Não Sei
"Oh triste, porque choras?"
Perguntas naquele tom de quem tem pena de mim,
Como se eu não tivesse o direito de sofrer assim.
E perguntaste-me que tristeza é esta,
E eu só sei, nas lágrimas mergulhada,
Que, em mim, a dor faz uma festa,
E eu nem sequer fui sua convidada.
Tomara eu ter uma palavra ou um qualquer sonho desfeito,
Para te responder,
E justificar o eterno calvário que tenho feito.
Mas eu não sei, oh céus!
Que se eu soubesse porque choro,
Todos os convidados seriam meus,
Na melhor festa deste corpo onde,
Já não vivo, apenas moro.
...momento
Ah, se eu pudesse fazer o tempo parar!
Fazer o tempo ter tempo de apreciar este momento em que nos damos ao tempo para amar!
Sem Tempo
Aperto o tempo nas minhas mãos como se fosse meu.
Agarro-o como se, no fundo, agarrasse todas as oportunidades.
Deixo-me ficar na ilusão desse controlo.
Sorrio e nem noto que ele se esvai como areia por entre os dedos.
Abro as mãos e não sobra nada.
Nem oportunidades e já nem tempo para as sonhar.
Imprudência
Cometo sempre a imprudência de acreditar.
De me fazer ao caminho quando todos me dizem que não é por ali.
A inocência de pensar que quem dá a sua palavra tem honra.
E que vale mais a morte do que ser verme maleável.
Uma jura não devia ser uma treta.
A necessidade de acreditar que uma palavra não é só uma palavra.
Que dizer a verdade é tudo o que importa.
Incauta esta busca pela clareza.
Em que o preto no branco vale mais do que qualquer manobra ou habilidade.
Esqueço-me que o mundo é para os ardilosos, hábeis na encenação.
Esqueço-me que no fim ninguém quer saber do que disse.
Tropeço sempre no egoísmo parvo que se enfurece e me derruba.
As máscaras não deixam ler o que diz a pele.
E são bonitas e vestem personagens magníficas.
Discursos dignos de prémio, posturas que transpiram rectidão.
Mas que vão beber ali, ao mar da aparência, gotas de traição.
E o pano cai, o ego inflama-se e a fractura exposta deixa ver o sujo que há por dentro.
O lixo abunda… e dignidade? Nenhuma.
Jardim das Virtudes
Venho cá de vez em quando
Vejo um rio correr pró mar
Uma neblina vai-se formando
Abre-se o peito numa aragem
E desvendo as virtudes do amar
Ao longe vejo a ponte, o luar
Deixo-me ficar neste jardim
No escuro oiço o Douro respirar
Banho o coração nesta paisagem
Embalada numa noite sem fim
Benditos os recantos da cidade
Os bancos de pedra gastos e sós
São lugares que acalmam a ansiedade
No silêncio passam-nos a mensagem
Desatam-se cá dentro todos os nós
Com muita paz e grande calma
Neste lugar sereno, me deixo dormir
Jazem aqui os pesos da minha alma
E assim cá me fortaleço da coragem
De partir em busca de um novo sentir
Carta ao amigo (que nunca foi)
Felizes os que não mentem, nem a si nem a ninguém.
Felizes os que não vivem de desculpas nem de calculismos fracos.
Felizes os que não têm que lidar com plátanos.
Felizes os que, por sua vontade, arranjam tempo para regar as suas plantas.
Felizes os que não passam por cima de amizades para satisfazer caprichos infantis.
Felizes os que não vivem de exibicionismo e desfiles de vaidade.
Felizes os que não tomam acções para ficar bem na fotografia ou marcar pontos.
Felizes os que não confundem ilusão com paixão e, sobretudo, os que não iludem ninguém.
Felizes os que têm a nobreza de preferir a franqueza à cordialidade hipócrita.
Felizes os que não se enredam no seu umbigo e no seu mundinho banal.
Felizes os que não ficam pela superficialidade e permanecem.
Felizes os que se distinguem por não descartarem as pessoas.
Felizes os que não esquecem e sabem manter a palavra e a verticalidade.
Felizes os que não se escudam em silêncios e distâncias cobardes.
Felizes os que sabem ser homens, os que se assumem e se confrontam.
Felizes os que não fogem nem se melindram com as verdades.
Felizes os que não acumulam fracassos emocionais com a sede de conquista barata.
Felizes os que sabem esperar e não preferem o atalho fácil.
Felizes os que acrescentam e nos tornam gratos pela vida.
Felizes os que conhecem o significado da verdade e a sentem na plenitude das emoções.
E por tudo isto, desejo-te as felicidades que mereces… e dessas, desejo-te as maiores!
Palavras Desmaiadas
Isto não é uma carta de amor,
Não te iludas meu querido amigo.
Se bem vês,
As palavras estão desmaiadas.
E nesta folha de fraca tez,
O que, nas breves linhas, partilho contigo,
É, das horas bem passadas,
O calor e o remorso da ilusão,
Que, neste jeito imprudente, te fiz viver.
Oh céus, uma insensatez!
Porém, com muito carinho,
E sem te ofender,
Digo-te que não é amor,
Mas amizade poderá ser!
Saudade II
É ali que me separo de ti.
E a saudade se insurge de faca empunhada.
Golpes e ais.
A saudade é feita de ais.
Por todos os beijos que se perdem.
Por todos os abraços que não se dão.
Por todas as palavras que se calam.
Abrem-se feridas sem remédio.
Não há cura para a saudade.
Há ais profundos.
Há medo de esquecer.
Não saber mais o cheiro.
Não reconhecer a voz.
Perder, por entre recordações, os detalhes.
Não recuperar histórias.
A saudade é fechar os olhos e querer voltar.
Mais do que voltar ao momento,
Voltar a ti e sentir tudo.
Viajar nas emoções.
Ter-te e ter tudo o que de ti me faz falta.
Ah… esta saudade.
Preto e Branco
Na caixa guardo as cores, para depois.
Na mão, seguro o preto.
Preto carregado, é preto sem dúvida.
Intransponível como tudo o que há para dizer.
A folha perde a palidez,
Tinjo palavras no papel.
Mas o branco, continua branco,
Em cada espaço, em cada silêncio.
É branco alvíssimo, sem dúvida branco.
Puro, como o toque de almas nos corpos.
Como todos os beijos e abraços que demos.
Se fecho os olhos parecem poucos,
E demos tantos.
Mas não há dúvidas,
O preto,
Verdadeiramente preto,
No branco,
Imaculadamente branco,
Diz saudade, diz que não volta, diz fim.
O que não fui
Deram-me a possibilidade de ser o que não fui.
Tudo o que quis foi perder-me por entre tempestades.
Subir todos os montes e abraçar liberdades.
E assim, presa a quem sempre fui, não agarrei o que sonharam para mim.
Perseguindo os abismos da saudade do que nunca existiu.
Aqui e agora, onde me encontro a viver da única maneira que me sei ser.
E pouco a pouco, o que não fui vai ficando para trás.