stellarprince

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n. 1950 BR BR

Professor aposentado, poeta, escritor e consultor pedagógico.

n. 1950-02-24, Campo Belo, MG, Brasil

Perfil
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Se eu moresse amanhã

 
Se eu morresse amanhã
Não sentiria apenas deixar-te
Mas lamentaria as horas vãs
Sem teus carinhos e sem amar-te.

Se amanhã eu partisse
Minha alma se alegraria
ao ver que meu corpo descansaria
............................

(poema inacabado)
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Biografia
Sou um viajante do tempo, em busca de meus sonhos; na minha caminhada costumo ser alegre... rio, choro, me emociono com o olhar de uma criança, com o brilho do sol, da lua; o cantar dos pássaros. Sou um simples mortal que acredita na imortalidade da essência do Ser, do espírito . . As coisas que eu gosto? ... são as mais simples que existem. Gosto de ver o sol nascer, se por... ver a lua bailar no infinito espaço, e as estrelas enfeitando o manto negro e majestoso da noite... (e só de pensar que viemos e iremos ainda para alguma delas, chega a dar saudade ... !) Ver o rio correr tranqüilo seguindo seu curso sem reclamar, ouvir o sussurro do vento, o som dos pardais ao entardecer, o sorriso de uma criança, a sensualidade feminina, e tantas outras coisas mais que nos rodeiam!Como eu vejo as pessoas? ... Vejo as todas companheiras de viagem, indo em busca de algo; são viajantes das mais diferentes origens, oriundas de algum lugar do Universo e na maioria das vezes perdidas sem saber para onde irão e o que buscam ! Isto é triste! Sonhos ? ... sou um eterno sonhador ! " Sei, que n'algum lugar, muito além dos horizontes... nossos sonhos realmente acontecem! " Vou-me embora para PASARGADA , sonho de todo poeta, ir se embora para Pasárgada,..... Sinto-me privilegiado possuidor das chaves deste lugar, entretanto, sei que nada vale a pena se não for fruto de nosso próprio esforço... Do que adianta ser amigo do rei, ter tudo que se imagina e não ser feliz ? Prefiro seguir meu caminho, colhendo todas as pedras que encontro na estrada e utiliza-las para meu caminhar. Quem quiser ... acompanhe-me e caminhemos juntos!

Poemas

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Inocência na luz vermelha

Chegara as tão sonhadas férias. Eu tinha meus 15 anos, estava estudando no Seminário em Itajubá, Sul de Minas Gerais. Só visitava minha família nas férias.
No meio do ano eram pouco mais de 15 dias então passava em São Paulo com meus pais e irmãos. Mas as férias de final de ano, as mais esperadas ia para São Paulo e depois de ficar alguns dias com meus pais, geralmente depois do Natal ia com minha mãe e meus irmãos para a cidade natal, Campo Belo.
Revia os primos, os tios, e a maior parte do tempo queria passar na roça, na fazenda com meus avós. Como eram gostosos estes dias que lá passava.
Finais de semana íamos todos para a cidade, não que eu gostasse, pois na fazenda era muito mais divertido, mesmo quando só eu estava lá. Andava a cavalo, nadava muito, escalava morros e sem falar na fartura de frutas que lá havia.
Quando estava na cidade costumava passar algum tempo em companhia dos primos e principalmente do Nardinho, um primo em segundo grau, mas para mim todos eram primos. Ele era um pouco mais velho que eu e costumava me levar para um restaurante em frente a Praça da Matriz, esquina com a Afonso Pena e lá entre conversas e animação íamos saboreando um torresminho e tomando uma cerveja. Não estava acostumado a tomar cerveja, mas pela sua insistência eu o acompanhava.
Nardinho era uma destas pessoas que conhecia todos da cidade e apresentava-me a todos os seus amigos.
Certo dia ele disse-me - hoje a noite passo na casa da vó Anita para te pegar, quero levá-lo a casa de uma amiga.
Como eu gostava da companhia do primo não poderia recusar o convite.
A tardezinha, já anoitecendo fomos nós em direção a Estação Ferroviária à visita combinada.
Chegamos a uma casa próximo a Estação onde ele foi entrando e cumprimentando a todos.
Entramos por uma sala ampla, com algumas mesinhas e cadeiras onde algumas pessoas conversavam, geralmente casais. Logo encontrou uma moça a qual fui apresentado.
- Este é o Adauto, meu primo ele está estudando no Seminário - disse ele a moça.
Em seguida me vi sentado a uma mesinha com aquela moça que começou a conversar comigo e a perguntar-me sobre a vida lá no Seminário. Como era, o que eu fazia, etc...
Logo notei o desaparecimento do meu primo e continuei lá naquela sala em penumbra, havia algumas lâmpadas vermelhas tornando o ambiente um tanto reservado.
Não faltaram assuntos, a moça parecia curiosa a perguntar-me sobre o meu dia a dia e eu calmamente e inocentemente continuei a responder a tudo até que começou a faltar-me assunto e ela já meio sem graça também silenciou. Vez ou outra lançava-me um olhar e um sorriso.
Indaguei-me sobre o Nardinho, onde teria ido e ela calmamente me acalmou dizendo que logo estaria lá de volta. Tratou de reforçar o prato de petiscos e pedir mais cerveja.
Já se fazia tarde, minha ansiedade e meu desconforto ali aumentava.
Foi ai que surgiu o Nardinho acompanhado de outra moça que da mesma forma da primeira apresentou-me como seu primo que estudava no Seminário.
Perguntou a minha anfitrião se gostou de mim, esta respondeu que sim meia encabulada também.
Despedimos-nos e fomos para casa, minha mãe e minha avó devia já estar preocupadas comigo.
Caminhamos meio em silêncio sem ao menos comentar sobre a visita e cada qual foi para sua casa como se nada tivesse acontecido.
Minha mãe e minha avó nada perguntaram e logo fui para o meu quarto ainda sem saber exatamente o que era aquele lugar que conhecera. Achara sim um tanto estranho, pois a casa apesar de pessoas aparentemente felizes, comendo e bebendo, achei-as um tanto frias para ser uma casa e de amigas do Nardinho.
Passou-se um ou dois dias... pude ouvir a tia Arlete - que era uma daquelas pessoas alegras com uma risada contagiante e forte - contar para o tio Juarez, outras tias e amigas que o Nardinho havia me levado a Zona.
Foi ai então que compreendi o motivo daquele convite. Mas continuei na minha inocência sem ao menos ter deixado ser iniciado.Fiquei morrendo de vergonha, encabulado e evitei confrontar-me com os tios por um bom tempo, se contaram para minha mãe não sei, porque nunca ouvi comentário por parte dela.
Nunca mais falamos sobre o assunto e muitos anos se passaram, mais de 40 anos, outro dia comentei o episódio pela primeira vez com o Nardinho durante uma conversa com ele, no Messenger, visto que mora em Brasília desde aquela época e nunca mais o encontrei, somente agora pela internet.
- Ah, isso não foi nada, das coisas que eu aprontava esta foi a menor. - disse-me ele !
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Vivências Sutis

