sinkommon

sinkommon

n. 1992 PT PT

Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.

n. 1992-10-22, Coimbra

Perfil
22 443 Visualizações

Rearranjamos



Mas olha o que está


à frente



ou aqui atrás.


Vê o que lá está e que veio,
veio de uma origem,
de onde se puxam as veias,
veias retesadas, a retinir,
em paralelo, ao comprido.

As guitarras já lá estavam,
já as tinham ouvido,
já as tinham tocado
como quem se enfia na toca.

Os acorrentados,
nas correntes de ar,
portas e janelas abertas,
saltam das dobradiças,
e, contra nós, aos pedaços
de maçã
podre

fermentada num licor
doce
aos golinhos.


E depois cantamos,
acompanhamos a cigarra,
dedilhamos as veias,
rearranjamos a guitarra.



Escrito a 30/03/2017
Ler poema completo
Biografia
Quem:
Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral.

Actualmente a tirar mestrado nessa área.

Sobre o que escreve aqui:
dissociação,
estados alterados,
amor,
comunidade,
alienação,
niilismo,
raiva,

metapoesia,
experimental,
coisas que vê,
quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.

Poemas

46

Consenso(no)

Chega o sono falso.
Suspenso, é um balão.
Desliza, cobra, sorri,
pelo preto corrimão.

Abre-me as hastes,
flores flamejantes,
que brilhem ao sol
como elefantes.

Se vou e não fico,
não quero, é aqui.
E não sabes se vi
o lance levante.

Nas escadas da loucura
olhamos à frente e, e...
E quê?
Eu porque não olhei não vi,
a fogueira azul escura.

Se a vontade me chegasse,
se a vontade me levasse.
Ah, a cobra murmura,
no fundo
da escada escura.



Escrito a 20/06/2018
641

Apeadeiro

Essas brumas vagas no apeadeiro do silêncio.
No escuro puxa-se a corda,
segura-a e eleva-se.

Grunhido apagado, iluminado.
Luz vermelha e pela borda
do oceano, seco de breu mole
pegajoso e invisível no topo
de uma árvore.

Frio e silencioso, amarrado,
de passagem pela ponte do sol.
Ondas curtas e longas e nenhumas.
Verdadeiras e descontroladas.

P'ra cima,

                p'ra baixo.

                emerge
Mergulha,           , mergulha.

No ar seco que encharca os braços nus,
as tuas mãos cansadas sacodem as cordas,
e mergulhas em segredo.
A árvore carpideira de braços nus
e secos.
Braços nus e secos, encharcados.
E não se dissipa a bruma.
Nunca houve comboio.


Escrito a 18/09/2017
628

Mas ainda tenho

Vi um sonho colorido pequenino.
Urgente, sentido, e franzino.
Músicas em miniatura.
Danças sem sincronia.
Sem preparação como nascem os sonhos
rebentos de energia e alegria.

(Vi amor.)

Vi um entusiasmo que hoje mos torna
medonhos
porque debaixo dos pés
quais
percevejos peçonhentos,
fedorentos,
as fés
que pudesse ter tido
todas, todas
idas.
Esmagadas como percevejos
feitas frutas espremidas
num sumo supressor que bebi
e decerto não morri.

Tudo no passado ido,
quebrado o cadeado
e o literal coração
despedaçado.

(Perdi amor.)

Ah, mas tantos anos depois,
quando no pensamento soube
que tinha de o consertar,
mesmo que sem alento,
já ido o sonho,
já depois de se apagar,
consertei.

(Esse não recuperei.)

Mas vi hoje, o mesmo sonho.
Vi o mesmo sentimento,
como que num espelho,
aquele meu rebento.
Vi-o colorido, vi o alento,
vi o passado, vi o brilho
ido
tão longe
quase esquecido.

(Mas ainda tenho.)



Escrito a 29/06/2018
623

Superstição

A minha resposta cega no final dum caminho
longo e ostentoso e asas de um véu aquoso.
No fim, um ponto sem penas, nem carinho
uma ave aveludada, depenada e desgraçada.

Graças divinas de olhos, suaves lamparinas
de onde escorre óleo de palavras por papel.
Papel que não tens nessa peça que escreveste.
Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.

Ronronam de leve a se esticar e a enrolar
um fio de novelo grosseiro e embaraçado,
como o carmim da tua cara quente e clara,
em luz tornada, voltas a rir e a cantar.

Canta uma moda, uma qualquer, não sei.
Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada.
Nadamos por aqui e por ali em limos
e limamos arestas para agradar ao rei.

A coroa não é nossa, nem o será.
Cera escorre-nos pelos dedos trémulos.
Terminados e assustados e medrosos.
O medo que nos nasce nos ouvidos.

E se a superstição queimares,
o melhor e que com mais dor puderes,
esperando por sortes melhores,
nasce-te alento pare te deitares.


Escrito a 24/06/2018
544

Mãos

Esfacela-me as faces, devagar.
Pétalas de mãos macias de magnólias,
purpúreas e pálidas de cheiro aleivoso.
Alto está o céu áspero e estrondoso.

