Rose - escrito anteontem
Tentei o quanto pude desconsiderar a morte do meu tio. Ignorei comentários e passei pelo seu enterrar como quem ali não esteve.
Pensei muito na minha mãe e o quanto ela o amava e, covardemente fortalecido, me mantive imune, fugindo...
A pegadinha, os tombos do domingão, a comida da minha mãe, a música que toca – que tocava nossos corações -, o torresmo do bar, o robalo do meu e-mail, o sarcasmo da minha alma, o resto todo... tanta coisa cotidiana e nossa, tanta coisa! Hoje não consigo mais não querer acreditar. Pensar que nunca mais teremos esses momentos bobos, que só a gente entendia e que à mim, amenizava um pouco disso tudo que é a vida. Pensar que nunca mais verei meu tio me aperta o coração com tanta força que chega a doer por fora.
E acabo por remoer e relembrar que sou o que sou, muito do que sou, por ele, apesar do desinteresse natural por ensinar, proeminente da sua personalidade, – por mais que não seja aprender o que dele ficou comigo - aprendi. Naturalmente perspicaz se tornou minha referência, meu anti-herói.
Sorrio agora com ternura ao lembrar de ter dito isso a ele. A reação em seu rosto, em seus olhos contidos, e que aos meus embaraçam, não poderia ser mais nítida.
Sinto saudade do meu amigo, muita saudade! Assim como um vício, um saber que ele seguirá comigo até o final.
Devaneios de 2018
Apesar de todos os agentes que inevitavelmente influenciaram e provavelmente impulsionaram meus sentidos, fui contemplado por uma sensação que há muito não me ocorria. Uma coisa nova, pura, tentadora e inadiável. Tive nesse dia uma nova onda de vontade, uma força que vai arrastar tudo pra onde eu nao sei. Que seja! Que venha de qualquer forma e leve o que tiver que levar. Está afirmado assim. Sem certezas, como deve ser e da forma que for, continuará afirmado no infinito das suas repetições.
Devaneios
Não sei bem o que há, já não sei o que fazer porque não aceito nenhuma alternativa. Todas são pequenas ou mesquinhas, ou talvez eu que tenho sido. Fato que estou desanimado e socialmente perdido (nesta sociedade perdida). Não tenho me encaixado nas exigências e nem feito questão de me encaixar. Apelo novamente pela covardia do tempo, que finge saber tudo mas na verdade nunca aprende, um pouco como eu.
Fragmentos do Quarto Dia de Abril
Desproposital e desnecessariamente cá, novamente, me exponho. Exposição esta que a ti permito o julgamento, caso julgues. Despreparado confundo-me com o gênero. Modesto, humilde ou frouxo já não, caso precipitadamente conceitues.
Prossigo, portanto, como quem anda por andar sem ter ou saber por onde ou pra onde ir. Jimi produzindo o som recorrente que me chama a atenção e me alegra por ele ser ele. Por ele existir e por estar aqui. Cuidamos um do outro com o que temos.
Teimoso, o sol logo lembrará que é tempo de produzir e mensuramo-nos, que obedientes rotulamo-nos, monitorados fazemo-nos convenientes. Exploramo-nos pela posse, para acumularmos. Lembrará - o astro - que estou aqui servente, talvez a melhor definição. Lembrará, contudo, que o dia nasce, que podemos nascer com ele. Lembrará também que logo verei minha mãe novamente e que tenho saudades dela e que a amo. Eu torço pra que seja legal, como deveria ser, mesmo sabendo que pra ela, eu faço tudo errado e talvez ela esteja certa.
Penso na Paula, minha pequena... que por vezes, algumas, me quer por perto. E renasço como o dia e bato, ou melhor, apanho. Penso no meu pai – que espera bem mais de mim – e que não sou o filho ideal, apesar do esforço, do pouquíssimo esforço que faço, por mera preguiça. Penso no Bruno que me faz companhia. Ouço a música, cuja língua não entendo, mas por ser música sinto.
Continuo pensando. Elton John rolando na vitrola que hoje é tv a cabo...
Bruno fala e eu escuto, concordo e não faço ideia do que seja, não é opção. Acho que é o fim, hoje vou dispensar o amanhecer e tentar dormir.
Dos Sonhos e do Plágio
A beleza de saber que não sou nada
E que não posso nada querer
Esvaiu-se nessa minha certeza
De não ter mais os sonhos de outrora
E que o mundo sem eles nada tem a perder
Tudo isso é muito justo
O esforço que fiz foi enorme
Mesquinho, ridículo, infantil e esnobe
Quem discordar do que digo
Ou é só um amigo
Ou um coitado, pueriu e inculto
E assim, aos poucos e mais depressa
Progressivamente, talvez geométrica
Vou assim, caminhando inerte e sem rumo
Nao vejo mas os tais sonhos
Consolo do nada que somos pro mundo
Peço desculpas, e contudo me culpo
Assim mesmo, sem saber o que sou
E sem a força do poeta que sonha
Nada mais a fazer
Me recolho e me vou
Amigos Cotidianos
São dias noturnos estes
Que aos pares
Poucos permanecem
E poupam a mim
Aos demais,
Entristecem
Convívios
Relapsos sorteios
Sortes oportunas
Tal qual suas vidas
Pureza entremeios
No mais,
Bem-vindas
Indecentes
Desacreditas
Os Imorais
Eu e você e quem mais?
Pouquíssimo respeito
Egoísta que sou
No mínimo,
Aproveito