Sou um viajante do tempo, em busca de meus sonhos; na minha caminhada costumo ser alegre... rio, choro, me emociono com o olhar de uma criança, com o brilho do sol, da lua; o cantar dos pássaros. Sou um simples mortal que acredita na imortalidade da essência do Ser, do espírito . . As coisas que eu gosto? ... são as mais simples que existem. Gosto de ver o sol nascer, se por... ver a lua bailar no infinito espaço, e as estrelas enfeitando o manto negro e majestoso da noite... (e só de pensar que viemos e iremos ainda para alguma delas, chega a dar saudade ... !) Ver o rio correr tranqüilo seguindo seu curso sem reclamar, ouvir o sussurro do vento, o som dos pardais ao entardecer, o sorriso de uma criança, a sensualidade feminina, e tantas outras coisas mais que nos rodeiam!Como eu vejo as pessoas? ... Vejo as todas companheiras de viagem, indo em busca de algo; são viajantes das mais diferentes origens, oriundas de algum lugar do Universo e na maioria das vezes perdidas sem saber para onde irão e o que buscam ! Isto é triste! Sonhos ? ... sou um eterno sonhador ! " Sei, que n'algum lugar, muito além dos horizontes... nossos sonhos realmente acontecem! " Vou-me embora para PASARGADA , sonho de todo poeta, ir se embora para Pasárgada,..... Sinto-me privilegiado possuidor das chaves deste lugar, entretanto, sei que nada vale a pena se não for fruto de nosso próprio esforço... Do que adianta ser amigo do rei, ter tudo que se imagina e não ser feliz ? Prefiro seguir meu caminho, colhendo todas as pedras que encontro na estrada e utiliza-las para meu caminhar. Quem quiser ... acompanhe-me e caminhemos juntos!
O dia em que quase perdi o polegar Era uma criança que desde cedo fui acostumado a ajudar meus pais nos afazeres da casa. Havia hora para trabalhar, estudar e brincar. Nunca fui obrigado a fazer trabalhos pesados, mas sempre tive vontade de ter minhas pequena plantação, queria aprender a cultivar a terra e diante de meu pedido papai deixou uma pequena área para eu plantar. Ah como era gratificante depois de algum tempo ver germinar as sementes, crescer o feijão, o arroz, as ramas de batata, mandioca, as hortaliças. Papai plantava de tudo para o nosso sustento e sobrava até para vender. Havia um plantio de mandioca que dava para fazer farinha e polvilho. Para facilitar o beneficiamento ele construiu uma engenhoca para ralar a mandioca exigindo-se pouca força devido as rodas e engrenagens da máquina. Até uma criança como eu, de sete, oito anos conseguia mover a manivela do ralador manual. Certo dia, enquanto meus pais cuidavam de outros afazeres pedi para adiantar o serviço indo ralar mandioca. Não precisava de muita força para mover a roldana, o trabalho ia bem. Com a mão direita movimentava a manivela e com a esquerda empurrava a mandioca que produzia uma massa alva e espessa. A bacia aos poucos enchia daquela massa, tudo estava indo tranqüilo e sem cansaço. De repente, o branco tornou-se rubro, mal pude perceber o que havia acontecido. Como de repente aquela massa alva manchava-se de vermelho forte? Foi tudo tão rápido que só depois de um tempo pude perceber o que havia acontecido. Segurava firmemente a mandioca com minha mão esquerda quando de repente acabou se a raiz e foi o meu dedo sem que eu percebesse. Os dentes do cilindro cravaram em meu dedo polegar deixando ranhuras profundas e quase o deslocando. Deixei o local e segurando meu dedo com a mão direita e sai correndo gritando por meu pai. - Pai, paieeeeeeee! - O que foi filho? Correu comigo para dentro de casa colocando logo um punhado de sal grosso com água lavando bem o ferimento que continuava sangrar. Tratou de colocar um pano em volta amarrando-o e pegando-me ao colo acalentando-me na tentativa de acalmar-me. Os dias se sucederam e o machucado estava com mau aspecto e ainda doendo muito. Falei com meu pai que o meu dedo polegar estava com mau cheiro, e que o ferimento estava piorando. Foi ai que ele resolveu levar-me ao Porto dos Mendes onde tio Cristiano possuía uma pequena farmácia, a única da região. Chegando lá tio Cristiano tirou aquele pano que servia de curativo e fez uma assepsia terminando com um bom curativo com gazes e esparadrapo. Receitou-me alguns remédios e orientou papai como cuidar e fazer novos curativos. Já se passou quase 50 anos e no meu dedo as marcas deste episódio do dia que quase perdi meu polegar.