Meus pais moravam em São Paulo, mas minha mãe voltou para Campo Belo, MG, cidade natal, quando eu estava para nascer. Depois de certo tempo, passado toda aquela euforia do primeiro filho, do primeiro neto, o segundo sobrinho. Mamãe já estava mais acostumada com a nova situação de mãe, voltou para São Paulo, onde meu pai trabalhava. Voltávamos a casa dos avós sempre no fim de ano. Lembro-me que viajávamos por dois dias, pernoitávamos em Cruzeiro, SP para seguir viagem no dia seguinte. Era apenas um neném, mas lembro-me do local onde ficávamos, parece que era um hotel popular, pois o cheiro do banheiro era sensível. Durante a cansativa viagem de trem, a Maria Fumaça eu lembro perfeitamente das fagulhas que saiam da chaminé da locomotiva e entrava pela janela daquele vagão de madeira. Mas ficava bem curioso de observar tudo, paisagem, movimentação de pessoas... Lembro-me numa dessas viagens, parece que foi numa das voltas a São Paulo, encantei com uma menininha mais velha que eu que me fazia rir muito com suas gracinhas. Antes de completar dois aninhos, lembro-me que meu pai resolveu mudar de vez para Minas e confesso fiquei muito feliz. Chegamos em Minas - meu avô já havia vendido aquela casa em que eu nascera, por isso ficávamos, na cidade, na maioria das vezes na casa da tia Dolores, ora na casa da Mãe Vó (a minha bisavó materna). Morávamos mesmo com meus avós maternos na fazenda que não sei o nome, pois lá ficamos pouco tempo, logo meu avô comprou outra fazenda que foi de meu bisavô um pouco mais adiante, e bem maior. A Fazenda São João, e a anterior só me lembro de sempre se referirem a ela como a Fazenda do Eurico, lembro sim de lá, da casa, dos cômodos, que eram um pouco escuros, acho que por causa das árvores frondosas que haviam em volta da sede e por isso entrava pouca luz nos cômodos. Recordo-me do açude que tia Gabriela nadava e me levava sempre e lembro-me da casinha onde a Jane, o Tonho e outras crianças maiores brincavam de casinha com a tia Gabriela; era no meio do pomar rodeada de laranjeiras. Há muitas passagens na lembrança desta fazenda, que serão narradas em outras narrativas. A mudança aconteceu de repente, fui dar conta no dia em que meu avô chegou comigo no colo, e diante daquele casarão enorme, olhando e mostrando-me aquelas janelas enormes disse: - " filho isso aqui um dia será tudo seu! " Não entendi as palavras naquela hora, entendi que era ali que iria viver. Os primeiros dias eu chegava a me perder naquela casa, no corredor, nos cômodos e aos poucos fui me acostumando e adorando aquela fazenda. Tudo era muito alegre, muito movimento e uma vista que não havia na outra casa. Os empregados, o velho Alexandre, a Mariana, a Dorva, o Izé, todos vieram se juntar a outros que já trabalhavam na fazenda. Com essas pessoas conhecidas e familiares tornou minha adaptação mais fácil e aproveitei os anos que seguiram até seguirmos para o sitio no Morro Grande. Dos dois aos 9 anos com freqüência experimentei algo que eu mal conseguia entender e jamais comentar com quem quer que fosse! Sabia que jamais acreditariam em mim! Passei boa parte de minha infância no campo, na fazenda de meus avós, na Mata da Caatinga, município de Campo Belo e em nosso sítio do Morro Grande, no distrito de Porto dos Mendes próximo às margens do velho Rio Grande. Não possuía amigos da minha idade, crianças além dos irmãos menores e os primos que encontrava na cidade nas épocas de festas como Semana Santa, Páscoa, Natal e em outros encontros familiares. Passava maior parte de meu tempo nos arredores da fazenda, ou do nosso sítio, caminhando por ali e por acolá. Sempre que podia me juntava aos mais velhos para ouvir as estórias dos antigos! Costumava sentar-me ao pé de um frondoso Ipê amarelo que ficava na porteira em frente a sede, ou me retirava para uma laje de pedra bruta que ficava no alto de uma serra, de onde contemplava todos arredores. Muitas vezes, me vi numa situação fora de meu controle. Não sei como, saia voando sobre a sede, o pomar, os cafezais, e meio sem saber... e sem entender como ... eu aproveitava aqueles instantes, sentindo-me deslizar suavemente pelo ar como os pássaros. Era uma sensação maravilhosa, confesso... mas assustadora! Eu sabia não ser uma habilidade normal e passível de entendimento e compreensão. Por isso jamais compartilhei com ninguém tais experiências! Confesso, não era uma situação totalmente sobre meu controle, não acontecia sempre quando eu queria, as vezes me deparava com a situação quando menos esperava, mas aprendi logo a aproveitar esses momentos, pois eu sabia de algum modo não eram comuns. Sentia deslizar pelo ar, vendo de cima aquela pastagem verde sob meus olhos, o gado espalhado pela colina parecia ser pequenas peças de brinquedo, tinha uma visão de todo o pomar matizado de pontos amarelos, dos frutos, entre as diversas tonalidades de verde. Observava serpenteando sob as árvores atravessando o fundo da fazenda o córrego que abastecia a casa sede e a dos empregados. Mas eu não ousava sair das imediações... era uma situação fantástica mas um tanto aterrorizante pois não tinha o controle total que com certeza os pássaros possuem. Só me lembro que com um simples esforço de meus braços e pernas esticadas eu conseguia subir, descer e mudar de direção. Mas de repente, as coisas foram mudando, meus pais começaram a se preocupar com o meu crescimento, a necessidade de mandar-me para a escola, e de uma hora para outra descobri que estávamos para mudar para São Paulo. Era uma grande mudança, mas sabia que ia poder freqüentar escolas e tantas outras coisa que eu já arquitetava em meus sonhos... Sabia que de certo modo que eu deixaria o meu mundo para trás e sabia que isso não seria fácil.O tempo foi passando, cresci, amadureci, e nas minhas leituras e busca de conhecimento aprendi um pouco sobre xamanismo, os estados alterados de consciência, as experiências fora do corpo, e as outras dimensões... Depois de muito tempo, há alguns anos atrás pude reviver tal emoção de “voar” saindo de meu corpo conscientemente, como na infância, porém com uma duração menor, não consegui ir muito longe e retornei. Jamais declarei tal experiência, somente agora revelo tais registros antes trancados em minha memória. Atualmente, essa é uma experiência de sair do corpo pode ser vivenciada conscientemente. Apesar de ser sabido que todos nós, durante o sono, costumamos sair do corpo e visitar outros lugares inconscientemente. Porém é raro nos lembrar disso a não ser, às vezes, como um sonho que tivemos. Atualmente há profissionais que utilizam técnicas que ajudam as pessoas a vivenciar experiência assim conscientemente.
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O PODER DA PALAVRA

