Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Depois de nós, dos eus, os pós, da fricção dos dedos, nas folhas, desfazem-nas, mas não desfazem quem te escreveste.
Quedas quedo e ledo que se lembrem do que existe a tua mão.
Depois da voz, dos eus, somos nós.
Escrito c. 26/06/2017
523
Milénio Prometido
Roubado o futuro das mãos tenras. Os dedos moles, quebradiços, como os sonhos que não tínhamos. Que nos fizeram crer que podíamos ter.
Agora em volta, a toda a volta, em chamas mais altas, mais altas que as vozes. Labaredas encarnadas, descontroladas, velozes.
Reduzidos a cinzas, os sonhos. O cheiro acre, ácido, nos olhos, das promessas vazias.
Como queda agora tudo a toda a volta vazio.
Escrito a 17/10/2017
492
Sal
Às flores que murcham e brotam às gotas de sal e gritos grotescos guturais e moles e mentes, mentes e mal e gritas e grito e odeio-te odeio-te mais que a mim.
Odeio, tanto como um poema de ódio puro e escaldante. Transborda e transparece reluzente, ofuscante.
Mas não o vês, recusas-te, acreditas-te na razão, que jamais terás, jamais, jamais, jamais terás como também jamais terás o meu perdão.
07/04/2019
317
morte na primavera
nas páginas de um caderno escondeste o teu inferno abre a porta do abismo abriga o frio do inverno
essa ilusão, tentação uma marca pálida no olhar a cálida obrigação sentes que não vai voltar
sem dor não há alivio sem morte não há vida
morte na primavera mentes de olhos fechados o começar da hera o elevar dos pecados
nas folhas rasgadas palavras soltas desregradas ideias frescas de verão mortas como a tua mão
mas se corres, socorre quem enterras no abismo sempre o mesmo ouve e vai, vai, e corre
sem dor não há alivio sem morte não há vida
morte na primavera mentes de olhos fechados o começar da ira o elevar dos pecados
09/09/2018
319
Aquário de Fogo
Uma cascata ao vento flamejante e brilhante. Uma cortina sem alento. Refulge ao longe, distante, rodopia o pó de diamante.
Nas costas finas de aço queda o peso do amor gelado incandescente, que dos olhos lhe lava a mente. Quente no peito, o coração indefeso.
Em primeiro sempre a razão mas mais oculta e incontida a mais delicada e fina, emoção.
Sempre de pé, inquebrável. Congelado até ao mais frio dos frios o zero absoluto.
Nas mãos glaciares e a alma nua caminha no gelo não apaga a chama.
Naquele cabelo cascata de fogo e lucidez nos olhos a limpidez honesta e pura quase inocente quase crente. 06/09/2018
394
NADA
Nos recantos remotos da noite, notas nadas em vazios vigilantes antes nada vias e, vá, admite tens nos olhos prazeres frustrantes.
Toca ecoa e treme, a corda. Acorda no escuro ofuscante. O breu viscoso e coruscante consome-te o peito transborda. A bordo de um navio vermelho, velho, veleja veloz sem vento. Atento o teu olhar, atento focado no brilho baço do mar sob o casco que o rasga lento abre as mãos e os braços és só tu, só tu no navio.
Salpicada de gotas encarnadas a tua cara apaga-se. O mar baço antes agora ilumina-se e o brilho traz à tona almas vazias, danadas que se elevam nos céus sem se moverem chapéus.
Esse sorriso na tua cara apagada sem luz, sem nada é verdadeiro. Acenas-lhes e então então mergulhas sem dizer nada. Nada. NADA. 23/07/2018