Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Entendo uma coisa,tenho gosto por unhas formadas em amêndoas.
Doas um olhar mole e mal-disposto posto em pose de ataque e arranho doce e dormente como um dedo dorido e perdido tão estranho.
Construo um castelo de papel meço os olhos e as bocas e aí, te peço que estendas a mão mas sem dedo, não te dou o anel.
No fosso, se fosses embora, caía e as unhas amargas rasgariam. No fundo, no rio grosso de mel, ecoam as minhas amêndoas, monofónicas, caríssimas.
No curso do rio melifluindo, pasta ambar que se esqueceu do que é cantar e orar e depois tudo em carmim ardeu.
Nunca soube medir e um castelo de papel, colado e mal medido, não se tinha de pé por mais belo. Acabam-se-me as unhas e as amêndoas monofónicas.
Afogo-me no mel e engulo-o sorrindo é doce e leva-me sempre para onde não quero ir.
02/08/2018
320
em cada 1, 1 mundo
Aqui, se vê e se lê e quem não é, crê. Palavras dispersas personas diversas.
Dizem o que sentem, dizem o que dizem. Mas antes de clicar no botão de gravar uma vontade ardente uma vaidade inocente.
Porque escrevemos? Porque queremos? Sim. Porque podemos? Sim. Porque sentimos? Sim.
Nestas palavras poucas por partes pequenos poemas trémulas artes articulamos o que, o que na boca se perde não sai.
Porque no fim e é mesmo assim no fim, com as mãos podemos riscar podemos apagar e ninguém vai saber nem vai julgar.
Se a voz gagueja também a escrita a escrita também também gagueja.
Se na voz o sentido sentido mas não não entendido porque não faz não faz sentido e os demais as demais não não o apanham frutas demasiado altas não vale a pena só tendo a ladra ladra o canito e não há pau só a ladra de lata inútil e o sentido lá fica em cima e ninguém mais ninguém o apanha e cai então podre e aí então ninguém o quer mais.
Mas não é isso que queria dizer aí está o que tentamos fazer, fazer que quem nos lê, quem nos lê nos veja, e veja também com os nossos olhos e ouça com os nossos ouvidos e tenha ainda tido as mesmas experiências.
Não é assim. Não é assim. Porque em cada mão em cada corpo em cada coração está um mundo um mundo que difere e fere porque não não é possível o entendimento sem confusão. 08/07/2018
334
dos perdidos
Triunfo dos emocionados emaciados
macios, mentirosos, metralhados
balas e abalas em fuga
uma ruga.
Uma viagem sem regresso.
Longe,
no tempo e no espaço e range
escadas dentadas e delapidadas
uma pedra fria e, claro, vazia.
Azia e melancolia
e ninguém lia
toda a boca comia
mas daquela cara
repugnante
só água escorria.
E nem dó
porque merecia
e nem dó
porque também se ria.
Escrito a 04/07/2018
349
óleos derramados
Nestas mãos enfezadas de unhas pintadas o cheiro a óleo enlouquece e adormece. Oleiro enlameado sem talento, levadas para o chão os perfumes, a voz emudece e o silêncio sagrado sangra em sossego.
Ensopados os tecidos e os pedaços, o perfume penetrante e pungente. Gente que não quer mais abraços braços que não querem mais gente.
A mente louca, alterada e inalados os fumos perfumados dos óleos. Sem sentimento nem desejo, derramados amados antes e agora arrumados para o chão, ensopados e vítreos.
15/07/2018
325
IRA
Como dizer como falar como expressar. Expresso e pressiono nas têmporas, temperos sem sono, sem sabor, sem ar. Armários arfando exaustos das esporas um bufar cavalar com o sangue a jorrar.
Ah, se pudesse, se soubesse, se quisesse, se dissesse e em diamantes dementes, dormentes, doces e refulgentes, e dormisse durante anos, anos, anos, anos! Sob o encanto mágico do medo (e da pieguice).
Antes, tão antes, tão longe, tão brilhante. No medo enrolado, embolado, inconsciente, dormente como que um monstro hibernante, no frio incandescente a alma fechada, uma fachada, jovem, cedo fermentada.
E agora aqui, agora aqui, aqui, explodem! Como balas escaldantes as palavras que com os dedos feios lavras. Quente é o pecado, o quinto círculo, onde vai essa emoção, esse coração(?) (chamam-lhe assim, porque não?) e que os risos fizeram ridículo.