Lembre-se: aquilo que se traduz em palavras vem na realidade a se manifestar. Conscientize-se que as palavras têm poder criador e as utilize sabiamente.
A palavra tem força criadora, segundo o escritor intelectual Lourenço Prado que nos dá uma aula sobre o poder da palavra. Diz ele: Se conhecêsseis o poder de vossas palavras, teríeis grande cuidado nas vossas escritas e conversas. Bastar-vos-á observardes a reação de vossas palavras para verificardes que elas não voltam vazias . Por meio das palavras que escreveis ou pronunciais, estais estabelecendo continuamente leis para vós mesmos. As forças invisíveis agem sempre a favor daquele que está continua e corajosamente avançando para a frente, embora não o saiba. Em virtude das forças vibratórias das palavras, quando o indivíduo escreve ou fala alguma coisa, começa a atraí-la para si.
Cada palavra que expressais, exerce uma ação na vossa vida pessoal, a qual será a vosso favor ou contra vós, conforme a idéia expressa pela palavra. Com efeito, cada palavra que emitirdes (da forma que for) é uma expressão, a qual produz uma tendência particular em determinada parte de vossa entidade. Essa tendência pode manifestar-se em vossa mente, no vosso corpo, na vida química deste último, no plano dos desejos, no caráter, em qualquer de vossas faculdades, vindo em seguida, a produzir seus efeitos materiais.
Extraido do Jornal NOVO TEMPO
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MORRO DA ÉGUA

