Lista de Poemas
Doutores da agonia 🔵
Não há viagem de ônibus que seja tão entediante que não possa piorar. Pois foi assim que, num ponto lotado, embarcou um sujeito pretendendo alegrar parte do trajeto.
Avaliando que resultado ele poderia obter, calculei o grau de caracterização do ator: maquiagem mal-feita (borrada) e avental surrado e encardido. A composição toda era muito triste. O cabelo desgrenhado era a única coisa que gerava uma graça involuntária. O palhaço triste pretendia ser um “doutor da alegria” genérico, mas estava muito claro que o infeliz precisava de ajuda, não o contrário. Nem a maquiagem escondeu sua angústia. Infelizmente, sua atormentada realidade apenas se somou à de outros quando ele embarcou naquele coletivo.
O número, ou a tentativa de alegrar alguém, foi constrangedor, o que só tornava o ambiente pior. Pensei: palhaço, você não é engraçado. Só não vocalizei minha conclusão por medo que o pretenso parlapatão fosse linchado. Provavelmente, isso só tornaria as coisas piores e me causaria dó e arrependimento.
Sua vulnerabilidade e risco social revelaram-se completamente, corroborando minhas suspeitas, quando o cara fez um choroso discurso e passou recolhendo algumas moedas. Óbvio que todos perceberam que a triste figura recolhia os parcos trocados com a sanha de quem necessitava aplacar a fome.
O palhaço causou um certo burburinho, quebrando a rotina daquele povo. Esse é um dos objetivos de todo artista; entretanto o saltimbanco, por onde passava, deixava um rastro de fúria e desconforto.
Esse cara deve ter assistido ao filme “Patch Adams” e vislumbrou a solução para seus problemas. Finalmente o pedinte desembarcou, e o intuito do palhaço foi alcançado: o ambiente iluminou-se, os passageiros inclusive esboçaram um sorriso e conversaram alegres. Só não se sabe se o resultado se deu pelo encerramento do suplício ou por saber que há realidades bem piores do que retornar de um dia de trabalho num “busão” lotado.
Avaliando que resultado ele poderia obter, calculei o grau de caracterização do ator: maquiagem mal-feita (borrada) e avental surrado e encardido. A composição toda era muito triste. O cabelo desgrenhado era a única coisa que gerava uma graça involuntária. O palhaço triste pretendia ser um “doutor da alegria” genérico, mas estava muito claro que o infeliz precisava de ajuda, não o contrário. Nem a maquiagem escondeu sua angústia. Infelizmente, sua atormentada realidade apenas se somou à de outros quando ele embarcou naquele coletivo.
O número, ou a tentativa de alegrar alguém, foi constrangedor, o que só tornava o ambiente pior. Pensei: palhaço, você não é engraçado. Só não vocalizei minha conclusão por medo que o pretenso parlapatão fosse linchado. Provavelmente, isso só tornaria as coisas piores e me causaria dó e arrependimento.
Sua vulnerabilidade e risco social revelaram-se completamente, corroborando minhas suspeitas, quando o cara fez um choroso discurso e passou recolhendo algumas moedas. Óbvio que todos perceberam que a triste figura recolhia os parcos trocados com a sanha de quem necessitava aplacar a fome.
O palhaço causou um certo burburinho, quebrando a rotina daquele povo. Esse é um dos objetivos de todo artista; entretanto o saltimbanco, por onde passava, deixava um rastro de fúria e desconforto.
Esse cara deve ter assistido ao filme “Patch Adams” e vislumbrou a solução para seus problemas. Finalmente o pedinte desembarcou, e o intuito do palhaço foi alcançado: o ambiente iluminou-se, os passageiros inclusive esboçaram um sorriso e conversaram alegres. Só não se sabe se o resultado se deu pelo encerramento do suplício ou por saber que há realidades bem piores do que retornar de um dia de trabalho num “busão” lotado.
77
Counter Strike ⚫️
O que leva alguém, ao contrário dos refugiados, a se voluntariar para combater numa guerra que não é sua — pior, que o lado aparentemente inocente está fadado a perdê-la? Excesso de realidade virtual, muito videogame (no qual sempre há mais que uma vida), uma visão romântica do documentário “Winter on Fire ou a busca de sentido na vida — para quem não tem nada a perder, tanto faz entrar pro Estado Islâmico, entrar na Legião Estrangeira ou se alistar num exército qualquer. Têm também os motivos mais esportivos, querendo provar os limites: supondo que a guerra é uma tipo de “crossfiting”, esporte radical, “reality show” ou treinamento do BOPE.
Somente são exibidas entrevistas com heróis de guerra, dificilmente sequer é mostrado um hospital de mutilados. Muitos dos mortos não têm nem a “sorte” de ser levados a um hospital e são atirados numa vala comum. Na realidade a guerra só é romântica nos filmes e a coragem dura até o primeiro disparo de arma de fogo em sua direção.
As guerras mundiais começam por um fato colateral. Motivações quase banais envolveram o restante do mundo nas primeira e segunda grandes guerras. Este conflito está praticamente “a um tapa na cara” (hipérbole) de virar uma terceira guerra mundial.
O que está acontecendo na Ucrânia é muito diferente do que vemos num telejornal qualquer. Refugiados cantando, tocando violino, piano ou o Ocidente iluminando monumentos com as cores da Ucrânia ou cantando “Imagine” são imagens poéticas, mas não dissuadem Vladimir Putin do seu nefasto objetivo.
Filmes romantizaram e mais de 70 anos afastaram os reais efeitos de uma guerra. Parece que têm pessoas que acreditam que homens/exército, indestrutíveis como Rambo, realmente existem e, querendo encarar um “Counter Strike” da vida real, se voluntariam esquecendo-se que podem não passar da primeira fase.
Somente são exibidas entrevistas com heróis de guerra, dificilmente sequer é mostrado um hospital de mutilados. Muitos dos mortos não têm nem a “sorte” de ser levados a um hospital e são atirados numa vala comum. Na realidade a guerra só é romântica nos filmes e a coragem dura até o primeiro disparo de arma de fogo em sua direção.
