Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Aonde vais animal indômito, Nestes passos letais, Vociferando insanidades, Beijando a obscura morte, Nos vendavais da alma?
Não sabeis vós que sois de carne? Que a dor inflamada em si, Subjuga o vossa espírito, Da liberdade a consciência, Até os confins do universo?
A ignorância que o anima, É a ponte do teu desfortúnio, Brasas queimando a boca, Grilhões que o assaltam,Do amor que profanas.
Aonde vais nesta louca humanidade, Absorto em delírios mortais, Fardos agonizantes em seus vícios, Sufocando o juízo em seus ditames, Abortando o ser em vendavais de ira?
Aonde vais. Por não compreender, Sem perceber o ser, Em suas dimensões transitórias, Em sua finita história, A Nossa imagem e inconstância?
775
Vicissitude
Em noite fria esvaindo-se em pranto, Revelou-se o ser em mortal agonia Denunciando o ânimo em desvalia, Tépido de dores em triste canto.
Recolhido em penoso manto, Plena sofreguidão de face sombria, Entregou-se aos gritos que bramia D'alma aflita em total desengano.
De mãos erguidas acenava ao amor Já moribundo em seus desejos, Verteu a última esperança interior;
Exânime vestiu-se de vento, Prostrado avistou o cortejo Destino fúnebre cruel tormento.
730
Guerra
Guerra!
Guerra?
Terra de tantas eras,
Em suas batalhas épicas,
Tréplicas em réplicas sangrentas,
Almas magentas em corpos marcados,
Maculados, dilacerados e degradados,
Inoculados de ódio no coração selvagem.
Guerras em tantas guerras, onde a mãe terra;
Ouve os gemidos dos seus filhos,
Estribilhos ensurdecedores ao vento,
Espalhando o lamento dos apátridas,
Em suas rogações silenciosas,
Enquanto os fratricidas vorazes,
Segregam escarnecendo do amanhã.
Batalha sem vencedores,
Trazendo aos seus horrores,
A vitória numa derrota sem fim,
Para os que se vão e os que ficam,
Em seus paralelos de dores,
Entre a vida e a morte.
699
Liberdade
Deixai que eu siga meu caminho, Não sobreponha em mim o teu fardo, Ao violentar os meus domínios, Finito coexistir de almas carentes, Complacentes em cada eu de um infinito.
Deixai que eu seja eu, No todo sejamos nós, Mas únicos em cada passo, Sem nos ferir mutuamente no encalço, Desta vida frágil que nos revela.
Deixai que eu sinta o amor, Sepulte no esquecimento o lamento, Dos dias tristes de tormento, Vívidos combates de um tempo, No valor da sobrevivência.
Não me constranja em sua ira, Não viole meu corpo em covardia, Pois não seguirei só neste pranto, Sangrarás comigo no silêncio, A alma não conterá o grito.
Deixai que eu perceba o mundo, Na exatidão de tuas faces, Que o medo me torne mais forte, Capaz de mirar o céu e a terra, Com o olhar que julgar oportuno.
Deixai que eu viva, Não tiranize meus direitos, Que minha diferença não te agrida, Já que a deformidade nos domina, Libertam os demônios desta humanidade.
721
Humani Generis
Um mundo de outros mundos, silenciosos leitos em seus umbrais, Quem sois de mãos atadas? De onde vens? O que há além do monte? Hei de escavar os sepulcros, Tentar encontrar os preconceituosos, Intactos em suas mortalhas, Em seus discursos com a morte, Defendendo a sua cor, A sua pátria e posição. Num olhar infortúnio, Todos os males da perdição, Sentença covarde de hipócritas, Em seus trajes maquiavélicos, Copiosos em suas lástimas, Sábios em suas máximas. Rompe-se o cordão umbilical, Correm as feras para os campos, Em suas imagens multifárias, Abrindo as portas em seus cativeiros, Recolhendo as presas paradoxais. É tudo tão triste! Tão vazio! Estes vendavais humanos, Mãos estranhas afagando o ódio, Como deuses em seu tempo, Parindo demônios de suas bocas, Num rito cruento, Escarnecendo do amor. Há nas esquinas, De mãos estendidas, Todas as gentes de uma só casta, Humani generis, Sangrando,chorando,implorando, Sonhando e prosseguindo, Desejando em seus corações, Que sejamos somente irmãos.
