Lista de Poemas

Recordações da infância


As noites frias e profundas me trazem recordações, sensações, impressões, de uma fragrância de infância de criança.
Noite fria, céu estrelado, a lua bailando lá no céu de julho. No casarão se via a fumaça branca que subia pela chaminé, as janelas semi-fechadas deixavam ver a movimentação na cozinha em volta do fogão a lenha. Era férias de meio do ano, o sossego, a tranqüilidade e o silêncio já não era como os de todas as noites. Vovô e vovó que normalmente a esta hora já estariam dormindo permaneciam até mais tarde reunindo os netos em volta do fogão, assando queijo na chapa e a pedido dos netos contando causos. Vovó sempre preocupada conosco cuidava de preparar algumas quitandas para comermos. Sempre ouvia se ela dizer: menino, come alguma coisa, toma leite!Pegue uma *tigela e come com farinha!A noite avançava e o frio aumentava lá fora! O que fazia que nos mantivéssemos todos em frente o braseiro que consumia lá no fogão.Acostumados a deitarem cedo, com pouco meus avós se retiravam ao quarto e ficávamos por ali ainda, falando mais baixo para não incomodar mas conversando muito, rindo e matutando o que fazer no dia seguinte.Como o céu estrelado era muito bonito, apesar do frio, antes de dormir ainda ficávamos lá no alpendre ou na janela do quarto observando as estrelas cadentes que eram freqüentes e imaginando como seria a vida noutros mundos.De vez em quando ficávamos quietos, pensativos só observando lá em cima o céu repleto de estrelas e na escuridão na mata o pisca pisca dos pirilampos e vaga-lumes que invejando as estrelas reluziam o campo e as matas.O silêncio muitas vezes era quebrado por um piado de alguma ave noturna que cortava o espaço em vôo rasante. Lá no pasto, nalgum tronco a coruja piava ! Vez ou outra ouvia se outras aves noturnas aqui ou acolá.Muito assunto, muita conversa mantinha nos acordado até que exaustos um a um ia se deitar para logo mais ao nascer do sol todos de novo começar a nossa lida!
Assim eram nossas férias na fazenda e hoje resta-nos apenas as sensações, impressões de uma fragrância de infância, de criança. E a certeza de que fomos muito felizes e aproveitamos o tempo que se foi e jamais voltará!
Postado há 28th October 2006 por Adauto Neves
Marcadores: ¨ Tigela - pote de louça que vovó logo de manhã enchia de leite uma para cada um e guardava no armário para a noite. (Não havia geladeira)
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Poeta



“O poeta é um fingidor,
finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor,
a dor que deveras sente.”
 
                               Fernando Pessoa
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Aconteceu no Natal

Os Shoppings Center estavam lotados de pessoas em busca de presentes, as luzes encantavam a todos com seus arranjos festivos de Natal. As ruas com um movimento intenso de vai e vem de pessoas e carros apressados.
Era já véspera da tão sonhada Noite de Natal.
Eu absorto em meus pensamentos dirigia meu carro rumo à casa de minha irmã onde encontraria a família já reunida. O trânsito estava apressado, todos a caminho de suas casas ou indo para encontrar os amigos, os parentes para com eles festejarem.
De repente, num cruzamento entre duas avenidas movimentadas o sinal fecha e eu parei meu carro a espera do sinal verde.
- Moço! Moço!
Surpreendi-me com aquela voz de criança do lado de fora. Deparei-me com uma menininha, cerca de 8 anos, mal trapilha com uma caixa na mão.
- Moço, compra uma bala. Compra moço!
Eu fora pego de surpresa, um pouco assustado ao meio daquele corre-corre e respondi de imediato:
- Meu amor, eu não tenho dinheiro trocado!
- Ah moço compra!
Olhei dos lados, apenas aquela garotinha estava ali ao meio dos carros, não havia mais nenhum ambulante, nenhum vendedor de farol.
De repente surpreendo-me com a atitude daquela menina.
- Moço, pega a metade. Fica com esta metade e eu fico com a outra!
Fiquei sem palavras com aquele gesto, com as mãozinhas estendidas sobre o vidro de meu carro entreaberto. Titubeie, mas não poderia fazer tal desfeita com o gesto daquela criatura inocente!
- Muito obrigado meu amor.
Mal tive tempo de vasculhar o bolso em busca de algum trocado, fui abalado pelas buzinas impacientes dos carros que estavam atrás do meu.
Então me dei conta do farol que já estava verde e tinha que prosseguir mas antes olhei para os lados e não vi mais a menina de vestido claro e surrado. Desapareceu... e eu fui obrigado a prosseguir, pois todos estavam pedindo passagem em meio ao trânsito.
Mal consegui conter a emoção daqueles instantes atrás! Segui meu trajeto ao encontro dos meus familiares e anos já se passaram, mas a imagem daquele anjo permanece em minhas lembranças!
Por onde andará tal criança? Uma simples mortal ou um ser celestial!?
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RMV - Rede Mineira Viação

