O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
A Nêga era uma catadora de entulho. Nêga: este termo era usado nos anos 80, auge do politicamente incorreto e quando o “bullying” (que não tinha sequer esse nome) era comum. Se fosse hoje (2022, em tempos politicamente corretos), a Nêga chamaria Afrodescendente e seria uma recicladora de materiais.
Ela protagonizou uma cena digna de Steven Spielberg. A Nêga desfilou na minha rua, vestida de noiva, em companhia de um noivo imaginário ou se casando com a vida. Com um impressionante vestido, achado não se sabe onde, era de, literalmente, parar o trânsito. Essa, realmente, não é uma cena que se vê todos os dias.
Na vanguarda, (essa palavra é horrível, mas é o que tínhamos pra hoje), ela resolveu fazer o que teve vontade e jamais fariam por ela.
Bar da Maria
Aquele não era um ambiente bom. Se o local não podia ser recomendado a adultos, menos ainda a nós, crianças. A Maria, coitada, era a proprietária do comércio etílico e a maior consumidora do estoque.
No meu aniversário, não lembro que idade, sei que eram menos de oito anos. Não sei por que, mas o destino fez meu irmão, um amigo e eu atravessarmos a rua, até o referido boteco. Alguém, acho que o amigo, resolveu falar que eu ficava mais “idoso”. Maria, àquela hora da manhã, já aditivada, mas de bom coração, anunciou: “hoje, você pode pegar o que quiser!” Eu examinei o ambiente: alguns ovos coloridos boiando numa água turva dentro de um pote suspeito; torresmos com péssimo aspecto; uma bandeja com nacos de salsicha acebolada muito oxidados; pacotes de cigarros Vila Rica e Continental (as propagandas diziam que aquilo era legal); e, no alto, garrafas de Cinzano, Fernet, Tatuzinho, Velho Barreiro e outras bebidas. Achei que nada daquilo era pra mim. Fiquei desanimado.
Foi quando veio a luz. Escolhi um chocolate Grand Prix e uma Coca-Cola que devia estar escondida por ali. Fiquei entre a Coca, Tatuzinho e Velho Barreiro. Tatuzinho tinha um nome simpático e um rótulo bem legal, mas odor forte, a garrafa de Velho Barreiro possuía bastante conteúdo, mas achei o nome um pouco assustador. Acho que minhas escolhas foram sensatas.
Um dia qualquer, o bar da esquina estava fechado. Lógico que eu não era frequentador, mas aquele bar fazia parte da paisagem. A Maria fazia parte da paisagem... a Nêga também... Tanta gente passa como figurante em nossa vida...
50
Melhor fantasia ♦️
Apesar de contrariar seus irmãos ideológicos do Catraca Livre, a ativista Txai Suruí apanhou sua fantasia de índia — que pareceu ter sido adquirida numa lojinha de mágica da Rua 25 de Março — e correu para a Conferência das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (COP26), na Escócia. Quem pagou? Certamente, alguma alma caridosa, que, querendo o bem comum, já havia patrocinado Adélio Bispo.
A narrativa do Aquecimento Global estava colando, até que começou a esfriar muito, inclusive nevar onde nunca havia ocorrido o fenômeno. Ficou mais fácil e abrangente empurrar a expressão “mudanças climáticas”. Isso pegou mais fácil que a expressão inédita que disseram ser a mais dita em 2016: “pós-verdade”.
Mas o tema aqui é, na verdade, carnaval. A militante “indígena”, Txai Suruí, ganharia, no Hotel Glória, em originalidade, desbancando o saudoso Clóvis Bornay (eterno “hors concours”). A nossa índia, que parecia uma folclórica dançarina da Banda Carrapicho, estava pronta para falar o que a oposição precisava para tentar voltar ao poder. E a menina cumpriu a função a contento, “desceu a lenha” no Brasil.
