Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Escrito a 30/03/2017
693
Mártir de verga
Vozes de longe chamam, num som, Velho e vulgar leve velejar. Alto, lacrimejante, som, amarelo escorregadio, tão frio.
Flamejante, arquejante. Se respira, mata-o. Por Deus, corta-o. Nos céus, apaga-o.
Quem és tu, flor biliar? Amargas as dores, dos sons dos horrores, rindo e rodando, verde vento a urrar.
Azul o marulhar, a espumar. A agarrar e a sorrir, encrustado, numas rochas que não tens. Em ti, não as tens.
São sãs e os sóis sibilam. Que te queimes e afogues, no vermelho da tua fé. às chamas que lambes, pede que te matem de pé.
és uma árvore, lilás. Podre e pungente. Nessas raízes jaz esse amor demente.
15/06/2018
Vagamente inspirado no filme 'The Wicker Man' (1973)
696
desarticulação
"Levanta a cabeça princesa, senão a coroa cai" a cabeça caiu no chão, nunca teve coroa, e já lá vai rebolou para tão, tão longe que se perdeu deu vontade de rir, mas chorar foi o que aconteceu.
"Será que algum dia vou vencer na vida? Eu tenho certeza que não" grande filósofo, poeta e pobre, e sentindo, o grande, Paulo, Juão a fotossíntese de que ele fala não posso porque não tenho nem osso.
Na pele rasteja a dúvida e o cansaço como vermes verdes, viscosos, vagos e dos olhos desliza o embaraço rebolam grossas como bagos.
Espreme-as, espreme-as e bebe-as como um sumo patético como és como és tu, o sumo, o teu dos teus olhos mortiços doentes e cercados de breu.
Está escuro, aqui, aqui no fundo onde se perde tudo e só há cacos está cheio, mas sem ver, o mundo aqui em baixo, não há buracos, é uma massa de medo e merda o que alguém como tu herda porque é isso que mereces. É só isso que mereces.
04/07/2018
629
Sentido contido
Pétalas de tempestade vermelhas, com a fúria incandescente da vida, é a calma silenciosa da morte, que da boca me arranca a língua.
E oiço berros incontidos nos céus, amarelos, aterrados, incinerados. E não há nada para dizer. Não há nada para dizer.
Escrito a 18/06/2017
661
Estados Alterados
Estados alterados
consciência inconsistente
mole, mel, melancolia
calmo, canto, quente
uma melodia
manto de mascaras
verdes de verdade
ansiedade
imaturidade
medo do medo do medo
antes do sono
a harmonia
com a morte
da cotovia.
Escrito a 27/09/2017
656
Apeadeiro
Essas brumas vagas no apeadeiro do silêncio. No escuro puxa-se a corda, segura-a e eleva-se.
Grunhido apagado, iluminado. Luz vermelha e pela borda do oceano, seco de breu mole pegajoso e invisível no topo de uma árvore.
Frio e silencioso, amarrado, de passagem pela ponte do sol. Ondas curtas e longas e nenhumas. Verdadeiras e descontroladas. P'ra cima, p'ra baixo.
emerge Mergulha, , mergulha.
No ar seco que encharca os braços nus, as tuas mãos cansadas sacodem as cordas, e mergulhas em segredo. A árvore carpideira de braços nus e secos. Braços nus e secos, encharcados. E não se dissipa a bruma. Nunca houve comboio. Escrito a 18/09/2017
626
O nascer do pôr-do-sol
Nasce o pôr-do-sol ao cair da manhã e as gotas secas a dormir no divã, uma caminha num caminho à esquerda, como do céu, um torvelinho de merda.
Sabidas as subidas e as descidas mas caem como potes de papel mascaradas de patos, despidas descendo por fitas de rapel.
Fitando o horizonte onde nasce o sol poente, a ocidente e os olhos vesgos onde renasce a ansiedade ardente.
Escrito a 02/07/2018
614
Estagnação
Queria agora estar num comboio, vagão para qualquer lugar. As janelas sem vidros no frio do Inverno os pés as mãos doridos. Gelo, do vento, das janelas, do vagão, escancarado e escuro, na noite. Para qualquer lugar. Mas aqui vais ficar. Escrito a 08/01/2018
542
Cortes
Não tenho caneta nem papel só tenho cortes e desenhos na pele água em torvelinhos pela cara e fel.
Dos lábios longe longe o começo.
Envelheço.
Os cortes afundam-se, poços vazios, vacilando, vendavais.
Num espírito fraco sem esperança de um sol que promete e nunca vem. Escrito a 31/05/2018
585
Mas ainda tenho
Vi um sonho colorido pequenino. Urgente, sentido, e franzino. Músicas em miniatura. Danças sem sincronia. Sem preparação como nascem os sonhos rebentos de energia e alegria.
(Vi amor.)
Vi um entusiasmo que hoje mos torna medonhos porque debaixo dos pés quais percevejos peçonhentos, fedorentos, as fés que pudesse ter tido todas, todas idas. Esmagadas como percevejos feitas frutas espremidas num sumo supressor que bebi e decerto não morri. Tudo no passado ido, quebrado o cadeado e o literal coração despedaçado.
(Perdi amor.)
Ah, mas tantos anos depois, quando no pensamento soube que tinha de o consertar, mesmo que sem alento, já ido o sonho, já depois de se apagar, consertei.
(Esse não recuperei.)
Mas vi hoje, o mesmo sonho. Vi o mesmo sentimento, como que num espelho, aquele meu rebento. Vi-o colorido, vi o alento, vi o passado, vi o brilho ido tão longe quase esquecido.