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Homem do Saco
Era uma criança, desde pequena, que gostava de brincar sozinho, absorto em meus pensamentos. Tinha pouco mais de um aninho de idade, meus pais moravam numa casa simples cercada por terrenos baldios. Lembro-me que não havia muros e nem cercas. Ao lado de nossa modesta casa havia um terreno onde eu costumava brincar. Certo dia estava eu brincando na areia quando de repente... Olhei para frente e deparei-me com uma imagem assustadora. Vi a pouca distância um senhor caminhando lentamente pelo terreno, um pouco agachado, mas o que mais me chamou atenção era o enorme saco que levava nas costas! Num desespero tremendo gritei por minha mãe: - Mãeeeeeeeeee ! Mãeeeeeeeeêêê! E comecei a correr em direção a porta de minha casa sem olhar para trás! Foi ai que deparei com minha mãe assustada vindo ao meu encontro. - Que foi menino!? - o homem do saco! Repeti assustado: - O homem do saco mãe ! Olhando assustado para trás, já amparado por mamãe pude perceber o sorriso inocente, daquele homem que tanto me apavorou, olhando para minha mãe sem saber o que dizer. Foi quando ela sorrindo me disse: - Não filho, este não é o homem do saco, ele está apenas trabalhando! - Ele está procurando ferro velho e material usado para vender. Apesar de estar agora tranqüilo sobre a proteção de mamãe continuei sem entender muito bem. Afinal ele era o "homem do saco" - eu vi! E acho que foi um dos maiores sustos que levei em minha vida. Mais tarde aprendi que nem tudo o que nós vemos é a realidade! Então fui aprendendo as aparências se enganam. E que temos que ser cautelosos e nunca tomar decisões precipitada!
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Mistério na Mata
A Fazenda da Mata, ou Fazenda São João fora do meu bisavô Abílio. Vovô João comprou a pelos idos de 1953 e lá passei os mais doces anos da minha infância. Ah quantas estripulias, quantas aventuras lá vivenciei ! Nos primeiros dez anos a fazenda era muito freqüentada ainda pelos irmãos de Vovó, o tio Juarez, Tio Neném, Tio Mário, Tio Júlio, Tio Renato e a própria Vovó Dolores, Mãe Vó como a tratávamos. Os primos Nardinho, Diogo freqüentavam mais a casa. O casarão era estilo colonial, havia muitas dependências e por isso era possível receber muitos hóspedes. Gostava quando minha avó Anita recebia umas amigas do Rio; Era um pessoal da cidade e eu ficava espiando de longe aqueles hábitos diferentes dos que eu conhecia. Mas sentia mesmo a vontade quando nas férias reuníamos os primos lá Dalmilho, Jane, Raquel, Ariete, Denise, Antonio, entre outros. Mas estes citados eram os da minha época que mais compartilhávamos as aventuras e as brincadeiras. Minha irmã Bernadete era novinha e o Pascoal ainda muito criança nem podia acompanhar-nos em todo lugar. Quando iam embora ficava aquela monotonia... não restava outra opção de vez em quando compartilhar algumas brincadeiras com os filhos dos camaradas. No final da tarde chegava da roça acompanhados do pai e de outros funcionários o Carlinhos, o Toninho, e o José, (Zé) mas eram crianças de outro nível, muito simples e chegavam cansados mal podiam brincar. Na fazenda, quando a tarde caia vovô corria para o lado do rádio, as vezes acompanhados por algum empregado e ficavam ouvindo programação de Música Sertaneja para irritação da minha avó que não gostava. Depois hora da novela no