Índios brasileiros estão sendo acionados por ONGs socialistas para reivindicar terras ou apenas atrapalhar políticos mais à direita. Nessas ocasiões, eles apanham um belo cocar de esplendor multicolorido, se cobrem com penas e se armam com arco e flecha e partem para o desfile. Alguns simulacros de autóctones não se dão ao trabalho nem de esconder o calção de futebol e a bicicleta.
A nossa índia tipo exportação cometeu um ato paradoxal: espinafrou o País, mas, também, promoveu nosso turismo no melhor estilo anos 80. Raoní, Txai ou qualquer silvícola da vez, para os europeus, não passam de figuras exóticas. A ONU adora ver o bom selvagem (do Novo Mundo) frequentando nobres palácios na Europa, isso cria um impacto antropológico (o ancestral e o atual). A nobreza europeia adora um indígena de cocar e paletó. Desse jeito, os gringos continuarão pensando que aqui tem jacarés e macacos na rua.
A oposição e o Velho Continente já decidiram: esse ano tem Carnaval e o prêmio vai para Txai Suruí.
58
Fake books ♦️
Os cuidados para não transmitir a covid-19 proliferaram as intermináveis “lives”. Muitos comportamentos que antes não saíam de casa foram revelados. Numa audiência pública do estado do Amazonas, um desembargador nos brindou com um incidente hilário.
O desembargador Yedo Simões, do Tribunal de Justiça de Amazonas, equilibrou mal o cenário de estante com farta biblioteca atrás da cadeira. O acontecimento revelou muito mais que apenas uma coleção de livros falsa ou de “Facebook”. A queda levou junto uma ilibada reputação e notório saber jurídico.
Sei que exagerei no “diagnóstico” de uma simples biblioteca decorativa. Mas, observando estilos de vida “pra inglês ver”, recomendo o “chroma key”. O “Facebook” me ensinou que é possível aparecer com a Torre Eiffel ao fundo ou o Museu do Louvre; também pode-se posar em frente ao Coliseu ou à Torre de Pisa; vários optam pelas Pirâmides do Egito ou o Cristo Redentor. O cenário pode não ser tão icônico, embora cumpra o seu papel ao ilustrar quão o personagem da imagem é viajado, então a simulação pode ser feita com a “Time Square” ou o “skyline” de Nova York.
O inesperado episódio exemplifica quanto o brasileiro ainda valoriza parecer que lê ao invés de realmente ler. Tenho a suspeita de que o desembargador leu e lê muito, mas fez-se necessário exibir uma biblioteca de dar inveja, mesmo que irreal. Se a falcatrua “colasse, como todo vício, no futuro, o plano de fundo seria composto por algo parecido com a Biblioteca de Alexandria.
Não sei se o desembargador teve o cuidado de caprichar na composição da coleção literária, contratando uma curadoria especializada nos clássicos. Mesmo sem o devido cuidado, a trapalhada já é um clássico da desfaçatez.
Bem melhor seria se o magistrado resolvesse divulgar a velha coleção da Playboy, os gibis da Turma da Mônica, uma coleção de bonecos ou suas “grafic novels” de super-heróis. Nerd sim, farsante nunca.
Conclusão, durante a sessão virtual, a biblioteca também era virtual.
76
Inseto Insípido
Mas que coisa mais escrota
Esse monte de inseto
Que invade minha casa
Desde o solo, até o teto
O maldito é equipado
Com antena, coisa imunda
O pior é o vaga-lume
Que tem lâmpada na bunda
Tem besouro, pernilongo
E barata voadora
Só acaba minha agonia
É na palha da vassoura
Depois de uma chinelada
A barata sai com vida,
Com as vísceras expostas,
Para um resto de comida
(Refrão)
| Naftalina, aletrina, fenotrina e efedrina
| Quanto mais veneno solta,
| Bem maior o bicho volta
|
| É Matox, Baratox, Venenox e Rodox
| Se o veneno for Baygon,
| Bicho acha muito bom
Eu achava esses “bichinho”
Pra saúde, bem nocivo
Mas agora, “tô” pensando
Pode ser bem nutritivo
Que a lesma seja frita
E a barata torradinha
A aranha bem assada
E o besouro na casquinha
Antes era um problema
Hoje é uma solução
Eu preparo meu banquete
Mando tudo pro fogão
Quando bate aquela fome
Só existe uma saída
Todo tipo de inseto
Num bom prato de comida
(Refrão)
92
Nobre vagabundo 🔵
Seres imaginários, habitantes de um universo paralelo, apenas quem não quer nada ou aqueles que ousam romper com a sociedade.