Era uma daquelas tardes de verão em que as cigarras pareciam estar afinando o som para uma grande orquestra. O sol brilhava e algumas nuvens carregadas despontavam no horizonte, mas grande parte do céu mantinha-se azul. Papai disse a mamãe que precisava levar a massa de mandioca seca para vovó fazer a farinha lá na fazenda e que iria mandar-me levar a cavalo.
Preparou dois sacos (50 kg), encheu-os da massa de mandioca já seca, amarrou os sacos e ajeitou-os na garupa da égua que estava já encilhada e pronta para me levar a fazenda da Mata. Se apressasse iria chegar lá antes do anoitecer, era uma boa caminhada, umas duas ou três léguas de distância (aproximadamente 15 km). Mas como ia carregado, a égua não era assim tão ligeira, precisava se apressar e papai logo despachou-me recomendando que eu fosse direto com medo que a chuva me pegasse no caminho.
Eu tinha apenas oito anos de idade mas sabia me virar e conhecia bem o caminho para a fazenda do vovô.
Após as recomendações de meus pais, tomei a bênção de papai e de mamãe e pulei na sela em meio a carga que iria transportar e segui meu caminho.
Passei pela fazenda da Beija, depois em frente a venda lá na beira da estrada do Porto e segui em direção ao Morro da Égua. Agora entrando numa trilha que cortava o morro em direção ao Morro da Onça, nenhuma casa, nenhum sítio ou fazenda a não ser depois, lá do outro lado ao terminar a descida do Morro havia sim um Sítio com uma casinha com um curral ao lado bem na beira da estrada, mas ia demorar a chegar lá.Enquanto caminhava lentamente no lombo da égua pelas trilhas daquele morro, ia sentindo os dois sacos pendurados na garupa cada qual querendo pender para um ou outro lado. Mas estava bem amarrados, não havia perigo de cair, pensava e aproveitava para olhar uma ou outra fazenda que se avistava ao longe podendo visualizar a silhueta esbranquiçada da sede com seus telhados vermelhos escuros. No caminho cruzava apenas com bandos de anús espalhafatosos e alguns gaviões em busca de presas em seus vôos rasantes. Lá em cima parece que São Pedro estava preparar alguma faxina bem pesada. As nuvens se aglomeravam e o céu começara a escurecer de repente. Isso não era bom sinal, a égua mostrava-se sinal de cansaço e não apressava os passos e eu começava a me preocupar pois não havia nenhuma casa ou abrigo a vista. E as chuvas de verão costumam ser fortes e com muitos raios e trovões por estas bandas. O que fazer ? Nada senão continuar o percurso, já estava começando a descida do Morro da Égua, voltar agora não dava mais, com um pouco mais de sorte chegaria ainda antes do anoitecer no mínimo na fazenda do tio Orosimbo, assim pensava eu.De repente um trovão esbravejou de tal modo fazendo um grande eco no vale lá em baixo na mata. Outros raios e trovões se sucederam, cada vez mais fortes e de repente veio a chuva que preencheu todos os cantos que minha vista alcançava. O que fazer ? Senti que os sacos de massa de mandioca seca já não eram mais secos e certamente o peso duplicaram no lombo do animal. Desci, tomei as rédias e a dianteira e num grande esforço continuei debaixo daquela chuva a puxar e conduzir a égua que antes me transportava. Ficar ali, debaixo daquela chuva, debaixo de árvores não era bom, havia muitos raios. Tinha que chegar naquele sítio lá em baixo e pedir auxílio!
A noite antecipou sua vinda, tudo ficou escuro mal podia ver a trilha a minha frente e cada vez mais eu me esforçava para puxar a égua que não estava mais suportando o peso, mas não podia fazer nada, eu nem agüentaria tirar de seu lombo aqueles sacos, cada um do meu tamanho e agora encharcados muito pesados. Conversava com a égua, pedindo-lhe calma e que colaborasse para que pudéssemos chegar num abrigo. Na medida do possível ela procurou entender-me e seguiu-me.
Já podia avistar uma fraca luz a cerca de uns mil metros, sabia que estava chegando no sítio lá na baixada, ufa que alívio!
Sai da trilha e rumei em direção daquele sítio, a luz de lamparina agora estava mais forte e podia ter a certeza de que havia alguém lá.
Abri a porteira do curral e levei minha égua para uma cobertura e dirigi-me a porta da sala e chamei: - Ó de casa? - Tem alguém ai?
- De casa?
- Oi, quem é?
- Nossa, marido tem um menino aqui todo molhado!
Fui logo dizendo a dona:
- Sou filho do Walter, neto da Anita e do João Dolores.
- Uai, entra menino, vamos trocar esta roupa molhada.
Nisto o marido foi lá no curral retirar os sacos e a sela do lombo da égua. A dona tratou de arrumar uma calça e camisa do marido, embora grande, vesti e me aqueceu depois de me secar com uma toalha que ela me deu.
Na casa só havia o casal, já era tarde e a dona tratou de arrumar a cama no quarto de hóspedes e disse para eu ir deitar e seguir viagem no dia seguinte eu agradeci e fui me recolher.
No dia seguinte, bem cedinho levantei, vi que o tempo havia melhorado, já não chovia mais e o sol estava para nascer. Tomei um gole de café com leite quentinho com uns biscoitos de polvilho. Logo agradeci a pousada, a acolhida e segui minha viagem, um pouco adiante passei pela casa do Osmar, um camarada do tio Orosimbo, logo depois passei pela fazenda do tio Orosimbo que já estava na lida lá pelo curral. Sem mesmo descer da égua tomei a benção e segui ao meu destino.Por volta das sete horas da manhã, ao cruzar o Morro da Onça o sol já brilhava no céu agora límpido ! Já podia avistar a fazenda da Mata. A fumaça branca saindo da chaminé denunciava já a Vó Anita em sua lida diária.
Chegando apeei de minha égua, antes mesmo de retirar-lhe a carga subi pelas escadas do alpendre lá da sala e fui direto a cozinha onde surpreendi minha vó que olhou espantada.
- Nossa menino, chegou cedo hein?
Mal sabia ela o que sucedera na noite anterior. Ai comecei a narrar o que aconteceu e onde busquei abrigo.
Ela confessou então que havia pensado em mim e achava que eu não viria devido ao mal tempo e ficou aliviada por ver me bem e a salvo.
Missão cumprida ! A tardezinha, depois de assegurar-me que o tempo não iria piorar retornei ao Morro Grande para não preocupar meus pais. Naquela época não havia como se comunicar, não havia telefone.
A volta foi tranqüila pelo bom tempo e pelo fato de agora não estar carregando nenhuma carga pesada. E para quem já cavalgou deve saber que o animal caminha melhor quando está retornando. Cheguei em casa antes do sol se por e encontrei meus pais ansiosos pois meu pai havia tido alguns pressentimentos na noite anterior e inclusive mamãe me contara que ele ouvira um grande ruído, um estrondo muito forte lá na encosta do morro e havia ficado muito preocupado comigo.
Contei tudo o que havia ocorrido e que apesar do susto, do frio e do medo consegui abrigo e depois seguir viagem com tranqüilidade.
Hoje, lembro destes fatos com saudade e até me orgulho de situações que enfrentei apesar da tenra idade naquela época.
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Morro da Onça.