Rádio, minha avó e mamãe iam para o lado do Rádio enquanto meu avô se retirava, de vez em quando indo jogar truco lá na sala com os amigos. Mal a noite se firmava todos começavam a retirar-se. Dormíamos cedo, pois a lida no campo iniciava-se cedo antes do nascer do sol. A vida lá na fazenda foi modificando se radicalmente, o movimento, a lida com o cafezal, foi cada vez mais diminuindo. Meu pai levou-nos para um Sítio que herdara lá no Porto dos Mendes, no Morro Grande, meu tio To alba estudava fora, só vinha para a fazenda nas férias. Eu, sempre que podia ia passar uns dias lá e o meu quarto preferido era o do meu tio Toalba, pois ele dava as janelas todas para a frente e para o Curral, podia-se acordar cedo com a movimentação dos retireiros ao trazer as vacas para a ordenha. Certa noite, estávamos só nós três, meus avós e eu. Como não havia companhia me recolhi cedo, ouvia cada badalado do velho carrilhão lá na sala próximo ao meu quarto. Fora isso e algumas vezes o som de algum pássaro noturno era silêncio total. Podia-se ver as estrelas pela janela que eu sempre deixava aberta para contrariedade de vovó que ia nas pontas do pé e as fechava e eu da mesma forma as abria depois de algum tempo sem fazer ruído. Era uma noite tranqüila, meus avós deviam star em sono pesado e eu ainda estava meio acordado pensando e olhando para as estrelas lá no firmamento. De repente - ouvi a trava de madeira ser retira da porta da sala e ser colocada no canto. Como era piso de assoalho, e com o silêncio da noite ouvia se nitidamente o som. Levantei a cabeça, sem sair de minha cama, procurei ver se era meu avô ou minha avó que fora ver algo. Não podia evitar nada a não ser a porta acabando se abrir por total uma das partes. Um silêncio profundo se fez até que ouvi a minha avó lá de seu quarto falar: - menino! O que está fazendo ai ? Por que abriu a porta!? Eu mal pude responder... balbuciando disse lá da minha cama mesmo; - não fui eu, não sai da minha cama! E virei-me do lado obrindo-me e ficando quieto sem se mexer até que o sono veio! Lembro que meu avô se levantou, fechou a porta, colocou aquela trave de madeira e saiu resmungando. Creio que pensara que fora eu fazendo arte. Pude ouvi-lo a caminho de seu quarto; _ Ara.. esse menino !... No dia seguinte, levantei-me, meu avô já havia ido para a roça e encontrei minha vó lá diante do fogão a lenha! Antes mesmo que ela disse algo perguntei-lhe: - Vó, o que foi aquilo ontem? - Não fui eu que abri a porta não! Calmamente ela respondeu acalmando-me. - Não se preocupe menino, deve ter sido papai, ele sempre aparece por aqui. - No final de semana eu vou fazer uma visita lá no "Centro" e ver o que ele queria. ode estar precisando de oração. E assim passou a semana e quando chegamos a cidade foi ela ao centro e contou-me depois que realmente era o Vô Abílio, ele sente saudades e vem sempre visitar a casa. Mas está tudo bem sim com ele! - disse com toda a naturalidade. Acho que por isso nunca me assustei com fatos inexplicáveis. Aceito-os e acredito que: - " entre o céu e a terra há muito mais coisa que nossa vâ filosofia possa conhecer! "
Obs.: Vô Abílio faleceu dois anos antes do que eu nascera, eu não cheguei a conhecê-lo. Um porta retrato que vovó possuia dele me chamava muito a atenção, os seus olhos azuis, bem azuis.
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Lembranças de vovó.