733
Confabulações
Há quem diga o incondizente, Num trago amargo de si, Tropeçando sem rumo, Nas próprias pedras da vida. Há quem fira a língua na lâmina, Fio mortal de dois gumes do desatino, Falar cretino de vozes embotadas. Existem tolos que quebram diamantes, Ofuscado em seu próprio brilho, Estribilho de vícios caricatos, Sangrando o coração em seus torvelinhos. Há jovens velhos e velhos jovens, Doidivanas em seus baluartes de vidro, Fragmentando a pedra dos pensamentos, Costurando sonhos em frágeis retalhos. Há sábios e loucos em seus atalhos, Marcando passo no tempo, Seguindo o rastro das horas, Em suas marcações diminutas.
715
Desafogo
Última projeção da fantasia, A luz do palco se apaga, Levantei os olhos, Mirei timidamente as estrelas, Há um outro lugar, Entre as estações, Álibi perfeito de mim, Neste tempestuoso sentir. Do lado de fora a viagem termina, Aparência de duas distrações, Fúria intacta da ilusão, Neste inverno doloroso, No frio beijo deste desalento, Na penumbra de minha face. Não há ninguém na rua, Neste lugar sombrio, Esquinas ignotas, Entre sombras silenciosas, Negro da noite, Em súplicas estigmatizantes, Do grito do amor imortal, Nas plagas da perfídia.
755
Sem fronteiras
Corpos fustigados, Em suas cores assombrados, Mutilados em suas dores, Em discursos abstratos, De promessas inexatas, Nas exatas compulsões, Do ser em seu decurso, Concussões de feridas soturnas, Em fronteiras taciturnas, Versos melancólicos invisíveis, Subindo aos céus de matizes absurdas, Estas orações escarlate, Disparate em corações tolhidos, De sua liberdade obstruídos, Destituídos de sua nacionalidade, Cuja honra o deus da guerra tragou, Na feroz batalha das almas enegrecidas, Em suas lutas interiores, Farpas de horrores exteriores, Nas razões mórbidas dos senhores, Em seus tratados infernais, Lodaçal envolvente nas mentes frias, Confraria de gênios maledicentes, Gente entre as gentes, Espalhando sementes do medo, Mortal enredo do mundo, Sepultado antes de morrer, Nas confabulações do caos, Em trincheiras de vento.
932
Fotografia
Num click do seu olhar, Fixei sua imagem em mim, O meu interior se iluminou, Meu coração te imortalizou. Recriei meu mundo em segundos, Ao sentir a luz dos teus lábios, A fotografar meu desejo em sensações, Quando num flash mágico, Traduziu-me na beleza de sua procura. A sua sensibilidade expôs o meu sorriso, Desenhou-me na beleza do teu corpo, Digna criação em seus contrastes, Estampa perfeita de nós dois.
720
Dinheiro
Denários,
O que teu poder esconde?
Vida e morte em teu rastro,
Lágrimas, suor e sangue,
Alegria, tristeza e embaraço,
E das trocas injustas o laço.
Serpenteia entre os séculos,
Com suas mãos de duas faces,
Afagando as premissas da bondade,
Enquanto o mal sorrateiro sorri.
Dos sonhos aos pesadelos,
Segue a barca do inferno,
As margens do paraíso,
Nos umbrais da consciência;
Em seus mundos capitais.
Denário em pátrias multiformes,
Obscura flor em jardins estranhos,
Estulta justiça embotada,
Visões fronteiriças do bem e do mal, Peneirando homens.