Mas sabes que és capaz de amar, sabes sabes, sabes, sabes, sabes! Com tanta força que te perdes, e te convences, a ti a ti convences que não há nem haverá para ti amor amor, não para ti. Ah, o teu peito cheio clama, o amor explosivo que sentes e gritas que amas! Gritas que és capaz és capaz de amar! Mas por ti só sentes ódio. Por ti só sentes ódio.
07/07/2018
394
838362
Sou um número porque não entendo sou um número porque não entendi que de número podia ir escrevendo um nome qualquer que não escolhi.
(Um número aleatório, sem signifcado algum! 3 é meio 8, 2 x 3, 6? Podia até ser número de prisão, mas não não é nada, mesmo nada. Não tem, não tem, não diz nada, nem conta nada! Não há profundidade, não há explicação foi ao calhas mesmo!)
Nomes são mera ilustração são naves de violenta navegação vigorosos, viajantes, virulentos lentos como lesmas, langonhentos velhos como queixumes do coração.
Ah, mas este número que aqui neste ecrã vos surge e impessoal depois também o remendei que escolhi que tem 3 letras de mim, sim depois só parece o que sim é spinxo representado na fé poesia digital poeta digital pseudónimo digital tal e qual e agora é o que é e não tem mal. 16/07/2018
433
Aqui no antro da aberração
Quando foi, e quando fui, quando fomos e que foi, e dói. Olhaste e triste viste que não foi o que pediste. A chaga agora arde, moi, são grãos de areia, moídos e em pó.
Podias ter ido embora mas não soubeste ver ou quiseste e não sabes ver que era demasiado queer.
Vai, vai. Vai e não voltes.
Aqui no antro da aberração onde somos fruto de perdição não há lugar para mortes porque dela já nascemos e nela vivemos com cortes.
Entre vós e nós sem voz embaraçam-nos e fortes os baraços que nos enrolam nos pescoços rolam os olhos para trás nada os satisfaz.
Faz mais feridas. E mais, e mais, e mais cortes! A nossa pele é um labirinto de meandros e sortes azarentas e fedorentas recantos ocultos e segredos absolutos. 19/07/2018
411
a queda no abismo piedoso
Se por cada ilusão tivesse um tostão. Tão vazia, uma prece, leve, soprada um vendaval de silêncio e solidão. Dão-me esperança sem me dar nada dores nas pernas de correr tanto.
Um rio também me acompanha, lento. A pasta leitosa borbulha no leito em que queimam colares coloridos doridos os músculos sem alento e é lá que, a sonhar, me deito.
Sonhos sem som marulhando mergulhados num pesadelo oculto, qualquer. E neles continuamos a correr. Corrente de veludos avermelhados molhados os pés do nosso sangue.
Iludo-me, e iludes-te, e iludimos. Uma multidão de olhos brilhantes e de dores vagas e distantes em estantes altas que trepamos e depois caímos.
Os olhos no céu onde o sol nos protege como um lençól e as costas para a terra dura na queda desamparada.
Não morremos. Na queda. Não morremos. Espera-nos um leito macio que nos abraça no frio e aí nos esquecemos.
A ilusão desvanesce nasce dela outra. Uma que permanece, Uma que aquece, Uma que cresce. "Está tudo bem" sussurra-nos, carinhosa, "Esquece." (Mas não esquecemos.)
Sabemos que estamos no mais fundo de todos os abismos, sabemos mas aí ficamos ricos nessa piedosa ilusão.
12/07/2018
433
Milénio Prometido
Roubado o futuro das mãos tenras. Os dedos moles, quebradiços, como os sonhos que não tínhamos. Que nos fizeram crer que podíamos ter.
Agora em volta, a toda a volta, em chamas mais altas, mais altas que as vozes. Labaredas encarnadas, descontroladas, velozes.
Reduzidos a cinzas, os sonhos. O cheiro acre, ácido, nos olhos, das promessas vazias.
Como queda agora tudo a toda a volta vazio.
Escrito a 17/10/2017
494
Por essa
Pela poesia que transforma em grunhidos canções. Aquela que desenforma firmes convicções.
Pela poesia que rebenta com os olhos nas órbitas e a língua na boca. Explode apaixonada! Encara a bola do mundo oca a alvorada!
Pela poesia que arrefece fogo adentro. A mesma que aquece gelo adentro.