O Homem do Saco parecia ser tudo isso. Saído diretamente de alguma mente fértil ou de algum conto dos Irmãos Grimm, esse personagem foi inventado pelos antigos para assustar crianças. Segundo a lenda urbana, esta figura raptava as crianças, colocava num saco e sumia no mundo. Coisa leve para ameaçar o próprio filho. O andarilho estava personificado e parecia bem real, porque ele aglutinava as mazelas brasileiras numa pessoa só. Todo o temor atribuído a tão triste figura era injusto. Tinha uma barba de anos, cabelos desgrenhados e uma cor amarelada, dos pés à cabeça, devido a uma duradoura falta de banho. Eu nunca o vi ameaçando ninguém, confesso que até me causava dó. O sujeito tinha o azar de carregar um velho saco de estopa nas costas. Isso era o suficiente para corroborar a antiga lenda, apavorando a sociedade. Ele tinha um olhar triste, mas não uma tristeza com os rumos dele e sim da Humanidade.
O Bráz* não poderia ter o nome mais apropriado. Negro, cabelos brancos, aparência de um “Preto Velho”, carregava, como uma maldição, várias mazelas brasileiras: trabalhava o dia inteiro e, no caminho de casa, enchia a cara, ficando muito louco. Era fácil identificá-lo, lá no fim (e no meio) da rua ele vinha gritando: “ó”. Nunca o vi pronunciar outra coisa. O Bráz morreu atropelado por um ônibus no fim da rua onde eu morava. Provavelmente, ele estava no meio da rua e gritando “ó”.
Fuscão Preto, não se sabe de onde vinha, para onde ia ou o que fazia. Um dia, ele “colou” na turminha e cantou a música “Fuscão Preto”, do Almir Rogério. Pronto, foi o suficiente para a molecada cair na gargalhada e o sujeito sair de lá batizado.
O Lokinho da Lata* era o único maluco que não era beleza. Acho que era louco patológico, do tipo que necessitava de intervenção manicomial. Agressivo, esse cara transportava latas conseguidas não sei onde. Esse comportamento impedia qualquer aproximação, sob o risco de ser alvejado por uma embalagem de extrato de tomate Elefante ou de ervilha Jurema.
Eu me lembro de algumas figuras que tiveram uma passagem fugaz e, aparentemente, sem importância. No entanto, por mais rápida e repelente que a simples presença representava, eles geraram reflexão sobre a vida... e esta crônica.
* Bráz e Lokinho, tomei a liberdade de escrever da maneira que eu imaginei.
87
A Justiça de calça curta ♦️
O advogado criminalista Alberto Toron parece, mas não é. Ele poderia ser encarado como uma vítima das “lives”da quarentena. Entretanto, durante uma sessão do Superior Tribunal de Justiça, ele recusou-se a levantar da cadeira de rodinhas para locomover-se ao fundo da sala. A câmera do computador revelou muito mais que o escárnio do advogado, exibiu, abaixo do paletó e gravata, algo muito curto, mas já sabemos que não se tratava de uma calça social, que supostamente estaria vestindo.
O traje inadequado e a preguiça, denunciada com a pusilanimidade como perambulou pela sala, são a tradução do termo sinecura (emprego ou cargo onde se trabalha pouco, mas ganha-se muito).
