Lista de Poemas

Aconteceu comigo.

Final de tarde, véspera de carnaval e a notícia que estaríamos trabalhando nomalmente nos três dias da grande festa brasileira.!
Mas como era sexta feira, tínhamos é que aproveitar máximo o final de semana enquanto a proxima não chegasse!
Saímos todos em direção ao estacionamento para nos dirigirmos aos nossos lares.
Como de costume às sextas feiras eu passo pela casa de meu filho Gabriel para levá-lo para Poá onde passa sempre o final de semana comigo.
O trânsito apresentava se moroso e congestionado, muita gente correndo para casa e pegar as rodovias rumo às praias ou outro destino qualquer, visto que a maioria das empresas não abrem no Carnaval.
Pouco antes de chegar em São Mateus, onde pegaria o Gabriel percebi que a luz vermelha acusava um super aquecimento do sistema de refrigeração do carro. Isso era grave, havia que se parar para resfriar o motor e verificar as condições.
_ Mas como e onde parar? - a avenida estava com enorme fluxo de carros e caminhões e não havia sequer um lugar para estacionar, nenhum Posto de Gasolina a vista.
A próxima saída, eu sabia, estava a mais de 500 m, não era bom arriscar, mas fazer o quê? Não havia outro jeito, segui em frente mantendo-me a direita!
Consegui sair da avenida e assim que alcancei a rua transversal parei na porta da primeira casa que eu vi que havia alguem.
Desliguei o carro, abri o capô e dirigi-me aquela casa!
Era uma senhora já de idade avançada que estava lá na lida doméstica, cuidando de alguns vasos de plantas na garagem.
Chegando ao portão vi que ela estava já entrando dentro da casa.
Chamei:
_ Senhora, senhora, pode fazer-me um favor?
Percebi que mesmo sem nada responder ela mostrara pronta a auxiliar-me, após ter narrado-lhe o que estava acontecendo com o meu carro.
Prontamente ela foi até a sala e retornou dizendo:
_ Vou abrir lhe o portão !
Percebendo a inocência da senhora fui logo dizendo-lhe:
_ Não minha senhora, não deve abrir assim o portão, nem me conhece?!
_ Eu quero apenas um vasilhame para eu levar a água e colocar no radiador, não precisa abrir o portão.
Assim ela concordou e trouxe me a vasilha com a água. Foi necessário mais outro galão que ela prontamente me arrumou
Ao término desta operação retornei para agradecer a bondosa senhora e devolver-lhe a vasilha.
_ Obrigado!
_ Muito obrigado e desculpe-me por ter pertubado a senhora.
Foi quando ela sorrindo ela me disse com tom de voz firme e com um sorriso nos lábios.
_ Não. De modo algum!
_ Quem perturba é o "demo" ! (num tom mais sério)
_ E você... não é um "demo" !
Depois de ouvir estar palavras fiquei sem saber o que mais dizer .... virei-me e ainda disse mais uma vez:
_ Obrigado, muito obrigado!
E ao sair com meu carro dali, com o problema resolvido pude ainda vê-la pelo retrovisor de pé olhando me serenamente meu carro desaparecer.
Assim é a nossa vida, sempre aparece algo que acaba mexendo com a gente e essas coisas ficam por muito tempo em nossa memória. Principalmente as coisas boas, as pessoas que Deus coloca ao nosso redor para nos ajudar na hora de maior necessidade!
 
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TRAVESSIA A CAVALO NA BALSA

Era final da década de 50, a vida no Morro Grande era demasiadamente pacata, passávamos dias sem ver a presença de uma pessoa estranha a família. Na divisa de nosso sítio havia uma estrada, mas dificilmente se via alguém passar por ela. Algumas vezes se via algum caminhante que ia a direção do Porto dos Mendes. A estrada, mais adiante, do outro lado do morro que ligava a Cidade e o Porto passava a velha Jardineira pela manhã indo para a cidade e a tardezinha ouvia se o ronco do motor cansado voltando. Um dia ou outro ouvia se o ronco do motor de algum caminhão ou a caminhonete “pick up William” de um fazendeiro lá da beira do rio que ia ou voltava da cidade. A noite sim se via, com mais freqüência, a luz ao longe, no pé da serra os carros que vinham da Rodovia Fernão Dias em direção a cidade de Boa Esperança. Do mais não se ouvia nem o barulho de avião cortando os céus. Mas a natureza era pródiga em pássaros e grande variedade de outros animais que quebravam a monotonia do lugar com seus cantos e sons específicos.
Raramente íamos ao povoado de Ribeirão ou Porto dos Mendes, a não ser quando meu pai precisava comprar alguma coisa na venda ou quando me mandava ir vender hortaliças no povoado - jiló, tomate, repolho ou outro produto de nosso sítio.
Logo de manha papai preparava duas *caçambas cheias dos produtos a serem vendidos, colocava na sela do cavalo e não esquecia da medida, uma lata de óleo vazia, para medir o produto. Acontece que eu sempre queria agradar aos fregueses e colocava sempre um pouco mais que a unidade da medida padrão (o litro). Quando chegava a casa sempre era questionado pelo resultado da venda que era sempre menos do previsto. Explicava que eu sempre colocava um pouco mais da medida para cativar as pessoas para de outras vezes comprarem de mim e não de outros. Lembro que isso justificava um pouco, mas não agradava totalmente papai.
O povoado era pequeno, muita gente possuía a sua própria horta, o que dificultava a venda, por isso às vezes ia até o povoado do Sapecado que ficava na outra margem do Rio Grande. Mas papai alertava sempre que eu deveria deixar o cavalo do lado de cá, no Porto para não ter que pagar duas passagens na Balsa.
Mas certa vez resolvi ir ao Sapecado a cavalo, era mais cômodo, tomei a Balsa e embarquei o cavalo também pagando duas passagens, papai não precisaria saber, o dia parecia estar produtivo já havia vendido boa parte e sabia que lá no Sapecado venderia o restante. Não havia o que se preocupar. Mas papai não poderia saber, pois certamente haveria uma boa bronca. Atravessei o rio com o meu cavalo e lá fui eu pelas poucas ruas que havia todo imponente levando meus produtos e oferecendo de casa em casa.
Qual não foi a minha surpresa ao passar pela praça, em frente à Capela vejo surpreso o tio Pedrinho lá aguardando a hora do horário da Balsa para o Porto dos Mendes. Não pude deixar de mostrar meu contentamento ao ver meu tio por lá, mas por outro lado subiu um arrepio de medo do que poderia acontecer se ele se encontrasse com meu pai e falasse que me encontrou no Sapecado e a cavalo! O que tivesse que acontecer aconteceria, nada mais poderia fazer e passei o resto do meu tempo ao lado do meu tio até a travessia do rio.
Ao final da tarde, já a noitinha, cheguei a casa e encontrei papai e mamãe aflitos querendo saber como foi o dia e porque chegara tão tarde. Contei que havia vendido tudo e que havia encontrado o tio Pedrinho lá no Sapecado e que havíamos atravessado a Balsa juntos, depois passei para ver a tia e por isso a demora.
Nem queria imaginar se o tio Pedrinho viesse a contar-lhe sobre o cavalo. Porém sabia que assim que meu pai estivesse com ele isso seria inevitável. A verdade é que comecei a sofrer antecipadamente. Certo dia meu pai esteve no Porto e quando voltou veio direto ralhar comigo. Ele não costuma bater em mim, nem nos meus irmãos, mas só o modo que falava ralhando era o suficiente para ficar muito triste e até chorar. Vez ou outra, em caso mais grave levava-se uma palmada ou um puxão de orelha. Não mais que isso.
Mas atravessar a balsa com o cavalo nunca mais! Voltei mais vezes em busca da freguesia lá para os lados do Sapecado, mas sempre deixando o cavalo amarrado ao bambuzal que fica ao lado da base da Balsa. E jamais esqueci do encontro inesperado com meu tio.
Depois de quase cincoenta anos, outro dia destes, falei com meu tio sobre essa passagem, ele sorriu e com sentimento de culpa disse-me: - Uai, você me desculpa então, eu não sabia que você teria problemas.
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Uma aventura no Quartel