Lembranças da velha estrada de ferro - Lembranças da velha estrada de ferro - RMV.
RUIM MAIS VAI
Rede Mineira Viação (que levava inscrito em seus vagões a sigla R M V ) é o nome da antiga ferrovia mineira que cortava as alterosas levando pessoas, gado, café e minérios. Conhecida pela sua deficiência mas querida pela tradição era carinhosamente chamada de Ruim Mais Vai. Só pra se ter uma idéia, um trajeto que hoje se faz em pouco mais de três horas, levava-se 12 horas com a velha Maria Fumaça que tranqüilamente cortava campos, colinas e montanhas enquanto uma nuvem de fumaça singrava os céus. Até o final da década de cincoenta reinava a Maria Fumaça, no alvorescer dos anos sessenta chegaram imponentes as primeiras locomotivas a diesel. Era comum o embarque e desembarque de gado nos vagões apropriados, de madeira pintadas de vermelha. A Estação Ferroviária era o lugar mais movimentado, à noite passava o "noturno" que vinha de São Paulo e ia até o norte de Minas. O seu apito era quase um aviso para a cidade adormecer, depois que se ia a cidade acabava de se aquietar e se preparar para o novo dia
Rede Mineira Viação (que levava inscrito em seus vagões a sigla R M V ) é o nome da antiga ferrovia mineira que cortava as alterosas levando pessoas, gado, café e minérios. Conhecida pela sua deficiência mas querida pela tradição era carinhosamente chamada de Ruim Mais Vai. Só pra se ter uma idéia, um trajeto que hoje se faz em pouco mais de três horas, levava-se 12 horas com a velha Maria Fumaça que tranqüilamente cortava campos, colinas e montanhas enquanto uma nuvem de fumaça singrava os céus. Até o final da década de cincoenta reinava a Maria Fumaça, no alvorescer dos anos sessenta chegaram imponentes as primeiras locomotivas a diesel. Era comum o embarque e desembarque de gado nos vagões apropriados, de madeira pintadas de vermelha. A Estação Ferroviária era o lugar mais movimentado, à noite passava o "noturno" que vinha de São Paulo e ia até o norte de Minas. O seu apito era quase um aviso para a cidade adormecer, depois que se ia a cidade acabava de se aquietar e se preparar para o novo dia
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EU E O PRESIDENTE

