a queda no abismo piedoso
Se por cada ilusão tivesse um tostão.
Tão vazia, uma prece, leve, soprada
um vendaval de silêncio e solidão.
Dão-me esperança sem me dar nada
dores nas pernas de correr tanto.
Um rio também me acompanha, lento.
A pasta leitosa borbulha no leito
em que queimam colares coloridos
doridos os músculos sem alento
e é lá que, a sonhar, me deito.
Sonhos sem som marulhando mergulhados
num pesadelo oculto, qualquer.
E neles continuamos a correr.
Corrente de veludos avermelhados
molhados os pés do nosso sangue.
Iludo-me, e iludes-te, e iludimos.
Uma multidão de olhos brilhantes
e de dores vagas e distantes
em estantes altas que trepamos
e depois caímos.
Os olhos no céu onde o sol
nos protege como um lençól
e as costas para a terra dura
na queda desamparada.
Não morremos. Na queda.
Não morremos.
Espera-nos um leito macio
que nos abraça no frio
e aí nos esquecemos.
A ilusão desvanesce
nasce dela outra.
Uma que permanece,
Uma que aquece,
Uma que cresce.
"Está tudo bem"
sussurra-nos, carinhosa,
"Esquece."
(Mas não esquecemos.)
Sabemos que estamos
no mais fundo de todos
os abismos, sabemos
mas aí ficamos
ricos
nessa piedosa ilusão.
12/07/2018
elogios vazios?
Sem tocar, nem cheirar, nem sentir.
Só olhar, devagar, devagar.
No peito o coração a rugir.
Que fazes, que fazes?
É errado, errado e tens
tens de parar e
continuar!
Mas mesmo que de leve,
que me leve a crer
que a fealdade não
é a realidade
apesar de poder
não ser verdade.
Sorrio e rio
obedeço
como um rio ao leito
e assim, leve, me deito
e respiro
fundo
fundo.
21/07/2018
838362
Sou um número porque não entendo
sou um número porque não entendi
que de número podia ir escrevendo
um nome qualquer que não escolhi.
(Um número aleatório, sem signifcado
algum!
3 é meio 8, 2 x 3, 6?
Podia até ser
número de prisão, mas não
não é nada, mesmo nada.
Não tem, não tem, não diz nada,
nem conta nada!
Não há profundidade, não há explicação
foi ao calhas mesmo!)
Nomes são mera ilustração
são naves de violenta navegação
vigorosos, viajantes, virulentos
lentos como lesmas, langonhentos
velhos como queixumes do coração.
Ah, mas este número que aqui
neste ecrã vos surge e impessoal
depois também o remendei que escolhi
que tem 3 letras de mim, sim
depois só parece o que sim é
spinxo representado na fé
poesia digital
poeta digital
pseudónimo digital
tal e qual e agora é o que é
e não tem mal.
16/07/2018
óleos derramados
Nestas mãos enfezadas de unhas pintadas
o cheiro a óleo enlouquece e adormece.
Oleiro enlameado sem talento, levadas
para o chão os perfumes, a voz emudece
e o silêncio sagrado sangra em sossego.
Ensopados os tecidos e os pedaços,
o perfume penetrante e pungente.
Gente que não quer mais abraços
braços que não querem mais gente.
A mente louca, alterada e inalados
os fumos perfumados dos óleos.
Sem sentimento nem desejo, derramados
amados antes e agora arrumados
para o chão, ensopados e vítreos.
15/07/2018
Aqui no antro da aberração
Quando foi, e quando fui,
quando fomos e que foi, e dói.
Olhaste e triste viste
que não foi o que pediste.
A chaga agora arde, moi,
são grãos de areia,
moídos e em pó.
Podias ter ido
embora
mas não soubeste ver
ou quiseste e não sabes
ver
que era demasiado queer.
Vai, vai.
Vai e não voltes.
Aqui no antro da aberração
onde somos fruto de perdição
não há lugar para mortes
porque dela já nascemos
e nela vivemos
com cortes.
Entre vós e nós
sem voz
embaraçam-nos e fortes
os baraços que nos enrolam
nos pescoços
rolam os olhos para trás
nada os satisfaz.
Faz mais feridas.
E mais, e mais, e mais cortes!
A nossa pele é um labirinto
de meandros e sortes
azarentas e fedorentas
recantos ocultos
e segredos absolutos.
19/07/2018
IRA
Como dizer como falar como expressar.