Era ano de 1969, havia me inscrito no Serviço Militar no 17º Regimento de Cavalaria que ficava na cidade onde estava, em Pirassununga, interior de São Paulo.
Um dos motivos que me atraiu foi a Cavalaria, sempre gostei de cavalos e por isso achei que ia me dar bem.
Realmente, desde os primeiros dias isto foi comprovado. Mas as atividades eram muito diversificadas e os cavalos ocupavam apenas uma parte de nossas tarefas.
Recebi o meu cavalo, não era aquele cavalo, mas logo me entendi com ele e por um ano fomos bons amigos. Conheci seus pontos fracos e ele, acredito, os meus também.
Os exercícios eram coisas fáceis para mim já acostumado com montaria desde criança. Apenas a equitação foi novidade. Saltar obstáculos, trincheiras, etc. Mas logo eu e meu cavalo entramos no ritmo e não houve problemas!
Passado alguns meses foi anunciado que o Quartel todo participaria de uma Manobra Militar em conjunto com a Aeronáutica na Fazenda dos Ingleses!
Sabia que seria um exercício de guerra! Apesar de tudo fiquei dividido entre a aventura de ir e a de escapar de tal façanha!
Foi ai que tive uma idéia!
Procurei o meu superior imediato, o Sargento Gregório e Wantuil e comuniquei, como era estudante na Escola Pública da cidade não poderia faltar à semana de provas!
(Na verdade não era semana de provas, apenas um pretexto para escapar e ficar na cidade)
Apresentei-me ao Sargento, bati continência e disse:
- Sargento Gregório, eu estou com um problema, não poderei faltar às provas da semana!
Com olhar severo, olhou-me e disse:
- Descansar soldado!
- À vontade!
- Vou comunicar ao Major e logo trarei a resposta para você. Mesmo assim continue com os preparativos.
- Obrigado Sargento, disse eu.
Passado algum tempo veio em minha direção o Sargento Gregório, para o qual me coloquei em continência.
- Fique a vontade soldado.
- O major Lara não lhe dispensou das manobras, porém após os exercícios uma das viaturas o trará para a cidade e no dia seguinte o levará ao campo de treinamento!
- Obrigado Sargento - e logo me desfiz da continência.
Chegou o dia da partida, às seis horas o soldado corneteiro toca o toque de alvorada e toda a tropa já com suas mochilas corre em direção ao Rancho para a primeira refeição do dia e logo em seguida partir.
A viagem foi longa, os pelotões seguidos de seus batedores seguiam em fila indiana trotando pelas colinas e serras verdejantes.
Ao atravessar a Rodovia Dutra, uma operação foi montada em conjunto com a polícia Rodoviária para a Tropa passar!
Armamentos, munições e rações eram carregados por cavalos que seguiam a tropa.
A viagem corria tranqüila até o momento que veio um:
- Alto Companhia!!!
Correu a notícia alvissareira de que um incidente havia ocorrido com um dos Pelotões.
Logo vimos um dos veículos de retaguarda passar pela tropa, era um carro de ambulância.
A notícia logo veio.
- Pessoal um dos cavalos foi atingido por uma mina (de festim)!
A exclamação ecoou pelas colinas num só “ ohhhhhh ”.
A indagação permaneceu no ar.
- Quem estaria no cavalo ?
- O soldado também se feriu!?
- Foi grave, o que realmente acontecera!?
Felizmente o incidente apenas feriu o cavalo que pisou numa das minas espalhadas no trajeto. Foi colocado no caminhão ambulância e levado ao Quartel para cuidados médicos!
- Ufa ! – todos respiraram aliviados!
A viagem continuou tranqüila, às vezes até cochilávamos em cima dos cavalos visto que estávamos marchando todos em fila indiana.
Passamos por uma fazenda com imensos laranjais e logo ao me aproximar me estranhei ao ver muitos soldados, dos que estavam à frente, invadindo o laranjal.
Alguém me encorajou a fazer o mesmo dizendo:
- Não se preocupe, todo prejuízo do laranjal é ressarcido pelo Exército.
Foi ai que tranquilamente eu desci do meu cavalo, amarrei-o numa árvore e me uni aos demais que estavam a saborear doces laranja e outras frutas.
Depois de um bom descanso recebemos ordem para entrar em forma e marchar.
Passamos por algumas ruínas de velhas senzalas e fomos comunicados que ali há poucos dias o Exército havia desmantelado alguns guerrilheiros de São Paulo. (Era plena ditadura militar da Revolução de 1964).
Logo chegamos a Fazenda dos Ingleses. Passamos em frente à sede e depara com um senhor magro de boné sentado em sua cadeira de balanço a espreitar a tropa que passava.
Apenas alguns oficiais rumaram em direção a varando onde estava aquele senhor. Parece que para cumprimentá-lo, pois a fazendo a ele pertencia.
Ficamos sabendo depois que aquele senhor de aparência esquia e tranqüila fora um oficial do Exército Britânico.
As primeiras atividades foram montar o Acampamento. As barracas eram utilizadas por dois soldados cada uma.
À tarde rápida chegou e antes mesmo de terminarmos as tarefas ouvi o meu nome ser chamado por um dos oficiais!
- Soldado 294 favor apresentar-se!
- Soldado 294, Neves apresentando! (Corri e coloquei-me à ordem.)
Mas uma dúvida surgiu logo em seguida. Em forma e batendo continência parei-me em frente ao oficial perguntando.
- Senhor! E como faço com o meu cavalo.
Numa rápida atitude o Tenente olhou para o primeiro soldado a sua frente e pediu que além do seu cuidasse também do cavalo 132, o meu!
Fiquei sem palavras, pois era um de meus amigos e sabia que ele ficaria com responsabilidade dobrada. Mas o que eu poderia fazer. Ordens são ordens!
Logo embarquei numa viatura que saiu ainda antes do sol se por e em pouco tempo estava na cidade longe daquele território de treinamento de guerra.
Não pude deixar de lembrar dos colegas que lá no campo estavam a enfrentar uma noite repleta de incidentes.
Mas este segredo eu tinha que guardar, não podia mais voltar atrás.
E assim perdurou a situação durante toda a manobra na Fazenda dos Ingleses. De dia eu participava dos exercícios e a noite ia para a cidade numa viatura do Exército especialmente destacada para isso!
Esta é uma das doces lembranças que o tempo não apagou
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MORRO DA ÉGUA