Nos anos cinqüenta, lá na roça, não havia energia elétrica, apenas lamparina com querosene ou azeite para iluminar a noite quando necessário. Algumas fazendas, poucas na região, possuíam um gerador movido por uma roda d água, como o da fazenda de meus avós materno. A usina ficava nos fundos da fazenda, cerca de uns seiscentos metros abaixo, era alimentado por água do córrego represado que fora desviado para que passasse no terreiro, do lado da cozinha. Quando mudamos para lá este córrego possuía suas margens irregulares e havia um pequeno volume de água represado e muita água escapando pela sua margem esquerda antes de chegar à barragem. Lembro-me de vovó chamar meu pai logo depois de nos acomodar e falar: - Walter eu queria que você acertasse as margens do córrego e a barragem aqui perto do terreiro e arrumasse as caixas de comporta para (¹) moinho, para a (²) usina elétrica e a do (³) carneiro. Vou pedir para os camaradas carregar pedras para você refazer a barragem e calçar as margens, onde esta com vazamento, ta bom!? Papai sempre fora um homem zeloso, não era seu ofício, havia voltado há pouco tempo de São Paulo onde trabalhou vários anos numa Mercearia, mas disse que faria sim e logo começou o serviço. Eu tinha quase dois aninhos e gostava de ficar observando o que papai estava fazendo. Em poucos dias o serviço estava pronto. Ah como papai arrumou tudo bonito, gora sim dava gosto ficar sentado ali nas margens, tomar aquela água límpida e fresca o dia todo. Ouvir o barulho d’água transbordando sob a barragem de pedra. Deitar ali na margem direita do córrego sob a mureta construída pelo papai. Eu passava horas lá observando os pequenos lambaris e girinos que pareciam não se importar comigo ali e se divertiam naquela água límpida e calma. Havia na margem esquerda três comportas, conforme disse anteriormente, uma para o (¹) moinho, outra para a (²) usina elétrica e outra para o (³) carneiro. Quando a água não estava sendo utilizada por nenhuma destas comportas ela transbordava por cima da barragem de pedra que papai havia refeito cuidadosamente. E a água seguia seu curso córrego abaixo em direção a casa do monjolo e depois vazava grota abaixo recuperando seu curso de origem. Qualquer curso de água sempre me fascinou, principalmente aquele córrego o qual saciava minha sede e mais tarde serviu para sustentar minha primeira jangada, feita de tronco de bananeira, na qual passava muito tempo subindo e descendo seu leito, passando pelas margens sombreadas por galhos verdes repletos de amoras deliciosas. Vez e outra dividiam o espaço com algumas cobras d água ancoradas as margens do córrego. Vovó dizia que cobra d’água não faziam nenhum mal então eu não tinha medo. Quando chegava o anoitecer era a vez dos sapos que vinham em grupo e dispostos para o concerto. Era uma cantoria só ! Lá da cozinha, no “rabo” do fogão me aquecendo e ainda proseando com vovó ficava a ouvir os sapos lá fora numa animação só! O concerto começara o tenor prevalecia sobre os demais, era um som que parecia dizer: “ - joaaaaaão.. cê vaiii ? - vouuuu! - joaaaaaão.. cê vaiii ? - vouuuu! Ah, havia também um sapo que emitia um som que parecia da bigorna, era o sapo ferreiro como chamávamos pois parecia estar sempre batendo com o martelo em sua bigorna. E isto se repetia até a madrugada chegar ao meio de outros sons, coaxo e piado de aves noturnas quando esta orquestra não era quebrada por uma raposa, cachorro do mato a espantar as galinhas no galinheiro na tentativa de roubá-las. Então vovó corria porta a fora em socorro das crias e depois de segura que afugentara os intrusos ela voltava. Reinando a tranqüilidade vovó voltava a beira do fogão, vovô já havia recolhido em seu quarto e nós ficávamos conversando mais um pouco, geralmente eu como sempre perguntando as coisas para vovó e ela tranquilamente respondendo. De repente ela se afastava ia até o armário que ficava na dispensa pegava uma taça de leite e dizia: - Adarto (*¹)... bebe seu leite com farinha antes de dormir. Pegava a (*²) taça com leite e farinha de milho e com uma colher tomava aquilo com gosto. Depois tomava a bênção e ia dormir. No dia seguinte tudo se repetia!