As guerras mundiais começam por um fato colateral. Motivações quase banais envolveram o restante do mundo nas primeira e segunda grandes guerras. Este conflito está praticamente “a um tapa na cara” (hipérbole) de virar uma terceira guerra mundial.
O que está acontecendo na Ucrânia é muito diferente do que vemos num telejornal qualquer. Refugiados cantando, tocando violino, piano ou o Ocidente iluminando monumentos com as cores da Ucrânia ou cantando “Imagine” são imagens poéticas, mas não dissuadem Vladimir Putin do seu nefasto objetivo.
Filmes romantizaram e mais de 70 anos afastaram os reais efeitos de uma guerra. Parece que têm pessoas que acreditam que homens/exército, indestrutíveis como Rambo, realmente existem e, querendo encarar um “Counter Strike” da vida real, se voluntariam esquecendo-se que podem não passar da primeira fase.
30
O eleito ♦️
Grande parte da imprensa já havia eleito Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, o “herói da resistência. Seguindo a velha tática “Big Brother Brasil”, o papel de vilão ficou com Vladimir Putin (por razões óbvias); bastou a Zelensky existir para a velha imprensa impor o roteiro da guerra e começar a “construir” aquele que cumpriria o papel de herói na narrativa ensaiada.
A revista Caras de Portugal, inconformada com seu papel quase inútil na cobertura de uma guerra, estampou (na capa) o primeiro casal da Ucrânia no estilo “o presidente e a primeira-dama são flagrados curtindo o friozinho de Campos do Jordão”. A dupla ucraniana ganhou o texto (na capa da revista) de: “ A resistência.
Demonstrando falta de qualquer empatia ou “timing”, os dois foram retratados com sorrisos e poses de subcelebridades. Justiça seja feita, não se sabe quando foi feita a fotografia do casal alegre.
Volodymyr Zelensky, o comediante, demonstra alto poder de comunicação. Diferentemente do seu poderio bélico, o presidente da Ucrânia atua com desenvoltura quando câmeras, refletores e microfones são ligados. Figura midiática, ele lida visivelmente à vontade entre tudo que registra imagens e frases de efeito; ao contrário, o presidente russo se sente confortável cercado por pólvora, projéteis e fardamento militar.
Enquanto a imprensa cuida de como Zelensky será “vendido” ao mundo, eu imagino Vladimir Putin numa sala do alto comando militar, reunido com generais, decidindo qual será a próxima manobra bélica. O ex-KGB não deve ter se espantado em ter sido classificado como o vilão do conflito; o comediante, pelo contrário, deve ter ficado muito surpreendido quando acordou “eleito” o herói sem ter nenhum feito heroico na invasão. Tanto Putin quanto Zelensky precisam fazer muito pouco para serem colocados em seus respectivos lugares no “viés de confirmação”.
Movimento Brasil Livre (MBL), voluntários ocidentais e “consórcio” de “des”informação (velha imprensa) acreditam ou tentam nos fazer crer que a guerra é uma balada da Vila Madalena, um jogo de videogame ou um protesto (Winter on Fire) em que tentam resolver tudo cantando “Imagine”, tocando piano ou violino, respectivamente. Somente o distanciamento da realidade explica tamanha romantização da guerra.
Quem vê Caras não vê coração.
A revista Caras de Portugal, inconformada com seu papel quase inútil na cobertura de uma guerra, estampou (na capa) o primeiro casal da Ucrânia no estilo “o presidente e a primeira-dama são flagrados curtindo o friozinho de Campos do Jordão”. A dupla ucraniana ganhou o texto (na capa da revista) de: “ A resistência.
Demonstrando falta de qualquer empatia ou “timing”, os dois foram retratados com sorrisos e poses de subcelebridades. Justiça seja feita, não se sabe quando foi feita a fotografia do casal alegre.
Volodymyr Zelensky, o comediante, demonstra alto poder de comunicação. Diferentemente do seu poderio bélico, o presidente da Ucrânia atua com desenvoltura quando câmeras, refletores e microfones são ligados. Figura midiática, ele lida visivelmente à vontade entre tudo que registra imagens e frases de efeito; ao contrário, o presidente russo se sente confortável cercado por pólvora, projéteis e fardamento militar.
Enquanto a imprensa cuida de como Zelensky será “vendido” ao mundo, eu imagino Vladimir Putin numa sala do alto comando militar, reunido com generais, decidindo qual será a próxima manobra bélica. O ex-KGB não deve ter se espantado em ter sido classificado como o vilão do conflito; o comediante, pelo contrário, deve ter ficado muito surpreendido quando acordou “eleito” o herói sem ter nenhum feito heroico na invasão. Tanto Putin quanto Zelensky precisam fazer muito pouco para serem colocados em seus respectivos lugares no “viés de confirmação”.
Movimento Brasil Livre (MBL), voluntários ocidentais e “consórcio” de “des”informação (velha imprensa) acreditam ou tentam nos fazer crer que a guerra é uma balada da Vila Madalena, um jogo de videogame ou um protesto (Winter on Fire) em que tentam resolver tudo cantando “Imagine”, tocando piano ou violino, respectivamente. Somente o distanciamento da realidade explica tamanha romantização da guerra.
Quem vê Caras não vê coração.
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Shopping Cidade Jardim 🔵
Eu sempre gostei de shopping e achava isso normal. Pelo menos, até ir ao shopping mais exclusivo de São Paulo à época (talvez ainda seja), o Cidade Jardim.
Esse centro de compras, entretenimento e alimentação é tão proibitivo, refratário para gente não “diferenciada”, que não tem entrada para pedestres.
Eu resolvi conhecer um local onde sabem a qual classe social você pertence (e se você é alguém interessante) pela etiqueta da sua roupa. Entrei ali, trajando tênis surrados, calça de agasalho, jaqueta jeans gasta pelo tempo e um boné velho. Com essa roupa, digamos, “despretensiosa” devo ter sido estigmatizado e observado como alguém que “caiu de pára-quedas” nesse shopping. Eu até poderia ser alguém descolado, despojado, excêntrico, mas eu era facilmente identificável como pobre. Acho que é um carimbo imaginário: POBRE. Isso te torna, automaticamente, ao se aproximar de uma loja fina: suspeito. No mínimo um curioso.