As escusas não ajudaram a dissipar a péssima impressão, já que ele explicou que estava vestindo apenas uma bermuda. A explicação talvez só tenha sido urdida para corroborar o descaso com a Justiça. Além de tudo, nota-se que o advogado usava sandálias. Ou seja, no conjunto, o que destoava de um traje de banho, eram apenas o paletó, a camisa social e a gravata, fora o ambiente, que deveria parecer sóbrio.
Outro que quebrou a liturgia do cargo: Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay). O advogado (caro), de gente muito encrencada com a Justiça, deve valer o que cobra, afinal frequenta o Supremo Tribunal Federal de bermuda, servindo de inspiração (ou inveja) e mau exemplo para outros advogados, como o indolente advogado criminalista Alberto Toron.
Ao adentrar uma repartição pública, todos são obrigados a obedecer um aviso rigoroso, sob pena da lei, exigindo; os trajes autorizados. Não é permitido desobedecer às normas em hipótese alguma. Aproveitando-se da cegueira da Justiça, esses advogados fazem o que querem, e ninguém reclama. O traje adequado é encarado como mera formalidade, sendo aceito muito a contragosto (por alguns). A maneira como resolvem se vestir simboliza aquela máxima: Todos são iguais perante a lei, mas uns são mais iguais que os outros.
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Chevette rodado 🔵
Têm acontecimentos que assombram o imaginário familiar e, mesmo não ocorrendo o pior, nos aconselham a não vacilar e não arriscar, não deixando a negligência, a imperícia ou a imprudência assumir o comando.
Nessa época, GPS era tecnologia da NASA. No máximo, o que tínhamos era um surrado Guia Mapograf, sendo necessário um copiloto consultando o livro. Nesse caso, somente uma bússola poderia nos orientar.
No, quase fatídico, dia saímos num Chevette pelo interior de São Paulo. Quem quiser saber o que é um Chevette — o carro com nome de travesti — é só ir ao Museu do Automóvel. Pois bem, eu pensei que meu cunhado, quem pretendia guiar (ou domar) o veículo, fosse uma espécie de Ayrton Senna, devido a presunção de piloto, mas ele se revelou um Ukyo Katayama, literalmente, “Catagrama”.
Num episódio que aconteceu tudo e não aconteceu nada, fizemos as costumeiras orações que, como sempre, foram muito necessárias. “Fé em Deus e pé na tábua”. Derrubando a lenda de que as rodovias de São Paulo são boas, essa, como exceção, além de mão-dupla, era de pista única, toda esburacada, remendada, cheia de curvas perigosas, mato nas beiradas e tráfego intenso de caminhões. Era quase uma estrada imperial, dessas que Dom Pedro I circulava com seu cavalo (ou burro?). A chuva não era nada, para quem se comparava a um piloto de F1.
Em determinado ponto da viagem, o trânsito estava carregado, mas o comandante queria ultrapassar, de qualquer jeito. Esquecendo-se de que estava conduzindo quatro vidas, lançou mão do estilo “nóis capota, mas num breca”. Explicitando uma, antes, insuspeita inaptidão ao volante, meu cunhado perdeu o comando (que nunca teve) do carro, rodando algumas vezes. Ali, eu percebi como as bailarinas veem o mundo. Nesse dia, eu descobri que a Terra não era plana, porque se fosse, nós despencaríamos no fim dela ou pararíamos na beira do infinito. O transporte foi contido por um amontoado de feno salvador e fofo (não no sentido meigo). Essa desventura faz eu comparar o pretenso ás do volante com o folclórico piloto japonês da Toyota.
Todos sem nenhum arranhão ou concussão e minha sobrinha (quatro anos), no banco traseiro, mantinha um inocente sono, sem se dar conta que estava a bordo de um carrossel com curto-circuito. Nós, os passageiros, pensamos que o motorista esperaria a poeira baixar, mas ele saiu em disparada. Eu já não sabia se estávamos indo ou voltando.
