Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Este poema não tem nome, Não tem pátria, Não tem cheiro e nem cor, Este poema sangra em seus versos, Gritos não ouvidos, Em cada dor agredida, Da vida sem vida, Forma desvalida em frangalhos. Este poema quer o seu silêncio, Pra escutar o lamento, Vozes e sussuros ao vento, Dos miseráveis do outro lado, Lugares invisíveis aos nossos olhos. Este poema... Tem em si tantos outros poemas, Que ao teu querer seja esperança, Inspirando felicidade, Versos fraternais de bondade. Talvez este seja só mais um poema, Entre tantos outros, Porém mais que um poema , É o que ele deixa em si, No amor profundo que desejas, Que pode doar, Encontrando-se, Sentindo a poesia de ser somente, Fazendo a parte que lhe cabe. A métrica desta poesia é sua, Em cada estrofe do seu coração, Numa declamação sem julgamentos, Onde a inspiração é o desprendimento, Em cada momento vivido.
416
Desígnio
À tua jornada abre-te a vida, Nômade viajante infesta Esta prisão enegrecida, Incêndio interior indigesta.
Navegai naus portuguesas, Levai de volta seus nobres, Herança de reis pobres, A saquear o Brasil.
Navegai naus portuguesas, Levai os mercenários, Corruptores larápios, Filhos lusitanos bastardos, Nem de longe varonis.
Navegai naus portuguesas, Jogai nas águas os clérigos, Borrões maquiavélicos, Santos do pau oco, De santidade ensandecida.
Navegai naus portuguesas, Trazei de volta nossas riquezas, Devolvei nossas belezas, Que suas gentes corrompeu.
Navegai naus portuguesas, Levai de volta a corrupção, Que aflora e mata, Os brasileiros refém de quem?
Navegai naus portuguesas, Neste mar imaginário, Revelai o mandatário, Deste patriotismo as avessas.
Navegai naus portuguesas, Em suas águas afogai, Estes políticos bossais, Que nos assalta a dignidade.
517
Serenata
Canta a alma ao luar infinito, Finito da vida em noite de versos, Janela de sentimentos imersos, Doce concerto de ares bendito.
Mira o céu em si o pesar delito, Amando a brisa em tom disperso Livre das ilusões converso, Rimando as estrelas o veredito.
Dito ao universo em seu deserto Que não se cale o pranto, Ao encontrar o amor que revelo;
As desventuras em total desencanto, Recanto da esperança desperto Na luz onde guardou-se o canto.
613
Idílio
Em teu amor me aninho Te amando deixo que me leve, Desejando que não seja breve O amor neste infindável caminho.
414
Gérmen
No átrio abscôndito do teu eu, A vida flui na beleza que te fere; Obras de tuas mãos consequentes, Deixando no coração a sentença.
Da hereditária morte os comensais, Compartilham entre si pensamentos; Enraízados em suas almas, Seguindo direções inconstantes.
Das lágrimas a predileção, Rasto de uma luta humana interior; Divagando entre o valor e a necessidade, Enquanto algo se perde pelo caminho.
Em algum lugar um gemido, Sem idade e nem pátria; Verdades silenciadas pelo medo, De alguma decência que se perdeu.
Pela ambição desmedida de um ser, Outro caminha em espinhos; Talvez uma existência se desfaça, Findando sonhos desconhecidos.
A realidade se molda velozmente, Trazendo em si humanos fantasmas; Colóquios das trevas e da luz, Sob olhares incrédulos.
As sementes são tantas, Variados campos fecundos; Cultores de várias nações, Entre a vida e a morte.
487
Lúdico
Em meu exílio de estrelas invisíveis, Espreita-me a morte em minha agonia. Vagueio nas lembranças feito folhas ao vento, Procurando repouso incerto na dança louca. A lua escondeu-se de mim, Levando consigo minha coragem. Me perdi em sonhos de vidro, Melindres de um bêbado no porre da vida. Sou um saltimbanco sem expectadores, Um joguete nas mãos do destino. Brinco de esconde-esconde com a felicidade, Distraído numa soberba insuportável. A desgraça se diverte extrovertida, Enquanto procuro alento na esperança. Eis um palhaço numa tristeza vagabunda, Catando ao chão risos perdidos. Num canto qualquer jogo meu corpo, Desolado,maltrapilho visionando estranhos. Sem pensar em nada me levanto, Rio de mim mesmo. Em minhas mãos uma garrafa vazia, Mas cheia da minha vida arredia.
403
Diligência poética
Convite inopinado, Bravo açoite que afronta, O servo em seus dizeres, Máximas de uma sujeição. Das mazelas a felicidade, Segue cativo em seu destino, Desfilando em suas entranhas, O orbe fantástico em suas realezas, Casta alquimia de traços amórficos. Em cada ato o prodígio invisível, Arrasta o ser esvaindo-se, Gotejando de si sentimentos, Enquanto a alma oscila em seu universo.
530
Ensaio
Ateste o desvelo em penoso fardo, Do manancial ao fino trato, Que de rancor não padeça; Quem o amor ousou tocar. Em versos exaltados, Segue a alma em devaneios, Solicitude enamorada; Feito brisa a balouçar. Do olhar a esperança, Ensejo póstumo recolhido, Vai o ser em seus ditames; Regando as pedras do caminho. Das lástimas o desalinho, De murchas flores envolvido, Deixa o mundo constrangido, Sem saber do que se foi.
551
Confabulações
Há quem diga o incondizente, Num trago amargo de si, Tropeçando sem rumo, Nas próprias pedras da vida. Há quem fira a língua na lâmina, Fio mortal de dois gumes do desatino, Falar cretino de vozes embotadas. Existem tolos que quebram diamantes, Ofuscado em seu próprio brilho, Estribilho de vícios caricatos, Sangrando o coração em seus torvelinhos. Há jovens velhos e velhos jovens, Doidivanas em seus baluartes de vidro, Fragmentando a pedra dos pensamentos, Costurando sonhos em frágeis retalhos. Há sábios e loucos em seus atalhos, Marcando passo no tempo, Seguindo o rastro das horas, Em suas marcações diminutas.