Hoje relembro com saudade daquele tempo de criança em que na simplicidade vivi grandes momentos que hoje recordo com emoção.
Um dos fatos que lembro é o dia que o Presidente Jânio Quadros visitaria minha cidade, Campo Belo – MG.
O Ano era 1960, o mês não me recordo, acredito que tenha sido no início do lançamento da Campanha Presidencial.
Lembro-me da “vassourinha” que foi seu mote de campanha e do jingle que ecoava o tempo todo pelas ruas da cidade e até mesmo no campo: “varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já 'tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!, e também se dizia "homem do tostão contra o milhão". recordo também dos cartazes com a foto do Jânio estampada por todos os lugares e vassourinha que eu mesmo exibia com orhulho. Mesmo tendo apenas 9 anos gostava de ver meu avô comentar e discutir política com seus amigos fzendeiros principalmente na época de Getúlio Vargas quando mandou cortar os cafezais, lembro-me muito bem do meu avô revoltado com a situação política na época.
Havia o tio Cristiano que estava sempre metido com grupos políticos da região, fora até vereador na década de cincoenta e lembro-me bem da rivalidade entre seus opositores. A UDN (União Democrática Nacional) era um partido forte na época. Muitas vezes deparava-me com tio Cristiano reunido com seus aliados e surpreendia-o muitas vezes em discussões efusivas e com frequência falavam da UDN. Recordo certa vez passando em frente ao sobrado onde estava reunido com partidários ao me ver deixou o grupo e veio todo sorridente me ver e me abraçar lá na calçada por onde passava.
Os meus tios avós falavam muito sobre Jânio Quadros que seria com certeza o novo presidente do Brasil.
Certo dia ouvi a notícia sobre a visita do candidato a presidência em nossa cidade! Fiquei atento a conversa e logo percebi que todos iriam numa carreata esperar o Jânio Quadros no Campo de Aviação que na época fica cerca de doze quilõmetros no lugarejo chamado Santana do Jacaré nome de um afluente do Rio Grande que corta o Município do Porto dos Mendes, onde residia o tio Cristiano e a família toda por parte de meu pai. Na época costumava ficar o tempo todo na casa da minha bisavó, casa do tio Juarez onde normalmente se reuniam diariamente todos os tios. Não poderia deixar de ouvir os comentários sobre os preparativos da carreata que aconteceria no dia seguinte e logo quis saber se eu poderia ir junto.
- Lógico que você pode ir Adauto – respondeu logo a tia Arlete.
Fiquei muito feliz e mal podia esperar para acontecimento inédito, ia conhecer o futuro presidente do Brasil e vê-lo chegar de avião no Campo de Aviação.
Todos os meus tios possuiam um Ford 29 que na época era chamado de “furreca”, igual a este da foto.
O tio Renato, o tio Gumercindo e o tio Mário sempre iam na fazenda da vovó e deixavam estacionado debaixo do velho ipê na porteira em frente a sede. Eu gostava de ficar lá na frente do carro olhando o ipê florido através do vidro do parabrisa da “furreca”. Parece que as flores, os galhos e as nuvens formavam um cenário maravilhoso, era como se fosse um filme, uma miragem!
Mas voltando a carreata, saimos todos em fila pela estrada de terra rumo ao campo de avição, antes mesmo de sair da cidade todos apontaram para o céu onde o avião do Jânio começava a sobrevoar e o cortejo se apressava ao destino.
Podia perceber a cor do avião pintado já com as cores da bandeira nacional, verde e amarelo. Logo chegamos no campo de aviação e vimos o bimotor que trazia o candidato aterrisar naquela pista de terra deixando para trás uma nuvem de poeira.
Pouco depois os carros, todos iguais (não haviam muitos modelos diferentes) estavam já a postos para retornar a cidade, ao hotel Maracanã onde o Jânio Quadros ficaria hospedado.
Como o Hotel era de meus tios, acampanhei a comitiva até o saguão do hotel e pude estar junto com o ilustre visitante e acompanhar a movimentação mesmo sem se dar conta do assunto.
Muitos anos depois, em 1985 me encontro novamente com Jânio Quadros - agora candidato novamente, mas à Prefeitura de São Paulo.
Estive juntamente com o Gutierres, amigo pessoal do Jânio, durante uma visita ao Diretório do PDB em Itaquera e lá pude estar com ele e conversar sobre sua visita a minha cidade natal há trinta e cinco anos atrás. Disse-me que recordava sim desta visita de campanha e da cidade.
Depois de uma conversa, num gesto de intimidade pega no bolso de minha camisa um maço de cigarro e diz:
- Vou pegar um cigarro seu e assim o fez sem cerimônias.
Não pude esconder um certo desconforto pois o cigarro que eu tinha no bolso era uma marca comum, dos mais baratos, mas isso não lhe pareceu nenhum problema e continuamos ainda conversando sobre educação e cultura além da necessidade de apoio a sua candidatura, claro.
Depois posamos para algumas fotos e durante o resto de sua campanha pude juntamente com o Gutierres acompanhá-lo por muitos bairros da Zona Leste.
A partir dai, mesmo depois de seu mandato de Prefeito, pude participar de vários encontros com o mesmo.
Cheguei a participar também do MRP - Movimento Renovador Político fundado por ele e comandado pelo Dr. Paulo Zing. Eram reuniões um tanto eruditas que se falava ainda de grupos comunistas atuantes no Brasil na década de oitenta e da necessidade de combatê-los e até assumindo discursos bizarros.
Lembro-me que nesta época estavm sempre nas comitivas o cantor Moacyr Franco entre outros fiéis seguidores do Ex-Presidente Jânio Quadros.
E sinto-me honrado por ter em vários momentos participado de alguns momentos com esta ilustre figura e guardo com carinho e envaidecido de possuir um “bilhetinho” caraterística marcante deste político. Sempre que queria passar alguma mensagem escrevia um “bilhete” !
Assim guardo mais esta recordação de que “eu conheci pessoalmente Jânio da Silva Quadros” .
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ALMA DE GATO