Era uma daquelas tardes de verão em que as cigarras pareciam estar afinando o som para uma grande orquestra. O sol brilhava e algumas nuvens carregadas despontavam no horizonte, mas grande parte do céu mantinha-se azul. Papai disse a mamãe que precisava levar a massa de mandioca seca para vovó fazer a farinha lá na fazenda e que iria mandar-me levar a cavalo.
Preparou dois sacos (50 kg), encheu-os da massa de mandioca já seca, amarrou os sacos e ajeitou-os na garupa da égua que estava já encilhada e pronta para me levar a fazenda da Mata. Se apressasse iria chegar lá antes do anoitecer, era uma boa caminhada, umas duas ou três léguas de distância (aproximadamente 15 km). Mas como ia carregado, a égua não era assim tão ligeira, precisava se apressar e papai logo despachou-me recomendando que eu fosse direto com medo que a chuva me pegasse no caminho.
Eu tinha apenas oito anos de idade mas sabia me virar e conhecia bem o caminho para a fazenda do vovô.
Após as recomendações de meus pais, tomei a bênção de papai e de mamãe e pulei na sela em meio a carga que iria transportar e segui meu caminho.
Passei pela fazenda da Beija, depois em frente a venda lá na beira da estrada do Porto e segui em direção ao Morro da Égua. Agora entrando numa trilha que cortava o morro em direção ao Morro da Onça, nenhuma casa, nenhum sítio ou fazenda a não ser depois, lá do outro lado ao terminar a descida do Morro havia sim um Sítio com uma casinha com um curral ao lado bem na beira da estrada, mas ia demorar a chegar lá.Enquanto caminhava lentamente no lombo da égua pelas trilhas daquele morro, ia sentindo os dois sacos pendurados na garupa cada qual querendo pender para um ou outro lado. Mas estava bem amarrados, não havia perigo de cair, pensava e aproveitava para olhar uma ou outra fazenda que se avistava ao longe podendo visualizar a silhueta esbranquiçada da sede com seus telhados vermelhos escuros. No caminho cruzava apenas com bandos de anús espalhafatosos e alguns gaviões em busca de presas em seus vôos rasantes. Lá em cima parece que São Pedro estava preparar alguma faxina bem pesada. As nuvens se aglomeravam e o céu começara a escurecer de repente. Isso não era bom sinal, a égua mostrava-se sinal de cansaço e não apressava os passos e eu começava a me preocupar pois não havia nenhuma casa ou abrigo a vista. E as chuvas de verão costumam ser fortes e com muitos raios e trovões por estas bandas. O que fazer ? Nada senão continuar o percurso, já estava começando a descida do Morro da Égua, voltar agora não dava mais, com um pouco mais de sorte chegaria ainda antes do anoitecer no mínimo na fazenda do tio Orosimbo, assim pensava eu.De repente um trovão esbravejou de tal modo fazendo um grande eco no vale lá em baixo na mata. Outros raios e trovões se sucederam, cada vez mais fortes e de repente veio a chuva que preencheu todos os cantos que minha vista alcançava. O que fazer ? Senti que os sacos de massa de mandioca seca já não eram mais secos e certamente o peso duplicaram no lombo do animal. Desci, tomei as rédias e a dianteira e num grande esforço continuei debaixo daquela chuva a puxar e conduzir a égua que antes me transportava. Ficar ali, debaixo daquela chuva, debaixo de árvores não era bom, havia muitos raios. Tinha que chegar naquele sítio lá em baixo e pedir auxílio!
A noite antecipou sua vinda, tudo ficou escuro mal podia ver a trilha a minha frente e cada vez mais eu me esforçava para puxar a égua que não estava mais suportando o peso, mas não podia fazer nada, eu nem agüentaria tirar de seu lombo aqueles sacos, cada um do meu tamanho e agora encharcados muito pesados. Conversava com a égua, pedindo-lhe calma e que colaborasse para que pudéssemos chegar num abrigo. Na medida do possível ela procurou entender-me e seguiu-me.
Já podia avistar uma fraca luz a cerca de uns mil metros, sabia que estava chegando no sítio lá na baixada, ufa que alívio!
Sai da trilha e rumei em direção daquele sítio, a luz de lamparina agora estava mais forte e podia ter a certeza de que havia alguém lá.
Abri a porteira do curral e levei minha égua para uma cobertura e dirigi-me a porta da sala e chamei: - Ó de casa? - Tem alguém ai?
- De casa?
- Oi, quem é?
- Nossa, marido tem um menino aqui todo molhado!
Fui logo dizendo a dona:
- Sou filho do Walter, neto da Anita e do João Dolores.
- Uai, entra menino, vamos trocar esta roupa molhada.
Nisto o marido foi lá no curral retirar os sacos e a sela do lombo da égua. A dona tratou de arrumar uma calça e camisa do marido, embora grande, vesti e me aqueceu depois de me secar com uma toalha que ela me deu.
Na casa só havia o casal, já era tarde e a dona tratou de arrumar a cama no quarto de hóspedes e disse para eu ir deitar e seguir viagem no dia seguinte eu agradeci e fui me recolher.
No dia seguinte, bem cedinho levantei, vi que o tempo havia melhorado, já não chovia mais e o sol estava para nascer. Tomei um gole de café com leite quentinho com uns biscoitos de polvilho. Logo agradeci a pousada, a acolhida e segui minha viagem, um pouco adiante passei pela casa do Osmar, um camarada do tio Orosimbo, logo depois passei pela fazenda do tio Orosimbo que já estava na lida lá pelo curral. Sem mesmo descer da égua tomei a benção e segui ao meu destino.Por volta das sete horas da manhã, ao cruzar o Morro da Onça o sol já brilhava no céu agora límpido ! Já podia avistar a fazenda da Mata. A fumaça branca saindo da chaminé denunciava já a Vó Anita em sua lida diária.
Chegando apeei de minha égua, antes mesmo de retirar-lhe a carga subi pelas escadas do alpendre lá da sala e fui direto a cozinha onde surpreendi minha vó que olhou espantada.
- Nossa menino, chegou cedo hein?
Mal sabia ela o que sucedera na noite anterior. Ai comecei a narrar o que aconteceu e onde busquei abrigo.
Ela confessou então que havia pensado em mim e achava que eu não viria devido ao mal tempo e ficou aliviada por ver me bem e a salvo.
Missão cumprida ! A tardezinha, depois de assegurar-me que o tempo não iria piorar retornei ao Morro Grande para não preocupar meus pais. Naquela época não havia como se comunicar, não havia telefone.
A volta foi tranqüila pelo bom tempo e pelo fato de agora não estar carregando nenhuma carga pesada. E para quem já cavalgou deve saber que o animal caminha melhor quando está retornando. Cheguei em casa antes do sol se por e encontrei meus pais ansiosos pois meu pai havia tido alguns pressentimentos na noite anterior e inclusive mamãe me contara que ele ouvira um grande ruído, um estrondo muito forte lá na encosta do morro e havia ficado muito preocupado comigo.
Contei tudo o que havia ocorrido e que apesar do susto, do frio e do medo consegui abrigo e depois seguir viagem com tranqüilidade.
Hoje, lembro destes fatos com saudade e até me orgulho de situações que enfrentei apesar da tenra idade naquela época.
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O PODER DA PALAVRA