Expresso e pressiono nas têmporas,
temperos sem sono, sem sabor, sem ar.
Armários arfando exaustos das esporas
um bufar cavalar com o sangue a jorrar.
Ah, se pudesse, se soubesse, se quisesse,
se dissesse e em diamantes dementes,
dormentes, doces e refulgentes, e dormisse
durante anos, anos, anos, anos!
Sob o encanto mágico do medo (e da pieguice).
Antes, tão antes, tão longe, tão brilhante.
No medo enrolado, embolado, inconsciente,
dormente como que um monstro hibernante,
no frio incandescente a alma fechada,
uma fachada, jovem, cedo fermentada.
E agora aqui, agora aqui, aqui, explodem!
Como balas escaldantes as palavras
que com os dedos feios lavras.
Quente é o pecado, o quinto círculo,
onde vai essa emoção, esse coração(?)
(chamam-lhe assim, porque não?)
e que os risos fizeram ridículo.
Mas sabes que és capaz de amar, sabes
sabes, sabes, sabes, sabes!
Com tanta força que te perdes,
e te convences, a ti
a ti
convences
que não há nem haverá para ti
amor
amor, não para ti.
Ah, o teu peito cheio clama,
o amor explosivo que sentes
e gritas que amas!
Gritas que és capaz
és capaz de amar!
Mas
por ti só sentes ódio.
Por ti só sentes ódio.
07/07/2018
dos perdidos
Triunfo dos emocionados emaciados
macios, mentirosos, metralhados
balas e abalas em fuga
uma ruga.
Uma viagem sem regresso.
Longe,
no tempo e no espaço e range
escadas dentadas e delapidadas
uma pedra fria e, claro, vazia.
Azia e melancolia
e ninguém lia
toda a boca comia
mas daquela cara
repugnante
só água escorria.
E nem dó
porque merecia
e nem dó
porque também se ria.
Escrito a 04/07/2018
em cada 1, 1 mundo
Aqui, se vê e se lê
e quem não é, crê.
Palavras dispersas
personas diversas.
Dizem o que sentem,
dizem o que dizem.
Mas antes de clicar
no botão de gravar
uma vontade ardente
uma vaidade inocente.
Porque escrevemos?
Porque queremos?
Sim.
Porque podemos?
Sim.
Porque sentimos?
Sim.
Nestas palavras
poucas por partes
pequenos poemas
trémulas artes
articulamos o que,
o que na boca
se perde
não sai.
Porque no fim
e é mesmo assim
no fim, com as mãos
podemos riscar
podemos apagar
e ninguém vai saber
nem vai julgar.
Se a voz gagueja
também a escrita
a escrita também
também gagueja.
Se na voz o sentido
sentido mas não
não entendido
porque não faz
não faz sentido
e os demais
as demais não
não o apanham
frutas demasiado
altas
não vale a pena
só tendo a ladra
ladra o canito
e não há pau
só a ladra de lata
inútil e o sentido
lá fica
em cima
e ninguém mais
ninguém o apanha
e cai então
podre
e aí então
ninguém o quer mais.
Mas não é isso que queria dizer
aí está o que tentamos fazer,
fazer que quem nos lê,
quem nos lê nos veja,
e veja também com os nossos
olhos e ouça com os nossos
ouvidos e tenha ainda
tido as mesmas experiências.
Não é assim. Não é assim.
Porque em cada mão
em cada corpo
em cada coração
está um mundo
um mundo que difere
e fere porque não
não é possível
o entendimento
sem confusão.
08/07/2018
Milénio Prometido
Roubado o futuro das mãos tenras.
Os dedos moles, quebradiços,
como os sonhos que não tínhamos.
Que nos fizeram crer
que podíamos ter.
Agora em volta,
a toda a volta,
em chamas mais altas,
mais altas que as vozes.
Labaredas encarnadas,
descontroladas, velozes.
Reduzidos a cinzas, os sonhos.
O cheiro acre, ácido, nos olhos,
das promessas vazias.
Como queda agora tudo
a toda a volta
vazio.
Escrito a 17/10/2017
Vista da Margem
Em cima duma ponte,
sentados os elefantes.
Duas moscas radiantes,
deitam pedras numa fonte.
água azul e amarela.
é o espelho mole do sol.
Ninguém quer beber dela,
a não ser um rouxinol
Vão os elefantes embora,
e as moscas apagadas,
na água escura escondidas,
nadam para longe agora.
Escrito a 22/02/2018