Naquela noite, o, suposto, piloto caiu na real e não dormiu. Eu posso imaginar ele, com os “zóião aberto” na escuridão do quarto, lembrando do risco de morte (ou de vida?) que nos expôs, pessoas de bem, cristãos e pagadores de impostos. Entretanto, ele deve ter ponderado: melhor não fechar os olhos, do que nunca mais abri-los.
Até hoje, como se houvesse uma cruz ou uma capela, ao passar pelo local, lembramos do ocorrido. E por que não recordar de onde, um dia, Deus assumiu a direção de um Chevette. O proprietário daquele carro pode dizer que levou ao pé-da-letra a frase de para-choque de caminhão: comprado por mim, guiado por Deus.
48
Walter Mercado ⭕️
A figura andrógina surgia, inconfundível, equilibrando uma pesadíssima capa. Falando um impecável portunhol, ornamentado com vários anéis, a já referida capa, grossa camada de maquiagem e muito laquê, aparecia na televisão, novamente, o astrólogo dos ricos e poderosos. Walter Mercado, o exótico esotérico.
Durante os anos 90, num momento de distração, eu era surpreendido, nos intervalos comerciais, com uma repentina e assustadora abertura de leque.
Estendendo o seu alcance à ralé esotérica, o guru surge, brilhante, oferecendo seus serviços, supostamente, divinatórios por telefone. Uma mensagem, bela e rasa, de livro de autoajuda de livraria de rodoviária, era emendada pela frase teatral, hipnótica e persuasiva, carregada de sotaque espanhol, “ligue djá”. A indefectível e conativa recomendação, repetida ad nauseam, virou bordão.
Essa astrologia de jornalzinho gratuito (dia bom para os negócios) ou de cartaz colado em poste (trago a pessoa amada em três dias) é patifaria de comum acordo. Não pode ser considerado “cair” em estelionato comprar uma “galinha dos ovos de ouro” achando que vai ficar rico; ou arrematar um punhado de “feijões mágicos” supondo se dar bem.
Semana passada, assisti, em streaming, um ótimo documentário sobre Walter Mercado. O filme humaniza aquele que, em suas aparições fugazes, era apenas uma personagem. Além disso, dirime uma dúvida: ele está vivo (recluso) ou morto?
O documentário desmistifica o místico, mas tenta dramatizar os estertores de uma pessoa como qualquer outra. Na verdade, ele era uma pessoa como nenhuma outra.
Pois bem, seu manager aplicou-lhe um golpe, algo previsível para alguém muito rico. A idade avançada chegou e, com ela, a decadência física. Por isso, por mais grossa e pesada que a maquiagem fosse, não dava para disfarçar. Talvez o drama seja a batalha entre a vaidade e a decadência.
A obra cinematográfica serviu para eu ver com mais atenção uma figura extravagante que passara batida nos, televisivamente extravagantes anos 90 (Banheira do Gugu, Fantasia, Emmanuelle, Sushi Erótico, Latininho...).
O documentário acaba sendo uma homenagem, e o modo enfeitado como se vestia era como ele escolheu ser; assim como o Serguei quis viver como um rockstar, sendo apenas um doidão, desses facilmente encontrados num boteco de São Tomé das Letras ou num bar mais antigo da Vila Madalena. No entanto, ele se “apresentou” no Rock in Rio, sendo que nem sequer sabia cantar!
Walter Mercado foi um vendedor de sonhos enquanto vivia o seu.O
91
Pé “vermêio”
Lula não está confiando nas pesquisas eleitorais. Para constatar isso, basta observar sua movimentação pelos gabinetes pouco iluminados da política inconfessável. Fazendo uma caravana sem povo, Lula vem encontrando figuras que, há pouco tempo, ele mesmo recusaria ser flagrado junto.
Em, até há pouco, improvável, portanto inconfiável, aproximação, ele ameaçou oferecer a Alckmin o Ministério da Agricultura de porteira fechada. O ex-governador de São Paulo não se fez de rogado e querendo exibir algum talento relacionado à Pasta, postou um vídeo seu “capinando” um terreno.