Lembre-se: aquilo que se traduz em palavras vem na realidade a se manifestar. Conscientize-se que as palavras têm poder criador e as utilize sabiamente.
A palavra tem força criadora, segundo o escritor intelectual Lourenço Prado que nos dá uma aula sobre o poder da palavra. Diz ele: Se conhecêsseis o poder de vossas palavras, teríeis grande cuidado nas vossas escritas e conversas. Bastar-vos-á observardes a reação de vossas palavras para verificardes que elas não voltam vazias . Por meio das palavras que escreveis ou pronunciais, estais estabelecendo continuamente leis para vós mesmos. As forças invisíveis agem sempre a favor daquele que está continua e corajosamente avançando para a frente, embora não o saiba. Em virtude das forças vibratórias das palavras, quando o indivíduo escreve ou fala alguma coisa, começa a atraí-la para si.
Cada palavra que expressais, exerce uma ação na vossa vida pessoal, a qual será a vosso favor ou contra vós, conforme a idéia expressa pela palavra. Com efeito, cada palavra que emitirdes (da forma que for) é uma expressão, a qual produz uma tendência particular em determinada parte de vossa entidade. Essa tendência pode manifestar-se em vossa mente, no vosso corpo, na vida química deste último, no plano dos desejos, no caráter, em qualquer de vossas faculdades, vindo em seguida, a produzir seus efeitos materiais.
Extraido do Jornal NOVO TEMPO
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Os anos cinqüenta...

Os anos cinqüenta foram anos de muitas criações inovadoras !
Foi no ano de 1950:
- Que apareceu a primeira televisão no Brasil deixando as pessoas maravilhadas diante de uma telinha - vendo cenas serem apresentadas ao vivo, de improviso!
- Foi um ano Santo declarado pelo Vaticano.
- Os primeiros cartões de crédito chegaram ao Brasil, não como os de hoje, mas de papel!
- Nos lares brasileiros surgem muitos inventos que vieram ajudar as mulheres nos seus afazeres.
- A máquina de lavar automática;
- a enceradeira;
- a batedeira elétrica;
- o rádio portátil a pilha, o maior sucesso em todo o país. Mesmo nos mais longíguos recantos podia se ver alguém com um radinho no ouvido!
- O Disco de Vinil, o LP Stéreo;
- o bambolê, alegrias das meninas;
- o robô mecânico sonho de todo menino e quantas outras invenções mais nasceram nestes anos cinqüenta!
Ah e o mais importante não poderia deixar de falar - um nascimento (risos) importante:
o ano que cheguei aqui neste Planeta aos 24 de Fevereiro!
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Meu Encontro com Mojica