Árvores abrem-se. Breves. Em tremores.
As cicatrizes cinzentas, os tambores,
rufando sem alento porque as mãos
são purpúreas e pálidas e pontes.

Voz vaga e longe daqui
e nas faces que esfacelaste,
porque de raiva assim to pedi,
os teus dedos meus usaste.

É longe, o mar é vasto.
As águas movem-se e vão.
Deixam-nos, sem dó, a léguas.
E não há perdão.



Escrito a 21/06/2018
574

Ver sem ver

No mesmo lugar, sem se encontrar.
Sem se conhecer, para quê ver?
Ruídos altos e desconexos, sem
ritmo, pauta ou rima.
Desdém?

Oh, não, assim não, por quem?

Emoção exclusiva para porcos.
Pelintras petulantes e
peganhentos.
De vozes roncantes
e ideais, sempre ocos e iguais.

Aqui é fascínio puro e ligeiro.
Porque lá estão, no recinto.
Porque pisam a mesma brita.
Porque na multidão labirinto,
se se cruzassem não se viam,
naquela poeirenta área restrita.



Escrito a 23/06/2018
549

Cortes

Não tenho caneta nem papel
só tenho cortes e desenhos
na pele
água em torvelinhos pela cara
e fel.

Dos lábios longe
longe o começo.

Envelheço.

Os cortes afundam-se,
poços vazios,
vacilando, vendavais.

Num espírito fraco sem
esperança
de um sol que promete
e nunca vem.


Escrito a 31/05/2018
590

O que pode ser poesia

Se não são de amor,
de paixão e afeição,
de se perder, ardor,
de se dissolver, não,
de se entregar, dor,
de dor de amar em vão...
então,
então não é poesia?

Se cai em abismos
pastosos e sem,
sem sentidos
nem aforismos.
Sem ouvidos,
nem olhos.
Sem bocas
nem inimigos.
Com tocas,
com umbigos
onde não,
onde não liga
um mamífero
bipede que,
que te pede que,
que o abraces,
que o acaricies
e o leves ao mais,
ao mais alto dos,
dos sonhos
então,
então não é poesia?

Se de toques e carícias,
perdidos os sentidos,
de doces e breves malícias,
os dedos ainda tidos,
como que estando,
estando na pele,
e o ritmo acelerando...
E depois um frio
porque se apaga.
A vela come o pavio
e tudo apaga e vai,
e vai sem desaparecer.
Deixa só nas mãos,
nas mãos a vontade,
a saudade,
os dedos para escrever
então,
então é, é poesia?

Mas e se, e se, e se...
e se nos peitos
não acelerados
pelos efeitos,
desses toques e bafejos,
doces, divinos,
mas acelerados
pela ausência,
vazios, perdidos,
desvairados.
Nesses também pulsa
uma febre,
febre incandescente
vulcões explodindo sós!
Sós, sem som, sem sentido.
E esses dedos, esses dedos
buscam,
buscam e buscam
e buscam e buscam!
Nos estilhaços,
pedaços,
pedaços desconexos que juntar
malformados, sempre,
sempre, malformados.
Flores não saudosas
com hastes e dentaduras
esgaçando sorrisos
coloridos
de verdes de esmeraldas
de olhos
e azuis de cerúleo céu
de cabelos

e ao vento, nas espaldas
folhosas
um cinzento, brilhante véu.

Não pode?
Não pode?
Não pode essa também?
Não pode essa também ser?
Não pode essa também ser poesia?



Escrito a 26/06/2018
608

Intenção

Sal e calor e água amarga.

Sorrisos sem cor e a luz,

reluz no corredor e cai

vai para dentro e sai.


Seca e oca como um coco,

um coco

oco como um coco.


E os olhos vagueiam na areia

rodopia na transmissão lenta

cortada.

E os braços que se estendem

envolvem

não sentem, não sentem

frios sem mácula

e olhos que afastam

que se afastam

desentendidos

longe no abismo

no centro do sismo.

27/12/2018
350

Aqui no antro da aberração

Quando foi, e quando fui,
quando fomos e que foi, e dói.
Olhaste e triste viste
que não foi o que pediste.
A chaga agora arde, moi,
são grãos de areia,
moídos e em pó.

Podias ter ido
embora
mas não soubeste ver
ou quiseste e não sabes
ver
que era demasiado queer.

Vai, vai.
Vai e não voltes.

Aqui no antro da aberração
onde somos fruto de perdição
não há lugar para mortes
porque dela já nascemos
e nela vivemos
com cortes.

Entre vós e nós
sem voz
embaraçam-nos e fortes
os baraços que nos enrolam
nos pescoços
rolam os olhos para trás
nada os satisfaz.

Faz mais feridas.
E mais, e mais, e mais cortes!
A nossa pele é um labirinto
de meandros e sortes
azarentas e fedorentas
recantos ocultos
e segredos absolutos.

19/07/2018
412

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
cianeto

feliz pelo seu like, pois és muito bom!