Os seguranças devem ter seguido cada passo meu. Fico imaginando um segurança subalterno seguindo cada movimento meu em diversos monitores: escadas rolantes, corredores, portas de lojas e lanchonete.
O contrário de inclusivo (que inclui) é exclusivo (que exclui), e, nesse dia, num local exclusivo, me senti excluído. Entretanto, ninguém me tratou mal, olhou feio, cochichou ou fingiu que eu não existia. Nas poucas interações humanas que fui obrigado a estabelecer, fui recebido com muita simpatia, atenção e alguma desconfiança que eu estava no lugar errado. Uma abordagem imaginária, porém plausível:
— O que é que você está fazendo aqui? O Shopping Itaquera é na Zona Leste.
O preconceito todo estava na minha cabeça. O meu jeito de vestir, a ausência de roupa de grife (“uns pano de marca”) e ter chegado ali sem carro, povoou minha mente. As diferenças sociais, que eu achei que os outros teriam, partiam de mim.
Reconheço, eu não estava na minha “praia paulistana”. Eu curto aquelas lojas nas quais você realiza o chamado “autoatendimento”, entra no provador com umas dez peças (tudo na promoção) e encontra várias pessoas vestindo camisetas com a mesma estampa que a sua. Além disso, gosto de praça de alimentação, com muitas opções, desde que tenha McDonald’s. O bom é escolher entre todas as opções - até aquele restaurante vazio com um funcionário triste segurando um cardápio -, terminando por devorar um lanche, fritas e Coca na lanchonete do palhaço americano.
Esse centro de compras, entretenimento e alimentação é tão proibitivo, refratário para gente não “diferenciada”, que não tem entrada para pedestres.
Eu resolvi conhecer um local onde sabem a qual classe social você pertence (e se você é alguém interessante) pela etiqueta da sua roupa. Entrei ali, trajando tênis surrados, calça de agasalho, jaqueta jeans gasta pelo tempo e um boné velho. Com essa roupa, digamos, “despretensiosa” devo ter sido estigmatizado e observado como alguém que “caiu de pára-quedas” nesse shopping. Eu até poderia ser alguém descolado, despojado, excêntrico, mas eu era facilmente identificável como pobre. Acho que é um carimbo imaginário: POBRE. Isso te torna, automaticamente, ao se aproximar de uma loja fina: suspeito. No mínimo um curioso.
Os seguranças devem ter seguido cada passo meu. Fico imaginando um segurança subalterno seguindo cada movimento meu em diversos monitores: escadas rolantes, corredores, portas de lojas e lanchonete.
O contrário de inclusivo (que inclui) é exclusivo (que exclui), e, nesse dia, num local exclusivo, me senti excluído. Entretanto, ninguém me tratou mal, olhou feio, cochichou ou fingiu que eu não existia. Nas poucas interações humanas que fui obrigado a estabelecer, fui recebido com muita simpatia, atenção e alguma desconfiança que eu estava no lugar errado. Uma abordagem imaginária, porém plausível:
— O que é que você está fazendo aqui? O Shopping Itaquera é na Zona Leste.
O preconceito todo estava na minha cabeça. O meu jeito de vestir, a ausência de roupa de grife (“uns pano de marca”) e ter chegado ali sem carro, povoou minha mente. As diferenças sociais, que eu achei que os outros teriam, partiam de mim.
Reconheço, eu não estava na minha “praia paulistana”. Eu curto aquelas lojas nas quais você realiza o chamado “autoatendimento”, entra no provador com umas dez peças (tudo na promoção) e encontra várias pessoas vestindo camisetas com a mesma estampa que a sua. Além disso, gosto de praça de alimentação, com muitas opções, desde que tenha McDonald’s. O bom é escolher entre todas as opções - até aquele restaurante vazio com um funcionário triste segurando um cardápio -, terminando por devorar um lanche, fritas e Coca na lanchonete do palhaço americano.
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Censura livre ♦️
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, fez o que melhor sabe: o “serviço sujo”. A suspensão do Telegram (rede social) atrapalhou a vida (honesta) de muita gente, entretanto atendeu muitos interesses escusos.
A Globo conseguiu o que queria. Fingindo estar preocupada com crimes nas redes sociais, a rede de comunicação exibiu suas diretrizes em forma de reportagem no Fantástico. A emissora carioca praticamente disse: É isso. Obedecendo o “start”, Moraes atendeu.
Miriam Leitão, apresentadora da emissora, talvez pretendendo ser uma espécie de funcionária do mês ou apenas tentando manter o emprego, externou (no ar) a sua vontade (e da emissora): que Jair Bolsonaro fosse banido das redes sociais. A senha já estava sendo dada e a manobra urdida.
É fato que a audiência dos canais de televisão vêm caindo por causa da internet, mas a reversão deste movimento é impossível. O que a Globo conquista é a antipatia de quem procura uma tela que o distraia. As outras TVs também tentam reverter o interesse, apelidando o que circula na internet de “fake news”. Notícia falsa ou simplesmente fofoca sempre existiu; a novidade é a quantidade de pessoas preocupadas com que isso não atrapalhe a “democracia”.
A atitude do ministro revela a total ausência de empecilhos e limites para as coisas voltarem a ser como sempre foram. E têm muitos interesses em jogo, sendo que os principais são: eleitorais e de audiência. É claro que ambos os interesses confluem para as finanças.
Bolsonaro foi um acidente, isto ficou claro pela quantidade (e qualidade) das figuras que mais o odeiam e fazem “o diabo” para que ele não seja reeleito. As “urnas confiáveis” serão a última barreira para impedir o que nem um tsunami de rejeitos da Vale, incêndios, derramamento de óleo no mar, enchentes, deslizamentos, pandemia e guerra conseguiram.
Alexandre de Moraes não suportou a pressão e suspendeu o bloqueio do Telegram, mas a perseguição não foi suspensa.
Alexandre de Moraes, “a paz sem voz não é paz, é medo”.
“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”.
