Lista de Poemas

Humani Generis

Um mundo de outros mundos,
silenciosos leitos em seus umbrais,
Quem sois de mãos atadas?
De onde vens?
O que há além do monte?
Hei de escavar os sepulcros,
Tentar encontrar os preconceituosos,
Intactos em suas mortalhas,
Em seus discursos com a morte,
Defendendo a sua cor,
A sua pátria e posição.
Num olhar infortúnio,
Todos os males da perdição,
Sentença covarde de hipócritas,
Em seus trajes maquiavélicos,
Copiosos em suas lástimas,
Sábios em suas máximas.
Rompe-se o cordão umbilical,
Correm as feras para os campos,
Em suas imagens multifárias,
Abrindo as portas em seus cativeiros,
Recolhendo as presas paradoxais.
É tudo tão triste!
Tão vazio!
Estes vendavais humanos,
Mãos estranhas afagando o ódio,
Como deuses em seu tempo,
Parindo demônios de suas bocas,
Num rito cruento,
Escarnecendo do amor.
Há nas esquinas,
De mãos estendidas,
Todas as gentes de uma só casta,
Humani generis,
Sangrando,chorando,implorando,
Sonhando e prosseguindo,
Desejando em seus corações,
Que sejamos somente irmãos.
720

Adjetivo

Dê um a tua vida,
Que seja grandioso,
Marca inapagável na eternidade,
Dos teus desafios,
Símbolo de sua felicidade,
Qualifica-te no âmago dos teus sonhos,
Caracterize o objeto que te compôe,
Descubra-te em suas variáveis.
Avalie a concordância do gênero de suas escolhas,
A fim de que as flexões sejam reflexões,
Que façam de sua pessoa,
Alguém capaz de se orgulhar,
Ver que valeu a pena buscar a sabedoria.
488

Poema Dúbio

Tive fome,
Não tinha o que comer,
Tive sono sem ter onde dormir,
Senti saudade da minha mãe,
Mas ela se foi,
Lembrei-me do meu pai,
Que há muito não vejo,

Perdi meu melhor amigo,
Retornei para casa,
Sabendo das panelas vazias,
Desejei um abraço,
Não encontrei que pudesse ofertá-lo,
Não perdoei,
Chorei por alguém,
Fui indiferente,
Incondizente,
Perdi meu emprego,
Duvidei de Deus,
Não tive fé,
Nem mesmo orei,
Perdi tempo,
Julguei,
Fui desonesto,
Indigesto,
Hoje neste mundo,
São tantas coisas,
Que o poema sangraria,
Teria pena,
Cairia em prantos,
Velaria teus mortos.
Todos os dias morremos,
Renascemos e sofremos
Julgamos e matamos,
Ressuscitamos,
Diante de tantas coisas,
Deixamos de perceber,
Que a humanidade é uma só,
Com todas as suas fragilidades,
Esta natureza rebelde,
Selvagem,
De mãos abençoadas,
Em faces monstruosas,
Caudalosas em seus surtos,
Um livros de páginas em branco,
Tal qual nossa alma em seus arquétipos.
470

Idílio

Em teu amor me aninho
Te amando deixo que me leve,
Desejando que não seja breve
O amor neste infindável caminho.
400

Liberdade

Deixai que eu siga meu caminho,
Não sobreponha em mim o teu fardo,
Ao violentar os meus domínios,
Finito coexistir de almas carentes,
Complacentes em cada eu de um infinito.

Deixai que eu seja eu,
No todo sejamos nós,
Mas únicos em cada passo,
Sem nos ferir mutuamente no encalço,
Desta vida frágil que nos revela.

Deixai que eu sinta o amor,
Sepulte no esquecimento o lamento,
Dos dias tristes de tormento,
Vívidos combates de um tempo,
No valor da sobrevivência.

Não me constranja em sua ira,
Não viole meu corpo em covardia,
Pois não seguirei só neste pranto,
Sangrarás comigo no silêncio,
A alma não conterá o grito.

Deixai que eu perceba o mundo,
Na exatidão de tuas faces,
Que o medo me torne mais forte,
Capaz de mirar o céu e a terra,
Com o olhar que julgar oportuno.

