Lista de Poemas

O Caminho

A viagem continua…
Traço um plano e faço-me ao caminho.
As saudades pesam-me na bagagem.
Mas não me desfaço de nenhuma.
Cada uma tem o seu encanto e a sua dor.
O vento sussurra palavras que não entendo.
E folhas rodopiam numa dança de tons alaranjados.
Há calma.
Há uma serenidade que se veste de frio.
Encolho-me dentro de mim num murchar absoluto.
Assaltam-me considerações perversas e patéticas.
Cresce uma fome de desapego.
Tiro dos bolsos as memórias que trago.
Deixo-as ficar pelo caminho num rasto de luto.
Prossigo em busca de coisa nenhuma.
Nada, nunca encontro nada.
Chego ao fim, nova estrada, novo rumo,
E a viagem continua.
8

A Noite Interminável

Lembro-me do cais da Ribeira naquela noite de Quarta-feira quente.
As esplanadas despidas e o passeio deserto que nos impunham serenidade.
O Douro transformado numa brilhante passerelle onde aquela lua amarela e reluzente desfilava grandiosa.
- Onde está toda a gente? – Perguntaste de braços abertos a rodopiar sobre ti mesmo.
- Reservei a cidade para nós. - Disse-te naquele jeito de graça que te fazia rir e ficar com o ar de quem quase acreditava em impossíveis.
- Fazes-me melhor, Pilar. Fazes-me sempre ver o mundo como um lugar bonito.
Lembro-me de nos perdemos em conversas e de todas as nossas teorias mirabolantes sobre a vida.
Deitados, com os pés na borda do rio e os olhares presos naquele manto de veludo azul-escuro de céu.
- Sabes, o tempo antes nunca acabava e agora parece pouco para tantos sonhos. – Disseste-me, sem mais, como quem anuncia um fim não desejado.
- O tempo é o que quiseres que seja. Fecha os olhos. Tens cinco minutos para me dizeres o que farias se fosses o dono do tempo e lhe pudesses pôr um travão agora.
- Oh…! – Respondeste naquele teu tom resignado.
Levantei-me, dei-te um puxão e disse para dançarmos.
- Estás doida? Não! - Aquele teu medo de pé-de-chumbo assustado.
- Xiuuu…!
Dançámos num ritmo que o rio meio adormecido nos ia sugerindo, dançámos sem nos importarmos com o olhar de curiosidade daquele senhor que passeava o cão.
Lembras-te?
Afinal, sempre me disseste que não havia problema nenhum em sermos loucos e, como sempre te disse, eu confiava em ti e deixava-me ser.
- Percebo-te, obrigada! – Agradeceste-me no final.
Hoje, esta estranheza de me sentir calma. Lembro-me daquela noite que nunca mais teve fim.
Como te disse, somos nós que fazemos o tempo ser para sempre.
21

Saudade II

É ali que me separo de ti.
E a saudade se insurge de faca empunhada.
Golpes e ais.
A saudade é feita de ais.
Por todos os beijos que se perdem.
Por todos os abraços que não se dão.
Por todas as palavras que se calam.
Abrem-se feridas sem remédio.
Não há cura para a saudade.
Há ais profundos.
Há medo de esquecer.
Não saber mais o cheiro.
Não reconhecer a voz.
Perder, por entre recordações, os detalhes.
Não recuperar histórias.
A saudade é fechar os olhos e querer voltar.
Mais do que voltar ao momento,
Voltar a ti e sentir tudo.
Viajar nas emoções.
Ter-te e ter tudo o que de ti me faz falta.
Ah… esta saudade.
8

Ausência

Desatei a correr.
No princípio pensei que fosse para fugir da chuva que caía grave e pesada.
Mas, rapidamente, percebi que fugia não da chuva, fugia do mundo, fugia de ti.
A saudade é impiedosa e o tempo, ah… o tempo não é generoso.
Subi a escada com a mesma pressa exagerada com que costumava correr para te abraçar depois do trabalho.
Naquela altura não havia cansaço, era toda uma sede de beijos e abraços.
Hoje, entrei de rastros como se as pernas fossem dois pêndulos mortos e gastos.
E quando a porta bateu atrás de mim, um silêncio ensurdecedor ecoou por toda a casa.
E agora este sabor a vazio putrefacto que se instalou em todas as partes de mim.
Hoje, quando a porta bateu e a chave caiu no chão,
Sim,
Quando a porta bateu, o que bateu realmente foi esta solidão.
8