Abraham Lincoin
A Globo conseguiu o que queria. Fingindo estar preocupada com crimes nas redes sociais, a rede de comunicação exibiu suas diretrizes em forma de reportagem no Fantástico. A emissora carioca praticamente disse: É isso. Obedecendo o “start”, Moraes atendeu.
Miriam Leitão, apresentadora da emissora, talvez pretendendo ser uma espécie de funcionária do mês ou apenas tentando manter o emprego, externou (no ar) a sua vontade (e da emissora): que Jair Bolsonaro fosse banido das redes sociais. A senha já estava sendo dada e a manobra urdida.
É fato que a audiência dos canais de televisão vêm caindo por causa da internet, mas a reversão deste movimento é impossível. O que a Globo conquista é a antipatia de quem procura uma tela que o distraia. As outras TVs também tentam reverter o interesse, apelidando o que circula na internet de “fake news”. Notícia falsa ou simplesmente fofoca sempre existiu; a novidade é a quantidade de pessoas preocupadas com que isso não atrapalhe a “democracia”.
A atitude do ministro revela a total ausência de empecilhos e limites para as coisas voltarem a ser como sempre foram. E têm muitos interesses em jogo, sendo que os principais são: eleitorais e de audiência. É claro que ambos os interesses confluem para as finanças.
Bolsonaro foi um acidente, isto ficou claro pela quantidade (e qualidade) das figuras que mais o odeiam e fazem “o diabo” para que ele não seja reeleito. As “urnas confiáveis” serão a última barreira para impedir o que nem um tsunami de rejeitos da Vale, incêndios, derramamento de óleo no mar, enchentes, deslizamentos, pandemia e guerra conseguiram.
Alexandre de Moraes não suportou a pressão e suspendeu o bloqueio do Telegram, mas a perseguição não foi suspensa.
Alexandre de Moraes, “a paz sem voz não é paz, é medo”.
“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”.
Abraham Lincoin
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O Castelinho da Rua Apa 🔵
Muito me intrigava aquele imóvel encravado numa esquina da Avenida São João. Algo acontecia no meu coração, mas sei que não era coisa boa. O sobrado antigo e fantasmagórico resistira às demolições paulistanas. A arquitetura lembrava um castelo europeu, o abandono e a escuridão remetiam a uma historia de terror sem término, por isso tinha o aspecto provocativo, querendo contar um litígio mal resolvido. Aquele sobrado parecia desabitado, o que era muito pior que abandonado (não sei o porquê). Eclipsado pela feiúra do Minhocão e imóveis mais modernos, a antiga moradia, mesmo escurecida pela fuligem impregnada, causa-me uma mistura de sensações: curiosidade e horror. Toda vez que eu passava ali de noite, minha conversa com a minha namorada cessava.
O comportamento estranho não era à toa. A residência foi palco de uma tragédia familiar: em 1937, a mãe e dois filhos foram encontrados mortos ao lado de uma pistola. A casa, construída no início do século XX, abandonada, escura, destoando do panorama paulistano e cenário de um crime que ainda não foi inteiramente esclarecido, interrompia qualquer alegria.
Não devia ser por acaso que o endereço chamava a minha atenção: desde o ocorrido, o edifício leva a fama de mal-assombrado (ou bem mal-assombrado). Vultos, gritos, passos na escada, barulhos estranhos e lamentações de espíritos são os fenômenos que povoam seus cômodos. Talvez alguma dessas ocorrências sobrenaturais sempre sequestrem a minha descontração.
O pavor se transformou em vergonha por não conhecer o lendário Castelinho da Rua Apa, cenário vivo de uma das mais conhecidas lendas urbanas e crônicas policiais da São Paulo antiga.
Os meus fantasmas são suficientes para me atormentar, por esse motivo não precisam de companhia. Assombrações que atiram objetos, fazem sons horripilantes, barulhos sem explicação e que aparecem do nada causam tanto espanto quanto castelo do horror de parque de diversões. A não ser que sejam monstros embaixo da cama, esqueletos dentro do armário ou o assustador Castelinho da Rua Apa à noite.
O comportamento estranho não era à toa. A residência foi palco de uma tragédia familiar: em 1937, a mãe e dois filhos foram encontrados mortos ao lado de uma pistola. A casa, construída no início do século XX, abandonada, escura, destoando do panorama paulistano e cenário de um crime que ainda não foi inteiramente esclarecido, interrompia qualquer alegria.
Não devia ser por acaso que o endereço chamava a minha atenção: desde o ocorrido, o edifício leva a fama de mal-assombrado (ou bem mal-assombrado). Vultos, gritos, passos na escada, barulhos estranhos e lamentações de espíritos são os fenômenos que povoam seus cômodos. Talvez alguma dessas ocorrências sobrenaturais sempre sequestrem a minha descontração.
O pavor se transformou em vergonha por não conhecer o lendário Castelinho da Rua Apa, cenário vivo de uma das mais conhecidas lendas urbanas e crônicas policiais da São Paulo antiga.
Os meus fantasmas são suficientes para me atormentar, por esse motivo não precisam de companhia. Assombrações que atiram objetos, fazem sons horripilantes, barulhos sem explicação e que aparecem do nada causam tanto espanto quanto castelo do horror de parque de diversões. A não ser que sejam monstros embaixo da cama, esqueletos dentro do armário ou o assustador Castelinho da Rua Apa à noite.
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Traumatismo ucraniano: o babaca foi pra guerra 🔴
Não há nada tão ruim que não possa piorar. Arthur do Val (Mamãe Falei) e Renan Santos, duplinha do MBL (Movimento Brasil Livre), foram à Ucrânia — enquanto muitos tentam sair de lá — levando uma bagagem lotada de estupidez. Piorou.
Arthur confundiu a guerra com uma manifestação na Avenida Paulista ou uma balada. Pelo menos todos ficaram sabendo o que o deputado estadual tem na cabeça.
O garoto de 35 anos viajou, com financiamento, para “turbinar” sua narrativa eleitoral, mas o tiro saiu pela culatra. O lamentável turismo rendeu, acreditem, a manufatura de alguns coquetéis molotov que ainda hão de incendiar ou matar alguém. Pois é, o potencial de maldade que esse político pode causar é inesgotável. Pelo jeito, assistir ao documentário da Netflix ‘Winter on Fire’ ajudou o garoto a romantizar a guerra.
