sinkommon

sinkommon

n. 1992 PT PT

Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.

n. 1992-10-22, Coimbra

Perfil
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Rearranjamos



Mas olha o que está


à frente



ou aqui atrás.


Vê o que lá está e que veio,
veio de uma origem,
de onde se puxam as veias,
veias retesadas, a retinir,
em paralelo, ao comprido.

As guitarras já lá estavam,
já as tinham ouvido,
já as tinham tocado
como quem se enfia na toca.

Os acorrentados,
nas correntes de ar,
portas e janelas abertas,
saltam das dobradiças,
e, contra nós, aos pedaços
de maçã
podre

fermentada num licor
doce
aos golinhos.


E depois cantamos,
acompanhamos a cigarra,
dedilhamos as veias,
rearranjamos a guitarra.



Escrito a 30/03/2017
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Biografia
Quem:
Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral.

Actualmente a tirar mestrado nessa área.

Sobre o que escreve aqui:
dissociação,
estados alterados,
amor,
comunidade,
alienação,
niilismo,
raiva,

metapoesia,
experimental,
coisas que vê,
quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.

Poemas

46

Aqui no antro da aberração

Quando foi, e quando fui,
quando fomos e que foi, e dói.
Olhaste e triste viste
que não foi o que pediste.
A chaga agora arde, moi,
são grãos de areia,
moídos e em pó.

Podias ter ido
embora
mas não soubeste ver
ou quiseste e não sabes
ver
que era demasiado queer.

Vai, vai.
Vai e não voltes.

Aqui no antro da aberração
onde somos fruto de perdição
não há lugar para mortes
porque dela já nascemos
e nela vivemos
com cortes.

Entre vós e nós
sem voz
embaraçam-nos e fortes
os baraços que nos enrolam
nos pescoços
rolam os olhos para trás
nada os satisfaz.

Faz mais feridas.
E mais, e mais, e mais cortes!
A nossa pele é um labirinto
de meandros e sortes
azarentas e fedorentas
recantos ocultos
e segredos absolutos.

19/07/2018
410

elogios vazios?

Sem tocar, nem cheirar, nem sentir.
Só olhar, devagar, devagar.
No peito o coração a rugir.
Que fazes, que fazes?
É errado, errado e tens
tens de parar e
continuar!

Mas mesmo que de leve,
que me leve a crer
que a fealdade não
é a realidade
apesar de poder
não ser verdade.

Sorrio e rio
obedeço
como um rio ao leito
e assim, leve, me deito
e respiro
fundo
fundo.

21/07/2018
364

a queda no abismo piedoso

Se por cada ilusão tivesse um tostão.
Tão vazia, uma prece, leve, soprada
um vendaval de silêncio e solidão.
Dão-me esperança sem me dar nada
dores nas pernas de correr tanto.

Um rio também me acompanha, lento.
A pasta leitosa borbulha no leito
em que queimam colares coloridos
doridos os músculos sem alento
e é lá que, a sonhar, me deito.

Sonhos sem som marulhando mergulhados
num pesadelo oculto, qualquer.
E neles continuamos a correr.
Corrente de veludos avermelhados
molhados os pés do nosso sangue.

Iludo-me, e iludes-te, e iludimos.
Uma multidão de olhos brilhantes
e de dores vagas e distantes
em estantes altas que trepamos
e depois caímos.

Os olhos no céu onde o sol
nos protege como um lençól
e as costas para a terra dura
na queda desamparada.

Não morremos. Na queda.
Não morremos.
Espera-nos um leito macio
que nos abraça no frio
e aí nos esquecemos.

A ilusão desvanesce
nasce dela outra.
Uma que permanece,
Uma que aquece,
Uma que cresce.
"Está tudo bem"
sussurra-nos, carinhosa,
"Esquece."
(Mas não esquecemos.)

Sabemos que estamos
no mais fundo de todos
os abismos, sabemos
mas aí ficamos
ricos

nessa piedosa ilusão.



12/07/2018
431

Unhas de Amêndoa Monofónica

Entendo uma coisa,tenho gosto
por unhas formadas em amêndoas.

Doas um olhar mole e mal-disposto
posto em pose de ataque e
arranho

doce e dormente como um dedo
dorido e perdido
tão estranho.


Construo um castelo de papel
meço os olhos e as bocas e aí,
te peço que estendas a mão
mas sem dedo, não te dou o anel.

No fosso, se fosses embora, caía
e as unhas amargas rasgariam.

No fundo, no rio grosso de mel,

ecoam as minhas amêndoas,
monofónicas,
caríssimas.


No curso do rio melifluindo,
pasta ambar que se esqueceu
do que é cantar e orar e
depois tudo em carmim ardeu.

Nunca soube medir e um castelo
de papel, colado e mal medido,
não se tinha de pé por mais belo.

Acabam-se-me as unhas e as

amêndoas monofónicas.

Afogo-me no mel e engulo-o
sorrindo
é doce e leva-me sempre
para onde
não quero ir.



02/08/2018
317

óleos derramados

Nestas mãos enfezadas de unhas pintadas
o cheiro a óleo enlouquece e adormece.
Oleiro enlameado sem talento, levadas
para o chão os perfumes, a voz emudece
e o silêncio sagrado sangra em sossego.

