Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Na parede. Na parede, dura e fria, é que agora ia. Isto já fede.
A tremer, no lixo, no lixo, a tremer. As minhas mãos sempre a tremer.
Só na parede. Espatifar. Contra a parede. Em mil pedaços. D e s p e d a ç a r.
Escrito a 19/08/2017
413
Movimento Estrutural
das palavras
pulam
ossos
p a r t e m - s e
e palpita no interior
pastoso
bombardeado
batido, beijado
afagado escorraçado
ama
a abomina
passa de mão
em pé e boca
e lágrimas
risadas
chegam e vão
de algures
para nenhures
são dadas
mas não são.
Escrito c. 17/05/2017
439
Sal
Às flores que murcham e brotam às gotas de sal e gritos grotescos guturais e moles e mentes, mentes e mal e gritas e grito e odeio-te odeio-te mais que a mim.
Odeio, tanto como um poema de ódio puro e escaldante. Transborda e transparece reluzente, ofuscante.
Mas não o vês, recusas-te, acreditas-te na razão, que jamais terás, jamais, jamais, jamais terás como também jamais terás o meu perdão.
07/04/2019
318
morte na primavera
nas páginas de um caderno escondeste o teu inferno abre a porta do abismo abriga o frio do inverno
essa ilusão, tentação uma marca pálida no olhar a cálida obrigação sentes que não vai voltar
sem dor não há alivio sem morte não há vida
morte na primavera mentes de olhos fechados o começar da hera o elevar dos pecados
nas folhas rasgadas palavras soltas desregradas ideias frescas de verão mortas como a tua mão
mas se corres, socorre quem enterras no abismo sempre o mesmo ouve e vai, vai, e corre
sem dor não há alivio sem morte não há vida
morte na primavera mentes de olhos fechados o começar da ira o elevar dos pecados
09/09/2018
320
Aquário de Fogo
Uma cascata ao vento flamejante e brilhante. Uma cortina sem alento. Refulge ao longe, distante, rodopia o pó de diamante.
Nas costas finas de aço queda o peso do amor gelado incandescente, que dos olhos lhe lava a mente. Quente no peito, o coração indefeso.
Em primeiro sempre a razão mas mais oculta e incontida a mais delicada e fina, emoção.
Sempre de pé, inquebrável. Congelado até ao mais frio dos frios o zero absoluto.
Nas mãos glaciares e a alma nua caminha no gelo não apaga a chama.
Naquele cabelo cascata de fogo e lucidez nos olhos a limpidez honesta e pura quase inocente quase crente. 06/09/2018
399
NADA
Nos recantos remotos da noite, notas nadas em vazios vigilantes antes nada vias e, vá, admite tens nos olhos prazeres frustrantes.
Toca ecoa e treme, a corda. Acorda no escuro ofuscante. O breu viscoso e coruscante consome-te o peito transborda. A bordo de um navio vermelho, velho, veleja veloz sem vento. Atento o teu olhar, atento focado no brilho baço do mar sob o casco que o rasga lento abre as mãos e os braços és só tu, só tu no navio.
Salpicada de gotas encarnadas a tua cara apaga-se. O mar baço antes agora ilumina-se e o brilho traz à tona almas vazias, danadas que se elevam nos céus sem se moverem chapéus.
Esse sorriso na tua cara apagada sem luz, sem nada é verdadeiro. Acenas-lhes e então então mergulhas sem dizer nada. Nada. NADA. 23/07/2018