É inacreditável “Mamãe Falei” ter cometido uma tentativa de ser prefeito de São Paulo, o mais inacreditável foi terem votado nele. O sujeito é (era) pré-candidato ao governo do estado. Como ficou óbvio que não é capaz de governar a própria conduta, alguém irá demovê-lo da ideia.
Acreditem, mesmo na guerra há alguns valores; esse moleque invadiu o conflito para exibir toda sua imbecilidade, ausência de valores e falta de noção.
Eis a transcrição do que nosso autointitulado correspondente de guerra tem a nos relatar do que presenciou na ação humanitária:
“Mano, só vou falar uma coisa pra vocês: acabei de cruzar a fronteira a pé aqui da Ucrânia com a Eslováquia. Maluco, eu juro… eu, nunca, na minha vida… ó, eu tenho 35 anos. Eu nunca na minha vida, nunca, vi nada parecido assim em termos de ‘mina’ bonita. Assim, a fila das refugiadas, irmão, assim… imagina uma fila, sei lá, nem sei… to sem palavras. Uma fila de 200 metros ou mais. Só deusa, assim, só deusa. É sem noção, é inacreditável. É um bagulho assim fora de série. Se você pegar a fila da melhor balada do Brasil, a melhor, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila dos refugiados aqui. Maluco, eu ‘tô’ mal, eu ‘tô’ triste, porque é inacreditável.
Assim, elas são ‘gold diggers’, é assim que se chama. O Renan [Santos] faz uma viagem todo ano, que nos últimos três anos ele não fez. Chama-se ‘tour the blonde’. O que ele faz? Ele viaja os países só para pegar loiras. Só que ele tem técnicas. Ele já está avançado. E ele me deu algumas dicas.
Você nunca pode ir em cidades litorâneas. Você nunca pode ir nas cidades com as maiores baladas. Você tem que ir para as cidades normais, porque você pega as ‘minas assim, não na balada, na praia. Você pega ela no mercado. Você pega ela na padaria. Que nem a recepcionista do hotel que deu em cima de mim aqui.
E eu nem peguei ninguém aqui. Só a sensação de que eu poderia fazer, enfim, já sabem. Já estou comprando minha passagem pro Leste Europeu no ano que vem. Assim que eu chegar em São Paulo.
Mano, eu ‘tô’ mal. ‘Tô’ mal, ‘tô’ mal. Eu passei agora… são barreiras alfandegárias. São duas casinhas em cada país. Mano, eu juro para vocês. Eu contei: foram 12 policiais deusas. Deusas, mas deusas, assim, que você casa e, assim, você faz tudo o que ela quiser. Eu ‘tô’ mal, cara. Assim, eu não tenho nem palavras ‘pra’ expressar. Quatro dessas eram ‘minas’, assim, que você, tipo… mano, nem sei o que dizer. Se ela cagasse, você limpa o c* dela com a língua. Assim que essa guerra passar eu vou voltar para cá.
E detalhe: elas olham. E vou te dizer: são fáceis porque elas são pobres. E aqui, cara, a minha carta do ‘Instagram’, cheia de inscritos, funciona demais. Funciona demais. Depois eu conto a história. Não peguei ninguém. Mas eu ‘colei’ em duas ‘minas’, que a gente não tinha tempo, em dois grupos de ‘minas’. E, assim, é inacreditável a facilidade. Essas ‘minas’ em São Paulo se você dá bom dia elas iam cuspir na tua cara. E aqui elas são supersimpáticas, super gente boa. É inacreditável. Inacreditável”.
Pois é, inacreditável!
Arthur confundiu a guerra com uma manifestação na Avenida Paulista ou uma balada. Pelo menos todos ficaram sabendo o que o deputado estadual tem na cabeça.
O garoto de 35 anos viajou, com financiamento, para “turbinar” sua narrativa eleitoral, mas o tiro saiu pela culatra. O lamentável turismo rendeu, acreditem, a manufatura de alguns coquetéis molotov que ainda hão de incendiar ou matar alguém. Pois é, o potencial de maldade que esse político pode causar é inesgotável. Pelo jeito, assistir ao documentário da Netflix ‘Winter on Fire’ ajudou o garoto a romantizar a guerra.
É inacreditável “Mamãe Falei” ter cometido uma tentativa de ser prefeito de São Paulo, o mais inacreditável foi terem votado nele. O sujeito é (era) pré-candidato ao governo do estado. Como ficou óbvio que não é capaz de governar a própria conduta, alguém irá demovê-lo da ideia.
Acreditem, mesmo na guerra há alguns valores; esse moleque invadiu o conflito para exibir toda sua imbecilidade, ausência de valores e falta de noção.
Eis a transcrição do que nosso autointitulado correspondente de guerra tem a nos relatar do que presenciou na ação humanitária:
“Mano, só vou falar uma coisa pra vocês: acabei de cruzar a fronteira a pé aqui da Ucrânia com a Eslováquia. Maluco, eu juro… eu, nunca, na minha vida… ó, eu tenho 35 anos. Eu nunca na minha vida, nunca, vi nada parecido assim em termos de ‘mina’ bonita. Assim, a fila das refugiadas, irmão, assim… imagina uma fila, sei lá, nem sei… to sem palavras. Uma fila de 200 metros ou mais. Só deusa, assim, só deusa. É sem noção, é inacreditável. É um bagulho assim fora de série. Se você pegar a fila da melhor balada do Brasil, a melhor, na melhor época do ano, não chega aos pés da fila dos refugiados aqui. Maluco, eu ‘tô’ mal, eu ‘tô’ triste, porque é inacreditável.
Assim, elas são ‘gold diggers’, é assim que se chama. O Renan [Santos] faz uma viagem todo ano, que nos últimos três anos ele não fez. Chama-se ‘tour the blonde’. O que ele faz? Ele viaja os países só para pegar loiras. Só que ele tem técnicas. Ele já está avançado. E ele me deu algumas dicas.
