Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.(Dante Alighieri)
Um homem apaixonado por poesia.
Tento traduzir os pensamentos na fidelidade que estes me concebem.Não tenho a pretensão de ser poeta,e se por acaso as palavras me metamorfosear em algo parecido,não me culpe;apenas me perdoe.(Sirlânio Jorge Dias Gomes)
Tive fome, Não tinha o que comer, Tive sono sem ter onde dormir, Senti saudade da minha mãe, Mas ela se foi, Lembrei-me do meu pai, Que há muito não vejo, Perdi meu melhor amigo, Retornei para casa, Sabendo das panelas vazias, Desejei um abraço, Não encontrei que pudesse ofertá-lo, Não perdoei, Chorei por alguém, Fui indiferente, Incondizente, Perdi meu emprego, Duvidei de Deus, Não tive fé, Nem mesmo orei, Perdi tempo, Julguei, Fui desonesto, Indigesto, Hoje neste mundo, São tantas coisas, Que o poema sangraria, Teria pena, Cairia em prantos, Velaria teus mortos. Todos os dias morremos, Renascemos e sofremos Julgamos e matamos, Ressuscitamos, Diante de tantas coisas, Deixamos de perceber, Que a humanidade é uma só, Com todas as suas fragilidades, Esta natureza rebelde, Selvagem, De mãos abençoadas, Em faces monstruosas, Caudalosas em seus surtos, Um livros de páginas em branco, Tal qual nossa alma em seus arquétipos.
485
Ponte do exílio
Quem te pariu filhos infiéis, Quem são teus irmãos? A sua terra chora por ti, Onde seus ancestrais, Apaixonados em suas feridas, Prantearam seus filhos jogados ao vento.
Do alto mar, Ouvem-se os gritos das sombras, Em seus túmulos amadeirados, Banhados pelas lágrimas dos esquecidos.
Oh! pesada morte, Colham nos oceanos as flores da dor, Em seu perfume fétido de horrores, Sob agonia de gritos estridentes, Entre silêncio e suspiros, Enquanto os demônios humanos, Devoram corpos em suas insanidades.
Este ... Destino de dor e sofrimento, Tormentos de uma casta deflorada, Nas mentes nefastas de seus senhores.
Diga-me quem te pariu seres infiéis! Que matam seus filhos, Pela estranheza de suas mãos, Sujas de sangue e desamor, Desfilando riquezas amaldiçoadas, Entre sorrisos frios, Tal qual suas almas obscuras.
Das caravelas o luto, Frutos selvagens de corações empedernidos, Profecia de liberdades tolhidas, Entre os séculos de faces putrefatas.
488
Camafeu
Ao querer inconstante, Fito os tons da minh' alma que se esculpe, Revelando formas intangíveis do eu, Saliências humanas em seus dissabores, Emoções a ornamentar o caminhar impreciso, Declinando entre abismos e certezas, Estranhezas de um ser tão frágil, Severidade da vida no interior que se ajoelha, Lavrando o espírito que insiste em rebelar-se.
547
Humani Generis
Um mundo de outros mundos, silenciosos leitos em seus umbrais, Quem sois de mãos atadas? De onde vens? O que há além do monte? Hei de escavar os sepulcros, Tentar encontrar os preconceituosos, Intactos em suas mortalhas, Em seus discursos com a morte, Defendendo a sua cor, A sua pátria e posição. Num olhar infortúnio, Todos os males da perdição, Sentença covarde de hipócritas, Em seus trajes maquiavélicos, Copiosos em suas lástimas, Sábios em suas máximas. Rompe-se o cordão umbilical, Correm as feras para os campos, Em suas imagens multifárias, Abrindo as portas em seus cativeiros, Recolhendo as presas paradoxais. É tudo tão triste! Tão vazio! Estes vendavais humanos, Mãos estranhas afagando o ódio, Como deuses em seu tempo, Parindo demônios de suas bocas, Num rito cruento, Escarnecendo do amor. Há nas esquinas, De mãos estendidas, Todas as gentes de uma só casta, Humani generis, Sangrando,chorando,implorando, Sonhando e prosseguindo, Desejando em seus corações, Que sejamos somente irmãos.
735
Além...
Ao silêncio de olhos oclusos, Recolhe o ser sob a inquietude Da sonhada paz magnitude, Sereno respirar em tempos confusos.
Da peleja resoluta a solicitude Bravo viver em passos infusos, Forjado em prantos profusos, Na glória da grata virtude.
Além do existir, a dignidade; Marcada em laços quebradiços, Do tempo que a consome.
Na tristeza a desigualdade, Nas mãos castigadas o viço, Desabrochando a simplicidade.
625
Apanágio
Fecho os olhos... Um movimento seduzindo o tempo, A beleza dos seus passos precisos, Música do seu sorriso a me envolver, Lentamente meu corpo segue as ondas, Num profundo mar de intensidade, Sensualidade desperta de nós dois. A alma dança abraçado a felicidade, Versejando o amor em seus contrastes, Imerso ao adágio universal do eu, Tom desta sinfonia de traços nobres, Atributo enamorado da razão.
529
Pétalas
Meu triste olhar me engana, Folhagens de um amor indefeso, Laço rompante malfazejo, Pesado torpor em mim alcança.
Das cruzadas nuas e jocosas, Corpo faminto em faces chorosas, Coração lápide coberto,
Em seu desterro flor mundana, Sebe selvagem a gana, Deste louco desejo indiserto.
721
Era apenas um sorriso...
O pôr do sol metrificava a noite, Da janela minha afeição gracejou-se, Ao ver o amor em forma tão bela, Que dou outro lado da rua luzia. Afeito de esperança desci apressado, Num sobressalto do quarto lancei-me, Desafiando as escadas tresloucado. Eram cinco horas da manhã, Acordei pensando ter tido um pesadelo, Notei a cantiga de amor do galo, Que em minha cabeça ecoava, Sei que dos degraus não escapei, Por onde anda não sei, Aquela maldita me enfeitiçou, Num sorriso me acamou, Sem saber de mim.
405
Sem fronteiras
Corpos fustigados, Em suas cores assombrados, Mutilados em suas dores, Em discursos abstratos, De promessas inexatas, Nas exatas compulsões, Do ser em seu decurso, Concussões de feridas soturnas, Em fronteiras taciturnas, Versos melancólicos invisíveis, Subindo aos céus de matizes absurdas, Estas orações escarlate, Disparate em corações tolhidos, De sua liberdade obstruídos, Destituídos de sua nacionalidade, Cuja honra o deus da guerra tragou, Na feroz batalha das almas enegrecidas, Em suas lutas interiores, Farpas de horrores exteriores, Nas razões mórbidas dos senhores, Em seus tratados infernais, Lodaçal envolvente nas mentes frias, Confraria de gênios maledicentes, Gente entre as gentes, Espalhando sementes do medo, Mortal enredo do mundo, Sepultado antes de morrer, Nas confabulações do caos, Em trincheiras de vento.
932
Renúncia
Acordei bem cedo, Bem cedo acordei, Acordei com o destino, Que leve minha desventura, ventura desmedida, Sem tino, Para bem longe, Onde a dor do amor se esconde, Para nunca mais voltar.