Vovô  levou-me nos braços para mostrar a fazenda que havia comprado. Foi lá que vovó fora criada e eu logo de início gostei muito. 
Vovô todo orgulhoso disse me:
- filho, tudo isso agora é seu!
Colocou-me no chão e eu comecei a correr e explorar cada canto do casarão. Eu fiquei maravilhado com tudo, com tantos lugares, quartos, salas, varanda, cozinha, fogão a lenha enorme, banheiro com água quente aquecida e havia até uma banheira. As janelas de todos os cômodos mais pareciam portas de tão grandes e todas haviam duas partes a parte com vidros (vidraças) e a outra de madeira maciça.
E lá fora, havia um mundo para explorar, pomar, riacho, cachoeira, curral, mangueiral (onde criavam os porcos soltos), a tulha (armazém de cereais) o paiol (celeiro), nossa havia muita coisa a explorar e eu era praticamente sozinho, pois eu tinha apenas dois aninhos.
O tempo foi passando e eu cada vez mais gostando daquela fazenda, a vida lá era uma festa todos os dias, levantar cedo e observar a lida do meu avô, da minha avó e dos camaradas era muito divertido.
Eu estava sempre no meio dos adultos e gostava de ouvir estórias!
Sempre pedia para um camarada do vovô chamado Osmar para contar as suas estórias, mesmo que fossem repetidas.
Havia um pássaro que todos os dias era visto no alto de uma árvore próximo ao curral chamado Alma de Gato. Eu sempre corria para observar aquele pássaro quando ele aparecia por lá mas logo batia asa e desaparecia.
Meus olhos brilhavam quando avistava uma Alma de Gato só de imaginar o tesouro, as pedras preciosas e os diamantes que escondia em seu ninho, o qual ninguém consegue encontrar.
Osmar e vovó também contava que esta ave é guardiã de um tesouro imenso e que fica muito bem escondido n´alguma serra e que ninguém ainda conseguiu encontrar pois ele é muito esperto e zeloso.
Gostava de acordar bem cedo para apreciar a ordenha das vacas, tomar leite quentinho tirado na hora. Vovô já preparava logo uma caneca de alumínio para que eu bebesse o leito logo cedo.
Após a ordenha, cada qual saia para seus afazeres e eu corria lá para perto da árvore onde logo que o sol começasse a aquecer traria com seus raios a enigmática Alma de Gato e eu ficava a espiar lá de baixo a ave sorrateira no topo da árvore! Sonhava por descobrir seu esconderijo, mas sempre acabava perdendo-a de vista.
Assim passava a maioria dos meus dias de infância enquanto ficava com meus avós.
A Alma de Gato já não mais aparece por lá, pois sua árvore fora há muito cortada e meu sonho de encontrar aquele tesouro se perdeu...
Hoje quase nada mais é como antes, basta um vôo virtual pelo Google Earth para ver que a Fazenda da Mata já não mais existe, ah que tristeza!
A Alma de Gato para longe voou carregando seus tesouros e os sonhos daquela criança.
 
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INCIDENTE BATIZADO


Era uma manhã ensolarada, a família toda reunida preparava-se para o batizado do meu primeiro irmãozinho. O padre arrumava-se para o a grande cerimônia, o batizado do sobrinho. Morávamos bem ao lado da igreja no pequeno vilarejo do Porto dos Mendes da década de cinqüenta. Naquele tempo corria garboso e ainda jovem o Rio Grande em direção a Serra de Boa Esperança. O mesmo rio que décadas antes servia de leito para os poderosos vapores que carregavam o progresso entre São Paulo, Minas e outros estados do Brasil.
Mas voltando aquele domingo, todos já na igreja aguardavam o padre Antonio iniciar o esperado batizado do Pascoal e da Neuza, nossa prima.
A família tinha mais de um motivo para tanta alegria, além das crianças queridas o celebrante era o padre Antonio, o querido tio Tonho.
Estavam todos em volta da Pia Batismal, eu ainda uma criança de quatro anos buscava um espaço para acompanhar aquela, (acho minha primeira) cerimônia religiosa. .
Não sabia se prestava mais atenção no meu irmão que chorava a beira da pia batismal ou se admirava as vestimentas brancas e a estola verde que tio Tonho usava.
De repente, algo inesperado que aconteceu lá fora quebrou o ritmo daquela cerimônia. A atenção toda se voltou para a rua lá fora. Eu, sem saber o quê ocorria, corri para a janela a procurava de uma explicação. Foi quando eu vi o tio Tonho colocando as mãos na cabeça de um homem que caiu do caminhão.
Na verdade o que ocorreu foi o seguinte, enquanto o batizado estava ocorrendo, um caminhão cheio de jogadores de futebol estava indo em direção a Balsa para atravessar o Rio Grande e um dos passageiros na euforia do grupo e depois de beber cachaça acabou caindo do caminhão e tio Tonho num ímpeto fraterno correu preparado para aplicar, se necessário, a extrema-unção
Porém, nada de mais grave aconteceu além de algum ferimento na cabeça e logo o padre retornou a igreja e a cerimônia continuou o seu ritmo festivo.
Terminando a cerimônia religiosa todos se uniram num grande almoço para comemorar os recém batizados e também festejar a presença do tio padre em nosso meio.
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Vivências Sutis

