Lista de Poemas

Vitupério

Humanidade servil tão bárbara, 
Criatura de emoções paralelas, 
Escravas da falsa superioridade, 
Submissa carne em desalinho, 
Abatida ao golpe da mortalidade, 
Iludidas em seus bordões viciosos. 
Hipócritas sem cor de única raça, 
A podridão do corpo não tem nacionalidade, 
Não tem status diante do que o consome, 
Apenas ossos e pó ao esquecimento, 
Da beleza e feiura sem diferenças, 
Deitadas ao solo friamente. 
Tantas antipatias disfarçadas, 
Sorrisos sem sorriso verdadeiro, 
Caridade cheia de facas afiadas, 
Altivez de pessoas vazias, 
Exalando seus monstros infernais, 
Repletas de cortesias vãs, 
Escaninho da maldade sob olhos famintos, 
Escrupuloso ósculo da conveniência, 
Tratados afagados de aleivosia. 
Amigos mórficos a desgraça aparente, 
De palavras ociosas ao oculto, 
Jogando lama na confiança latente, 
Santificando seus burburinhos suicidas, 
Vítimas do próprio infortúnio, 
No grande labirinto de prelúdios. 
231

Volúpia

Tanta sexualidade sob este silêncio,
Nobreza de um corpo ardente,
Aos gritos na imensidão de um olhar,
Gostos perceptivos do erudito amor,
Imitando o sol e a lua em suas rotações,
Contrações do cobiçoso desejo,
No ávido mar em virações,
Beijando a beleza afeita de carinho.
Tanta impetuosidade em melódicos tons,
Afinada ao maestro que a conduz,
Ária de musicalidade sequiosa,
Flutuando além do tempo,
Versos íntimos absconsos,
Declamados ao tácito prazer,
Cadencioso momento em poesia,
Simétrica feminilidade vertida.
242

Floração

Desabrochou a flor da lua em seu fulgor, 
Asilo apaixonado do amor, 
Perfumado círio celeste, 
A beijar sua alma cheia de afeto, 
Abraçada ao infindo amar, 
Na plenitude de tua adorada face. 
A noite admirada com teus encantos, 
Cativou as estrelas e te deu asas, 
A voar guiada pelo vento, 
Ouvindo as confissões mais belas, 
De cada coração desperto, 
Nos desejos a suspirar. 
De cada brilho do olhar, 
Gotejava versos de rimas profundas, 
Tocando a eternidade comovida, 
Invisível caminho da felicidade, 
Estampada em laços de ternura, 
Jurando fidelidade a íntima carne. 
Entreabriu-se o paraíso aguardado, 
Fervorosa nupcia silente, 
Ameigando a volúpia ansiosa, 
Nos corpos ardentes impolutos, 
Suave idílio de pétalas copiosas, 
Nobre rosa de juras envanecidas.
318

Brilhante

Beleza radiante encantadora, 
Eis o teu nome murmúrio em meus lábios, 
Que tantas vezes tocaram os teus, 
Sorrindo com os olhos, 
Tão cintilante tesouro guardado, 
Ao primeiro encontro notado, 
Feito estrela de primeira grandeza. 
O silêncio deste poema declama teu nome, 
Versos da saudade que a rima do tempo, 
Ornado de inspiração celeste carnal, 
Recriou o desejo a nós concebido, 
Tocando o infinito dos nossos corpos, 
Interpretando o amor em sutilezas, 
Inocência perdida da timidez vertente. 
Ardendo em nossos beijos ávidos, 
O pensamento grato deleite da memória, 
Escreveu o livro plácido romance, 
Cuja pena ímpeto alento, 
Grafou no coração páginas confessas, 
Audaciosa Loucura vivida. 
223

Perversidade

Pulsam na terra os traços mórbidos,
Pena secular aos dissímeis mortais,
Humana disparidade da morte,
Tocaia silenciosa do preconceito,
Entrincheirados nas esquinas do ódio,
Trazendo no coração suas confluências,
Forjada em dor e sangue.
Escravos, de escravos da soberba,
Sarcasmo da fragilidade em mãos vazias,
Ao manjar ignorante de vermes famintos,
Ínfimas criaturas encarniçadas,
Castigadas ao próprio fastio,
Transbordante de si no precipício.
Uma a uma seguem em chamas,
Atormentadas em seus infernos contraditórios,
Anjos demoníacos travestidos  de compaixão,
Afogando-se no vômito de suas mentiras,
Suicidando-se nos paradoxos de uma falsa vida,
Túmulos atemporais de tolos.
Há um grito em cada canto,
Ecoando aos surdos transeuntes,
Agitando suas bandeiras desconexas,
Buscando abrigo em suas prisões,
Repletas de escórias sociais libertinas,
Escondidas em suas casas falidas,
Enquanto a existência os punem.
187