Esta era a visão que se tinha da janela da sala e do quarto onde eu dormia na Fazenda da Mata. Passei boa parte de minha infância observando esta paisagem. Com certeza os melhores dias da minha vida.
Ao fundo imponente aparece o Morro da Onça, nome este devido ser muito comum a freqüência de onças pintadas e jaguatiricas por lá. Em minha infância cheguei a cruzar com algumas Jaguatiricas, mas onças pintadas só em estórias contadas pelo meu avô e pelos camaradas da fazenda. De vez e outra ouvia se dizer que alguma cabeça de gado havia sido atacada por uma onça pintada e o temor corria pela redondeza.
Esta foto foi tirada na década de setenta, mas posso garantir que antes dos anos sessenta o cenário era muito mais belo. Onde se vê as plantações outrora era ainda mata virgem, os cafezais se estendiam mais a direita. A mata original era linda e embelezava a paisagem e favorecia a uma rica fauna.
Mas atenho-me agora a falar mais precisamente do querido e saudoso Morro da Onça. Com freqüência costumava passar a cavalo numa trilha que cortava sua encosta esquerda ou de Jipe com meu tio ou meu avô. Era o caminho que levava à Fazenda do tio Orosimbo que ficava a uns 6 quilômetros da fazenda do vovô. Costumávamos revezar semana sim semana não íamos passar o domingo lá e as vezes acompanhava meu avô em suas idas a negócio com o tio Orosimbo.
Ao passarmos ao lado do Morro costumava ficar olhando para o seu topo e almejando o dia que eu pudesse subir até lá e poder observar os quatro pontos cardeais. Sabia que de lá poderia ter uma bela visão ao Sul das bandas do Rio Grande, do Porto dos Mendes e em destaque se via o Morro de Ponta, local em que meu avô morou quando mamãe era criança. Eu gostava de ir lá com meus avós. Era um lugar pitoresco. Do lado norte, bem distante se via no horizonte o delinear da cidade de Campo Belo esbranquiçada mesclando-se com o céu azul salpicado de brancas nuvens. Ao oeste se avistava a Fazenda da mata e ao Leste a Fazenda do vovô avistando-se a sede toda imponente ao pé do Morro dos Maias ou dos Pimentas.

Enquanto eu vivia meus primeiros anos de vida, minha primeira infância, não havia outro meio senão contemplar diariamente a beleza do Morro da Onça e sonhar com o dia que eu pudesse aventurar-me pelas suas matas e atingir a pedreira que cobria seu cume.
O tempo naquela época parecia não passar, demorava-se muito para chegar o final de semana, as festas de fim de ano, os aniversários. Eram dias intermináveis, parecia que o relógio era bem preguiçoso. Ao contrário de hoje.
Só sei que tudo acabou passando e quando percebi já estava morando em São Paulo e não via a hora de chegar as férias de meio do ano e as de final de ano para lá na Fazenda ir matar a saudade.
Nos primeiros anos que se sucederam, depois de estar morando em São Paulo, geralmente combinava com os meus primos para irmos juntos. Íamos eu, minha irmã Bernardete, as vezes o Pascoal também e lá nos reuníamos com a Raquel, a Juanita, a Jane, a Aríete, o Dalmo William e a Denise e deixávamos vovô bem nervoso com nossas aventuras. Os outros primos, Cida, o Antonio, o Rogelio geralmente não participava de nosso grupo lá na fazenda. Poucas vezes se reuniram a nós a não ser quando íamos todos para a cidade.
Na fazenda organizávamos os dias todos com muita aventura, escaladas de morro, nadar no açude (uma piscina natural adaptada num buraco de onde se retirava terra para fazer tijolos). E lógico começamos a planejar e executar nossas aventuras no Morro da Onça. A primeira vez que escalamos o Morro da Onça, levamos uma bandeira branca feita com tecido que pegamos lá da vovó, acho que um velho lençol. Ficamos orgulhosos em deixá-la tremulando lá no topo de uma árvore.
Levamos frutas e lanches para passar um bom tempo lá em cima, o dia todo. A subida fui um tanto cansativa, pois tivemos que ir a frente das meninas, eu, Pascoal e Dalmo William abrindo trilha e ajudando-as a passar pelas pedras que haviam no caminho. A encosta era toda ladeada de grandes pedras e vegetação rasteira sob as árvores. Haviam nos alertado sobre o perigo das Cascavéis que eram muito comuns naquele morro. Por isso a nossa primeira escalada foi de muito suspense e certo medo. Felizmente nem mesmo encontramos com nenhum tipo de réptil para nossa sorte e tranqüilidade.
Ao chegar ao topo, como imaginávamos, havia uma grande pedra formando uma laje, em certo declive claro, mas própria para organizar um belo piquenique vislumbrando um belo cenário. O dia estava quente, era pleno verão, mas a brisa que soprava lá em cima ajudava a refrescar um pouco o calor que sentíamos. A água que levamos estava no fim, o que valeu foram as laranjas e mexericas que levamos conosco.
Pudemos observar e saborear aquele cenário maravilhoso. Viam-se as estradas, os trilhos que cortavam os campos verdes, as casa dos camaradas, as fazendas ao longe se destacavam das casas dos camaradas que pareciam todas minúsculas. Os trilhos formados pelo gado que contornavam o vale desenhavam linhas sinuosas que serpenteavam todo o morro lá em baixo levando o gado até a grota onde iam matar a sua sede.
No topo do morro mal podíamos ouvir algum ruído daquelas casinhas lá em baixo na colina, apenas o barulho do vento e o canto dos pássaros.
Bom seria ter uma casa construída lá no topo. Como seria bonito ver o nascer e o por do sol de camarote todos os dias. Observar qualquer pessoa, animal, ou veículo que se aproximasse vindo de algum ponto. Lá de cima podia se ter uma visão privilegiada dos quatro quantos, que maravilha. Mas o sol se adiantava e começava a dar sinal de fim de dia. O pessoal lá na fazenda devia estar apreensivo conosco, tínhamos que apressar nossa descida. Por isso levantamos, com pesar e começamos a descida, mas já planejando outro retorno ainda naquelas férias.
A volta foi tranqüila, ainda deu para parar no pé do morro e apanhar algumas mangas deliciosas e ir saboreando-as enquanto caminhávamos. Chegando a fazenda estávamos todos felizes a contar a nossa façanha e a descrever a beleza que se vê lá de cima para mamãe e a vovó que ouviam atentamente e admiradas. A hora do jantar se aproximava e deixamos as meninas irem para o banho primeiro ficando nós os homens para o final.
Outras escaladas foram planejadas e executadas naquelas férias e em outras. Sempre foi com a mesma alegria e aventura, mas, a que mais marcou foi a primeira vez que lá estivemos. Esta ficou na memória de todos nós e ainda posso sentir aquele vento, e parece que ainda estou vendo toda aquela paisagem a minha frente.
Tudo parece ter mudado, a Fazenda da Mata onde vivi meus melhores dias da infância não é mais como era, a Fazenda do tio Orosimbo, também acho que não mais existe, mas o Morro da Onça, este sim, está lá do mesmo jeito imponente observando tudo e a todos a seu redor. Apenas sofreu com a derrubada da mata ao seu pé, foi o que pude observar em minha última vista dele.
Ah que saudade sinto de minha terra natal... saudade do Morro da Onça de minha infância!
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A velha Caixa D'água