Meus pais moravam em São Paulo, mas minha mãe voltou para Campo Belo, MG, cidade natal, quando eu estava para nascer. Depois de certo tempo, passado toda aquela euforia do primeiro filho, do primeiro neto, o segundo sobrinho. Mamãe já estava mais acostumada com a nova situação de mãe, voltou para São Paulo, onde meu pai trabalhava. Voltávamos a casa dos avós sempre no fim de ano. Lembro-me que viajávamos por dois dias, pernoitávamos em Cruzeiro, SP para seguir viagem no dia seguinte. Era apenas um neném, mas lembro-me do local onde ficávamos, parece que era um hotel popular, pois o cheiro do banheiro era sensível. Durante a cansativa viagem de trem, a Maria Fumaça eu lembro perfeitamente das fagulhas que saiam da chaminé da locomotiva e entrava pela janela daquele vagão de madeira. Mas ficava bem curioso de observar tudo, paisagem, movimentação de pessoas... Lembro-me numa dessas viagens, parece que foi numa das voltas a São Paulo, encantei com uma menininha mais velha que eu que me fazia rir muito com suas gracinhas. Antes de completar dois aninhos, lembro-me que meu pai resolveu mudar de vez para Minas e confesso fiquei muito feliz. Chegamos em Minas - meu avô já havia vendido aquela casa em que eu nascera, por isso ficávamos, na cidade, na maioria das vezes na casa da tia Dolores, ora na casa da Mãe Vó (a minha bisavó materna). Morávamos mesmo com meus avós maternos na fazenda que não sei o nome, pois lá ficamos pouco tempo, logo meu avô comprou outra fazenda que foi de meu bisavô um pouco mais adiante, e bem maior. A Fazenda São João, e a anterior só me lembro de sempre se referirem a ela como a Fazenda do Eurico, lembro sim de lá, da casa, dos cômodos, que eram um pouco escuros, acho que por causa das árvores frondosas que haviam em volta da sede e por isso entrava pouca luz nos cômodos. Recordo-me do açude que tia Gabriela nadava e me levava sempre e lembro-me da casinha onde a Jane, o Tonho e outras crianças maiores brincavam de casinha com a tia Gabriela; era no meio do pomar rodeada de laranjeiras. Há muitas passagens na lembrança desta fazenda, que serão narradas em outras narrativas. A mudança aconteceu de repente, fui dar conta no dia em que meu avô chegou comigo no colo, e diante daquele casarão enorme, olhando e mostrando-me aquelas janelas enormes disse: - " filho isso aqui um dia será tudo seu! " Não entendi as palavras naquela hora, entendi que era ali que iria viver. Os primeiros dias eu chegava a me perder naquela casa, no corredor, nos cômodos e aos poucos fui me acostumando e adorando aquela fazenda. Tudo era muito alegre, muito movimento e uma vista que não havia na outra casa. Os empregados, o velho Alexandre, a Mariana, a Dorva, o Izé, todos vieram se juntar a outros que já trabalhavam na fazenda. Com essas pessoas conhecidas e familiares tornou minha adaptação mais fácil e aproveitei os anos que seguiram até seguirmos para o sitio no Morro Grande. Dos dois aos 9 anos com freqüência experimentei algo que eu mal conseguia entender e jamais comentar com quem quer que fosse! Sabia que jamais acreditariam em mim! Passei boa parte de minha infância no campo, na fazenda de meus avós, na Mata da Caatinga, município de Campo Belo e em nosso sítio do Morro Grande, no distrito de Porto dos Mendes próximo às margens do velho Rio Grande. Não possuía amigos da minha idade, crianças além dos irmãos menores e os primos que encontrava na cidade nas épocas de festas como Semana Santa, Páscoa, Natal e em outros encontros familiares. Passava maior parte de meu tempo nos arredores da fazenda, ou do nosso sítio, caminhando por ali e por acolá. Sempre que podia me juntava aos mais velhos para ouvir as estórias dos antigos! Costumava sentar-me ao pé de um frondoso Ipê amarelo que ficava na porteira em frente a sede, ou me retirava para uma laje de pedra bruta que ficava no alto de uma serra, de onde contemplava todos arredores. Muitas vezes, me vi numa situação fora de meu controle. Não sei como, saia voando sobre a sede, o pomar, os cafezais, e meio sem saber... e sem entender como ... eu aproveitava aqueles instantes, sentindo-me deslizar suavemente pelo ar como os pássaros. Era uma sensação maravilhosa, confesso... mas assustadora! Eu sabia não ser uma habilidade normal e passível de entendimento e compreensão. Por isso jamais compartilhei com ninguém tais experiências! Confesso, não era uma situação totalmente sobre meu controle, não acontecia sempre quando eu queria, as vezes me deparava com a situação quando menos esperava, mas aprendi logo a aproveitar esses momentos, pois eu sabia de algum modo não eram comuns. Sentia deslizar pelo ar, vendo de cima aquela pastagem verde sob meus olhos, o gado espalhado pela colina parecia ser pequenas peças de brinquedo, tinha uma visão de todo o pomar matizado de pontos amarelos, dos frutos, entre as diversas tonalidades de verde. Observava serpenteando sob as árvores atravessando o fundo da fazenda o córrego que abastecia a casa sede e a dos empregados. Mas eu não ousava sair das imediações... era uma situação fantástica mas um tanto aterrorizante pois não tinha o controle total que com certeza os pássaros possuem. Só me lembro que com um simples esforço de meus braços e pernas esticadas eu conseguia subir, descer e mudar de direção. Mas de repente, as coisas foram mudando, meus pais começaram a se preocupar com o meu crescimento, a necessidade de mandar-me para a escola, e de uma hora para outra descobri que estávamos para mudar para São Paulo. Era uma grande mudança, mas sabia que ia poder freqüentar escolas e tantas outras coisa que eu já arquitetava em meus sonhos... Sabia que de certo modo que eu deixaria o meu mundo para trás e sabia que isso não seria fácil.O tempo foi passando, cresci, amadureci, e nas minhas leituras e busca de conhecimento aprendi um pouco sobre xamanismo, os estados alterados de consciência, as experiências fora do corpo, e as outras dimensões... Depois de muito tempo, há alguns anos atrás pude reviver tal emoção de “voar” saindo de meu corpo conscientemente, como na infância, porém com uma duração menor, não consegui ir muito longe e retornei. Jamais declarei tal experiência, somente agora revelo tais registros antes trancados em minha memória. Atualmente, essa é uma experiência de sair do corpo pode ser vivenciada conscientemente. Apesar de ser sabido que todos nós, durante o sono, costumamos sair do corpo e visitar outros lugares inconscientemente. Porém é raro nos lembrar disso a não ser, às vezes, como um sonho que tivemos. Atualmente há profissionais que utilizam técnicas que ajudam as pessoas a vivenciar experiência assim conscientemente.
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A velha Caixa D'água

