Raquel Mesquita

Raquel Mesquita

n. 1985 PT PT

n. 1985-03-21, Matosinhos

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Destino

Descalça, sigo adiante, pela estrada da loucura que me atrai.
É este o inevitável destino de quem na vida sempre cai!


Raquel Mesquita, in "Ousadia de Sentir"
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Poemas

92

O Mundo Morre

A porta bate e as janelas escancaram-se num grito alto.
O vento entra num rompante de lamento aflito.
É frio e o ar pesado gela tudo.
A pele eriça-se num arrepio que vem do fundo.
O coração sangra e encolhe-se em defesa.
A folha cai em silêncio duro e seco.
A luz apaga-se num escuro solene e defunto.
E enfim, o mundo cai nessa espera em que sempre morre o mundo.
18

Ao verme!

Que não me lembro,
É o que respondo quando me perguntam por ti.
Que não te amo e que já esqueci.
Digo como se esfaqueasse o passado.
É a máscara de um coração maltratado.
Que não te conheço,
É a resposta pronta quando não me desvio e passo por ti.
Nada há de mentira aí,
Pois não posso conhecer alguém que fugiu de si.
Nesta montra que é a vida, fizeste a escolha errada.
Não vendo a dignidade, nem vivo de vida comprada.
Que não me interessa e nem quero saber,
Responderei se me disserem que já não andas,
Rastejas na lama sem coluna vertebral.
Ah…isso já não me espanta!
O verme sempre volta à sua mole condição natural…
Ao verme o sujo, que é seu por direito!
17

Ausência

Desatei a correr.
No princípio pensei que fosse para fugir da chuva que caía grave e pesada.
Mas, rapidamente, percebi que fugia não da chuva, fugia do mundo, fugia de ti.
A saudade é impiedosa e o tempo, ah… o tempo não é generoso.
Subi a escada com a mesma pressa exagerada com que costumava correr para te abraçar depois do trabalho.
Naquela altura não havia cansaço, era toda uma sede de beijos e abraços.
Hoje, entrei de rastros como se as pernas fossem dois pêndulos mortos e gastos.
E quando a porta bateu atrás de mim, um silêncio ensurdecedor ecoou por toda a casa.
E agora este sabor a vazio putrefacto que se instalou em todas as partes de mim.
Hoje, quando a porta bateu e a chave caiu no chão,
Sim,
Quando a porta bateu, o que bateu realmente foi esta solidão.
18

Ó noite!

Dormi à noite ao relento,
Numa espera suspensa de te encontrar.
Na minha boca nem um lamento,
Só uma tristeza vidrada no olhar.
Ó vida!
Ó lástima!
Ó vizinha desgraça!
A morte faz de mim cadáver,
Nesta sede de me acabar!
18

...

Ser feliz é comer filetes com salada russa e saber-nos a magret de pato com puré de baunilha!
24

A folha caiu e o gato miou

A folha caiu e o gato miou.
As palavras espalharam-se no chão.
Partidas, sujas, bastardas.
Inúteis quando não passam de encenação.
Como inútil é todo o castigo.
Basta a penitência de não teres perdão.
A folha caiu e o gato miou.
Ficaram as mentiras em cacos e tu em solidão.
19

Recomeça

O mundo continua a ser o mundo.
Essa espada não trespassa o tempo.
Não vêm milagres da tua mão.
Há cansaço e não nascem frutos neste chão.
Segue pela estrada nova que te surge.
Já não importa que as nuvens choquem.
Ou que o teu caminho, com o dele, não se cruze.
Se tiver que ser, que se enlameie o coração.
Se possível, que não haja pressa que mate a vontade.
Acalma a alma no mar da verdade.
Alteia a bandeira do triunfo, esse e só esse,
Que se banha na aragem do voltar a começar.
Porque o mundo, não te esqueças, continua a ser o mundo!
15

Sono

O sono traz memórias pesadas.
Daquelas que se arrastam pelo chão riscado.
O seu eco não deixa espaço à paz do silêncio.
Este sono molda-me a vontade.
Altera-me o batimento regular do coração e das palavras.
Tudo se confunde numa mescla absurda.
A noite diz-me que a morte é o fim.
Mas é mentira…
O escuro é ardiloso e tolda a vista cansada.
Como cansado está já todo o corpo.
Inerte e endurecido na espera de uma imagem à qual jamais voltará.
O sono é este inferno onde os desejos gritam de dor.
É por isso, e só por isso, que teimo em não adormecer.
20

Quando me dizes ao ouvido...

Quando me dizes ao ouvido, com toda a calma, que me amas.
Sinto como se estivesses, com toda pressa, a gritá-lo ao mundo em jeito de confissão.
Gosto que me digam - sou teu!
Gosto que me peçam para dizer - sou tua!
É bonito este sentimento de entrega que se mistura com a importância de podermos possuir alguém.
Mas é mentira.
Quem ama não tem.
Quem ama cuida só de amar.
Se fosses meu, se eu fosse tua, nada restaria para amarmos um no outro.
Quem possui não ama porque a posse mata o amor.
Quando me dizes ao ouvido que ninguém te teve como eu te tenho, é como se acreditasse que somos um do outro.
É como se nos esgotássemos um no outro, nos fundíssemos num só.
E é quando desejo ser tua, sem o ser de verdade.
É quando te digo baixinho ao ouvido que sou tua, numa declaração de impossibilidade sonhada.
19

Beber O Mundo

Quero conhecer o mundo pelos teus olhos.
Pela tua boca, a cidade não é a cidade.
Pela tua boca, eu não sou eu.
Tu não falas do que vês, falas do que sentes.
Amas os pormenores, conheces a alma.
Vais ao avesso e desvendas os enigmas.
Não alcanço esses lugares, não lhes conheço o sabor.
Quero ir nas tuas viagens.
Sentir para lá do que vejo, ver para além dos corpos.
Respirar as cores, tocar com o olhar.
E no regresso, cerrar os olhos e ver tudo de novo.
Ser capaz de voar.
Ser maior em pensamento.
Ter a imaginação como limite.
E na base,
Ah… amar!
Beijar o vento, abraçar o mar.
Banhar-me nas emoções e vestir a vida com verdade.
Poder ser tudo em todo o lado.
Devorar os sonhos a rir, derrubar as paredes do quadrado.
Quero viver assim, como deve ser, intensamente.
Embriagar-me de vida, beber o mundo.
17

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