O amor que deflagrou a rosa...
O amor que deflagrou a rosa, desabrochou-nos em flor e em pomo, encerrando a semente encarcerada no chão fecundo da alegria etérea.
Imagino que agora iremos despertar para o futuro e, brevemente, aperceber-se do fruto da vida que floresce nos recônditos bosques da alma.
Em profusa dicção essas palavras miúdas vão soltando-se do limbo...
Em profusa dicção essas palavras miúdas vão soltando-se do limbo,
desmoronando na garganta como enormes folhas secas presas na laringe; engasgando, imediatamente, a boca...
Vai dando voltas na língua, como num festival, como infantes numa ciranda, rodando em éguas e alazões velozes
- dissolve o gosto meio amargo. Diluí o céu em saliva, feito um lavrador preparando a terra para o nome.
De súbito, a pronúncia deste nome, sem timidez surgem na boca rosas, como se ao dize-lo, e de dentro de mim o chamasse minha alma, deitasse em mim mesmo sementes.
Sobre as asas frias da morte
Com graciosidade esperançosa e doce temperança,
Levanto hastes aos ventos da pampa, rugindo gladios as temerosas rosas, a fulgida perseverança das campas.
Como aurora imaculada e majestosa;
Como flores castas e vívidas,
Sôfregas a derramar a vida sobre a terra dolorosa.
Com grande espada poderosa cerro as garras da morte;
Mas ao rugir bravo leão, entrego aos céus meu coração a sangrar dum corte:
Malditos corvos espreitam-me a sorte, bebendo os vasos da sangrenta ferida, avermelhando em mim os véus da vida sobre as asas frias da morte.
Nas janelas do mundo
Ouço gemidos por entre as nuvens. Vozes doces, embriagadas de desejo. São os anjos, tu dirás. São os anjos, quentes, fantasiosos, perdidos em carícias noturnas. Revelando em prazer uma nova linguagem. Mistério santo, mas erótico. Nas janelas do mundo saltam animais no cio.
Desertos
Diz que o dilúvio foi suscitado por uma mãe que perdeu o filho; diz que antes disso não havia tristeza no mundo.
Calo-te quando te escrevo.
Calo-te quando te escrevo. E no teu silêncio umideço a palavra. Estás como escondida em mim. E no vento inquieta a folha. A noite chega no teus braços e o teu corpo é a lua. Sonho-te assim, morena, para ver-te ainda nua.
Não impeça o teu coração de chamar o meu nome
Não impeça o teu coração de chamar o meu nome quando sentir saudades, nem os teus olhos quando querer os meus.
Nao transcreva em dor o silêncio. Não converta tua sede em desertos.
Dá teu corpo ao fogo, os teus braços como sacrifício, tua alma em cinzas, os teus olhos crucificados...
Eu morro mil vezes mais.
Teu rosto...
Teu rosto - desfigurando a água - de súbito sobe do rio e - ainda escorrendo - entrega-me um beijo frio.
Depois te afasta, descansa o semblante sobre o olhar sossegado, far-te saudade para querer-te ao meu lado.
Esse teu charme, vulgar, e arredio, sempre - depois de um beijo frio - 'inda há de funcionar.
Regresso
Regressa o corpo a terra, a sossegar;
Depois de derramar cólera pelo mundo,
terá na campa seu disprazer profundo,
E um gosto de peixe a boca aguar.
Quem foi valente em vida, a lutar,
diga-me, heroi, se conseguiste?
Que a fera imortal tu feriste;
Ou nos braços de tal foste parar?
Se a muito os homens tentam vencer,
Esse animal, inato e feroz,
quem contra a foice não foi morrer,
À aparição perdeu-se a voz.
- Quem poderá o bicho abater?
Enquanto viver: nós!
Não conte a ninguém que te amo
Não conte a ninguém que te amo. É um segredo nosso. Não conte o que fazemos nos intervalos do mundo: quantas vezes visitamos o céu; como é a face dos anjos... Não conte do paraíso. Não conte nosso amor aos invejosos. Pois, só quem ama conhece os céus e Deus.