Rearranjamos
Mas olha o que está
à frente
ou aqui atrás.
Vê o que lá está e que veio,
veio de uma origem,
de onde se puxam as veias,
veias retesadas, a retinir,
em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam,
já as tinham ouvido,
já as tinham tocado
como quem se enfia na toca.
Os acorrentados,
nas correntes de ar,
portas e janelas abertas,
saltam das dobradiças,
e, contra nós, aos pedaços
de maçã
podre
fermentada num licor
doce
aos golinhos.
E depois cantamos,
acompanhamos a cigarra,
dedilhamos as veias,
rearranjamos a guitarra.
Escrito a 30/03/2017
Mártir de verga
Vozes de longe chamam, num som,
Velho e vulgar leve velejar.
Alto, lacrimejante, som,
amarelo escorregadio,
tão frio.
Flamejante, arquejante.
Se respira, mata-o.
Por Deus, corta-o.
Nos céus, apaga-o.
Quem és tu, flor biliar?
Amargas as dores,
dos sons dos horrores,
rindo e rodando,
verde vento a urrar.
Azul o marulhar, a espumar.
A agarrar e a sorrir, encrustado,
numas rochas que não tens.
Em ti, não as tens.
São sãs e os sóis sibilam.
Que te queimes e afogues,
no vermelho da tua fé.
às chamas que lambes,
pede que te matem de pé.
és uma árvore, lilás.
Podre e pungente.
Nessas raízes jaz
esse amor demente.
15/06/2018
Vagamente inspirado no filme 'The Wicker Man' (1973)
desarticulação
"Levanta a cabeça princesa, senão a coroa cai"
a cabeça caiu no chão, nunca teve coroa, e já lá vai
rebolou para tão, tão longe que se perdeu
deu vontade de rir, mas chorar foi o que aconteceu.
"Será que algum dia vou vencer na vida? Eu tenho certeza que não"
grande filósofo, poeta e pobre, e sentindo, o grande, Paulo, Juão
a fotossíntese de que ele fala não posso
porque não tenho nem osso.
Na pele rasteja a dúvida e o cansaço
como vermes
verdes, viscosos, vagos
e dos olhos desliza o embaraço
rebolam grossas como bagos.
Espreme-as, espreme-as e bebe-as
como um sumo patético como és
como és tu, o sumo, o teu
dos teus olhos mortiços
doentes
e cercados de breu.
Está escuro, aqui, aqui no fundo
onde se perde tudo e só há cacos
está cheio, mas sem ver, o mundo
aqui em baixo, não há buracos,
é uma massa de medo e merda
o que alguém como tu herda
porque é isso que mereces.
É só isso que mereces.
04/07/2018
Estados Alterados
Estados alterados
consciência inconsistente
mole, mel, melancolia
calmo, canto, quente
uma melodia
manto de mascaras
verdes de verdade
ansiedade
imaturidade
medo do medo do medo
antes do sono
a harmonia
com a morte
da cotovia.
Escrito a 27/09/2017
Sentido contido
Pétalas de tempestade vermelhas,
com a fúria incandescente da vida,
é a calma silenciosa da morte,
que da boca me arranca a língua.
E oiço berros incontidos nos céus,
amarelos, aterrados, incinerados.
E não há nada para dizer.
Não há nada para dizer.
Escrito a 18/06/2017
Apeadeiro
Essas brumas vagas no apeadeiro do silêncio.
No escuro puxa-se a corda,
segura-a e eleva-se.
Grunhido apagado, iluminado.
Luz vermelha e pela borda
do oceano, seco de breu mole
pegajoso e invisível no topo
de uma árvore.
Frio e silencioso, amarrado,
de passagem pela ponte do sol.
Ondas curtas e longas e nenhumas.
Verdadeiras e descontroladas.
P'ra cima,
p'ra baixo.
emerge
Mergulha, , mergulha.
No ar seco que encharca os braços nus,
as tuas mãos cansadas sacodem as cordas,
e mergulhas em segredo.
A árvore carpideira de braços nus
e secos.
Braços nus e secos, encharcados.
E não se dissipa a bruma.
Nunca houve comboio.
Escrito a 18/09/2017
O nascer do pôr-do-sol
Nasce o pôr-do-sol ao cair da manhã
e as gotas secas a dormir no divã,
uma caminha num caminho à esquerda,
como do céu, um torvelinho de merda.
Sabidas as subidas e as descidas
mas caem como potes de papel
mascaradas de patos, despidas
descendo por fitas de rapel.
Fitando o horizonte onde nasce
o sol poente, a ocidente
e os olhos vesgos onde renasce
a ansiedade ardente.
Escrito a 02/07/2018
Estagnação
Queria agora estar
num comboio, vagão
para qualquer lugar.
As janelas sem vidros
no frio do Inverno
os pés as mãos
doridos.
Gelo, do vento,
das janelas,
do vagão,
escancarado e escuro,
na noite.
Para qualquer lugar.
Mas aqui vais ficar.
Escrito a 08/01/2018
Cortes
Não tenho caneta nem papel
só tenho cortes e desenhos
na pele
água em torvelinhos pela cara
e fel.
Dos lábios longe
longe o começo.
Envelheço.
Os cortes afundam-se,
poços vazios,
vacilando, vendavais.
Num espírito fraco sem
esperança
de um sol que promete
e nunca vem.
Escrito a 31/05/2018
Ver sem ver
No mesmo lugar, sem se encontrar.
Sem se conhecer, para quê ver?
Ruídos altos e desconexos, sem
ritmo, pauta ou rima.
Desdém?
Oh, não, assim não, por quem?
Emoção exclusiva para porcos.
Pelintras petulantes e
peganhentos.
De vozes roncantes
e ideais, sempre ocos e iguais.
Aqui é fascínio puro e ligeiro.
Porque lá estão, no recinto.
Porque pisam a mesma brita.
Porque na multidão labirinto,
se se cruzassem não se viam,
naquela poeirenta área restrita.
Escrito a 23/06/2018