Inspiração
Nas noites em que a espero e me sento,
De copo na mão, serena e calma.
Nessas noites, não há nada,
Ela nunca chega.
E com a folha já amarrotada,
Sem nenhum alento,
Embebedo o corpo e a alma.
Porque ela é assim, uma vontade indomada.
Que sem convite, sem ser esperada,
Vem gritar-me ao ouvido ainda com mais gana.
Nas noites em que quero dormir e esquecer,
Não me larga, não me dá descanso.
E pela madrugada, o cansaço é já tanto,
Que a deixo livre nas mãos,
Fecho os olhos descansada,
Para o que ela quiser escrever.
Sem Tempo
Aperto o tempo nas minhas mãos como se fosse meu.
Agarro-o como se, no fundo, agarrasse todas as oportunidades.
Deixo-me ficar na ilusão desse controlo.
Sorrio e nem noto que ele se esvai como areia por entre os dedos.
Abro as mãos e não sobra nada.
Nem oportunidades e já nem tempo para as sonhar.
Refém
É como se o meu corpo fosse um território em guerra.
É como se um fogo queimasse tudo.
Já não sei quem há segundos era.
A cada segundo me transformo e mudo.
Um calor que me consome e nada o detém.
Uma guerra em que não luto e sou apenas refém.
Pessoas Como Nós
Pessoas como nós olham nos olhos.
Pessoas como nós asfixiam a tristeza com abraços.
Pessoas como nós apertam os laços com nós cegos.
Pessoas como nós lambem lágrimas para estancar a dor nos outros.
Pessoas como nós amam almas e aceitam corpos.
E nunca o contrário!
Pessoas como nós só mantêm distâncias discretas.
Pessoas como nós sonham com a mesma velocidade com que as estrelas rasgam o céu.
Pessoas como nós destroem trilhos para fazerem o caminho.
Pessoas como nós guardam saudades.
Pessoas como nós nunca partem porque levam o coração cheio.
Voltam sempre!
Pessoas como nós vestem-se de emoções.
Pessoas como nós embebedam-se de ilusão.
Pessoas como nós rasgam o peito para arrancar mágoas.
Pessoas como nós dançam músicas que ninguém ouve.
Pessoas como nós não se envergonham de esfarrapar os joelhos.
Pedir perdão é tantas vezes a única forma de perdoar.
Pessoas como nós esperam, tantas vezes, para sempre.
Pessoas como nós sofrem por nadas, aparentemente, enormes.
Pessoas como nós dão o braço a torcer só à terceira.
Mas rasgam sorrisos logo à primeira!
Pessoas como nós amam, como só ama o amor!
Ausência
Desatei a correr.
No princípio pensei que fosse para fugir da chuva que caía grave e pesada.
Mas, rapidamente, percebi que fugia não da chuva, fugia do mundo, fugia de ti.
A saudade é impiedosa e o tempo, ah… o tempo não é generoso.
Subi a escada com a mesma pressa exagerada com que costumava correr para te abraçar depois do trabalho.
Naquela altura não havia cansaço, era toda uma sede de beijos e abraços.
Hoje, entrei de rastros como se as pernas fossem dois pêndulos mortos e gastos.
E quando a porta bateu atrás de mim, um silêncio ensurdecedor ecoou por toda a casa.
E agora este sabor a vazio putrefacto que se instalou em todas as partes de mim.
Hoje, quando a porta bateu e a chave caiu no chão,
Sim,
Quando a porta bateu, o que bateu realmente foi esta solidão.
A Noite Interminável
Lembro-me do cais da Ribeira naquela noite de Quarta-feira quente.
As esplanadas despidas e o passeio deserto que nos impunham serenidade.
O Douro transformado numa brilhante passerelle onde aquela lua amarela e reluzente desfilava grandiosa.
- Onde está toda a gente? – Perguntaste de braços abertos a rodopiar sobre ti mesmo.
- Reservei a cidade para nós. - Disse-te naquele jeito de graça que te fazia rir e ficar com o ar de quem quase acreditava em impossíveis.
- Fazes-me melhor, Pilar. Fazes-me sempre ver o mundo como um lugar bonito.
