Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Língua empapada de sangue. Pedaços de limos pestilentos, esquecidos nos ouvidos sonolentos.
Imagens usadas como balas, uma baleia rodopia, num deserto encharcado, em carne esquecida nas valas.
Se dela escorrem os sangues, de vozes silenciadas, apagadas e agora exangues, dela correm também palavras de afecto tão puro, tão discreto. Oprimido por ladaínhas odiosas como espinhas dos sonhos o mais desperto.
Resiste, resiste ainda. Resiste ainda o amor. Resiste ainda o amor.
Escrito a 23/10/2017
644
O que pode ser poesia
Se não são de amor, de paixão e afeição, de se perder, ardor, de se dissolver, não, de se entregar, dor, de dor de amar em vão... então, então não é poesia?
Se cai em abismos pastosos e sem, sem sentidos nem aforismos. Sem ouvidos, nem olhos. Sem bocas nem inimigos. Com tocas, com umbigos onde não, onde não liga um mamífero bipede que, que te pede que, que o abraces, que o acaricies e o leves ao mais, ao mais alto dos, dos sonhos então, então não é poesia?
Se de toques e carícias, perdidos os sentidos, de doces e breves malícias, os dedos ainda tidos, como que estando, estando na pele, e o ritmo acelerando... E depois um frio porque se apaga. A vela come o pavio e tudo apaga e vai, e vai sem desaparecer. Deixa só nas mãos, nas mãos a vontade, a saudade, os dedos para escrever então, então é, é poesia?
Mas e se, e se, e se... e se nos peitos não acelerados pelos efeitos, desses toques e bafejos, doces, divinos, mas acelerados pela ausência, vazios, perdidos, desvairados. Nesses também pulsa uma febre, febre incandescente vulcões explodindo sós! Sós, sem som, sem sentido. E esses dedos, esses dedos buscam, buscam e buscam e buscam e buscam! Nos estilhaços, pedaços, pedaços desconexos que juntar malformados, sempre, sempre, malformados. Flores não saudosas com hastes e dentaduras esgaçando sorrisos coloridos de verdes de esmeraldas de olhos e azuis de cerúleo céu de cabelos e ao vento, nas espaldas folhosas um cinzento, brilhante véu.
Não pode? Não pode? Não pode essa também? Não pode essa também ser? Não pode essa também ser poesia?
Escrito a 26/06/2018
605
Um poeta é sempre um leitor
A poesia é uma terra de ninguém com gente dentro. Com poesia, é uma terra de gente com ninguém dentro. Poesia de ninguém com gente dentro.
Se não for por paixão não vale a pena. Se for por pena, não vale a paixão
A poesia começa quando um idiota olha para o mar e diz: "Parece azeite." O mar diz a um idiota "Quando o azeite parece poesia, começa a olhar."
Escrito c. 04/05/2017 depois do encontro com a poeta portuguesa Ana Luísa Amaral inspirado nas palavras dela.
619
Superstição
A minha resposta cega no final dum caminho longo e ostentoso e asas de um véu aquoso. No fim, um ponto sem penas, nem carinho uma ave aveludada, depenada e desgraçada.
Graças divinas de olhos, suaves lamparinas de onde escorre óleo de palavras por papel. Papel que não tens nessa peça que escreveste. Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.
Ronronam de leve a se esticar e a enrolar um fio de novelo grosseiro e embaraçado, como o carmim da tua cara quente e clara, em luz tornada, voltas a rir e a cantar.
Canta uma moda, uma qualquer, não sei. Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada. Nadamos por aqui e por ali em limos e limamos arestas para agradar ao rei.
A coroa não é nossa, nem o será. Cera escorre-nos pelos dedos trémulos. Terminados e assustados e medrosos. O medo que nos nasce nos ouvidos.
E se a superstição queimares, o melhor e que com mais dor puderes, esperando por sortes melhores, nasce-te alento pare te deitares. Escrito a 24/06/2018
539
Consenso(no)
Chega o sono falso. Suspenso, é um balão. Desliza, cobra, sorri, pelo preto corrimão.
Abre-me as hastes, flores flamejantes, que brilhem ao sol como elefantes.
Se vou e não fico, não quero, é aqui. E não sabes se vi o lance levante.
Nas escadas da loucura olhamos à frente e, e... E quê? Eu porque não olhei não vi, a fogueira azul escura.
Se a vontade me chegasse, se a vontade me levasse. Ah, a cobra murmura, no fundo da escada escura.
Escrito a 20/06/2018
640
Mãos
Esfacela-me as faces, devagar. Pétalas de mãos macias de magnólias, purpúreas e pálidas de cheiro aleivoso. Alto está o céu áspero e estrondoso.
Árvores abrem-se. Breves. Em tremores. As cicatrizes cinzentas, os tambores, rufando sem alento porque as mãos são purpúreas e pálidas e pontes.
Voz vaga e longe daqui e nas faces que esfacelaste, porque de raiva assim to pedi, os teus dedos meus usaste.
É longe, o mar é vasto. As águas movem-se e vão. Deixam-nos, sem dó, a léguas. E não há perdão.
Escrito a 21/06/2018
568
Ver sem ver
No mesmo lugar, sem se encontrar. Sem se conhecer, para quê ver? Ruídos altos e desconexos, sem ritmo, pauta ou rima. Desdém? Oh, não, assim não, por quem?
Emoção exclusiva para porcos. Pelintras petulantes e peganhentos. De vozes roncantes e ideais, sempre ocos e iguais.
Aqui é fascínio puro e ligeiro. Porque lá estão, no recinto. Porque pisam a mesma brita. Porque na multidão labirinto, se se cruzassem não se viam, naquela poeirenta área restrita.
Escrito a 23/06/2018
544
Conta-Gotas
Se me acusas, de coisas, coisas que eu NãO FIZ, ninguém diz que não és tu quem as faz.
Porque és tu. és tu. és tu. Sempre, SEMPRE, foste tu.
O ataque palavroso que me atiras a mim, achando que o que fazes, nunca fizeste.
Que me atinges Agora. Agora que abri a boca. Que não me quero mais, CALAR. Não consegues.
Se antes não aceitava, se repudiava, agora abomino. Não tolero. NãO TOLERO.
Escrito a 07/07/2017
620
Intenção
Sal e calor e água amarga.
Sorrisos sem cor e a luz,
reluz no corredor e cai
vai para dentro e sai.
Seca e oca como um coco,
um coco
oco como um coco.
E os olhos vagueiam na areia
rodopia na transmissão lenta
cortada.
E os braços que se estendem
envolvem
não sentem, não sentem
frios sem mácula
e olhos que afastam
que se afastam
desentendidos
longe no abismo
no centro do sismo. 27/12/2018
346
838362
Sou um número porque não entendo sou um número porque não entendi que de número podia ir escrevendo um nome qualquer que não escolhi.
(Um número aleatório, sem signifcado algum! 3 é meio 8, 2 x 3, 6? Podia até ser número de prisão, mas não não é nada, mesmo nada. Não tem, não tem, não diz nada, nem conta nada! Não há profundidade, não há explicação foi ao calhas mesmo!)
Nomes são mera ilustração são naves de violenta navegação vigorosos, viajantes, virulentos lentos como lesmas, langonhentos velhos como queixumes do coração.
Ah, mas este número que aqui neste ecrã vos surge e impessoal depois também o remendei que escolhi que tem 3 letras de mim, sim depois só parece o que sim é spinxo representado na fé poesia digital poeta digital pseudónimo digital tal e qual e agora é o que é e não tem mal. 16/07/2018