Na cabeceira da Praça que hoje chama-se Praça Menoti D'Aura havia até final da década de 50 uma velha Caixa D'Água. Era uma torre de mais ou menos 8 ou 10 metros . O reservatório era sustentado por quatro pés de ferro e havia um emaranhado de canos de ferro que distribuía a água para acidade.
O local era aberto, não havia a Praça, apenas uma faixa de terreno que abrigava a velha matriz que ficava abaixo, no meio, e depois sim já havia a outra Praça mais antiga.
O local da Caixa D'Água era como que um pouco de encontro, pois era ali que as pessoas esperavam a jardineira*, o caminhão ou a carona para retornar a roça, ao campo.
Gostava de ficar ali brincando, vendo os meninos com seus papagaios (pipas) coloridos, e observando o pequeno movimento das pessoas por ali.
De um lado havia a velha casa da minha bisavó, a mãe-vó, bem em frente a casa do tio Leonardo e do outro lado na esquina da rua da Cava o velho armazém Souza. Olhando-se para baixo, deparava-se com o fundo da velha Matriz que ficava entre o Colégio Dom Cabral de um lado e do outro o Colégio São José e a Casa Paroquial.
Como não havia ainda a Praça, o espaço que havia entre a Caixa D' Água e a velha Matriz era usado frequentemente para receber grandes Circos, como o Circo Norte Americano, Circo de Moscou, Circo de Napoli entre outros.
Circo na cidade era uma grande festa, a propaganda era feita com um grande desfile pelas ruas da cidade, grandes caminhões levavam os animais selvagens em jaulas e em carros menores iam os alegres palhaços e o carro do som anunciando o espetáculo e distribuindo panfletos!
Lembro-me de dois espetáculos, um por volta de 1954, queria ir ao Gran Circo Norte Americano e não tinha dinheiro, depois de muito insistir, lembro-me que minha Avó foi pedir para a mãe dela, a Mãe-Vó, dinheiro para o meu ingresso... lembro-me bem que a minha bisavó foi nos seus guardados e pegou umas moedas, não sei o valor hoje, mas sei que ela disse, olha vou pegar esse dinheiro do Diogo para você ir. Fui, acho que com a minha avó Anita e minha mãe. Era um drama, O Direito de Nascer. Apesar de não entender bem a estória na época, lembro que muito me comoveu! Ainda consigo lembrar da Mamãe Dolores, de sua voz, de sua feição...
Durante o dia, minha mãe, minha tia e outras mulheres ficavam a espreita para trocar alguma conversa com as atrizes que circulavam tranquilamente pela cidade.
Outro espetáculo, foi mais tarde, creio que por volta de 1955 ou 1955, pois meu avô já havia comprado a casa da Rua Antonio Modesto, no número 66, centro. Havia um Circo, o nome não me recordo, estava instalado próximo a Estação Ferroviária, como eu queria ir.. minha mãe conversou com um casal que morava próximo a nossa casa, devia ser conhecidos de meus pais. Acho que foi a primeira vez que sai com estranhos. Fui com eles, era noite, o espetáculo terminou tarde mas gostei muito do espetáculo. Este, não era show dramático, era show com animais, tigres, leões, panteras negras, elefantes, e saltitantes bailarinas, trapezistas, alegres palhaços e um animado time jogadores de futebol formado apenas por cães adestrados. Nossa, que mundo maravilhoso e encantado aquele mundo circense!
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Mistério na Mata