Lembro-me de nos perdemos em conversas e de todas as nossas teorias mirabolantes sobre a vida.
Deitados, com os pés na borda do rio e os olhares presos naquele manto de veludo azul-escuro de céu.
- Sabes, o tempo antes nunca acabava e agora parece pouco para tantos sonhos. – Disseste-me, sem mais, como quem anuncia um fim não desejado.
- O tempo é o que quiseres que seja. Fecha os olhos. Tens cinco minutos para me dizeres o que farias se fosses o dono do tempo e lhe pudesses pôr um travão agora.
- Oh…! – Respondeste naquele teu tom resignado.
Levantei-me, dei-te um puxão e disse para dançarmos.
- Estás doida? Não! - Aquele teu medo de pé-de-chumbo assustado.
- Xiuuu…!
Dançámos num ritmo que o rio meio adormecido nos ia sugerindo, dançámos sem nos importarmos com o olhar de curiosidade daquele senhor que passeava o cão.
Lembras-te?
Afinal, sempre me disseste que não havia problema nenhum em sermos loucos e, como sempre te disse, eu confiava em ti e deixava-me ser.
- Percebo-te, obrigada! – Agradeceste-me no final.
Hoje, esta estranheza de me sentir calma. Lembro-me daquela noite que nunca mais teve fim.
Como te disse, somos nós que fazemos o tempo ser para sempre.
Saudade II
É ali que me separo de ti.
E a saudade se insurge de faca empunhada.
Golpes e ais.
A saudade é feita de ais.
Por todos os beijos que se perdem.
Por todos os abraços que não se dão.
Por todas as palavras que se calam.
Abrem-se feridas sem remédio.
Não há cura para a saudade.
Há ais profundos.
Há medo de esquecer.
Não saber mais o cheiro.
Não reconhecer a voz.
Perder, por entre recordações, os detalhes.
Não recuperar histórias.
A saudade é fechar os olhos e querer voltar.
Mais do que voltar ao momento,
Voltar a ti e sentir tudo.
Viajar nas emoções.
Ter-te e ter tudo o que de ti me faz falta.
Ah… esta saudade.
Não te adoro
Nunca me ouvirás dizer que te adoro porque adorar, adoro queijo, chocolate, whisky... das pessoas eu gosto, muito ou pouco.
Adorar é coisa de deuses, é coisa assim idolatrada como a minha adoração pela poesia.
Nunca me ouvirás dizer que te adoro, porque não adoro... amo-te!
Amo-te como, sempre, ama o amor!
Beber O Mundo
Quero conhecer o mundo pelos teus olhos.
Pela tua boca, a cidade não é a cidade.
Pela tua boca, eu não sou eu.
Tu não falas do que vês, falas do que sentes.
Amas os pormenores, conheces a alma.
Vais ao avesso e desvendas os enigmas.
Não alcanço esses lugares, não lhes conheço o sabor.
Quero ir nas tuas viagens.
Sentir para lá do que vejo, ver para além dos corpos.
Respirar as cores, tocar com o olhar.
E no regresso, cerrar os olhos e ver tudo de novo.
Ser capaz de voar.
Ser maior em pensamento.
Ter a imaginação como limite.
E na base,
Ah… amar!
Beijar o vento, abraçar o mar.
Banhar-me nas emoções e vestir a vida com verdade.
Poder ser tudo em todo o lado.
Devorar os sonhos a rir, derrubar as paredes do quadrado.
Quero viver assim, como deve ser, intensamente.
Embriagar-me de vida, beber o mundo.
Diz-me Tu
O teu corpo destemido que se fez ao meu.
O sabor da tua pele tão perto da minha.
Um sorriso aberto, um beijo nos olhos.
Esse momento lento num tempo suspenso.
O mundo não abrandou.
Nem o mundo nem a vontade de chegar ao avesso.
A tua voz no meu pescoço e o abraço que se deu.
O meu perfume na tua língua.
Fez apetecer um assalto que não aconteceu.
O teu cheiro em mim.
Ah! O teu cheiro ainda…
Diz-me tu o que fazer com ele.