-se completamente, corroborando minhas suspeitas, quando o cara fez um choroso discurso e passou recolhendo algumas moedas. Óbvio que todos perceberam que a triste figura recolhia os parcos trocados com a sanha de quem necessitava aplacar a fome.
O palhaço causou um certo burburinho, quebrando a rotina daquele povo. Esse é um dos objetivos de todo artista; entretanto o saltimbanco, por onde passava, deixava um rastro de fúria e desconforto.
Esse cara deve ter assistido ao filme “Patch Adams” e vislumbrou a solução para seus problemas. Finalmente o pedinte desembarcou, e o intuito do palhaço foi alcançado: o ambiente iluminou-se, os passageiros inclusive esboçaram um sorriso e conversaram alegres. Só não se sabe se o resultado se deu pelo encerramento do suplício ou por saber que há realidades bem piores do que retornar de um dia de trabalho num “busão” lotado.
92
Bêbada política 🔴
Lula teve mais um ataque de populismo explícito. Em cima de um palanque, para uma plateia amestrada, ele ensinou como se encerra uma guerra. Para ele, tudo se resolve tomando uma cerveja. Não sei se essa resolução faz parte das promessas de campanha, mas é uma proposta irrecusável e digna de prêmio Nobel.
A ideia é muito simples, só fica meio perigosa quando ele começa a enumerar as garrafas. Foi aí que eu desisti de trazer a paz ao mundo. Na quarta garrafa eu já não evitaria o lançamento de uma única granada e seria internado com coma alcoólico ou me apresentaria numa reunião dos Alcoólicos Anônimos (AAA).
Lula já ensinou como encerrar uma guerra interminável: palestinos x israelenses. Em dois mandatos, ele não conseguiu. Tal disparate fica bem mais fácil no alto de um palanque e a quilômetros de distância de qualquer disparo de obus.
Agora sei que as garrafas que eu esvaziei foram em vão. As longas horas que eu gastei “gelando a goela” não tiveram um propósito tão altruísta. Se ao menos eu oferecesse um brinde a Mandela ou Gandhi já me livraria deste horrível sentimento de culpa.
Guerra do Golfo, dos Balcãs, da Bósnia, Israel/Palestina..., tudo isso acontecendo e eu enchendo a cara e rindo sem um objetivo nobre! Tal indignação estende-se a quem comigo jogou conversa fora enquanto “molhava as palavras”.
Hoje não bebo álcool e ouvindo Lula sei que não é mera promessa de campanha. Ele bebe 1... 2... 3..., saideiras e acredita que é moleza parar uma guerra depois disso, falando grosso e “puxando a orelha” de Putin e Zelensky!
Qualquer intelectual da USP contemporizará a fala do ex-presidiário, justificando que foi apenas um arroubo de indignação; entretanto, na mente “privilegiada do Lula passa exatamente esta cena: ele, o presidente da Ucrânia e o presidente da Rússia sentados numa mesinha de armar, no canto de um boteco, resolvendo uma guerra, como quem “deixa pra lá” um mal entendido entre amigos.
Se o mundo fosse tão simples, como na cabeça infantil do Lula, a Greta Thunberg resolveria tudo numa cúpula da ONU.
“Nada de novo existe nesse planeta
Que não se fale aqui na mesa do bar”
(Milton Nascimento/Fernando Brant)
97
Comunidade distópica 🔵
Um fim de semana foi o suficiente para viver numa sociedade, pretensamente, ideal. O problema é que essa sociedade só sobrevive um feriadão, por isso é considerada uma utopia.
Aqueles dias foram um experimento de como seria uma microssociedade hippie. Estavam todos muito solícitos, cada um exercendo sua tarefa no coletivo. Lembro bem de uma salada de frutas sendo preparada voluntariamente por uma dezena de mãos e igualmente devorada. Tanto o preparo, quanto o modo (em comunidade) que foi devorada seriam obrigatoriamente abolidos em tempos de pandemia. Mas essa realidade ainda era papo de livros de História — Peste Negra e Gripe Espanhola —, de modo que parecíamos uma tribo de índios em completo isolamento da sociedade capitalista corroída pela competição.