Na cabeceira da Praça que hoje chama-se Praça Menoti D'Aura havia até final da década de 50 uma velha Caixa D'Água. Era uma torre de mais ou menos 8 ou 10 metros . O reservatório era sustentado por quatro pés de ferro e havia um emaranhado de canos de ferro que distribuía a água para acidade.
O local era aberto, não havia a Praça, apenas uma faixa de terreno que abrigava a velha matriz que ficava abaixo, no meio, e depois sim já havia a outra Praça mais antiga.
O local da Caixa D'Água era como que um pouco de encontro, pois era ali que as pessoas esperavam a jardineira*, o caminhão ou a carona para retornar a roça, ao campo.
Gostava de ficar ali brincando, vendo os meninos com seus papagaios (pipas) coloridos, e observando o pequeno movimento das pessoas por ali.
De um lado havia a velha casa da minha bisavó, a mãe-vó, bem em frente a casa do tio Leonardo e do outro lado na esquina da rua da Cava o velho armazém Souza. Olhando-se para baixo, deparava-se com o fundo da velha Matriz que ficava entre o Colégio Dom Cabral de um lado e do outro o Colégio São José e a Casa Paroquial.
Como não havia ainda a Praça, o espaço que havia entre a Caixa D' Água e a velha Matriz era usado frequentemente para receber grandes Circos, como o Circo Norte Americano, Circo de Moscou, Circo de Napoli entre outros.
Circo na cidade era uma grande festa, a propaganda era feita com um grande desfile pelas ruas da cidade, grandes caminhões levavam os animais selvagens em jaulas e em carros menores iam os alegres palhaços e o carro do som anunciando o espetáculo e distribuindo panfletos!
Lembro-me de dois espetáculos, um por volta de 1954, queria ir ao Gran Circo Norte Americano e não tinha dinheiro, depois de muito insistir, lembro-me que minha Avó foi pedir para a mãe dela, a Mãe-Vó, dinheiro para o meu ingresso... lembro-me bem que a minha bisavó foi nos seus guardados e pegou umas moedas, não sei o valor hoje, mas sei que ela disse, olha vou pegar esse dinheiro do Diogo para você ir. Fui, acho que com a minha avó Anita e minha mãe. Era um drama, O Direito de Nascer. Apesar de não entender bem a estória na época, lembro que muito me comoveu! Ainda consigo lembrar da Mamãe Dolores, de sua voz, de sua feição...
Durante o dia, minha mãe, minha tia e outras mulheres ficavam a espreita para trocar alguma conversa com as atrizes que circulavam tranquilamente pela cidade.
Outro espetáculo, foi mais tarde, creio que por volta de 1955 ou 1955, pois meu avô já havia comprado a casa da Rua Antonio Modesto, no número 66, centro. Havia um Circo, o nome não me recordo, estava instalado próximo a Estação Ferroviária, como eu queria ir.. minha mãe conversou com um casal que morava próximo a nossa casa, devia ser conhecidos de meus pais. Acho que foi a primeira vez que sai com estranhos. Fui com eles, era noite, o espetáculo terminou tarde mas gostei muito do espetáculo. Este, não era show dramático, era show com animais, tigres, leões, panteras negras, elefantes, e saltitantes bailarinas, trapezistas, alegres palhaços e um animado time jogadores de futebol formado apenas por cães adestrados. Nossa, que mundo maravilhoso e encantado aquele mundo circense!
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A Casa onde Nasci !