Sinceramente, o outrora concorrente do petista não me pareceu nada convincente. Ele por ter julgado ser fácil engambelar o pré-candidato do PT, pois Dilma Rousseff chegou à Presidência porque sabia operar um “notebook”.
Alckmin tem razão em correr demonstrar seu “talento”, afinal, não é todo dia que um ministério cai do céu. Entretanto, eu não provaria nem um pé-de-alface plantado pelo anestesista do Morumbi. Além de tudo, ter Alckmin (PSDB) por perto traz tanta segurança quanto ter Michel Temer como vice-presidente.
Contudo, não tiro a razão de Geraldo Alckmin. Se eu fosse contemplado com um ministério novinho e só meu, faria exatamente a mesma coisa. Se o Ministério da Pesca me fosse prometido, não pensaria duas vezes até arranjar um retrato meu num pesque-pague; se a oferta for a Pasta da Saúde, a única solução será um registro meu engolindo um comprimido para dor de cabeça; para o Ministério do Meio Ambiente, sacarei a perpetuação de um momento que eu usei uma sacola de pano do “Greenpeace” (confeccionada com fibras de cânhamo) para ir ao supermercado. Essa fotografia seria fundamental, pois além de provar minha aptidão (no estilo Alckmin) para o cargo, daria uma bela “lacrada”, bem do jeito que essa turma gosta.
Unindo o desespero do PT para se apoderar da máquina pública e o desespero de “servidores públicos” para ocupar qualquer cargo no Estado, vale tudo, até tentar a sorte lançando um retrato “pegando no pesado”.
Provimento técnico é isso?
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Corinthians e Santos na Capitania Hereditária de São Vicente 🔵
Eu estava bitolado no vestibular para cursar Jornalismo. História era uma das matérias cobradas. Apesar de eu gostar da matéria, precisava desintoxicar da imersão que havia feito nos últimos meses.
Semifinal do Campeonato Brasileiro de 1998, eis a oportunidade perfeita para eu interromper temporariamente os estudos, vendo um “futibinha”, bebendo um chope gelado, jogando conversa fora e, quem sabe, gritando uns gols.
Meu amigo teve a ideia de assistir à partida no litoral de São Paulo. Por que não? Um excelente motivo para cancelar a infeliz aventura seria evitar descer a Serra numa motinho 125 cc e subi-la, provavelmente, levemente embriagado. Mas a precária e atribulada decisão venceram quaisquer critérios de segurança.
A viagem foi tranquila, apesar de barulhenta e, confesso, como o meu amigo era motoboy, me senti uma mercadoria que precisava ser entregue em tempo recorde. Desafiando caminhões e cortando carros, chegamos.
Ir numa moto 125 era o menor dos problemas. O principal problema foi descoberto na Baixada. Como eu havia me afundado na História, tudo era motivo para eu explicar o significado, a trajetória, os acontecimentos e a importância de alguns imóveis tombados e cada acidente geográfico da região histórica. Acho que fui bem chato, mas valeu pela revisão empírica.
No meu universo particular, eu estava na Capitania Hereditária de São Vicente da Terra de Vera Cruz. E, nessa paranoia, eu não poderia ser contrariado. Jamais. Tudo o que vi, necessitava urgente de reconstrução histórica. Se eu não fizesse urgentemente, ninguém iria fazê-lo, nem o CONDEPHAAT.
Nessa loucura Histórica, o Monte Serrat voltou a ser a Bolsa do Café, o Porto de Santos a ter um agitado mercado de escravos e Martim Afonso de Sousa fundou a primeira cidade do Brasil: a vizinha São Vicente.
Voltei para 1998 quando o jogo começou. Final da partida: 2 a 0. Como cada gol valia 1 chope grátis, economizamos algum dinheiro e eu, que já estava embriagado de História, fiquei com uma simples partida de futebol e um pouco de álcool.
O Corinthians venceu o campeonato daquele ano e eu passei no vestibular do ano seguinte.