(¹) moinho – consiste de uma pedra bruta medindo cerca de 1m de diâmetro por uns 20 cm de espessura, com um furo de cerca de de 15 cm de circunferência ao centro. Esta roda de pedra na horizontal sob um bloco plano de pedra girava triturando o milho que era colocado sobre o orifício central. Após moído o grão o mistura fina caia numa caixa que armazenava o produto. A Roda de pedra era movido por um sistema de engrenagem em combinação com a roda d’água. (²) usina elétrica = Um pequeno gerado (motor) movimentado por uma roda d’água que gera energia (contínua) elétrica. (³) carneiro = uma esfera metálica com seu bojo oco que ao encher de água movimenta um pino criando um sistema hidráulico de elevar a água até um reservatório. Muito utilizado no interior de Minas e Rio de Janeiro. (*¹) Adarto = é a maneira que vovó me chamava assim como os demais empregados (camaradas) lá da roça.
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MEU CÃO INESQUECÍVEL
Sou um apaixonado por cães grandes, já tive vários pastores alemães e um belga e muitas estórias para contar. Mas na infância o meu primeiro cão ( aliás era o cão dos meus avós ) chamava-se Norte. Era um cachorro grande para um menino de dois ou três anos de idade. Eu podia até andar em cima dele, coitadinho, agüentava sem reclamar! Era muito dócil vivia perambulando pelo casarão, pela cozinha, sala, varanda e ajudava meu avô na lida com o gado. Cachorro muito esperto, ia em busca da vaca mais arredia e trazia ao cural. Uma coisa que me lembro muito bem era o seu sumiço diário, a certa hora do dia ele desaparecia. Depois de algum tempo descobri o que ele fazia todos os dias! Ele ia até a fazenda do tio Orozimbo todos os dias ficava lá um pouco em busca de agrado e depois antes do final da tarde retornava para a fazenda da Mata. Era um percurso de cerca de dez quilômetros ida e volta. Isto já era natural, todos sabiam, só eu que demorei um pouco para descobrir sua façanha. Certo dia meu avô, a noitinha, chegou na cozinha onde estava minha vó e perguntou: - Anita, você não viu o Norte ? - Não, por quê, ele não voltou lá do Orozimbo? - Não, costuma estar sempre aqui a esta hora, deitado lá na porta da sala, na varanda. Ficamos todos ansiosos e ficamos a espera que no dia seguinte encontrássemos na porta abanando seu rabo. A noite passou e logo pela manhã, com a chegada do retireiro veio a notícia. - Madrinha Anita, o Zé encontrou o Norte morto lá na porteira, debaixo o velho Ipê. A tristeza foi geral. Mas como morreu, o que lhe acontecera? Meu avô logo veio com a resposta. _ Anita, o Norte foi mordido por um cascavel, vi as marcas no pescoço dele. Certamente ao passar lá pelas bandas do Morro da Onça deparou-se com um Cascavel, apesar de ter lutado mal deu para chegar até aqui. Estava ele lá ao lado do Ipê, na porteira estirado no chão - morto. Inchado e no pescoço estava a marca indelével das presas da serpente. Ele se foi, mas a sua lembrança paira até hoje em minha memória!