Era início da década de sessenta.
Meus pais acabavam de retornar para São Paulo depois de quase 10 anos em Minas Gerais.
Era um garoto da roça, conhecia sim o mundo do campo, os rios, as florestas, os pássaros, enfim a natureza! A vida simples e maravilhosa do campo.
Filho de família religiosa, católica, logo minha mãe procurou colocar-me no colégio das freiras, o Externato Nossa Senhora do Sagrado Coração e logo incentivou-me a ingressar no grupo de coroinhas do Santuário do Sagrado Coração, em Vila Formosa, São Paulo.
Meus dias passaram a ser no Externato e na Igreja sobrando pouco tempo para ficar em casa!
Participava ativamente de todas as celebrações de domingo a domingo.
Logo conquistei a confiança e a proteção da Madre Superiora e do Vigário além da atenção especial do Irmão Afonso que era o responsável pelos coroinhas.
Atuava nas apresentações religiosa tendo representado o menino Jesus aos doze anos e outras crianças bíblicas.
Certo dia ao chegar, como de costume, antes da missa das sete, o irmão Afonso destacou-me a ajudar a missa de um visitante que estava hospedado na Casa Paroquial. Lá fui eu. Como a missa era em Latim mal percebi a origem do Padre. Apenas sabia que era de outra Ordem, pois usava hábito de monge e não dos Missionários do Sagrado Coração.
Foi depois de ter me despedido daquele Monge, dias depois que o Irmão Afonso contou-me quem era o ilustre visitante.
Contou-me que ele havia sido um cantor muito famoso na Espanha e que depois do auge de sua carreira ele resolveu abandonar a carreira artística e tornar-se um monge.
E que uma de suas músicas mais conhecidas era o "Jura-me" ... mal pude conter meu espanto!
Jura-me era uma canção que minha mãe falava sempre e quando chegamos em São Paulo ela pediu para o meu pai procurar um disco que tivesse essa música.
Corri para casa e quase sem fôlego... contei para a minha mãe o ocorrido dias atrás.
Mas o Monge já havia partido e até hoje só ficou a lembrança de que "eu conheci Frei Mojica" o autor de Jura-me !
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"JOSÉ MOJICA pode ser apontado como um dos grandes artistas latinos do século. Através dos discos, filmes e apresentações pessoais, sua arte de cantor e figura de galã foram levadas a todas as partes do mundo. Depois que se tornou sacerdote-cantor, acrescentaria a essa fama e admiração o respeito pelos seus predicados humanos. Nasceu José Mojica, em 14.9.1896, na cidade de San Miguel, Estado de Jalisco, no México, com um nome extenso: Cresenciano Abel Exaltación de la Santa Cruz de Jesus Mojica Montenegro y Chavarín. Só quando se fez adulto, sua mãe, D. Virgínia Montenegro, contou-lhe que seu pai tinha sido um médico que noivara com ela e a abandonara por já ser casado e com dois filhos. De um casamento posterior, D. Virgínia teria outro filho, que faleceria bem pequeno. Não seria feliz no casamento, pois o padrasto de José, de nome Francisco e dono de oficina em que fabricava sapatos, demonstrou ser um homem extremamente violento, por causa disso condenado a alguns anos de prisão, não mais voltando ao convívio da família depois de libertado. Mulher tenaz e muito religiosa, D. Virgínia incutia em José os ensinamentos e a fé católicos. Um dia, sentindo o desprezo da gente do local, decide deixar San Miguel para tentar melhor sorte na capital mexicana. Vende por pouco dinheiro as propriedades que ainda possuía e toma com José o trem para a Cidade do México. Era 1906. Na capital matricula-o no Colégio Santa Maria e a seguir numa escola pública. Vivem os dois uma existência bem modesta com alguns episódios desagradáveis, como aquele em que, em suas ausências, ladrões despojam de tudo a casinha em que habitavam. Para que possam sobreviver, trabalha como costureira e utiliza-se das reservas trazidas. José continuaria seus estudos na Escola Nacional de Agricultura, fechada durante os acontecimentos da revolução de 1910. Como estudante deixa-se envolver pela política, tendo corrido sério risco de morte no momento em que os revolucionários chegam à capital. Ao mesmo tempo em que cursa agricultura, estuda piano e pintura. Não lhe passa pela cabeça a idéia de cantar. Confessaria mais tarde que "nunca tive e nem tenho paixão pelo canto. Tinha sim, e tenho, paixão e vocação para a pintura. Fui cantor famoso, mas nunca pude encontrar tempo para pintar. O cultivo da arte é absorvente. Em quaisquer de suas manifestações, o homem é limitado e Deus o leva sempre para onde convém mais." De certa feita em que estudava solfejo no Conservatório, os alunos são convidados a participar dos corais de uma nova companhia de ópera que se estava formando no Teatro Ideal. Quando são perguntados se desejam fazer um teste de voz, levanta a mão apenas por levantar. Ao saber que tinha voz de tenor sente uma estranha sensação. Sua mãe fica contra essa ameaça de mudança na direção dos planos traçados para ele, mas José argumenta que era uma oportunidade de ganhar algum dinheiro. A conselho da mãe concorda em tomar lições de canto para ter a certeza de que de fato tinha talento. É o que faz durante certo tempo, até se apresentar na companhia, não mais como pretendente a um lugar no corpo coral, mas como solista de pequenos papéis. Suas qualidade potenciais são reconhecidas pelo célebre maestro mexicano Cuevas, que se oferece para ministrar-lhe aulas. O progresso de Mojica evidencia-se cada vez mais, tanto que passa a primeiro tenor. A escola de Agricultura, que reiniciara as aulas, perdia definitivamente um aluno. Em busca da fama e da fortuna, parte em 1916 para Nova Iorque, integrando um conjunto formado por Carmen Garcia Cornejo, soprano, Angel Esquivel, barítono, e Julio Peimbert, pianista, sendo empresariados por Maria Grever, notável compositora mexicana de futuro renome mundial. O resultado da aventura é desanimador, dada a falta de oportunidades. Mojica termina por lavar pratos durante meses num restaurante. Mesmo assim é ouvido a cantar no trabalho trechos de óperas, com isso vindo a receber aulas de uma senhora chamada Blackman. Quando sua triste e desalentadora situação parecia não ter nenhuma saída, afortunadamente é convidado a se juntar a uma grande companhia de óperas em vias de ser montada em sua pátria. Da noite para o dia vê-se ao lado de nomes célebres da cena lírica mundial. Daí em diante sua ascensão gradativa não teria percalços ou descontinuidade. Terminada a temporada, começa outra com a presença do maior astro do bel-canto mundial, Enrico Caruso, do qual se torna bom companheiro. No final de 1919, volta aos Estados Unidos numa situação bem diferente da primeira vez, pois contratado pela Chicago Opera Company. Além dos rendimentos cada vez maiores no palco, tem a oportunidade de gravar seus primeiros discos na Odeon. Conhece então pessoalmente Thomas Alva Edison, uma das maiores admirações de sua vida, a quem pede uma foto com dedicatória. Edison conta-lhe que todas as noites antes de dormir ouvia sua gravação de Golondrina Mensajera e o imaginara um cantor de meia-idade, não tão jovem. Mojica por sua vez não se refere ao fato de que, em sua primeira estada nos Estados Unidos, tinha sido recusado pela Odeon americana depois de teste de gravação examinado pelo próprio Edison. A partir desse contato, Mojica vai alternando concertos nos Estados Unidos e México. Enquanto sua carreira profissional ia cada vez melhor, dando-lhe condições de proporcionar toda a assistência e conforto à sua amada mãe, com qual sempre morou, sua alma continuava inquieta na busca da verdade. Vinha procurando explicações em novas filosofias e religiões e tinha períodos de agnosticismo. Por fim, volta à fé católica pelo caminho de uma devoção particular a São Francisco de Assis, o santo dos pobres. Tal decisão se dá quando estava com 27 anos, exatamente numa visita à escola franciscana de Quincy, cidade do Illionois. Em 1929 é convidado pela Fox para trabalhar em Hollywood em filmes falados e cantados em espanhol, pois, além de ter voz, encarnava o tipo ideal do galã latino exigido pelos roteiros melodramáticos. Assim é o astro de O Preço de Um Beijo, em duas versões, um extraordinário sucesso em diversos países de língua espanhola, inclusive a Espanha, embora mais uma vez a crítica de seu país tenha se mostrado contrária, como sempre fazia em relação aos artistas mexicanos que atuavam no cinema americano. No seu caso não aceitavam que, cantor consagrado de óperas, descesse para cantar simples canções populares. Outros filmes se seguiriam, como Príncipe, Rei dos Ciganos, A Cruz e a Espada, As fronteira do Amor, A Canção do Milagre e outros, neste último no papel de um sacerdote católico, numa antecipação do que faria mais tarde. Seus discos então se vendiam como nunca. Muito de seus êxitos são até hoje páginas clássicas. Cada uma de suas apresentações na América Latina, Europa e Norte da África consituia-se em consagração. Nada deste mundo lhe faltava, mas no seu espírito continuava um vazio, que só uma completa dedicação a Deus haveria de preencher. Em 1941 estava filmando na Argentina, em Buenos Aires, Melodias da América, quando recebe a notícia do falecimento de sua mãe. Decide então entrar para o convento franciscano de Recoleta, na cidade de Cuzco, no Peru, que já conhecia. Dá um último concerto e viaja para o México a fim de distribuir sua fortuna. Em 1942 recolhe-se à clausura e no ano seguinte recebe as ordens menores. Em 1946 ;é ordenado padre, adotando o nome de Frei José Francisco de Guadalupe. Sentindo que ainda poderia com sua arte e fama obter recursos para obras de caridade e divulgar a religião, consegue de seus superiores autorização para apresentar-se cantando músicas profanas. É o que passa a fazer em novas excursões pelo mundo e em filmes, sempre porém vestindo o hábito de frei franciscano. Já tinha visitado o Brasil em 1937 e cantado no Cassino da Urca. Volta em 1942 e 1950, quando participa da inauguração da primeira estação de televisão brasileira, a TV-Tupi de São Paulo. Retorna em 1955 - reza uma missa em intenção da alma de Carmen Miranda - 1964 e 1967. Por causa de problemas circulatórios que afetara sua perna direita, vem a falecer na idade de 78 anos, em 20.9.1974, na cidade de Lima, no Peru. Abel Cardoso Junior. O texto acima não representa a biografia completa do artista, mas sim, partes importantes de sua vida e carreira.
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Morro da Onça.