A comunhão, a paz e o “bichogrilismo” estavam alcançando níveis incompreensíveis e inadmissíveis para o meu ceticismo, a ponto de alguém ameaçar iniciar a “dança ritual do fogo”, celebrar o Sol, a Lua, as matas, as águas, o ar, o raio, o trovão... Percebi que ali alguém surgiria se contorcendo, com os olhos virados e falando em línguas, ou o Arrebatamento começasse por lá.
Mas, como em toda convivência utópica, essa brincadeira de Novos Baianos já estava indo longe demais, logo vi. Eu tinha convicção de que aquela harmonia era forçada e logo o egoísmo viria à tona. Com meu individualismo, meu mau-humor, minha desconfiança e meu completo descrédito na Humanidade, sabia que aquele grupo possuía uma dissidência que não comungava com os ideais igualitários. Mais, tenho certeza que todo grupo, apesar do início pacífico e solidário, revela um tirano cruel, dominador e centralizador. Faltava localizar o bastardo. Talvez fosse o mais quieto, bonzinho, solícito ou o que desde o começo mostrasse o lado mais obscuro da alma: o lado que, com muito esforço, conseguíamos esconder por alguns dias.
Demorei muitos anos, entretanto descobri que o provável estranho no ninho infiltrado era eu mesmo. Na época, talvez eu estivesse contaminado pelos ideais hippies, reflexos da imaturidade; hoje, quase um bolsonarista que sou, uma vez descoberto, seria ofendido de diversas maneiras: nazista, fascista, negacionista, terraplanista, taxista, capoeirista, skatista etc.
Uma coisa tenho certeza, se desmascarado, eu correria para a floresta mais próxima. Se alcançado, seria oferecido “aos deuses” como sacrifício e atirado à fogueira para purificar minha alma.
Mesmo cansado daquele disfarce, não deu tempo de exercer meu lado autoritário. Então, foi mais um final de semana entre violão, mantras e paz.
78
O astro do videokê 🔵
É horrível quando alguém ousa agredir a audição alheia arriscando a garganta num videokê. Enquanto o equipamento fica escondido num cantinho do boteco, guardando pastas com canções para todos os gostos e dois irritantes microfones, tudo bem.
O paradoxal é que eu cantei muito nessa maldita invenção, confirmando a máxima: quem se diverte é quem canta, não quem ouve. Sertaneja, romântica, pop, rock, mpb etc, todo tipo de música, inclusive as que eu não gosto de ouvir, são cantadas, ou, às vezes, berradas.
Parecia mais uma festinha de fundo de quintal, literalmente. Mas dessa vez não era só isso. Apesar de ser familiar, a comemoração seria impulsionada pelo álcool e pela novidade tecnológica.
A princípio, o tal do videokê foi explorado com parcimônia, mas quando atraiu os primeiros curiosos o equipamento logo se tornou o centro das atenções. À medida que o álcool ía subindo, mais candidatos expunham os secretos dons artísticos. Nessa toada, desfilaram músicas nacionais e internacionais.
De madrugada, quando quase todos tentavam dormir, sobramos meu cunhado e eu “destruindo” a máquina. A timidez ía diminuindo com o conteúdo das garrafas de cerveja, de modo que todo o repertório disponível nas pastas do videokê chegaram aos ouvidos de insones vizinhos e parentes. Como sempre, rock, mpb, sertanejo, pop etc. O repertório se esgotou, na falta de opção, sobrou até para o Hino Nacional Brasileiro. As excelentes notas, dadas pelo computador nos animavam e enganavam. Provavelmente, pelo grau etílico alcançado, meu senso estético, bem como o bom senso, sumiram. Então confesso: aquele fim de festa me fez pensar numa carreira musical. Felizmente, a ressaca do dia seguinte me dissuadiu dos devaneios musicais.
Karaokê eletrônico (videokê) foi a praga dos anos 90, substituindo a música ao vivo. Eu frequentei lugares que dispunham essa máquina como diversão. Arriscando o uso, viciei. Pior, comecei a cantar canções que jamais ouviria em casa: sertanejo, pagode etc. Alguns momentos foram impagáveis. O que para alguns talvez tenha sido o fundo do poço, na verdade significou o auge. Não é todo dia que se canta Help dos Beatles num dueto improvável com Rambo, o figura do bairro.