Um homem comum, cosmopolita, em paz consigo e com a vida. Creio em Deus. Não consigo pensar a Humanidade desvinculada de sua grande e belíssima destinação cósmica.
Ah, pobre poeta que a turba, indiscreta, a rir, lisonjeia!... Não passa de um homem que mágoas consomem e as grafa na areia...
Em vez de honrarias, mercês, regalias, que almeja, no fundo? O "affair" necessário: ouvir, solitário, o ego profundo...
(Do livro "Estado de Espírito", de Sergio de Sersank)
1 185
APONTAMENTO
(Ouvindo cantar o andarilho em certa noite vazia.)
"As cousas não
têm significação: têm existência.
As cousas são o
único sentido oculto das cousas."
(Fernando Pessoa)
As cousas com o tempo tornam-se elas mesmas: perdem essa aura de importância que lhes pomos - essa capa de magia.
As cousas, todas, sistêmicas, concretas, subjetivas, vagas, difusas, confusas, distantes, amorfas, vivas - perdem, todas, com o tempo, força e peso e forma e brilho.
A noite inextrincável que as revolve, imensa e soberana do mais ínfimo ruído, a noite, unicamente - coisa estranha - faz sentido.
(Poema de Sergio de Sersank . http://sersank.blogspot.com)
912
O GRITO DA TERRA
Ahinsa!
Desde as eras primitivas a Terra se nutre do fluido cósmico que abre-lhe entranhas, percorre-lhe inteira. Na etérea poeira de luz das estrelas o fluido lhe vem. Inunda-a de vida esse mágico bem. O sangue dos seres que surgem e passam Gaia o transfunde noutros que, em ciclo ascendente, sustém.
O espírito de Gaia canta na Natureza a música do Infinito. Em culto à beleza, exalta essa Fonte da Vida que a anima. e que ela sublima ao multiplicá-la no espaço irrestrito.
Mas traz no seu canto uma ária bem triste. Sofre os excessos dos filhos ingratos. Está no limite. Dá mostras de seus sucessivos maus tratos. Lamentavelmente, comovem a poucos, por certo, aos melhores os duros apelos que emite.
Gaia está farta de sangue, farta dos homens, talvez, porque não cessa a ganância, porque não cessa a violência, esses cancros resultantes da insensatez.
Ciclônico éolo a bramir, convulsiona o oceano, rebenta do solo, feroz. Sofrem-lhe muitos a fúria. Ouvem-lhe muitos a voz.
Há os que riem e bebem e comem, com as mãos manchadas de sangue. Sabem que a Terra prescinde do homem. Nenhuma voz os confrange.
(Da coletânea "ESTADO DE ESPÍRITO")
AHINSA! (En Esperanto)
Serĝjo de Sersank
De la primitivaj tempoj - kia profunda mister'! - el kosma emanaĵo, kiu plene ĉirkaŭas kaj ĝin trapenetras, nutriĝas la Ter'.
Simile al l'etera pulvo, devenas tiu ĉi fluido el la senfina stelar' kaj ĝi alportas la vivon - miraklo ja sen kompar'.
La sango de ĉiu estaĵo, tuj naskita jam pasanta, transfuzas Gaja en aliaj, tio ĉi en ciklo kreskanta.
Tial, la animo de Gaja aŭdigas en la Naturo la muzikon de l' Senlim'. Tiele, ŝi laŭdas la dian belecon de l' Vivofonto kiu vigligas ŝin kaj kiu sublimigas ŝî per disdonad' en ritmo intensa, eble sen fin'.
Tamen, la kanto de Gaia nune fariĝas ia tristega ario. Pro tio ke agresojn de nedankaj filoj jam multe suferas, nun ŝi kantadas en frua agonio.
Ve, bedaŭrinde, nur kelkajn homojn la plibonajn, certe, kortuŝas la petoj, kiujn, averte, elĵetadas ŝi . Jam Gaja satiĝis je sango. Eble je la homoj ankaŭ satiĝas, ĉar ne ĉesiĝas la homa perforto, eĉ la homa ambici' ne ĉesiĝas. Ho, furnaj ŝankroj de l' homa nesci'!
Ciklona Eolo, blekante feroca, diskrevas el la subgrundo, agitas la maron, subite. Multaj suferas sian furozecon, multaj aŭdiĝas sian voĉon, aflikte.
Ja multaj, malgraŭe, ridegas kaj drinkas kaj manĝas, je sango malpurajn havante la manojn . Tiuj sciadas: la Ter' sin aranĝas: neniel bezonas la homojn. Tamen, nenia voĉ' ilin tuŝas. Nenia far' ilin ŝanĝas.
(El la poemaro "SPIRITOSTATO")
876
APOCALIPSE (O Poema Indesejável)
"... E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existia."(Apocalipse, XXI : 1)
... Ainda há pouco ouviram (os que se debatiam, agonizantes, em meio aos escombros), grande explosão nas nuvens.