Esta era a visão que se tinha da janela da sala e do quarto onde eu dormia na Fazenda da Mata. Passei boa parte de minha infância observando esta paisagem. Com certeza os melhores dias da minha vida.
Ao fundo imponente aparece o Morro da Onça, nome este devido ser muito comum a freqüência de onças pintadas e jaguatiricas por lá. Em minha infância cheguei a cruzar com algumas Jaguatiricas, mas onças pintadas só em estórias contadas pelo meu avô e pelos camaradas da fazenda. De vez e outra ouvia se dizer que alguma cabeça de gado havia sido atacada por uma onça pintada e o temor corria pela redondeza.
Esta foto foi tirada na década de setenta, mas posso garantir que antes dos anos sessenta o cenário era muito mais belo. Onde se vê as plantações outrora era ainda mata virgem, os cafezais se estendiam mais a direita. A mata original era linda e embelezava a paisagem e favorecia a uma rica fauna.
Mas atenho-me agora a falar mais precisamente do querido e saudoso Morro da Onça. Com freqüência costumava passar a cavalo numa trilha que cortava sua encosta esquerda ou de Jipe com meu tio ou meu avô. Era o caminho que levava à Fazenda do tio Orosimbo que ficava a uns 6 quilômetros da fazenda do vovô. Costumávamos revezar semana sim semana não íamos passar o domingo lá e as vezes acompanhava meu avô em suas idas a negócio com o tio Orosimbo.
Ao passarmos ao lado do Morro costumava ficar olhando para o seu topo e almejando o dia que eu pudesse subir até lá e poder observar os quatro pontos cardeais. Sabia que de lá poderia ter uma bela visão ao Sul das bandas do Rio Grande, do Porto dos Mendes e em destaque se via o Morro de Ponta, local em que meu avô morou quando mamãe era criança. Eu gostava de ir lá com meus avós. Era um lugar pitoresco. Do lado norte, bem distante se via no horizonte o delinear da cidade de Campo Belo esbranquiçada mesclando-se com o céu azul salpicado de brancas nuvens. Ao oeste se avistava a Fazenda da mata e ao Leste a Fazenda do vovô avistando-se a sede toda imponente ao pé do Morro dos Maias ou dos Pimentas.