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Libertas quae sera tamem
A humanidade inventou mecanismos para dominar as mentes e desviar os seres humanos de seu trajeto original! No Princípio o homem era livre e senhor de si... Então começou a criar normas, regras, e impor verdades e continua até os dias de hoje... Cada vez mais restringindo a verdadeira liberdade dele próprio. Hoje, está reduzido a números, senhas e a uma série de convenções que obriga cada pessoa viver de acordo com os interesses da classe dominante! Os seres mais primitivos ainda são livres, não estão sujeitos a normas, a convenções... Vivem segundo seu instinto, seu desejo, livre e quando sentem a presença humana, fogem para não perder a liberdade original. Vejam só os animais e mesmo as tribos mais primitivas são ainda livres, vivem mais junto à natureza e mais felizes. Outrora, fez se dos mais fracos escravos para servir os mais poderosos. A escravidão acabou. Acabou? Não, apenas mudou se a forma de escravidão... Hoje a maioria dos seres humanos vive submissos a uma escravidão maior! Observem, nascem e são confinados a um carrinho, a um berço com grades, depois para aprender a andar são colocados num andador com cinto de segurança que mal podem se mexer. Depois, leva-se para uma escola, onde recebem uma série de regras a seguir, horários rígidos. Em casa, têm que ter horário para sair e voltar. Horário de comer, tomar banho, e de dormir e levantar, ... o pior... acordar cedo! Mais tarde, encontra alguém que gosta e ai começa um ritual de pedir permissão, obedecer a horário e muitas outras coisas. Ao resolver casar, pensa em liberdade, ter a própria casa, não estar mais sobre a submissão dos pais... engana-se mais uma vez! Começa então uma outra forma de reclusão, fica preso um ao outro. Cobra e é cobrado de horários, atitudes e outras coisas mais! De submisso passa também de opressor, quando os filhos chegam ai o papel de opressor aumenta mais ainda sobre eles! Que liberdade é essa? Vive-se sob regras impostas por uma sociedade, são eternos escravos de um grupo, de interesses coletivos, de um governo, de uma religião! O Homem foi livre um dia? Voltará o homem a ser livre um dia? O que é a liberdade para você?
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A VELHA PRAÇA
Na mesma praça que hoje abriga a Velha e a Nova Matriz brincou a geração de meu pai e a minha. Durante a semana brincávamos afoitos na parte que ia da Velha Matriz a Caixa D'Água. Havia um parquinho público, com balanços, escorregadores, gangorras e gaiolas onde nos divertíamos muito. Brincava mais com meus primos, primas e alguns amiguinhos que encontrava quando estava na cidade. Mas por ora vou me ater a apenas alguns fatos marcantes que fixaram em minha memória. Quando nos preparávamos para ir para a cidade nos finais de semana minha vó falava: - menino, pega umas laranjas, peras, maçãs para você vender na cidade e ganhar algum dinheiro para você comprar picolés, e ir ao cinema... Seguindo a orientação de minha vó, preparava uma cesta com lindas frutas e colocava no Jipe. Chegando a cidade ia (meio sem jeito) de casa em casa oferecendo as frutas que eu apanhara. Normalmente eu as vendia logo e arrecadava algum dinheiro para meu final de semana. Certa vez após percorrer algumas casas, parei na praça para descansar um pouco e fiquei a olhar alguns garotos que brincavam quando um deles aproximou-se de mim e furtou uma maçã de minha cesta sem pagar saindo correndo. Senti-me indefeso, pois ele era maior que eu e ainda estava acompanhado de outros colegas. Olhei num banco da praça e vi um jovem fardado, sabia, era um soldado. Corri em sua direção e falei do ocorrido. Mostrei o garoto que ainda comia a maçã furtada. _ menino, não sou daqui, nada posso fazer - respondeu-me o jovem soldado com ar de desinteresse. Desapontado, fui para casa levando o restante das frutas interrompendo a venda. Ah da Velha Matriz muitas lembranças das Semana Santas, das Procissões, do Catecismo, dos padres holandeses... Quando entrava com meus pais nas festas em que as crianças se vestiam de anjos, eu... passando diante da escadaria, na lateral interna da igreja, olhava aquelas criaturas...imaginava que fosse realmente anjos em carne e osso... só alguns anos mais tarde eu percebi que se tratava de crianças vestidas de anjos prontas para uma representação. O casamento da Tia Gabriela foi marcante, aquela festa toda... depois a entrada dos noivos naquele carro preto, brilhando... era acho que o primeiro casamento que eu assistia, fiquei maravilhado! Em 1954, na tarde de 24 de agosto... estava eu, minha mãe e minha avó passando diante da Velha Matriz, quando a tia Ritinha, (cunhada da minha Avó) interrompeu nossa caminhada chamando: - (tia Ritinha) Anita ! Olha, deu no rádio agora mataram Getúlio Vargas. - (vó Anita) Nossa, como foi isso? - (mamãe) Nossa, meu Deus! - (tia Ritinha) é... ainda não sabem como tudo aconteceu, acabaram de encontrá-lo morto com um tiro. 24 de agosto de 1954 (morte de Getúlio Vargas)
Eu, com meus quatro anos de idade ... tive uma verdadeira reviravolta em minha cabeça e o medo tomou conta de meus pensamentos. Eu não sabia, não entendia bem... pensava que o crime havia sido cometido ali mesmo na cidade, dai o medo que tomou conta de mim naquela tarde e a imaginação tomou asas... Mas o tempo passou... mais tarde entendi aquele momento na Praça quando soube da morte de Getúlio Vargas. ..................................................................................................... Creio que do Planalto que abriga esta grande área verde onde se localiza a Velha e a Nova Matriz é que se originou o nome da cidade, quando a senhora portuguesa, chamada Catarina Parreira chegou exclamou:- Ah que campos belos !!!Dai veio mais tarde o nome de Campo Belo.Se quiser saber um pouco da história pode ver documento sobre a Origem de Campo Belo segundo o estoriador Edson Ribeiro.