Depois, a sucessão interminável De estrépitos menoresno solo em estertores.
Da mais temida tempestade as derradeiras luzes vergastam, vigorosamente, a crosta planetária.
Exibem para os sóis na Imensidade o horror do grande ocaso, o imenso caos.
Por fim, instaura-se, lenta, a mais negra e pesada das noites. Frio terrível. Estranhos odores alastram-se aos uivos do vento da morte.
Assim, a interstícios, domina o silêncio. Absoluto.
Não mais o pulsar do tempo. Nem uma luz peregrina no imenso e profundo abismo que os mais aptos filhos da vida chamavam de Terra...
22 de abril de 2012 (DIA MUNDIAL DA TERRA)
(Da coletânea "Estado de Espírito")
932
A FOME AFUGENTA O SONO
Esse que traz na carne, da luta pelo pão as fundas cicatrizes, não sabe dessas crises de novo anunciadas que afetam-lhe, de muito: as crises inventadas.
Quer mais que essa liberdade de dormir, de encher a cara, de ir e vir, sem compromisso, de cantar uma canção.
Quer mais que esse tosco circo em que se ri, sem razão.
Mas, nada diz. Não o comove ver ao alto embandeiradas as esperanças do povo em épocas de eleição.
Suporta, pois, em silêncio, mágoas nunca mitigadas. E segue. É trabalhador.
Que outra coisa, ele faria? Ausculta, assim, sua dor na dor furiosa dos martelos e foices do dia-a-dia.
Esse que traz na carne, sem honra, tais cicatrizes, não sabe falar de crises. Se soubesse, gritaria.
(Da coletânea "Estado de Espírito", de Sergio de Sersank)
Visite o blog "Estado de Espírito" http://sersank.blogspot.com
723
CANTIGA DO AMOR EFÊMERO
Um crime, se me permites, leitor, revelar-te-ei: a mais linda das mulheres eu, insensato, magoei.
Por breves, diáfanos dias, foi-me ela a Sherazade que, em sonhos de mil e uma noites corporifiquei. Amou-me. Também a amei.
Mas sem desculpa plausível, fleumático, inacessível, ontem a noite, (que noite!) assim, sem mais e sem menos, a diva, a lívida Vênus, eu para sempre deixei.
Por certo que chora, ela, como estrela de novela, no cenário em que atuei. O "script" não trazia tão abrupta cisão.
O meu velho coração já, por fim, petrificou-se, desiludiu-se, não sei...
Já, por fim, pesa-me, imensa, essa aonírica noite na qual, mesmo à luz dos dias, para sempre me embrenhei...
(Da coletânea "Estado de Espírito", de Sersank)
782
ROGATIVA
Senhor Jesus,
fonte de amor, verdade e vida, Por dádivas me deste uma senda a seguir E a cruz menor que me compete conduzir Adiante, por mais íngreme a subida.
Devo olhar para frente, lembrar-Te, ao cair, Sofrer sem murmurar. Sob as farpas da lida Calar-me e persistir, manter a fronte erguida. Nada me turve os horizontes do porvir!
Preciso humildemente devotar-me ao bem . Sentir-me agraciado ao ajudar alguém E ver somente irmãos, jamais um inimigo...
Aprimorar-me - seja o lema dos meus dias. E por mais nada eu troque as doces alegrias De estar somado aos últimos que tens Contigo!...
(Do Opúsculo "Oásis de Luz", de Sersank)
642
AS NOITES ACABAM NUM DIA
Em vez de estrelas, recontros e sonhos, a noite escura teve imagens de outras tantas dissipadas na aventura. Reixas de esquinas e becos. Sussurros. Risadas. Brados. Tredos e turvos olhares. Delitos dissimulados. Pesando-lhe aos ombros, um gênio maldito gritara-lhe: - Volta! Inútil seu grito. Longe dos lumes dos lupanares, sabia ser tarde. Recuar, estultícia... Ao som dos seus passos de fera exaurida ladravam os cães, evocando a polícia... Ao vento emergiram, informes, calados, extintos afetos de um tempo esquecido. Ao vento vagaram, despedaçados, excertos de dramas, paixões sem sentido. De roupa surrada e soturno semblante, lembrando avantesma do além foragida, seguiu sem voltar-se, um único instante. Qual soterrado que emerge do túnel, banhou-se do sol que escarlate surgia. Novo rumo no horizonte, por mais árduo, seguiria...
(Da coletânea "Estado de Espírito")
"A maior revolução de nossos tempos é a descoberta de que, ao mudar as atitudes de suas mentes, os seres humanos podem mudar os aspectos externos de suas vidas." William James (Filósofo americano, fundador da escola pragmática)