Ensopados os tecidos e os pedaços,
o perfume penetrante e pungente.
Gente que não quer mais abraços
braços que não querem mais gente.

A mente louca, alterada e inalados
os fumos perfumados dos óleos.
Sem sentimento nem desejo, derramados
amados antes e agora arrumados
para o chão, ensopados e vítreos.



15/07/2018
323

dos perdidos

Triunfo dos emocionados emaciados

macios, mentirosos, metralhados

balas e abalas em fuga

uma ruga.


Uma viagem sem regresso.

Longe,

no tempo e no espaço e range

escadas dentadas e delapidadas

uma pedra fria e, claro, vazia.


Azia e melancolia

e ninguém lia

toda a boca comia

mas daquela cara

repugnante

só água escorria.


E nem dó

porque merecia

e nem dó

porque também se ria.



Escrito a 04/07/2018
348

IRA

Como dizer como falar como expressar.
Expresso e pressiono nas têmporas,
temperos sem sono, sem sabor, sem ar.
Armários arfando exaustos das esporas
um bufar cavalar com o sangue a jorrar.

Ah, se pudesse, se soubesse, se quisesse,
se dissesse e em diamantes dementes,
dormentes, doces e refulgentes, e dormisse
durante anos, anos, anos, anos!
Sob o encanto mágico do medo (e da pieguice).

Antes, tão antes, tão longe, tão brilhante.
No medo enrolado, embolado, inconsciente,
dormente como que um monstro hibernante,
no frio incandescente a alma fechada,
uma fachada, jovem, cedo fermentada.

E agora aqui, agora aqui, aqui, explodem!
Como balas escaldantes as palavras
que com os dedos feios lavras.
Quente é o pecado, o quinto círculo,
onde vai essa emoção, esse coração(?)
(chamam-lhe assim, porque não?)
e que os risos fizeram ridículo.

Mas sabes que és capaz de amar, sabes
sabes, sabes, sabes, sabes!
Com tanta força que te perdes,
e te convences, a ti
a ti
convences
que não há nem haverá para ti
amor
amor, não para ti.
Ah, o teu peito cheio clama,
o amor explosivo que sentes
e gritas que amas!
Gritas que és capaz
és capaz de amar!
Mas
por ti só sentes ódio.
Por ti só sentes ódio.



07/07/2018
393

em cada 1, 1 mundo

Aqui, se vê e se lê
e quem não é, crê.
Palavras dispersas
personas diversas.

Dizem o que sentem,
dizem o que dizem.
Mas antes de clicar
no botão de gravar
uma vontade ardente
uma vaidade inocente.

Porque escrevemos?
Porque queremos?
Sim.
Porque podemos?
Sim.
Porque sentimos?
Sim.

Nestas palavras
poucas por partes
pequenos poemas
trémulas artes
articulamos o que,
o que na boca
se perde
não sai.

Porque no fim
e é mesmo assim
no fim, com as mãos
podemos riscar
podemos apagar
e ninguém vai saber
nem vai julgar.

Se a voz gagueja
também a escrita
a escrita também
também gagueja.

Se na voz o sentido
sentido mas não
não entendido
porque não faz
não faz sentido
e os demais
as demais não
não o apanham
frutas demasiado
altas
não vale a pena
só tendo a ladra
ladra o canito
e não há pau
só a ladra de lata
inútil e o sentido
lá fica
em cima
e ninguém mais
ninguém o apanha
e cai então
podre
e aí então
ninguém o quer mais.

Mas não é isso que queria dizer
aí está o que tentamos fazer,
fazer que quem nos lê,
quem nos lê nos veja,
e veja também com os nossos
olhos e ouça com os nossos
ouvidos e tenha ainda
tido as mesmas experiências.

Não é assim. Não é assim.
Porque em cada mão
em cada corpo
em cada coração
está um mundo
um mundo que difere
e fere porque não
não é possível
o entendimento
sem confusão.


08/07/2018
332

Descolar




A espreitar do céu, um gato

das órbitas amendoadas
ordens macias ronronadas
as saltitantes passadas.

E o céu que não se apaga
em névoa acinzentada
cada poste luz vaga
ervinhas de solidão.

Brilhante foguetão
casco na cabeça
malinha na mão
mão na cabeça.

Voa para cima
com um fato
e esse gato
olha acima.

Olha ali
o gato
as luzes
e o chão.

Na mão
mala,
fato,
casco.

E
vai
não
mias,
vem.



Poema Ecfrástico escrito a 19/03/2017
425

Um escorvo



De manhã a solidão,
enregela os braços e as pernas,
em bafos gélidos de primaveras.
Dos corvos a canção.

Sou eu que aqui estou,
mas não quero estar.
Não preciso de estar.
Um estorvo, o corvo cantou.

Abandono, só.
Um veleiro roto à deriva.
No oceano vasto.
A superfície vazia.

A torre sombria caída,
onde ainda vive o tormento,
Insistente com a vida,
persistente com a morte.



Escrito a 26/04/2018
441

Comentários (1)

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cianeto

feliz pelo seu like, pois és muito bom!