Enquanto eu vivia meus primeiros anos de vida, minha primeira infância, não havia outro meio senão contemplar diariamente a beleza do Morro da Onça e sonhar com o dia que eu pudesse aventurar-me pelas suas matas e atingir a pedreira que cobria seu cume.
O tempo naquela época parecia não passar, demorava-se muito para chegar o final de semana, as festas de fim de ano, os aniversários. Eram dias intermináveis, parecia que o relógio era bem preguiçoso. Ao contrário de hoje.
Só sei que tudo acabou passando e quando percebi já estava morando em São Paulo e não via a hora de chegar as férias de meio do ano e as de final de ano para lá na Fazenda ir matar a saudade.
Nos primeiros anos que se sucederam, depois de estar morando em São Paulo, geralmente combinava com os meus primos para irmos juntos. Íamos eu, minha irmã Bernardete, as vezes o Pascoal também e lá nos reuníamos com a Raquel, a Juanita, a Jane, a Aríete, o Dalmo William e a Denise e deixávamos vovô bem nervoso com nossas aventuras. Os outros primos, Cida, o Antonio, o Rogelio geralmente não participava de nosso grupo lá na fazenda. Poucas vezes se reuniram a nós a não ser quando íamos todos para a cidade.
Na fazenda organizávamos os dias todos com muita aventura, escaladas de morro, nadar no açude (uma piscina natural adaptada num buraco de onde se retirava terra para fazer tijolos). E lógico começamos a planejar e executar nossas aventuras no Morro da Onça. A primeira vez que escalamos o Morro da Onça, levamos uma bandeira branca feita com tecido que pegamos lá da vovó, acho que um velho lençol. Ficamos orgulhosos em deixá-la tremulando lá no topo de uma árvore.
Levamos frutas e lanches para passar um bom tempo lá em cima, o dia todo. A subida fui um tanto cansativa, pois tivemos que ir a frente das meninas, eu, Pascoal e Dalmo William abrindo trilha e ajudando-as a passar pelas pedras que haviam no caminho. A encosta era toda ladeada de grandes pedras e vegetação rasteira sob as árvores. Haviam nos alertado sobre o perigo das Cascavéis que eram muito comuns naquele morro. Por isso a nossa primeira escalada foi de muito suspense e certo medo. Felizmente nem mesmo encontramos com nenhum tipo de réptil para nossa sorte e tranqüilidade.
Ao chegar ao topo, como imaginávamos, havia uma grande pedra formando uma laje, em certo declive claro, mas própria para organizar um belo piquenique vislumbrando um belo cenário. O dia estava quente, era pleno verão, mas a brisa que soprava lá em cima ajudava a refrescar um pouco o calor que sentíamos. A água que levamos estava no fim, o que valeu foram as laranjas e mexericas que levamos conosco.
Pudemos observar e saborear aquele cenário maravilhoso. Viam-se as estradas, os trilhos que cortavam os campos verdes, as casa dos camaradas, as fazendas ao longe se destacavam das casas dos camaradas que pareciam todas minúsculas. Os trilhos formados pelo gado que contornavam o vale desenhavam linhas sinuosas que serpenteavam todo o morro lá em baixo levando o gado até a grota onde iam matar a sua sede.
No topo do morro mal podíamos ouvir algum ruído daquelas casinhas lá em baixo na colina, apenas o barulho do vento e o canto dos pássaros.
Bom seria ter uma casa construída lá no topo. Como seria bonito ver o nascer e o por do sol de camarote todos os dias. Observar qualquer pessoa, animal, ou veículo que se aproximasse vindo de algum ponto. Lá de cima podia se ter uma visão privilegiada dos quatro quantos, que maravilha. Mas o sol se adiantava e começava a dar sinal de fim de dia. O pessoal lá na fazenda devia estar apreensivo conosco, tínhamos que apressar nossa descida. Por isso levantamos, com pesar e começamos a descida, mas já planejando outro retorno ainda naquelas férias.
A volta foi tranqüila, ainda deu para parar no pé do morro e apanhar algumas mangas deliciosas e ir saboreando-as enquanto caminhávamos. Chegando a fazenda estávamos todos felizes a contar a nossa façanha e a descrever a beleza que se vê lá de cima para mamãe e a vovó que ouviam atentamente e admiradas. A hora do jantar se aproximava e deixamos as meninas irem para o banho primeiro ficando nós os homens para o final.
Outras escaladas foram planejadas e executadas naquelas férias e em outras. Sempre foi com a mesma alegria e aventura, mas, a que mais marcou foi a primeira vez que lá estivemos. Esta ficou na memória de todos nós e ainda posso sentir aquele vento, e parece que ainda estou vendo toda aquela paisagem a minha frente.
Tudo parece ter mudado, a Fazenda da Mata onde vivi meus melhores dias da infância não é mais como era, a Fazenda do tio Orosimbo, também acho que não mais existe, mas o Morro da Onça, este sim, está lá do mesmo jeito imponente observando tudo e a todos a seu redor. Apenas sofreu com a derrubada da mata ao seu pé, foi o que pude observar em minha última vista dele.
Ah que saudade sinto de minha terra natal... saudade do Morro da Onça de minha infância!
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RUIM MAIS VAI


RUIM MAIS VAI

Fumaças ao léu

Ruim Mais Vai

Maculando os céus

Ruim Mais Vai

Num passo de corcel

Ruim Mais Vai

Braseiro incandescente

Ruim Mais Vai

Fagulhas ardentes

Ruim Mais Vai

Como um corcel

Rede Mineira Viação

Levando nossa gente

Nossa gente Gente !
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Lembranças de vovó.

