Escrevo porque não tenho nada para dizer. Escrevo porque preciso. Não tenho mensagens nem respostas. Não faz sentido mesmo. E sim, são coisas 'esquisitas' porque eu não sei fazer outra coisa.
Vê o que lá está e que veio, veio de uma origem, de onde se puxam as veias, veias retesadas, a retinir, em paralelo, ao comprido.
As guitarras já lá estavam, já as tinham ouvido, já as tinham tocado como quem se enfia na toca.
Os acorrentados, nas correntes de ar, portas e janelas abertas, saltam das dobradiças, e, contra nós, aos pedaços de maçã podre fermentada num licor doce aos golinhos.
E depois cantamos, acompanhamos a cigarra, dedilhamos as veias, rearranjamos a guitarra.
Quem: Estudante de Línguas, Linguistica, Cultura, e Artes Liberais no geral. Actualmente a tirar mestrado nessa área.
Sobre o que escreve aqui: dissociação, estados alterados, amor, comunidade, alienação, niilismo, raiva, metapoesia, experimental, coisas que vê, quando não consegue falar com coerência (o que acontece com frequência), escreve.
Nasce o pôr-do-sol ao cair da manhã e as gotas secas a dormir no divã, uma caminha num caminho à esquerda, como do céu, um torvelinho de merda.
Sabidas as subidas e as descidas mas caem como potes de papel mascaradas de patos, despidas descendo por fitas de rapel.
Fitando o horizonte onde nasce o sol poente, a ocidente e os olhos vesgos onde renasce a ansiedade ardente.
Escrito a 02/07/2018
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O que pode ser poesia
Se não são de amor, de paixão e afeição, de se perder, ardor, de se dissolver, não, de se entregar, dor, de dor de amar em vão... então, então não é poesia?
Se cai em abismos pastosos e sem, sem sentidos nem aforismos. Sem ouvidos, nem olhos. Sem bocas nem inimigos. Com tocas, com umbigos onde não, onde não liga um mamífero bipede que, que te pede que, que o abraces, que o acaricies e o leves ao mais, ao mais alto dos, dos sonhos então, então não é poesia?
Se de toques e carícias, perdidos os sentidos, de doces e breves malícias, os dedos ainda tidos, como que estando, estando na pele, e o ritmo acelerando... E depois um frio porque se apaga. A vela come o pavio e tudo apaga e vai, e vai sem desaparecer. Deixa só nas mãos, nas mãos a vontade, a saudade, os dedos para escrever então, então é, é poesia?
Mas e se, e se, e se... e se nos peitos não acelerados pelos efeitos, desses toques e bafejos, doces, divinos, mas acelerados pela ausência, vazios, perdidos, desvairados. Nesses também pulsa uma febre, febre incandescente vulcões explodindo sós! Sós, sem som, sem sentido. E esses dedos, esses dedos buscam, buscam e buscam e buscam e buscam! Nos estilhaços, pedaços, pedaços desconexos que juntar malformados, sempre, sempre, malformados. Flores não saudosas com hastes e dentaduras esgaçando sorrisos coloridos de verdes de esmeraldas de olhos e azuis de cerúleo céu de cabelos e ao vento, nas espaldas folhosas um cinzento, brilhante véu.
Não pode? Não pode? Não pode essa também? Não pode essa também ser? Não pode essa também ser poesia?
Escrito a 26/06/2018
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Consenso(no)
Chega o sono falso. Suspenso, é um balão. Desliza, cobra, sorri, pelo preto corrimão.
Abre-me as hastes, flores flamejantes, que brilhem ao sol como elefantes.
Se vou e não fico, não quero, é aqui. E não sabes se vi o lance levante.
Nas escadas da loucura olhamos à frente e, e... E quê? Eu porque não olhei não vi, a fogueira azul escura.
Se a vontade me chegasse, se a vontade me levasse. Ah, a cobra murmura, no fundo da escada escura.
Escrito a 20/06/2018
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Conta-Gotas
Se me acusas, de coisas, coisas que eu NãO FIZ, ninguém diz que não és tu quem as faz.