O nome da rua ... não me lembro mas da rua, da casa, da vista que eu tinha da janela do quarto, da varanda...ah ainda está muito nítida em minha memória!
A casa ainda existe, aparentemente continua da mesma forma...
A rua é uma rua de subida, fica na saída da cidade, do lado sul, antiga saída para Aguanil, Porto dos Mendes, Boa Esperança.
Lembro-me dos caminhões que subiam a rua com seus motores cansados exalando aquela fumaça preta do diesel. Gostava de sentir aquele cheiro no ar, era algo diferente do campo... Além dos poucos caminhões que subiam a rua, durante o dia, passava além dos leiteiros em seus cavalos carregados de leite que era vendido de casa em casa... gostava do apito das carroças, da corneta anunciando a venda de picolés, ou de pães...
Ah quanta saudade vem na lembrança daquela primeira casa que me acolheu!
Lembro-me dos meus primeiros banhos que eram disputados pelas primas da minha mãe, (o nome delas não me recordo, apenas de como eram) e por minhas tias.
Não era nenhuma banheira dessas coloridas... era uma bacia de zinco colocada em cima de um suporte, não sei, mas acho que era um banquinho de madeira... mas era um banho delicioso, isso lembro muito bem!
A casa, por dentro, não era muito alegre não, achava um tanto escura, o quintal nos fundos da cozinha, era um misto de mato e canteiros com alguma verdura. Meus avós moravam na fazenda, a casa da cidade era apenas para os finais de semana quando todos vinham da roça, da fazenda.
Além das lembranças vivas já citadas, lembro-me de uma vez ao entrar no quarto ver meu pai chorando, não lembro ao certo se era devido a situação que passava nos primeiros anos de casamento, o meu nascimento que trouxe meus pais a casa de meus avós ou se meu pai estava doente, não sei ao certo. Sei que logo depois desse dia, soube que ele e minha mãe iriam para o Rio em visita ao meu tio Antonio, padre que morava no Rio de Janeiro. Lembro que fiquei sem nenhum problema com meus avós e com minha tia Gabriela que eu não me separava nunca!
Mas logo meus pais estavam de volta. Vieram com muitas estórias que eu ouvia atento!
Falavam da visita a um Navio de grande porte que meu tio levou-os para visitar... minha mãe falava como era grande por dentro, do mar imenso... narravam os passeios feitos ao Pão de Açúcar, a Quinta da Boa Vista, às praias e ao Palácio do Catete. Eram muitas estórias que me encantavam e sempre que as repetia para outras pessoas eu ficava atento para ouvir de novo!
Uma outra imagem forte que guardo foi a saída de um cortejo funerário saído de uma casa que ficava do outro lado de casa, um pouco mais abaixo. Lembro que acompanhei minha mãe e minha avó até a mureta do jardim e ficamos vendo a saída do cortejo, sei que era um caixão roxo com alças douradas. Fiquei a olhar aquela cena até sair rua acima e desaparecer rumo ao cemitério paroquial.
Pouco tempo depois, antes que eu completasse dois aninhos, a casa foi vendida e meu avô mudou para a Fazenda da Mata, só comprando outra casa na cidade anos mais tarde.
Neste período a nossa ida para a cidade ficava na casa da minha bisavó, a mãe vó, casa do tio Juarez e algumas vezes na casa da tia Dolores.
Eu não gostava muito, pois mesmo na minha inocência, eu já não me sentia em casa, era meio estranho, incômodo apesar de ser muito bem tratado e querido pelos tios e primos !
Essas são algumas das minhas memórias de infância, da mais tenra infância! Da casa onde nasci! Até da parteira, a "Sinh'ana" na época freqüentava mais amiúde esta casa!
São doces memórias!
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Recordações da infância


As noites frias e profundas me trazem recordações, sensações, impressões, de uma fragrância de infância de criança.
Noite fria, céu estrelado, a lua bailando lá no céu de julho. No casarão se via a fumaça branca que subia pela chaminé, as janelas semi-fechadas deixavam ver a movimentação na cozinha em volta do fogão a lenha. Era férias de meio do ano, o sossego, a tranqüilidade e o silêncio já não era como os de todas as noites. Vovô e vovó que normalmente a esta hora já estariam dormindo permaneciam até mais tarde reunindo os netos em volta do fogão, assando queijo na chapa e a pedido dos netos contando causos. Vovó sempre preocupada conosco cuidava de preparar algumas quitandas para comermos. Sempre ouvia se ela dizer: menino, come alguma coisa, toma leite!Pegue uma *tigela e come com farinha!A noite avançava e o frio aumentava lá fora! O que fazia que nos mantivéssemos todos em frente o braseiro que consumia lá no fogão.Acostumados a deitarem cedo, com pouco meus avós se retiravam ao quarto e ficávamos por ali ainda, falando mais baixo para não incomodar mas conversando muito, rindo e matutando o que fazer no dia seguinte.Como o céu estrelado era muito bonito, apesar do frio, antes de dormir ainda ficávamos lá no alpendre ou na janela do quarto observando as estrelas cadentes que eram freqüentes e imaginando como seria a vida noutros mundos.De vez em quando ficávamos quietos, pensativos só observando lá em cima o céu repleto de estrelas e na escuridão na mata o pisca pisca dos pirilampos e vaga-lumes que invejando as estrelas reluziam o campo e as matas.O silêncio muitas vezes era quebrado por um piado de alguma ave noturna que cortava o espaço em vôo rasante. Lá no pasto, nalgum tronco a coruja piava ! Vez ou outra ouvia se outras aves noturnas aqui ou acolá.Muito assunto, muita conversa mantinha nos acordado até que exaustos um a um ia se deitar para logo mais ao nascer do sol todos de novo começar a nossa lida!
Assim eram nossas férias na fazenda e hoje resta-nos apenas as sensações, impressões de uma fragrância de infância, de criança. E a certeza de que fomos muito felizes e aproveitamos o tempo que se foi e jamais voltará!
Postado há 28th October 2006 por Adauto Neves
Marcadores: ¨ Tigela - pote de louça que vovó logo de manhã enchia de leite uma para cada um e guardava no armário para a noite. (Não havia geladeira)
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O pequeno polegar