Você nunca pode ir em cidades litorâneas. Você nunca pode ir nas cidades com as maiores baladas. Você tem que ir para as cidades normais, porque você pega as ‘minas assim, não na balada, na praia. Você pega ela no mercado. Você pega ela na padaria. Que nem a recepcionista do hotel que deu em cima de mim aqui.
E eu nem peguei ninguém aqui. Só a sensação de que eu poderia fazer, enfim, já sabem. Já estou comprando minha passagem pro Leste Europeu no ano que vem. Assim que eu chegar em São Paulo.
Mano, eu ‘tô’ mal. ‘Tô’ mal, ‘tô’ mal. Eu passei agora… são barreiras alfandegárias. São duas casinhas em cada país. Mano, eu juro para vocês. Eu contei: foram 12 policiais deusas. Deusas, mas deusas, assim, que você casa e, assim, você faz tudo o que ela quiser. Eu ‘tô’ mal, cara. Assim, eu não tenho nem palavras ‘pra’ expressar. Quatro dessas eram ‘minas’, assim, que você, tipo… mano, nem sei o que dizer. Se ela cagasse, você limpa o c* dela com a língua. Assim que essa guerra passar eu vou voltar para cá.
E detalhe: elas olham. E vou te dizer: são fáceis porque elas são pobres. E aqui, cara, a minha carta do ‘Instagram’, cheia de inscritos, funciona demais. Funciona demais. Depois eu conto a história. Não peguei ninguém. Mas eu ‘colei’ em duas ‘minas’, que a gente não tinha tempo, em dois grupos de ‘minas’. E, assim, é inacreditável a facilidade. Essas ‘minas’ em São Paulo se você dá bom dia elas iam cuspir na tua cara. E aqui elas são supersimpáticas, super gente boa. É inacreditável. Inacreditável”.
Pois é, inacreditável!
73
Bar do motoclube ⚫️
Esse simpático boteco era, de fato, um ambiente familiar. Mais precisamente, “de la famiglia”. A frente era, basicamente, um disfarce. Não chegava a ser um “speakeasy” (bar escondido da Lei Seca). No máximo, além de matar a sede, a contravenção restringia-se a uma máquina caça-níqueis — essas de periferia — e um “pinball” franqueado a menores, funcionando como introdução ao vício.
O ambiente enganoso começava a desmoronar à medida que se avançava no corredor em direção aos fundos da espelunca. No corredor, ficava a máquina de fliperama, apenas como convite ao vício, porque atraía os mais jovens.
Nos fundos do botequim, nada mais do que um quintal, recinto apenas permitido a convidados. Somente ía direto para lá, quem conhecia bem o lugar. No quintal, ficavam uma mesa de bilhar — viciada, como alguns dos frequentadores — com alguns tacos tortos, gizes umedecidos, mesas e cadeiras (de ferro) dobráveis, um aparelho de som e uma churrasqueira do motoclube. Alguns copos americanos vazios e cinzeiros sujos denunciavam a presença recente de alguma outra confraria. Lá, podia-se conversar sem ser localizado ou incomodado.
Barzinho legal para fazer um “esquenta” (happy hour), antes de ir para o “pico” da noite, ou, às vezes, um lugar eleito de última hora. Local de brigas, amizades feitas e refeitas que desembocavam na cerveja, bilhar, rock n’ roll e, de sexta-feira, um churrasco. Nos melhores dias, tudo isso.
Como em todo bom boteco, no balcão havia um “showroom” da baixa gastronomia, ou da apreciada “comida di buteco”. Estavam expostos, os clássicos ovos cozidos coloridos, algo inominável boiando numa conserva turva, salsichinhas com tempero agradável e outras iguarias. De vez em quando surgia algo comestível, prontamente devorado para aplacar os efeitos do álcool.
Nesse ponto de encontro, em lapsos de genialidade, surgiram grandes ideias: encher a cara em algum lugar de São Paulo ou viajar, num bate-e-volta, para alguma cidadezinha. Se não surgisse uma sugestão memorável ou se aparecessem pessoas legais, ficávamos lá mesmo.
Esse, como quaisquer outros bares, era frequentado por tipinhos que parecem ter sido extraídos de tirinhas de jornal — talvez, sob alguma visão apurada, eu seja um desses.
O ambiente enganoso começava a desmoronar à medida que se avançava no corredor em direção aos fundos da espelunca. No corredor, ficava a máquina de fliperama, apenas como convite ao vício, porque atraía os mais jovens.
Nos fundos do botequim, nada mais do que um quintal, recinto apenas permitido a convidados. Somente ía direto para lá, quem conhecia bem o lugar. No quintal, ficavam uma mesa de bilhar — viciada, como alguns dos frequentadores — com alguns tacos tortos, gizes umedecidos, mesas e cadeiras (de ferro) dobráveis, um aparelho de som e uma churrasqueira do motoclube. Alguns copos americanos vazios e cinzeiros sujos denunciavam a presença recente de alguma outra confraria. Lá, podia-se conversar sem ser localizado ou incomodado.
Barzinho legal para fazer um “esquenta” (happy hour), antes de ir para o “pico” da noite, ou, às vezes, um lugar eleito de última hora. Local de brigas, amizades feitas e refeitas que desembocavam na cerveja, bilhar, rock n’ roll e, de sexta-feira, um churrasco. Nos melhores dias, tudo isso.
Como em todo bom boteco, no balcão havia um “showroom” da baixa gastronomia, ou da apreciada “comida di buteco”. Estavam expostos, os clássicos ovos cozidos coloridos, algo inominável boiando numa conserva turva, salsichinhas com tempero agradável e outras iguarias. De vez em quando surgia algo comestível, prontamente devorado para aplacar os efeitos do álcool.
Nesse ponto de encontro, em lapsos de genialidade, surgiram grandes ideias: encher a cara em algum lugar de São Paulo ou viajar, num bate-e-volta, para alguma cidadezinha. Se não surgisse uma sugestão memorável ou se aparecessem pessoas legais, ficávamos lá mesmo.
