Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Quando foi, e quando fui, quando fomos e que foi, e dói. Olhaste e triste viste que não foi o que pediste. A chaga agora arde, moi, são grãos de areia, moídos e em pó.
Podias ter ido embora mas não soubeste ver ou quiseste e não sabes ver que era demasiado queer.
Vai, vai. Vai e não voltes.
Aqui no antro da aberração onde somos fruto de perdição não há lugar para mortes porque dela já nascemos e nela vivemos com cortes.
Entre vós e nós sem voz embaraçam-nos e fortes os baraços que nos enrolam nos pescoços rolam os olhos para trás nada os satisfaz.
Faz mais feridas. E mais, e mais, e mais cortes! A nossa pele é um labirinto de meandros e sortes azarentas e fedorentas recantos ocultos e segredos absolutos. 19/07/2018
410
elogios vazios?
Sem tocar, nem cheirar, nem sentir. Só olhar, devagar, devagar. No peito o coração a rugir. Que fazes, que fazes? É errado, errado e tens tens de parar e continuar!
Mas mesmo que de leve, que me leve a crer que a fealdade não é a realidade apesar de poder não ser verdade.
Sorrio e rio obedeço como um rio ao leito e assim, leve, me deito e respiro fundo fundo. 21/07/2018
364
a queda no abismo piedoso
Se por cada ilusão tivesse um tostão. Tão vazia, uma prece, leve, soprada um vendaval de silêncio e solidão. Dão-me esperança sem me dar nada dores nas pernas de correr tanto.
Um rio também me acompanha, lento. A pasta leitosa borbulha no leito em que queimam colares coloridos doridos os músculos sem alento e é lá que, a sonhar, me deito.
Sonhos sem som marulhando mergulhados num pesadelo oculto, qualquer. E neles continuamos a correr. Corrente de veludos avermelhados molhados os pés do nosso sangue.
Iludo-me, e iludes-te, e iludimos. Uma multidão de olhos brilhantes e de dores vagas e distantes em estantes altas que trepamos e depois caímos.
Os olhos no céu onde o sol nos protege como um lençól e as costas para a terra dura na queda desamparada.
Não morremos. Na queda. Não morremos. Espera-nos um leito macio que nos abraça no frio e aí nos esquecemos.
A ilusão desvanesce nasce dela outra. Uma que permanece, Uma que aquece, Uma que cresce. "Está tudo bem" sussurra-nos, carinhosa, "Esquece." (Mas não esquecemos.)
Sabemos que estamos no mais fundo de todos os abismos, sabemos mas aí ficamos ricos nessa piedosa ilusão.
12/07/2018
431
Unhas de Amêndoa Monofónica
Entendo uma coisa,tenho gosto por unhas formadas em amêndoas.
Doas um olhar mole e mal-disposto posto em pose de ataque e arranho doce e dormente como um dedo dorido e perdido tão estranho.
Construo um castelo de papel meço os olhos e as bocas e aí, te peço que estendas a mão mas sem dedo, não te dou o anel.
No fosso, se fosses embora, caía e as unhas amargas rasgariam. No fundo, no rio grosso de mel, ecoam as minhas amêndoas, monofónicas, caríssimas.
No curso do rio melifluindo, pasta ambar que se esqueceu do que é cantar e orar e depois tudo em carmim ardeu.
Nunca soube medir e um castelo de papel, colado e mal medido, não se tinha de pé por mais belo. Acabam-se-me as unhas e as amêndoas monofónicas.
Afogo-me no mel e engulo-o sorrindo é doce e leva-me sempre para onde não quero ir.
02/08/2018
317
óleos derramados
Nestas mãos enfezadas de unhas pintadas o cheiro a óleo enlouquece e adormece. Oleiro enlameado sem talento, levadas para o chão os perfumes, a voz emudece e o silêncio sagrado sangra em sossego.
Ensopados os tecidos e os pedaços, o perfume penetrante e pungente. Gente que não quer mais abraços braços que não querem mais gente.
A mente louca, alterada e inalados os fumos perfumados dos óleos. Sem sentimento nem desejo, derramados amados antes e agora arrumados para o chão, ensopados e vítreos.