A Fazenda da Mata, ou Fazenda São João fora do meu bisavô Abílio. Vovô João comprou a pelos idos de 1953 e lá passei os mais doces anos da minha infância.
Ah quantas estripulias, quantas aventuras lá vivenciei !
Nos primeiros dez anos a fazenda era muito freqüentada ainda pelos irmãos de Vovó, o tio Juarez, Tio Neném, Tio Mário, Tio Júlio, Tio Renato e a própria Vovó Dolores, Mãe Vó como a tratávamos. Os primos Nardinho, Diogo freqüentavam mais a casa. O casarão era estilo colonial, havia muitas dependências e por isso era possível receber muitos hóspedes.
Gostava quando minha avó Anita recebia umas amigas do Rio; Era um pessoal da cidade e eu ficava espiando de longe aqueles hábitos diferentes dos que eu conhecia.
Mas sentia mesmo a vontade quando nas férias reuníamos os primos lá Dalmilho, Jane, Raquel, Ariete, Denise, Antonio, entre outros. Mas estes citados eram os da minha época que mais compartilhávamos as aventuras e as brincadeiras. Minha irmã Bernadete era novinha e o Pascoal ainda muito criança nem podia acompanhar-nos em todo lugar.
Quando iam embora ficava aquela monotonia... não restava outra opção de vez em quando compartilhar algumas brincadeiras com os filhos dos camaradas.
No final da tarde chegava da roça acompanhados do pai e de outros funcionários o Carlinhos, o Toninho, e o José, (Zé) mas eram crianças de outro nível, muito simples e chegavam cansados mal podiam brincar.
Na fazenda, quando a tarde caia vovô corria para o lado do rádio, as vezes acompanhados por algum empregado e ficavam ouvindo programação de Música Sertaneja para irritação da minha avó que não gostava. Depois hora da novela no Rádio, minha avó e mamãe iam para o lado do Rádio enquanto meu avô se retirava, de vez em quando indo jogar truco lá na sala com os amigos.
Mal a noite se firmava todos começavam a retirar-se. Dormíamos cedo, pois a lida no campo iniciava-se cedo antes do nascer do sol.
A vida lá na fazenda foi modificando se radicalmente, o movimento, a lida com o cafezal, foi cada vez mais diminuindo. Meu pai levou-nos para um Sítio que herdara lá no Porto dos Mendes, no Morro Grande, meu tio To alba estudava fora, só vinha para a fazenda nas férias. Eu, sempre que podia ia passar uns dias lá e o meu quarto preferido era o do meu tio Toalba, pois ele dava as janelas todas para a frente e para o Curral, podia-se acordar cedo com a movimentação dos retireiros ao trazer as vacas para a ordenha.
Certa noite, estávamos só nós três, meus avós e eu. Como não havia companhia me recolhi cedo, ouvia cada badalado do velho carrilhão lá na sala próximo ao meu quarto. Fora isso e algumas vezes o som de algum pássaro noturno era silêncio total.
Podia-se ver as estrelas pela janela que eu sempre deixava aberta para contrariedade de vovó que ia nas pontas do pé e as fechava e eu da mesma forma as abria depois de algum tempo sem fazer ruído.
Era uma noite tranqüila, meus avós deviam star em sono pesado e eu ainda estava meio acordado pensando e olhando para as estrelas lá no firmamento.
De repente - ouvi a trava de madeira ser retira da porta da sala e ser colocada no canto. Como era piso de assoalho, e com o silêncio da noite ouvia se nitidamente o som. Levantei a cabeça, sem sair de minha cama, procurei ver se era meu avô ou minha avó que fora ver algo. Não podia evitar nada a não ser a porta acabando se abrir por total uma das partes.
Um silêncio profundo se fez até que ouvi a minha avó lá de seu quarto falar:
- menino! O que está fazendo ai ? Por que abriu a porta!?
Eu mal pude responder... balbuciando disse lá da minha cama mesmo;
- não fui eu, não sai da minha cama! E virei-me do lado obrindo-me e ficando quieto sem se mexer até que o sono veio!
Lembro que meu avô se levantou, fechou a porta, colocou aquela trave de madeira e saiu resmungando. Creio que pensara que fora eu fazendo arte.
Pude ouvi-lo a caminho de seu quarto;
_ Ara.. esse menino !...
No dia seguinte, levantei-me, meu avô já havia ido para a roça e encontrei minha vó lá diante do fogão a lenha!
Antes mesmo que ela disse algo perguntei-lhe:
- Vó, o que foi aquilo ontem?
- Não fui eu que abri a porta não!
Calmamente ela respondeu acalmando-me.
- Não se preocupe menino, deve ter sido papai, ele sempre aparece por aqui.
- No final de semana eu vou fazer uma visita lá no "Centro" e ver o que ele queria. ode estar precisando de oração.
E assim passou a semana e quando chegamos a cidade foi ela ao centro e contou-me depois que realmente era o Vô Abílio, ele sente saudades e vem sempre visitar a casa.
Mas está tudo bem sim com ele! - disse com toda a naturalidade. Acho que por isso nunca me assustei com fatos inexplicáveis. Aceito-os e acredito que: - " entre o céu e a terra há muito mais coisa que nossa vâ filosofia possa conhecer! "