Esse, como quaisquer outros bares, era frequentado por tipinhos que parecem ter sido extraídos de tirinhas de jornal — talvez, sob alguma visão apurada, eu seja um desses.
49
Navegar é preciso, viver não é preciso🔵
Litoral de Santa Catarina, estava tudo ótimo, mas alguém teve a ideia de mergulhar, afinal havia placas de agências convidando para o passeio. Por que não?
Antes, uma aula e algumas perguntas. As questões eram do nível: o que acontece se eu parar de respirar? Todavia, eu completei o questionário como se fosse uma prova da Fuvest. Eu acredito que todos encaravam aquelas folhas como uma competição, afinal estavam concentrados naquelas perguntas tolas.
No dia seguinte, partimos para a inédita aventura. Entramos num barco que parecia aguentar ida e volta sem afundar. Chegamos no local, uma ilha bonita, água cristalina e, no barco, um bando de turistas que mal sabiam a diferença entre uma galinha para um tubarão. Mas eu também era neófito na exploração do fundo do mar. Além disso, eu conhecia razoável variedade de peixes por fotos, aquários e bancas de pescados.
O mergulho propriamente dito foi de, no máximo, seis metros de profundidade. Mas tudo correu bem e pude ver alguns cardumes, tartarugas e outras criaturas, dignas do Discovery Channel. Quanto mais eu submergia, mais vinha à tona minha hipocrisia, achando exuberante toda aquela fauna marinha em seu habitat natural. À noite, no restaurante, me referindo àquelas maravilhas marinhas pelo eufemismo “frutos do mar”, eu acharia muito mais lindo todos eles chegando, mortos, numa travessa, fumegantes e empanados. Os bichos estranhos ficariam bem numa paella e o cardume frito, numa porção com cerveja. Que delícia!
Não podia existir esse dilema. Ser retirado da água fresca e jogado, às vezes vivo, em óleo quente e água fervendo é muito cruel.
O evento estava muito tranquilo, podia até ter a trilha sonora de uma flauta transversal. Precisávamos de algo mais rock’ n’ roll, e foi o que tivemos. Na volta, “o mar não tava pra peixe”, ou seja, estava turbulento. Mais uma vez, o chamamento suicida me convidou a “dropar” aquelas ondas que arrebentavam na proa do barco. Meu cunhado, esquecendo esposa e filhos, topou a insana aventura. Por que não?
Na parte de cima da embarcação, juntamo-nos a um punhado de argentinos, naturalmente pouco apegados à vida. A cada imenso volume d’água que quase adernava completamente a escuna, gritávamos e ríamos, como num Boca Juniors e River Plate ou Corinthians e Palmeiras. O “capitão” e a tripulação, num misto de raiva e responsabilidade, chamavam todos para baixo. Por causa da insistência, descemos com cara de Jack Sparrow, o pirata e Simbad, o marujo. Todos nos olharam com cara de Dramin.
De volta ao tédio, aquele convés mais parecia a espera do Poupatempo. Levantei e fui, me equilibrando, até o banheiro. Um dos tripulantes perguntou: “Tu tá mareado (enjoado com o mar)?”. Essa pergunta veio com um triunfante sorrisinho escapando no canto da boca, típico de quem estava esperando o turista paulista enjoar. Com a negativa à pergunta, terminei o passeio que virou aventura com vontade de beliscar uma porção de peixe com uma cervejinha bem gelada.
Antes, uma aula e algumas perguntas. As questões eram do nível: o que acontece se eu parar de respirar? Todavia, eu completei o questionário como se fosse uma prova da Fuvest. Eu acredito que todos encaravam aquelas folhas como uma competição, afinal estavam concentrados naquelas perguntas tolas.
No dia seguinte, partimos para a inédita aventura. Entramos num barco que parecia aguentar ida e volta sem afundar. Chegamos no local, uma ilha bonita, água cristalina e, no barco, um bando de turistas que mal sabiam a diferença entre uma galinha para um tubarão. Mas eu também era neófito na exploração do fundo do mar. Além disso, eu conhecia razoável variedade de peixes por fotos, aquários e bancas de pescados.
O mergulho propriamente dito foi de, no máximo, seis metros de profundidade. Mas tudo correu bem e pude ver alguns cardumes, tartarugas e outras criaturas, dignas do Discovery Channel. Quanto mais eu submergia, mais vinha à tona minha hipocrisia, achando exuberante toda aquela fauna marinha em seu habitat natural. À noite, no restaurante, me referindo àquelas maravilhas marinhas pelo eufemismo “frutos do mar”, eu acharia muito mais lindo todos eles chegando, mortos, numa travessa, fumegantes e empanados. Os bichos estranhos ficariam bem numa paella e o cardume frito, numa porção com cerveja. Que delícia!
Não podia existir esse dilema. Ser retirado da água fresca e jogado, às vezes vivo, em óleo quente e água fervendo é muito cruel.
O evento estava muito tranquilo, podia até ter a trilha sonora de uma flauta transversal. Precisávamos de algo mais rock’ n’ roll, e foi o que tivemos. Na volta, “o mar não tava pra peixe”, ou seja, estava turbulento. Mais uma vez, o chamamento suicida me convidou a “dropar” aquelas ondas que arrebentavam na proa do barco. Meu cunhado, esquecendo esposa e filhos, topou a insana aventura. Por que não?
Na parte de cima da embarcação, juntamo-nos a um punhado de argentinos, naturalmente pouco apegados à vida. A cada imenso volume d’água que quase adernava completamente a escuna, gritávamos e ríamos, como num Boca Juniors e River Plate ou Corinthians e Palmeiras. O “capitão” e a tripulação, num misto de raiva e responsabilidade, chamavam todos para baixo. Por causa da insistência, descemos com cara de Jack Sparrow, o pirata e Simbad, o marujo. Todos nos olharam com cara de Dramin.
De volta ao tédio, aquele convés mais parecia a espera do Poupatempo. Levantei e fui, me equilibrando, até o banheiro. Um dos tripulantes perguntou: “Tu tá mareado (enjoado com o mar)?”. Essa pergunta veio com um triunfante sorrisinho escapando no canto da boca, típico de quem estava esperando o turista paulista enjoar. Com a negativa à pergunta, terminei o passeio que virou aventura com vontade de beliscar uma porção de peixe com uma cervejinha bem gelada.
