Raquel Mesquita

Raquel Mesquita

n. 1985 PT PT

n. 1985-03-21, Matosinhos

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Destino

Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai.
É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!


Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Poemas

92

Recomeça

O mundo continua a ser o mundo.
Essa espada não trespassa o tempo.
Não vêm milagres da tua mão.
Há cansaço e não nascem frutos neste chão.
Segue pela estrada nova que te surge.
Já não importa que as nuvens choquem.
Ou que o teu caminho, com o dele, não se cruze.
Se tiver que ser, que se enlameie o coração.
Se possível, que não haja pressa que mate a vontade.
Acalma a alma no mar da verdade.
Alteia a bandeira do triunfo, esse e só esse,
Que se banha na aragem do voltar a começar.
Porque o mundo, não te esqueças, continua a ser o mundo!
17

Privilégio de te amar

Que privilégio é este de te amar.
Não há distinção maior do que me ver no teu olhar.
Ah, e aquele toque que me arrepia a alma.
É verdade que, para mim, o nosso amor é uma honra.
O que importa que não sejas perfeito se te amo?!
O amor não é magistral,o amor é tão só amor.
E é tanto… e é meu e teu, é nosso!
Tens a mágica de ver o mar no verde dos meus olhos.
E eu vejo o céu na tua boca e música nas tuas mãos.
Tens o dom de me amar.
E quem disse que amar-me é fácil?!
O amor possibilita o impossível, o impensável.
E eu desejei impossivelmente o impensável.
Desejei este fascínio de corpos favorecidos pelo encaixe das almas.
Ah, como te amo!
O amor é um perfeito e requintado caminho que me conduz a ti.
E àquele nós que poucos sabem.
Poucos saberão como se beija um coração.
Porque isso é mistério dos verdadeiramente amantes.
Amantes como nós.
Ah, como beijas o meu sentimento!
Que privilégio é este de sentir dois corações que batem em uníssono.
Juntos numa perfeita comunhão.
Juntos prometem ao mundo que cuidarão um do outro.
Não há maior privilégio do que poder cuidar de ti muito para lá da vida.
E saber que o fazes também na mesma sem-medida!
O amor basta as desavenças e o nosso é bastante!
O nosso amor é um regaço que nos acolhe, é um afágo valioso.
Ah, como somos ricos e abençoados.
A natureza concede privilégios somente a quem ousa amar.
E nós desafiamos a vida e desfiamos os sentimentos um a um.
Quero que todos saibam que o amor não são desfiles, é apenas um corajoso e emocionado grito.
Que todos oiçam que te amo.
Eu ouvirei sempre o teu grito porque me é puro.
Amamo-nos como ama o amor…
Ah…! E isso é um honrado e inexplicável privilégio!
22

Quando me dizes ao ouvido...

Quando me dizes ao ouvido, com toda a calma, que me amas.
Sinto como se estivesses, com toda pressa, a gritá-lo ao mundo em jeito de confissão.
Gosto que me digam - sou teu!
Gosto que me peçam para dizer - sou tua!
É bonito este sentimento de entrega que se mistura com a importância de podermos possuir alguém.
Mas é mentira.
Quem ama não tem.
Quem ama cuida só de amar.
Se fosses meu, se eu fosse tua, nada restaria para amarmos um no outro.
Quem possui não ama porque a posse mata o amor.
Quando me dizes ao ouvido que ninguém te teve como eu te tenho, é como se acreditasse que somos um do outro.
É como se nos esgotássemos um no outro, nos fundíssemos num só.
E é quando desejo ser tua, sem o ser de verdade.
É quando te digo baixinho ao ouvido que sou tua, numa declaração de impossibilidade sonhada.
22

Sono

O sono traz memórias pesadas.
Daquelas que se arrastam pelo chão riscado.
O seu eco não deixa espaço à paz do silêncio.
Este sono molda-me a vontade.
Altera-me o batimento regular do coração e das palavras.
Tudo se confunde numa mescla absurda.
A noite diz-me que a morte é o fim.
Mas é mentira…
O escuro é ardiloso e tolda a vista cansada.
Como cansado está já todo o corpo.
Inerte e endurecido na espera de uma imagem à qual jamais voltará.
O sono é este inferno onde os desejos gritam de dor.
É por isso, e só por isso, que teimo em não adormecer.
23

Carta ao amigo (que nunca foi)

Felizes os que não mentem, nem a si nem a ninguém.
Felizes os que não vivem de desculpas nem de calculismos fracos.
Felizes os que não têm que lidar com plátanos.
Felizes os que, por sua vontade, arranjam tempo para regar as suas plantas.
Felizes os que não passam por cima de amizades para satisfazer caprichos infantis.
Felizes os que não vivem de exibicionismo e desfiles de vaidade.
Felizes os que não tomam acções para ficar bem na fotografia ou marcar pontos.
Felizes os que não confundem ilusão com paixão e, sobretudo, os que não iludem ninguém.
Felizes os que têm a nobreza de preferir a franqueza à cordialidade hipócrita.
Felizes os que não se enredam no seu umbigo e no seu mundinho banal.
Felizes os que não ficam pela superficialidade e permanecem.
Felizes os que se distinguem por não descartarem as pessoas.
Felizes os que não esquecem e sabem manter a palavra e a verticalidade.
Felizes os que não se escudam em silêncios e distâncias cobardes.
Felizes os que sabem ser homens, os que se assumem e se confrontam.
Felizes os que não fogem nem se melindram com as verdades.
Felizes os que não acumulam fracassos emocionais com a sede de conquista barata.
Felizes os que sabem esperar e não preferem o atalho fácil.
Felizes os que acrescentam e nos tornam gratos pela vida.
Felizes os que conhecem o significado da verdade e a sentem na plenitude das emoções.
E por tudo isto, desejo-te as felicidades que mereces… e dessas, desejo-te as maiores!
31

