Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
No átrio abscôndito do teu eu, A vida flui na beleza que te fere; Obras de tuas mãos consequentes, Deixando no coração a sentença.
Da hereditária morte os comensais, Compartilham entre si pensamentos; Enraízados em suas almas, Seguindo direções inconstantes.
Das lágrimas a predileção, Rasto de uma luta humana interior; Divagando entre o valor e a necessidade, Enquanto algo se perde pelo caminho.
Em algum lugar um gemido, Sem idade e nem pátria; Verdades silenciadas pelo medo, De alguma decência que se perdeu.
Pela ambição desmedida de um ser, Outro caminha em espinhos; Talvez uma existência se desfaça, Findando sonhos desconhecidos.
A realidade se molda velozmente, Trazendo em si humanos fantasmas; Colóquios das trevas e da luz, Sob olhares incrédulos.
As sementes são tantas, Variados campos fecundos; Cultores de várias nações, Entre a vida e a morte.
484
Apanágio
Fecho os olhos... Um movimento seduzindo o tempo, A beleza dos seus passos precisos, Música do seu sorriso a me envolver, Lentamente meu corpo segue as ondas, Num profundo mar de intensidade, Sensualidade desperta de nós dois. A alma dança abraçado a felicidade, Versejando o amor em seus contrastes, Imerso ao adágio universal do eu, Tom desta sinfonia de traços nobres, Atributo enamorado da razão.
525
Humana Flor
Humana flor latente, De pétalas homicidas, Que és do nascer ao por do sol, Senão um diário da morte!? O fim te aguarda sorrateiro, Fino banquete das ilusões; Cova dos sonhos e da soberba. Os vermes devorarão sua carne, Restando apenas impressões; Deixadas nos rastros de vossa existência. Sois o que sois, Na cegueira dos seus dias; Proferindo injúrias em si mesmos. Da satisfação ao desagrado, Procissão de murmuradores; Nascidos mortos antes de nascer. Humana flor latente, Murchando vagarosamente; Diante do caos que os açoita.
581
Monólogo
A noite chega sorrateira, Humanidade sob lágrimas, Arrastando-me nesta solidão, Retalhos da minha existência, Neste solilóquio de contrastes.
Aproximo-me do espelho, Esta imagem em suas interjeições, Interpelando o ser do outro lado, Labirinto de encontro e desencontros, Marcado por emoções em segredo.
Cada expressão do meu rosto, Marcas do tempo em seus açoites, Diante de minha consciência; Envolta em gritos e calmaria, Estranhos deleites dos momentos vividos.
Mesmo com medo, Sigo entre as estações, Desafiando o compasso das horas, Neste eu seduzido em suas distrações, Personagem nos rastros do tempo.
601
Veneração
Dê-me teu beijo até o céu, O sentirei em teus lábios, Este amor celeste véu, A fazer de mim um astrolábio.
511
Ponte do exílio
Quem te pariu filhos infiéis, Quem são teus irmãos? A sua terra chora por ti, Onde seus ancestrais, Apaixonados em suas feridas, Prantearam seus filhos jogados ao vento.
Do alto mar, Ouvem-se os gritos das sombras, Em seus túmulos amadeirados, Banhados pelas lágrimas dos esquecidos.
Oh! pesada morte, Colham nos oceanos as flores da dor, Em seu perfume fétido de horrores, Sob agonia de gritos estridentes, Entre silêncio e suspiros, Enquanto os demônios humanos, Devoram corpos em suas insanidades.
Este ... Destino de dor e sofrimento, Tormentos de uma casta deflorada, Nas mentes nefastas de seus senhores.
Diga-me quem te pariu seres infiéis! Que matam seus filhos, Pela estranheza de suas mãos, Sujas de sangue e desamor, Desfilando riquezas amaldiçoadas, Entre sorrisos frios, Tal qual suas almas obscuras.
Das caravelas o luto, Frutos selvagens de corações empedernidos, Profecia de liberdades tolhidas, Entre os séculos de faces putrefatas.
484
Poema sem nome
Este poema não tem nome, Não tem pátria, Não tem cheiro e nem cor, Este poema sangra em seus versos, Gritos não ouvidos, Em cada dor agredida, Da vida sem vida, Forma desvalida em frangalhos. Este poema quer o seu silêncio, Pra escutar o lamento, Vozes e sussuros ao vento, Dos miseráveis do outro lado, Lugares invisíveis aos nossos olhos. Este poema... Tem em si tantos outros poemas, Que ao teu querer seja esperança, Inspirando felicidade, Versos fraternais de bondade. Talvez este seja só mais um poema, Entre tantos outros, Porém mais que um poema , É o que ele deixa em si, No amor profundo que desejas, Que pode doar, Encontrando-se, Sentindo a poesia de ser somente, Fazendo a parte que lhe cabe. A métrica desta poesia é sua, Em cada estrofe do seu coração, Numa declamação sem julgamentos, Onde a inspiração é o desprendimento, Em cada momento vivido.
413
Era apenas um sorriso...
O pôr do sol metrificava a noite, Da janela minha afeição gracejou-se, Ao ver o amor em forma tão bela, Que dou outro lado da rua luzia. Afeito de esperança desci apressado, Num sobressalto do quarto lancei-me, Desafiando as escadas tresloucado. Eram cinco horas da manhã, Acordei pensando ter tido um pesadelo, Notei a cantiga de amor do galo, Que em minha cabeça ecoava, Sei que dos degraus não escapei, Por onde anda não sei, Aquela maldita me enfeitiçou, Num sorriso me acamou, Sem saber de mim.
403
Totalidade
Plenamente conduziste-me, Inteiraste de mim perfeitamente, Amou-me sem limites, Traduziu minhas vontades sublimes, Apaixonadamente extasiou-me, Sondou meus segredos habilmente, Ocasionando-me desvarios. Incrivelmente fundiu-se a loucura, Descobriu o fulgor de amar. De modo inacreditável, Nos transportamos em plenitude; Corpos entrelaçados indúbitavelmente.
497
Segredo da vida
Não existe amor sem problemas, E problemas resolvidos sem amor!