15/07/2018
323
dos perdidos
Triunfo dos emocionados emaciados
macios, mentirosos, metralhados
balas e abalas em fuga
uma ruga.
Uma viagem sem regresso.
Longe,
no tempo e no espaço e range
escadas dentadas e delapidadas
uma pedra fria e, claro, vazia.
Azia e melancolia
e ninguém lia
toda a boca comia
mas daquela cara
repugnante
só água escorria.
E nem dó
porque merecia
e nem dó
porque também se ria.
Escrito a 04/07/2018
348
IRA
Como dizer como falar como expressar. Expresso e pressiono nas têmporas, temperos sem sono, sem sabor, sem ar. Armários arfando exaustos das esporas um bufar cavalar com o sangue a jorrar.
Ah, se pudesse, se soubesse, se quisesse, se dissesse e em diamantes dementes, dormentes, doces e refulgentes, e dormisse durante anos, anos, anos, anos! Sob o encanto mágico do medo (e da pieguice).
Antes, tão antes, tão longe, tão brilhante. No medo enrolado, embolado, inconsciente, dormente como que um monstro hibernante, no frio incandescente a alma fechada, uma fachada, jovem, cedo fermentada.
E agora aqui, agora aqui, aqui, explodem! Como balas escaldantes as palavras que com os dedos feios lavras. Quente é o pecado, o quinto círculo, onde vai essa emoção, esse coração(?) (chamam-lhe assim, porque não?) e que os risos fizeram ridículo.
Mas sabes que és capaz de amar, sabes sabes, sabes, sabes, sabes! Com tanta força que te perdes, e te convences, a ti a ti convences que não há nem haverá para ti amor amor, não para ti. Ah, o teu peito cheio clama, o amor explosivo que sentes e gritas que amas! Gritas que és capaz és capaz de amar! Mas por ti só sentes ódio. Por ti só sentes ódio.
07/07/2018
393
em cada 1, 1 mundo
Aqui, se vê e se lê e quem não é, crê. Palavras dispersas personas diversas.
Dizem o que sentem, dizem o que dizem. Mas antes de clicar no botão de gravar uma vontade ardente uma vaidade inocente.
Porque escrevemos? Porque queremos? Sim. Porque podemos? Sim. Porque sentimos? Sim.
Nestas palavras poucas por partes pequenos poemas trémulas artes articulamos o que, o que na boca se perde não sai.
Porque no fim e é mesmo assim no fim, com as mãos podemos riscar podemos apagar e ninguém vai saber nem vai julgar.
Se a voz gagueja também a escrita a escrita também também gagueja.
Se na voz o sentido sentido mas não não entendido porque não faz não faz sentido e os demais as demais não não o apanham frutas demasiado altas não vale a pena só tendo a ladra ladra o canito e não há pau só a ladra de lata inútil e o sentido lá fica em cima e ninguém mais ninguém o apanha e cai então podre e aí então ninguém o quer mais.
Mas não é isso que queria dizer aí está o que tentamos fazer, fazer que quem nos lê, quem nos lê nos veja, e veja também com os nossos olhos e ouça com os nossos ouvidos e tenha ainda tido as mesmas experiências.
Não é assim. Não é assim. Porque em cada mão em cada corpo em cada coração está um mundo um mundo que difere e fere porque não não é possível o entendimento sem confusão. 08/07/2018
332
Descolar
A espreitar do céu, um gato das órbitas amendoadas ordens macias ronronadas as saltitantes passadas.
E o céu que não se apaga em névoa acinzentada cada poste luz vaga ervinhas de solidão.
Brilhante foguetão casco na cabeça malinha na mão mão na cabeça.
Voa para cima com um fato e esse gato olha acima.
Olha ali o gato as luzes e o chão.
Na mão mala, fato, casco.
E vai não mias, vem.
Poema Ecfrástico escrito a 19/03/2017
425
Um escorvo
De manhã a solidão, enregela os braços e as pernas, em bafos gélidos de primaveras. Dos corvos a canção.
Sou eu que aqui estou, mas não quero estar. Não preciso de estar. Um estorvo, o corvo cantou.
Abandono, só. Um veleiro roto à deriva. No oceano vasto. A superfície vazia.
A torre sombria caída, onde ainda vive o tormento, Insistente com a vida, persistente com a morte.