Porque és tu. és tu. és tu. Sempre, SEMPRE, foste tu.
O ataque palavroso que me atiras a mim, achando que o que fazes, nunca fizeste.
Que me atinges Agora. Agora que abri a boca. Que não me quero mais, CALAR. Não consegues.
Se antes não aceitava, se repudiava, agora abomino. Não tolero. NãO TOLERO.
Escrito a 07/07/2017
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Superstição
A minha resposta cega no final dum caminho longo e ostentoso e asas de um véu aquoso. No fim, um ponto sem penas, nem carinho uma ave aveludada, depenada e desgraçada.
Graças divinas de olhos, suaves lamparinas de onde escorre óleo de palavras por papel. Papel que não tens nessa peça que escreveste. Rabiscos autorizados pelas deusas felinas.
Ronronam de leve a se esticar e a enrolar um fio de novelo grosseiro e embaraçado, como o carmim da tua cara quente e clara, em luz tornada, voltas a rir e a cantar.
Canta uma moda, uma qualquer, não sei. Nem tu, nem ninguém, não sabemos nada. Nadamos por aqui e por ali em limos e limamos arestas para agradar ao rei.
A coroa não é nossa, nem o será. Cera escorre-nos pelos dedos trémulos. Terminados e assustados e medrosos. O medo que nos nasce nos ouvidos.
E se a superstição queimares, o melhor e que com mais dor puderes, esperando por sortes melhores, nasce-te alento pare te deitares. Escrito a 24/06/2018
543
Um poeta é sempre um leitor
A poesia é uma terra de ninguém com gente dentro. Com poesia, é uma terra de gente com ninguém dentro. Poesia de ninguém com gente dentro.
Se não for por paixão não vale a pena. Se for por pena, não vale a paixão
A poesia começa quando um idiota olha para o mar e diz: "Parece azeite." O mar diz a um idiota "Quando o azeite parece poesia, começa a olhar."
Escrito c. 04/05/2017 depois do encontro com a poeta portuguesa Ana Luísa Amaral inspirado nas palavras dela.
623
Apeadeiro
Essas brumas vagas no apeadeiro do silêncio. No escuro puxa-se a corda, segura-a e eleva-se.
Grunhido apagado, iluminado. Luz vermelha e pela borda do oceano, seco de breu mole pegajoso e invisível no topo de uma árvore.
Frio e silencioso, amarrado, de passagem pela ponte do sol. Ondas curtas e longas e nenhumas. Verdadeiras e descontroladas. P'ra cima, p'ra baixo.
emerge Mergulha, , mergulha.
No ar seco que encharca os braços nus, as tuas mãos cansadas sacodem as cordas, e mergulhas em segredo. A árvore carpideira de braços nus e secos. Braços nus e secos, encharcados. E não se dissipa a bruma. Nunca houve comboio. Escrito a 18/09/2017
628
Cortes
Não tenho caneta nem papel só tenho cortes e desenhos na pele água em torvelinhos pela cara e fel.
Dos lábios longe longe o começo.
Envelheço.
Os cortes afundam-se, poços vazios, vacilando, vendavais.
Num espírito fraco sem esperança de um sol que promete e nunca vem. Escrito a 31/05/2018
588
Intenção
Sal e calor e água amarga.
Sorrisos sem cor e a luz,
reluz no corredor e cai
vai para dentro e sai.
Seca e oca como um coco,
um coco
oco como um coco.
E os olhos vagueiam na areia
rodopia na transmissão lenta
cortada.
E os braços que se estendem
envolvem
não sentem, não sentem
frios sem mácula
e olhos que afastam
que se afastam
desentendidos
longe no abismo
no centro do sismo. 27/12/2018
349
elogios vazios?
Sem tocar, nem cheirar, nem sentir. Só olhar, devagar, devagar. No peito o coração a rugir. Que fazes, que fazes? É errado, errado e tens tens de parar e continuar!
Mas mesmo que de leve, que me leve a crer que a fealdade não é a realidade apesar de poder não ser verdade.
Sorrio e rio obedeço como um rio ao leito e assim, leve, me deito e respiro fundo fundo. 21/07/2018