Nos anos cinqüenta, lá na roça, não havia energia elétrica, apenas lamparina com querosene ou azeite para iluminar a noite quando necessário.
Algumas fazendas, poucas na região, possuíam um gerador movido por uma roda d água, como o da fazenda de meus avós materno.
A usina ficava nos fundos da fazenda, cerca de uns seiscentos metros abaixo, era alimentado por água do córrego represado que fora desviado para que passasse no terreiro, do lado da cozinha.
Quando mudamos para lá este córrego possuía suas margens irregulares e havia um pequeno volume de água represado e muita água escapando pela sua margem esquerda antes de chegar à barragem.
Lembro-me de vovó chamar meu pai logo depois de nos acomodar e falar:
- Walter eu queria que você acertasse as margens do córrego e a barragem aqui perto do terreiro e arrumasse as caixas de comporta para (¹) moinho, para a (²) usina elétrica e a do (³) carneiro.
Vou pedir para os camaradas carregar pedras para você refazer a barragem e calçar as margens, onde esta com vazamento, ta bom!?
Papai sempre fora um homem zeloso, não era seu ofício, havia voltado há pouco tempo de São Paulo onde trabalhou vários anos numa Mercearia, mas disse que faria sim e logo começou o serviço.
Eu tinha quase dois aninhos e gostava de ficar observando o que papai estava fazendo.
Em poucos dias o serviço estava pronto.
Ah como papai arrumou tudo bonito, gora sim dava gosto ficar sentado ali nas margens, tomar aquela água límpida e fresca o dia todo.
Ouvir o barulho d’água transbordando sob a barragem de pedra. Deitar ali na margem direita do córrego sob a mureta construída pelo papai. Eu passava horas lá observando os pequenos lambaris e girinos que pareciam não se importar comigo ali e se divertiam naquela água límpida e calma.
Havia na margem esquerda três comportas, conforme disse anteriormente, uma para o (¹) moinho, outra para a (²) usina elétrica e outra para o (³) carneiro.
Quando a água não estava sendo utilizada por nenhuma destas comportas ela transbordava por cima da barragem de pedra que papai havia refeito cuidadosamente. E a água seguia seu curso córrego abaixo em direção a casa do monjolo e depois vazava grota abaixo recuperando seu curso de origem.
Qualquer curso de água sempre me fascinou, principalmente aquele córrego o qual saciava minha sede e mais tarde serviu para sustentar minha primeira jangada, feita de tronco de bananeira, na qual passava muito tempo subindo e descendo seu leito, passando pelas margens sombreadas por galhos verdes repletos de amoras deliciosas.
Vez e outra dividiam o espaço com algumas cobras d água ancoradas as margens do córrego. Vovó dizia que cobra d’água não faziam nenhum mal então eu não tinha medo.
Quando chegava o anoitecer era a vez dos sapos que vinham em grupo e dispostos para o concerto. Era uma cantoria só ! 
Lá da cozinha, no “rabo” do fogão me aquecendo e ainda proseando com vovó ficava a ouvir os sapos lá fora numa animação só!
O concerto começara o tenor prevalecia sobre os demais, era um som que parecia dizer:
“ - joaaaaaão.. cê vaiii ?
- vouuuu!
- joaaaaaão.. cê vaiii ?
- vouuuu!
Ah, havia também um sapo que emitia um som que parecia da bigorna, era o sapo ferreiro como chamávamos pois parecia estar sempre batendo com o martelo em sua bigorna.
E isto se repetia até a madrugada chegar ao meio de outros sons, coaxo e piado de aves noturnas quando esta orquestra não era quebrada por uma raposa, cachorro do mato a espantar as galinhas no galinheiro na tentativa de roubá-las.
Então vovó corria porta a fora em socorro das crias e depois de segura que afugentara os intrusos ela voltava.
Reinando a tranqüilidade vovó voltava a beira do fogão, vovô já havia recolhido em seu quarto e nós ficávamos conversando mais um pouco, geralmente eu como sempre perguntando as coisas para vovó e ela tranquilamente respondendo.
De repente ela se afastava ia até o armário que ficava na dispensa pegava uma taça de leite e dizia:
- Adarto (*¹)... bebe seu leite com farinha antes de dormir.
Pegava a (*²) taça com leite e farinha de milho e com uma colher tomava aquilo com gosto. Depois tomava a bênção e ia dormir.
No dia seguinte tudo se repetia!

(¹) moinho – consiste de uma pedra bruta medindo cerca de 1m de diâmetro por uns 20 cm de espessura, com um furo de cerca de de 15 cm de circunferência ao centro. 
Esta roda de pedra na horizontal sob um bloco plano de pedra girava triturando o milho que era colocado sobre o orifício central. Após moído o grão o mistura fina caia numa caixa que armazenava o produto. A Roda de pedra era movido por um sistema de engrenagem em combinação com a roda d’água. 
(²) usina elétrica = Um pequeno gerado (motor) movimentado por uma roda d’água que gera energia (contínua) elétrica.
(³) carneiro = uma esfera metálica com seu bojo oco que ao encher de água movimenta um pino criando um sistema hidráulico de elevar a água até um reservatório. Muito utilizado no interior de Minas e Rio de Janeiro.
(*¹) Adarto = é a maneira que vovó me chamava assim como os demais empregados (camaradas) lá da roça.
 
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Diones
Diones

Esse escrito me fez lembrar a minha amada! Gostei muito. Parabéns...

Sou um viajante do tempo, em busca de meus sonhos; na minha caminhada costumo ser alegre... rio, choro, me emociono com o olhar de uma criança, com o brilho do sol, da lua; o cantar dos pássaros. Sou um simples mortal que acredita na imortalidade da essência do Ser, do espírito . . As coisas que eu gosto? ... são as mais simples que existem. Gosto de ver o sol nascer, se por... ver a lua bailar no infinito espaço, e as estrelas enfeitando o manto negro e majestoso da noite... (e só de pensar que viemos e iremos ainda para alguma delas, chega a dar saudade ... !) Ver o rio correr tranqüilo seguindo seu curso sem reclamar, ouvir o sussurro do vento, o som dos pardais ao entardecer, o sorriso de uma criança, a sensualidade feminina, e tantas outras coisas mais que nos rodeiam!Como eu vejo as pessoas? ... Vejo as todas companheiras de viagem, indo em busca de algo; são viajantes das mais diferentes origens, oriundas de algum lugar do Universo e na maioria das vezes perdidas sem saber para onde irão e o que buscam ! Isto é triste! Sonhos ? ... sou um eterno sonhador ! " Sei, que n'algum lugar, muito além dos horizontes... nossos sonhos realmente acontecem! " Vou-me embora para PASARGADA , sonho de todo poeta, ir se embora para Pasárgada,..... Sinto-me privilegiado possuidor das chaves deste lugar, entretanto, sei que nada vale a pena se não for fruto de nosso próprio esforço... Do que adianta ser amigo do rei, ter tudo que se imagina e não ser feliz ? Prefiro seguir meu caminho, colhendo todas as pedras que encontro na estrada e utiliza-las para meu caminhar. Quem quiser ... acompanhe-me e caminhemos juntos!