Jardim das Virtudes
Venho cá de vez em quando
Vejo um rio correr pró mar
Uma neblina vai-se formando
Abre-se o peito numa aragem
E desvendo as virtudes do amar
Ao longe vejo a ponte, o luar
Deixo-me ficar neste jardim
No escuro oiço o Douro respirar
Banho o coração nesta paisagem
Embalada numa noite sem fim
Benditos os recantos da cidade
Os bancos de pedra gastos e sós
São lugares que acalmam a ansiedade
No silêncio passam-nos a mensagem
Desatam-se cá dentro todos os nós
Com muita paz e grande calma
Neste lugar sereno, me deixo dormir
Jazem aqui os pesos da minha alma
E assim cá me fortaleço da coragem
De partir em busca de um novo sentir
...momento
Ah, se eu pudesse fazer o tempo parar!
Fazer o tempo ter tempo de apreciar este momento em que nos damos ao tempo para amar!
O Inútil
O útil é cansativo.
É por isso que o inútil me dá prazer.
Dá-me prazer procurar alguma realidade no vazio.
Porque o oco tem conteúdo, ainda que vão.
Há sempre qualquer coisa, mesmo no mais superficial.
É a lógica das laranjas quando se espremem.
Muito ou pouco, dão sumo.
É como as pessoas…
Gosto de explorar o que é plástico.
Porque é inútil, porque me é novo.
Porque tanto faz, porque não importa.
Porque nunca espero que acrescente.
Há paz em nada esperar.
Nunca espero nada do que não me tem utilidade,
Porquanto não me cansa, e isso é um prazer.
O Amor Não Cura Tudo
Hoje acordei com a sensação de que já tinha vivido este dia.
Louca, pensei.
Repetidas, uma a uma, todas as coisas que sentia.
Mas loucura, nenhuma.
Só um calor a escorreguer pelo rosto,
Para me lembrar,
Calmamente me lembrar,
Que a vida é, assim mesmo, crua.
E há dias em que acordar,
Não tenho dúvida,
É um novo passo atrás na luta,
Porque o amor,
Ah, o amor! O amor salva-nos mas não cura tudo!
A vida inteira
Fome nas mãos.
Ternura na boca.
Um olhar de súplica.
Um beijo que demora.
Um amor acorda.
E uma vida inteira à porta.
O que não fui
Deram-me a possibilidade de ser o que não fui.
Tudo o que quis foi perder-me por entre tempestades.
Subir todos os montes e abraçar liberdades.
E assim, presa a quem sempre fui, não agarrei o que sonharam para mim.
Perseguindo os abismos da saudade do que nunca existiu.
Aqui e agora, onde me encontro a viver da única maneira que me sei ser.
E pouco a pouco, o que não fui vai ficando para trás.
Tu Não Sabias
Tu não sabias da minha procura.
Da ânsia desmedida que enfurece o jardim.
Não sabias que te procuro sempre.
Mesmo quando já luz nenhuma alumia o caminho.
Eu sei que não sabias.
Tu não sabias da minha busca interna.
Incessante como as ondas de um mar revolto.
Bem sei que não sabias.
Eu sabia que desconheces os meus segredos.
Nunca soubeste desvendar os mistérios dos meus lugares.
Ermos, fatídicos como todo o meu jeito de amar.
Tu não sabias dos meus tropeços e arranhões.
Que arranhada sempre esteve a minha alma.
Fraca, encoberta num céu de saudade.
Tu não sabias, tu não conheces.
Eu sei que não sabias.
Se soubesses jamais terias partido.
Agora é escuro e não sei de luz nenhuma.
Ao verme!
Que não me lembro,
É o que respondo quando me perguntam por ti.
Que não te amo e que já esqueci.
Digo como se esfaqueasse o passado.
É a máscara de um coração maltratado.
Que não te conheço,
É a resposta pronta quando não me desvio e passo por ti.
Nada há de mentira aí,
Pois não posso conhecer alguém que fugiu de si.
Nesta montra que é a vida, fizeste a escolha errada.
Não vendo a dignidade, nem vivo de vida comprada.
Que não me interessa e nem quero saber,
Responderei se me disserem que já não andas,
Rastejas na lama sem coluna vertebral.
Ah…isso já não me espanta!
O verme sempre volta à sua mole condição natural…
Ao verme o sujo, que é seu por direito!
Pessoas Como Nós
Pessoas como nós olham nos olhos.
Pessoas como nós asfixiam a tristeza com abraços.
Pessoas como nós apertam os laços com nós cegos.
Pessoas como nós lambem lágrimas para estancar a dor nos outros.
Pessoas como nós amam almas e aceitam corpos.
E nunca o contrário!
Pessoas como nós só mantêm distâncias discretas.
Pessoas como nós sonham com a mesma velocidade com que as estrelas rasgam o céu.
Pessoas como nós destroem trilhos para fazerem o caminho.
Pessoas como nós guardam saudades.
Pessoas como nós nunca partem porque levam o coração cheio.
Voltam sempre!
Pessoas como nós vestem-se de emoções.
Pessoas como nós embebedam-se de ilusão.
Pessoas como nós rasgam o peito para arrancar mágoas.
Pessoas como nós dançam músicas que ninguém ouve.
Pessoas como nós não se envergonham de esfarrapar os joelhos.
Pedir perdão é tantas vezes a única forma de perdoar.
Pessoas como nós esperam, tantas vezes, para sempre.
Pessoas como nós sofrem por nadas, aparentemente, enormes.
Pessoas como nós dão o braço a torcer só à terceira.
Mas rasgam sorrisos logo à primeira!
Pessoas como nós amam, como só ama o amor!
A folha caiu e o gato miou
A folha caiu e o gato miou.
As palavras espalharam-se no chão.
Partidas, sujas, bastardas.
Inúteis quando não passam de encenação.
Como inútil é todo o castigo.
Basta a penitência de não teres perdão.
A folha caiu e o gato miou.
Ficaram as mentiras em cacos e tu em solidão.