Deixai que eu viva,
Não tiranize meus direitos,
Que minha diferença não te agrida,
Já que a deformidade nos domina,
Libertam os demônios desta humanidade.
708

Lúdico

Em meu exílio de estrelas invisíveis,
Espreita-me a morte em minha agonia.
Vagueio nas lembranças feito folhas ao vento,
Procurando repouso incerto na dança louca.
A lua escondeu-se de mim,
Levando consigo minha coragem.
Me perdi em sonhos de vidro,
Melindres de um bêbado no porre da vida.
Sou um saltimbanco sem expectadores,
Um joguete nas mãos do destino.
Brinco de esconde-esconde com a felicidade,
Distraído numa soberba insuportável.
A desgraça se diverte extrovertida,
Enquanto procuro alento na esperança.
Eis um palhaço numa tristeza vagabunda,
Catando ao chão risos perdidos.
Num canto qualquer jogo meu corpo,
Desolado,maltrapilho visionando estranhos.
Sem pensar em nada me levanto,
Rio de mim mesmo.
Em minhas mãos uma garrafa vazia,
Mas cheia da minha vida arredia.
390

Intolerância

Negro!
Negroooo...
Negro?
Funesto?
A violência não tem cor,
Mas causa dor,
O preconceito não tem raça,
Não tem pátria,não tem classe,
Mas tem nome,
Faz sangrar por dentro,
Todos os dias desta vida de espinhos,
Ao caminhar sob olhares fatigantes.
É um mal silencioso,
As vezes gritantes,
Entre aplausos velados,
Disfarçados de repúdio,
Mas cheios de ódio.
Quem são seus irmãos?
Quem são seus amigos?
A serpente punge metodicamente,
Em suas atalaias étnicas,
Elitismo decáido colérico,
Intolerâncias absurdas,
Da moral afetada dos falsos juízes.
Aos julgadores jazem os vícios,
Em seus corpos fúnebres,
Amordaçados no livre arbítrio,
Vermes vorazes da consciência,
De preceitos vazios.
Quem sois ao cair da noite?
Qual é a sombra que te reveste?
Poeira é o que somos,
Nada restará após o último suspiro,
Mas ainda sim,ufanos.

Sirlanio Jorge Dias Gomes
499

Camafeu

Ao querer inconstante,
Fito os tons da minh' alma que se esculpe,
Revelando formas intangíveis do eu,
Saliências humanas em seus dissabores,
Emoções a ornamentar o caminhar impreciso,
Declinando entre abismos e certezas,
Estranhezas de um ser tão frágil,
Severidade da vida no interior que se ajoelha,
Lavrando o espírito que insiste em rebelar-se.
534

Guerra

Guerra!
Guerra?
Terra de tantas eras,
Em suas batalhas épicas,
Tréplicas em réplicas sangrentas,
Almas magentas em corpos marcados,
Maculados, dilacerados e degradados,
Inoculados de ódio no coração selvagem.
Guerras em tantas guerras, onde a mãe terra;
Ouve os gemidos dos seus filhos,
Estribilhos ensurdecedores ao vento,
Espalhando o lamento dos apátridas,
Em suas rogações silenciosas,
Enquanto os fratricidas vorazes,
Segregam escarnecendo do amanhã.
Batalha sem vencedores,
Trazendo aos seus horrores,
A vitória numa derrota sem fim,
Para os que se vão e os que ficam,
Em seus paralelos de dores,
Entre a vida e a morte.
685

Hoje o tempo.....

Hoje o tempo parou,
Chorou comigo os mortos,
Sem credo, cor ou raça,
Opúsculo das massas,
Em corpos sem valor.
Hoje o tempo sentiu fome,
Na barriga vazia,
Dor de irmãos famintos,
Na obscuridade de seus lamentos,
Segredando a esperança os sonhos.
Hoje o tempo orou,
Nas lágrimas dos desconhecidos,
Da dignidade banidos,
Enquanto destruíam suas casas,
Refúgio manchado de tristeza.
Hoje o tempo gritou,
Não foi ouvido,
Após um estampido,
Sentiu a alma saltar,
Sem saber para onde.
Hoje o tempo,
Reuniu as preces universais,
Entregou ao amor,
Sabendo em si a hora,
Da purificação que aflora.
Hoje o tempo,
Abraçou a noite e o dia,
Nos corações empedernidos,
Tentando salvar o ser,
Do sangue e morte embebido.
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Comentários (2)

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Zuleica
Zuleica

Palavras que saem do coração

dionesbatista

Belos escritos. Adelante!

Abre a mente ao que eu te revelo e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri) Um homem apaixonado por poesia. Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)