Decadência

A vida é uma matemática, 
Somos números exatos, 
Num complexo sistema, 
Resultado de uma combinação infinita, 
De um lugar para outro sucessivamente, 
Semente de outras sementes, 
Vida de outras vidas desconhecidas, 
Programadas para nascer e morrer, 
Iguais a todos os astros celestes, 
Em seus roteiros energéticos. 
Somos energia materializada, 
Herdeiros da fragilidade da matéria prima, 
A qual surgimos a partir do primeiro, 
Assumindo formas e características distintas, 
Ao ambiente da nossa existência, 
Expostos as flutuações do tempo e do espaço, 
Diminutas criaturas presunçosas. 
Corremos para nascer e morrer, 
Seguindo o relógio que não se atrasa, 
Deixando rastros numa estrada infinita, 
Percebendo a humana flor, 
Despetalar-se sob as estações, 
Murchando aos poucos até fundir-se a terra, 
Num abraço inevitável reencontro, 
Esperança de uma sabedoria enigmática, 
De que haja uma continuidade ao nosso desejo, 
Além da eternidade das estrelas que possuímos. 
Existir é um desafio no pensamento primitivo, 
Uma revolução de evoluções divergentes, 
Feedbacks em espirais surreais, 
Espelhando os colapsos seculares, 
Interjeições de seres inteligentes, 
Sintaxes biológicas em exaustão.




180

Resquício

Sim, existo! 
Meu coração sente o teu calor, 
Percebendo-te além, 
Nesta calmaria dos desejos, 
Suave tentação aprazível abrigo, 
Grata feminilidade selvagem, 
Reservada ao íntimo confidente, 
Laços surreais da afinidade. 
Tua onipresença beija minha vontade, 
Penosa saudade que me atina, 
Aos epílogos transcendente de nós, 
Eternos afrescos poéticos, 
Estampados em nossas almas, 
Enquanto dorme a noite silente. 
Sim, Existo! 
Sob o teu olhar que nos recria, 
A cada memória evocada, 
Feito a mais bela canção, 
Sussurrada pelos teus lábios, 
Poetizando baixinho a grandeza do amor, 
Desenhada em nossos corpos sedentos, 
Minúcias esculturais do querer absoluto, 
A divagar pelo impetuoso infinito, 
Revérbero instinto que nos pulsa. 
240

Consubstanciação

O manto de areia meu último retiro,
Causticante estio mira meu destino,
Este purgatório onde meus olhos sangram,
Expiação do meu espírito maculado,
Abraçado ao chão vertiginoso refúgio,
Vultuoso caos de altivez entorpecida.
Meus sonhos se foram no meio da noite,
Revolutearam como pétalas ao vento,
Sentenças do perdido amor no temporal,
Feito páginas amareladas pelo tempo,
Imagem irônica do meu ser em pergaminhos,
Poeira imortal da minha plenitude.
Rasgaram-se as velas da minha caravela,
Findou-se minha aventura humana,
Naufraguei antes de aportar no cais,
Sufocou-se nas águas sombrias a beleza,
Realeza da vida que me animava,
Protegida sob a pele complacente,
Imenso fim de faces imprevisíveis.
Pereceu o juízo oclusa razão,
Num tudo repleto de nada,
Igual as nuvens que vem e vão,
Testemunhando o amor e o ódio,
Assumindo formas espaçadas,
Tal qual nossas dúbias emoções.
198

Circunstância

Lasciva forma de amor confesso,
Natureza aquosa cintilante,
Manando no infinito das coisas,
A revelar o absoluto pulsante,
A rotacionar o corpo que emerge.
Beija a quimera os seus lábios,
Deleitoso seio que me repousa,
Imitando o meu sôfrego desejo,
A desaguar na esperança do teu mar.
Abarque meu espírito o teu ser,
Despetala-me num gozo profundo,
Enquanto a noite nos apadrinha,
Convidando estrelas a dançar,
Ao refúgio inflamado que nos ostenta.


244

Soledade

Porfia em meu peito certo alento, 
Tão grandioso quanto as estrelas, 
Amando a vida em suas trovas, 
Fantasiando o coração n'alma, 
Sentindo de perto a paz das cotovias, 
Nas montanhas inertes, 
Dos meus sonhos além da morte. 
Sigo a imortalidade por meus umbrais, 
Beijo da felicidade fiel legado, 
Cintilando pelo universo infindo, 
Repleto de sentidos ouvindo a noite, 
Esperança da alvorada sorrateira, 
Acariciando o céu lentamente. 
Dos meus suspiros nascem flores, 
Rimas da última poesia do meu encanto, 
Indivisível recato ao abraço do tempo, 
Beleza da árvore da vida, 
Recriando o paraíso ao gosto arbítrio, 
Enquanto se abre a porta do destino, 
Deixando a sombra do que se foi. 
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Comentários (2)

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Zuleica
Zuleica

Palavras que saem do coração

dionesbatista

Belos escritos. Adelante!

Abre a mente ao que eu te revelo e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri) Um homem apaixonado por poesia. Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)