O dia em que quase perdi o polegar
Era uma criança que desde cedo fui acostumado a ajudar meus pais nos afazeres da casa. Havia hora para trabalhar, estudar e brincar.
Nunca fui obrigado a fazer trabalhos pesados, mas sempre tive vontade de ter minhas pequena plantação, queria aprender a cultivar a terra e diante de meu pedido papai deixou uma pequena área para eu plantar. Ah como era gratificante depois de algum tempo ver germinar as sementes, crescer o feijão, o arroz, as ramas de batata, mandioca, as hortaliças.
Papai plantava de tudo para o nosso sustento e sobrava até para vender. Havia um plantio de mandioca que dava para fazer farinha e polvilho. Para facilitar o beneficiamento ele construiu uma engenhoca para ralar a mandioca exigindo-se pouca força devido as rodas e engrenagens da máquina. Até uma criança como eu, de sete, oito anos conseguia mover a manivela do ralador manual.
Certo dia, enquanto meus pais cuidavam de outros afazeres pedi para adiantar o serviço indo ralar mandioca. Não precisava de muita força para mover a roldana, o trabalho ia bem. Com a mão direita movimentava a manivela e com a esquerda empurrava a mandioca que produzia uma massa alva e espessa. A bacia aos poucos enchia daquela massa, tudo estava indo tranqüilo e sem cansaço.
De repente, o branco tornou-se rubro, mal pude perceber o que havia acontecido.
Como de repente aquela massa alva manchava-se de vermelho forte?
Foi tudo tão rápido que só depois de um tempo pude perceber o que havia acontecido.
Segurava firmemente a mandioca com minha mão esquerda quando de repente acabou se a raiz e foi o meu dedo sem que eu percebesse.
Os dentes do cilindro cravaram em meu dedo polegar deixando ranhuras profundas e quase o deslocando.
Deixei o local e segurando meu dedo com a mão direita e sai correndo gritando por meu pai.
- Pai, paieeeeeeee!
- O que foi filho?
Correu comigo para dentro de casa colocando logo um punhado de sal grosso com água lavando bem o ferimento que continuava sangrar.
Tratou de colocar um pano em volta amarrando-o e pegando-me ao colo acalentando-me na tentativa de acalmar-me.
Os dias se sucederam e o machucado estava com mau aspecto e ainda doendo muito.
Falei com meu pai que o meu dedo polegar estava com mau cheiro, e que o ferimento estava piorando.
Foi ai que ele resolveu levar-me ao Porto dos Mendes onde tio Cristiano possuía uma pequena farmácia, a única da região.
Chegando lá tio Cristiano tirou aquele pano que servia de curativo e fez uma assepsia terminando com um bom curativo com gazes e esparadrapo. Receitou-me alguns remédios e orientou papai como cuidar e fazer novos curativos.
Já se passou quase 50 anos e no meu dedo as marcas deste episódio do dia que quase perdi meu polegar.
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Libertas quae sera tamem

A humanidade inventou mecanismos para dominar as mentes e desviar os seres humanos de seu trajeto original!
No Princípio o homem era livre e senhor de si...
Então começou a criar normas, regras, e impor verdades e continua até os dias de hoje...
Cada vez mais restringindo a verdadeira liberdade dele próprio.
Hoje, está reduzido a números, senhas e a uma série de convenções que obriga cada pessoa viver de acordo com os interesses da classe dominante!
Os seres mais primitivos ainda são livres, não estão sujeitos a normas, a convenções... Vivem segundo seu instinto, seu desejo, livre e quando sentem a presença humana, fogem para não perder a liberdade original. Vejam só os animais e mesmo as tribos mais primitivas são ainda livres, vivem mais junto à natureza e mais felizes.
Outrora, fez se dos mais fracos escravos para servir os mais poderosos.
A escravidão acabou.
Acabou?
Não, apenas mudou se a forma de escravidão...
Hoje a maioria dos seres humanos vive submissos a uma escravidão maior!
Observem, nascem e são confinados a um carrinho, a um berço com grades, depois para aprender a andar são colocados num andador com cinto de segurança que mal podem se mexer. Depois, leva-se para uma escola, onde recebem uma série de regras a seguir, horários rígidos. Em casa, têm que ter horário para sair e voltar. Horário de comer, tomar banho, e de dormir e levantar, ... o pior... acordar cedo!
Mais tarde, encontra alguém que gosta e ai começa um ritual de pedir permissão, obedecer a horário e muitas outras coisas.
Ao resolver casar, pensa em liberdade, ter a própria casa, não estar mais sobre a submissão dos pais... engana-se mais uma vez!
Começa então uma outra forma de reclusão, fica preso um ao outro.
Cobra e é cobrado de horários, atitudes e outras coisas mais!
De submisso passa também de opressor, quando os filhos chegam ai o papel de opressor aumenta mais ainda sobre eles!
Que liberdade é essa?
Vive-se sob regras impostas por uma sociedade, são eternos escravos de um grupo, de interesses coletivos, de um governo, de uma religião!
O Homem foi livre um dia?
Voltará o homem a ser livre um dia?
O que é a liberdade para você?
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Diones
Diones

Esse escrito me fez lembrar a minha amada! Gostei muito. Parabéns...