Beber O Mundo

Quero conhecer o mundo pelos teus olhos.
Pela tua boca, a cidade não é a cidade.
Pela tua boca, eu não sou eu.
Tu não falas do que vês, falas do que sentes.
Amas os pormenores, conheces a alma.
Vais ao avesso e desvendas os enigmas.
Não alcanço esses lugares, não lhes conheço o sabor.
Quero ir nas tuas viagens.
Sentir para lá do que vejo, ver para além dos corpos.
Respirar as cores, tocar com o olhar.
E no regresso, cerrar os olhos e ver tudo de novo.
Ser capaz de voar.
Ser maior em pensamento.
Ter a imaginação como limite.
E na base,
Ah… amar!
Beijar o vento, abraçar o mar.
Banhar-me nas emoções e vestir a vida com verdade.
Poder ser tudo em todo o lado.
Devorar os sonhos a rir, derrubar as paredes do quadrado.
Quero viver assim, como deve ser, intensamente.
Embriagar-me de vida, beber o mundo.
8

Preto e Branco

Na caixa guardo as cores, para depois.
Na mão, seguro o preto.
Preto carregado, é preto sem dúvida.
Intransponível como tudo o que há para dizer.
A folha perde a palidez,
Tinjo palavras no papel.
Mas o branco, continua branco,
Em cada espaço, em cada silêncio.
É branco alvíssimo, sem dúvida branco.
Puro, como o toque de almas nos corpos.
Como todos os beijos e abraços que demos.
Se fecho os olhos parecem poucos,
E demos tantos.
Mas não há dúvidas,
O preto, 
Verdadeiramente preto, 
No branco,
Imaculadamente branco,
Diz saudade, diz que não volta, diz fim.
7

Não te adoro

Nunca me ouvirás dizer que te adoro porque adorar, adoro queijo, chocolate, whisky... das pessoas eu gosto, muito ou pouco.
Adorar é coisa de deuses, é coisa assim idolatrada como a minha adoração pela poesia.
Nunca me ouvirás dizer que te adoro, porque não adoro... amo-te!
Amo-te como, sempre, ama o amor!
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Sem Tempo

Aperto o tempo nas minhas mãos como se fosse meu.
Agarro-o como se, no fundo, agarrasse todas as oportunidades.
Deixo-me ficar na ilusão desse controlo.
Sorrio e nem noto que ele se esvai como areia por entre os dedos.
Abro as mãos e não sobra nada.
Nem oportunidades e já nem tempo para as sonhar.
5

O Amor Não Cura Tudo

Hoje acordei com a sensação de que já tinha vivido este dia.
Louca, pensei.
Repetidas, uma a uma, todas as coisas que sentia.
Mas loucura, nenhuma.
Só um calor a escorreguer pelo rosto,
Para me lembrar,
Calmamente me lembrar,
Que a vida é, assim mesmo, crua.
E há dias em que acordar,
Não tenho dúvida,
É um novo passo atrás na luta,
Porque o amor,
Ah, o amor! O amor salva-nos mas não cura tudo!
8

Inspiração

Nas noites em que a espero e me sento,
De copo na mão, serena e calma.
Nessas noites, não há nada,
Ela nunca chega.
E com a folha já amarrotada,
Sem nenhum alento,
Embebedo o corpo e a alma.
Porque ela é assim, uma vontade indomada.
Que sem convite, sem ser esperada,
Vem gritar-me ao ouvido ainda com mais gana.
Nas noites em que quero dormir e esquecer,
Não me larga, não me dá descanso.
E pela madrugada, o cansaço é já tanto,
Que a deixo livre nas mãos,
Fecho os olhos descansada,
Para o que ela quiser escrever.
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Ania
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