Fome

Não, não tive fome de paz.
Sede de eternindade ou de luar.
Apenas uma vontade de ficar aqui e ali.
Perto do mar, o vento a beijar-me a pele.
Sentir o desejo nas veias como um veneno.
Paixão a pulsar.
E no fim de toda a espera,
Ver-te, ao longe, a chegar.
Nunca tive fome senão de ti.
De perder-me nas correntes, de mergulhar.
Troçando da solidão, saltar dos abismos.
Ser livre nos pensamentos e ser capaz de voar.
29

A Noite Interminável

Lembro-me do cais da Ribeira naquela noite de Quarta-feira quente.
As esplanadas despidas e o passeio deserto que nos impunham serenidade.
O Douro transformado numa brilhante passerelle onde aquela lua amarela e reluzente desfilava grandiosa.
- Onde está toda a gente? – Perguntaste de braços abertos a rodopiar sobre ti mesmo.
- Reservei a cidade para nós. - Disse-te naquele jeito de graça que te fazia rir e ficar com o ar de quem quase acreditava em impossíveis.
- Fazes-me melhor, Pilar. Fazes-me sempre ver o mundo como um lugar bonito.
Lembro-me de nos perdemos em conversas e de todas as nossas teorias mirabolantes sobre a vida.
Deitados, com os pés na borda do rio e os olhares presos naquele manto de veludo azul-escuro de céu.
- Sabes, o tempo antes nunca acabava e agora parece pouco para tantos sonhos. – Disseste-me, sem mais, como quem anuncia um fim não desejado.
- O tempo é o que quiseres que seja. Fecha os olhos. Tens cinco minutos para me dizeres o que farias se fosses o dono do tempo e lhe pudesses pôr um travão agora.
- Oh…! – Respondeste naquele teu tom resignado.
Levantei-me, dei-te um puxão e disse para dançarmos.
- Estás doida? Não! - Aquele teu medo de pé-de-chumbo assustado.
- Xiuuu…!
Dançámos num ritmo que o rio meio adormecido nos ia sugerindo, dançámos sem nos importarmos com o olhar de curiosidade daquele senhor que passeava o cão.
Lembras-te?
Afinal, sempre me disseste que não havia problema nenhum em sermos loucos e, como sempre te disse, eu confiava em ti e deixava-me ser.
- Percebo-te, obrigada! – Agradeceste-me no final.
Hoje, esta estranheza de me sentir calma. Lembro-me daquela noite que nunca mais teve fim.
Como te disse, somos nós que fazemos o tempo ser para sempre.
31

Eu Peço

Eu peço que se apaguem as luzes.
Que se tinjam as lágrimas.
Eu peço às flores explicações.
Complicadas e nunca achadas.
Eu peço ao lume que se alague.
Ou se murche dentro do peito.
Baú que se torce e entorpece.
Eu peço ao vento que afaste o véu.
A débil raia que me turva a vista.
É azeda esta lonjura que me habita.
Eu peço ao mar que me queime a pele.
Que nada toca ou nela perdura.
É insano todo o meu pensar.
Que tudo pensa e nada o satisfaz.
São pedidos irreais e excessivos.
Como demasiada sou toda eu.
Eu peço para calar a voz da minha pressa.
A vida ama-se devagar.
Eu peço calma nesta hora de te abraçar.
27

Saudade II

É ali que me separo de ti.
E a saudade se insurge de faca empunhada.
Golpes e ais.
A saudade é feita de ais.
Por todos os beijos que se perdem.
Por todos os abraços que não se dão.
Por todas as palavras que se calam.
Abrem-se feridas sem remédio.
Não há cura para a saudade.
Há ais profundos.
Há medo de esquecer.
Não saber mais o cheiro.
Não reconhecer a voz.
Perder, por entre recordações, os detalhes.
Não recuperar histórias.
A saudade é fechar os olhos e querer voltar.
Mais do que voltar ao momento,
Voltar a ti e sentir tudo.
Viajar nas emoções.
Ter-te e ter tudo o que de ti me faz falta.
Ah… esta saudade.
19

Não Sei

"Oh triste, porque choras?"
Perguntas naquele tom de quem tem pena de mim,
Como se eu não tivesse o direito de sofrer assim.
E perguntaste-me que tristeza é esta,
E eu só sei, nas lágrimas mergulhada,
Que, em mim, a dor faz uma festa,
E eu nem sequer fui sua convidada.
Tomara eu ter uma palavra ou um qualquer sonho desfeito,
Para te responder,
E justificar o eterno calvário que tenho feito.
Mas eu não sei, oh céus!
Que se eu soubesse porque choro,
Todos os convidados seriam meus,
Na melhor festa deste corpo onde,
Já não vivo, apenas moro.
18

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