Devorando livros
Mas o livro era sobre o que? _Não importa.
Torta, animais; gibis; lutas; didático.
Pragmático ser, seu mundo transporta,
E corta a estupidez; ora lunático.
Prático viver; ler é alimento.
É sustento da mente, bel-prazer,
Crescer em escarcéus de entendimento,
Vento astuto bem antes de morrer.
Saber era vício, uma enciclopédia,
Média? _Não, muito, muito acima dela!
Janela para o mundo, fora acédia.
A comédia com garfo ou colher mela,
Zela à oração se é tragédia,
Em sédia: feijão e livro na panela.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
Íntimos
Veste-se em tecido suave e leve,
Atreve na volúpia pueril,
De perfil uma escultura transcreve,
A neve ferve de jeito febril.
Abriu seus lábios e fechou num beijo,
Molejo em quadril no corpo repete,
E promete a flor em doce versejo,
Arpejo em gemidos sobre o carpete.
Reflete na alma, frêmito da tez,
Imediatez na coxa que roça,
E coça as vísceras a escutar bossa.
Apossa-se do outro mais uma vez,
Talvez p'ra sempre naquele momento,
Atento; comprime o seio no intento.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
Po(RR)esia
No bar, luar, o poeta é pura emoção,
A canção que toca o faz longe viajar,
O seu tragar no cigarro é uma devoção,
Prisão da mente em versos vem se libertar.
Imaginar fértil; um tanto dolorido,
É ressequido por dentro pela saudade,
A vontade do abraço e sorrir divertido,
Embebido no canto, é somente metade.
E com verdade, o poeta dá mais um gole,
Engole,arde, desce seco pela garganta,
É tanta a desilusão que sua alma espanta.
E canta com um tom bem alto, a voz sai mole,
Mais outro gole, uma lágrima, piração,
Coração no papel amassado no chão.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
Excitação poética
É patética, enfim, é natural,
E no canal da mente, ação mofética,
Dialética de alma com carnal,
Vendaval que bagunça toda estética.
Cética até, porém vem sem aval,
Um oral engolido sem fonética,
Frenética emoção descomunal,
É amoral, profana, santa: eclética.
Hipotética ideia ora real,
Literal, de miragem imagética,
É atlética prática, afinal.
Liberal, ejacula-se a poética.
Sincrética; estimulo manual,
É visceral, de síntese magnética.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
Somos soneto
E com uma palavra eu lhe defino:
Um menino: esse ser que só me encanta,
Levanta meu estado, homem e divino,
Felino às vezes; a minh'alma canta.
Espanta-me a elegância; o ser singelo,
Aquarelo-me, cores inexistentes,
Quentes desejos; o santo atropelo,
Caramelo com vinho em aguardentes.
Potentes quereres; sou simples rima,
Imprima-me em entrelinha dueto,
Dialeto nobre, pensar acima.
Intima-me num todo em seu livreto,
E borboleto-me em asa que anima,
No clima, chovemos: somos soneto.
ღRaquel Ordonesღ #Ordonismo
Uberlândia MG
Escre(vi)ver
No mundo de mim, tanto sentimento.
Vento forte em querer e de ousadia,
A poesia aqui, em assentimento,
Sem lamento, viagem fantasia.
Alegria e tristeza no papel,
O céu desce, o chão sobe; uma loucura,
A ternura borbota feito mel,
O fel da angústia nunca mais tortura.
A soltura de versos e entrelinha
Linha de verdade por tanto amar
Voar em pensamento; desalinha.
Minha saudade, meu eu no meu calar,
A pintar avesso, o lápis se alinha,
Uma palinha aqui pra me acalmar.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
Moro em provisórios de mim
E, mutantes são todos os meus eus,
Gineceus seduzem a cada instante
Em provocantes cernes androceus,
Adeus; mudei... É um tanto constante.
Avante, lei da vida, outra procura,
A cura pra ferida o tempo traz,
Em cartaz, paixão, amores e loucura,
Apura-se na gente, agito e paz.
Jaz em cada segundo uma mudança,
Herança deixada reconstrói enfim,
O jasmim nasce, cresce e seu olor lança.
Criança que madura, senil, fim...
Assim há um processo, em mim avança,
Dança, moro em provisórios de mim.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
Razão e emoção
Razão e emoção; irmãs: Ruth e Raquel,
Num painel uma pinta o coração,
Mão dada, apenas uma usa o pincel,
Há anel, mas a outra age de supetão.
A razão quer saber: como, porque e onde,
Responde por todos, quase a senhora,
Embora sensata; comento desponde,
E ponde à frente da emoção, a penhora.
Agora, a emoção é toda a nossa essência,
Transparência, intenso comportamento,
Sem invento, joga sem fingimento.
E lento é o acordo, grande resistência,
Inteligência, crânio: raciocínio,
Domínio, sentimento, alma, fascínio.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
Liberdade que prende
É, tende a ser gostoso o alforriado,
E dado com vontades, integral,
Sem plural, sem composto. Predicado,
Conjugado sem aspas, não verbal.
Aval com reticências, e sem pontos,
É sem pespontos, crase e sem colchete,
Brete de ócio, vírgula se tontos,
Os dois pontos falam tête à tête.
Bilhete do sujeito: coração,
Conjugação do tempo é presente,
A mente não argui. Bravo, interjeição!
Interpretação clara e convincente,
Recorrente e sem interrogação,
Aprovação, de nada dependente.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG
A poesia faz bailar as letras
Borboleta ao vento qual bolero,
Esmero, carimbó, saia, veneta,
Careta d'um funk, nem enumero,
Severo balé, passo, silhueta!
Letra que valsa em versos; destempero,
Libero a mente, sambo em etiqueta,
É cagueta entrelinha, em salsa espero,
Lero com frevo, linhas, pirueta.
Sineta pagodeia, em xote impero.
E reintero com verbo 'break', baqueta,
Faceta de forró; zumba; eu exagero.
Quero tango em poema violeta,
Greta d'alma dança, não pondero,
É vero: jaz-me jazz, rege a caneta.
ღRaquel Ordonesღ #ordonismo
Uberlândia MG