Obs.: Vô Abílio faleceu dois anos antes do que eu nascera, eu não cheguei a conhecê-lo. Um porta retrato que vovó possuia dele me chamava muito a atenção, os seus olhos azuis, bem azuis.
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Comentários (1)

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Diones
Diones

Esse escrito me fez lembrar a minha amada! Gostei muito. Parabéns...

Sou um viajante do tempo, em busca de meus sonhos; na minha caminhada costumo ser alegre... rio, choro, me emociono com o olhar de uma criança, com o brilho do sol, da lua; o cantar dos pássaros. Sou um simples mortal que acredita na imortalidade da essência do Ser, do espírito . . As coisas que eu gosto? ... são as mais simples que existem. Gosto de ver o sol nascer, se por... ver a lua bailar no infinito espaço, e as estrelas enfeitando o manto negro e majestoso da noite... (e só de pensar que viemos e iremos ainda para alguma delas, chega a dar saudade ... !) Ver o rio correr tranqüilo seguindo seu curso sem reclamar, ouvir o sussurro do vento, o som dos pardais ao entardecer, o sorriso de uma criança, a sensualidade feminina, e tantas outras coisas mais que nos rodeiam!Como eu vejo as pessoas? ... Vejo as todas companheiras de viagem, indo em busca de algo; são viajantes das mais diferentes origens, oriundas de algum lugar do Universo e na maioria das vezes perdidas sem saber para onde irão e o que buscam ! Isto é triste! Sonhos ? ... sou um eterno sonhador ! " Sei, que n'algum lugar, muito além dos horizontes... nossos sonhos realmente acontecem! " Vou-me embora para PASARGADA , sonho de todo poeta, ir se embora para Pasárgada,..... Sinto-me privilegiado possuidor das chaves deste lugar, entretanto, sei que nada vale a pena se não for fruto de nosso próprio esforço... Do que adianta ser amigo do rei, ter tudo que se imagina e não ser feliz ? Prefiro seguir meu caminho, colhendo todas as pedras que encontro na estrada e utiliza-las para meu caminhar. Quem quiser ... acompanhe-me e caminhemos juntos!