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Crônica de gelo e fogo 🔵
Esta crônica fala de homens disputando algo que não é palpável nesse mundo materialista. A contemporaneidade e suas facilidades não eliminaram o propósito atávico do Homem. O que fizeram vikings, visigodos, saxões, suevos e demais povos bárbaros, hoje é replicado por um bando de moleques irresponsáveis, num sábado à noite, indo pra balada. Em vez de cavalos, carros; em vez de espadas, um modesto estilete; e em vez de vencer longas distâncias para caçar, pilhar e conquistar terras, apenas sair de “rolê”.
Estávamos em três, descendo a principal avenida de Guarulhos. Tempos bicudos, quando a duras penas, uma geladíssima cerveja era parida a fórceps, com um rateio de moedas. Dinheiro curto e pavio também. É o 8 ou 80 da pouca idade, onde amigo não é aquele que separa a briga, mas sim o que aparece, do nada, dando uma voadora.
Pois bem, andando na avenida, passa um carro e alguém, lá de dentro, grita alguma coisa. Eu não sei o que gritaram, mas não deve ter sido algo muito legal. Deve ter sido um insulto, porque eu não deixei o autor sem resposta. Eu não precisava de álcool para xingar ninguém, mas, junto à criatividade e à coragem, eu já contava com o aditivo etílico. Portanto, foi fácil escolher um impropério do meu vasto vocabulário.
Quando começaram a parar um... dois... três... quatro carros, eu saquei a inconsequência do impulsivo ato. Nesse momento, na minha mente, a minha vida passou como um filme. Enquanto eu, atônito, via tudo se acabar, pra piorar, presenciava o meu exército dividindo-se. A metade covarde enfiou a cabeça entre os ombros e sumiu por anos, talvez pelo vexame de carregar, eternamente, a pedra da vergonha. A metade valente e camarada de verdade voltou, com seu velho estilete entre os dedos. Pronto, agora seríamos dois a levar uma surra histórica. Quem presenciava o que estava para acontecer já poderia telefonar para o SAMU ou o Resgate, trazendo a pá.
O dia virou noite, a noite virou dia e ficou claro que era chegada a hora onde se revelariam os inimigos verdadeiros e os falsos amigos. Hombridade e retidão de caráter separariam homens de meninos.
Meu amigo estava se alistando num exército inferior (numericamente e materialmente), numa batalha perdida e se fosse um jogo, de derrota sabidamente iminente. Em tempos em que se prefere filmar com o celular, em vez de enfrentar a situação, esse episódio contém um punhado de valores abstratos e raros: honra, coragem, amizade... Vou parar, senão vai parecer que eu “maratonei” Game of Thrones e corri para escrever isto.
Para nossa surpresa e alívio, os primeiros a descerem do carro vieram cumprimentando, como se nos conhecessem. Fizemos o mesmo, sem saber o porquê daquilo. Aquela atitude inesperada talvez tenha ocorrido por um código de ética pela coragem demonstrada, em detrimento da covardia, do falso amigo, que se revelou.
No fim, tudo ficou na paz. Saímos ilesos, diferentemente do medroso que, para não perder o costume, sumiu de vergonha e medo.
Coragem só se mede em ambiente hostil. Cheios de confiança, fomos esvaziar umas garrafas.
Estávamos em três, descendo a principal avenida de Guarulhos. Tempos bicudos, quando a duras penas, uma geladíssima cerveja era parida a fórceps, com um rateio de moedas. Dinheiro curto e pavio também. É o 8 ou 80 da pouca idade, onde amigo não é aquele que separa a briga, mas sim o que aparece, do nada, dando uma voadora.
Pois bem, andando na avenida, passa um carro e alguém, lá de dentro, grita alguma coisa. Eu não sei o que gritaram, mas não deve ter sido algo muito legal. Deve ter sido um insulto, porque eu não deixei o autor sem resposta. Eu não precisava de álcool para xingar ninguém, mas, junto à criatividade e à coragem, eu já contava com o aditivo etílico. Portanto, foi fácil escolher um impropério do meu vasto vocabulário.
Quando começaram a parar um... dois... três... quatro carros, eu saquei a inconsequência do impulsivo ato. Nesse momento, na minha mente, a minha vida passou como um filme. Enquanto eu, atônito, via tudo se acabar, pra piorar, presenciava o meu exército dividindo-se. A metade covarde enfiou a cabeça entre os ombros e sumiu por anos, talvez pelo vexame de carregar, eternamente, a pedra da vergonha. A metade valente e camarada de verdade voltou, com seu velho estilete entre os dedos. Pronto, agora seríamos dois a levar uma surra histórica. Quem presenciava o que estava para acontecer já poderia telefonar para o SAMU ou o Resgate, trazendo a pá.
O dia virou noite, a noite virou dia e ficou claro que era chegada a hora onde se revelariam os inimigos verdadeiros e os falsos amigos. Hombridade e retidão de caráter separariam homens de meninos.
Meu amigo estava se alistando num exército inferior (numericamente e materialmente), numa batalha perdida e se fosse um jogo, de derrota sabidamente iminente. Em tempos em que se prefere filmar com o celular, em vez de enfrentar a situação, esse episódio contém um punhado de valores abstratos e raros: honra, coragem, amizade... Vou parar, senão vai parecer que eu “maratonei” Game of Thrones e corri para escrever isto.
Para nossa surpresa e alívio, os primeiros a descerem do carro vieram cumprimentando, como se nos conhecessem. Fizemos o mesmo, sem saber o porquê daquilo. Aquela atitude inesperada talvez tenha ocorrido por um código de ética pela coragem demonstrada, em detrimento da covardia, do falso amigo, que se revelou.
No fim, tudo ficou na paz. Saímos ilesos, diferentemente do medroso que, para não perder o costume, sumiu de vergonha e medo.
Coragem só se mede em ambiente hostil. Cheios de confiança, fomos esvaziar umas garrafas.
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