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E O TEMPO PASSA
Para não perder de vista os meus sonhos d´outrora
Galgo os mais altos galhos da vida!
( Poá-2008)
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MORRO DA ÉGUA
Era uma daquelas tardes de verão em que as cigarras pareciam estar afinando o som para uma grande orquestra. O sol brilhava e algumas nuvens carregadas despontavam no horizonte, mas grande parte do céu mantinha-se azul. Papai disse a mamãe que precisava levar a massa de mandioca seca para vovó fazer a farinha lá na fazenda e que iria mandar-me levar a cavalo. Preparou dois sacos (50 kg), encheu-os da massa de mandioca já seca, amarrou os sacos e ajeitou-os na garupa da égua que estava já encilhada e pronta para me levar a fazenda da Mata. Se apressasse iria chegar lá antes do anoitecer, era uma boa caminhada, umas duas ou três léguas de distância (aproximadamente 15 km). Mas como ia carregado, a égua não era assim tão ligeira, precisava se apressar e papai logo despachou-me recomendando que eu fosse direto com medo que a chuva me pegasse no caminho. Eu tinha apenas oito anos de idade mas sabia me virar e conhecia bem o caminho para a fazenda do vovô. Após as recomendações de meus pais, tomei a bênção de papai e de mamãe e pulei na sela em meio a carga que iria transportar e segui meu caminho. Passei pela fazenda da Beija, depois em frente a venda lá na beira da estrada do Porto e segui em direção ao Morro da Égua. Agora entrando numa trilha que cortava o morro em direção ao Morro da Onça, nenhuma casa, nenhum sítio ou fazenda a não ser depois, lá do outro lado ao terminar a descida do Morro havia sim um Sítio com uma casinha com um curral ao lado bem na beira da estrada, mas ia demorar a chegar lá.Enquanto caminhava lentamente no lombo da égua pelas trilhas daquele morro, ia sentindo os dois sacos pendurados na garupa cada qual querendo pender para um ou outro lado. Mas estava bem amarrados, não havia perigo de cair, pensava e aproveitava para olhar uma ou outra fazenda que se avistava ao longe podendo visualizar a silhueta esbranquiçada da sede com seus telhados vermelhos escuros. No caminho cruzava apenas com bandos de anús espalhafatosos e alguns gaviões em busca de presas em seus vôos rasantes. Lá em cima parece que São Pedro estava preparar alguma faxina bem pesada. As nuvens se aglomeravam e o céu começara a escurecer de repente. Isso não era bom sinal, a égua mostrava-se sinal de cansaço e não apressava os passos e eu começava a me preocupar pois não havia nenhuma casa ou abrigo a vista. E as chuvas de verão costumam ser fortes e com muitos raios e trovões por estas bandas. O que fazer ? Nada senão continuar o percurso, já estava começando a descida do Morro da Égua, voltar agora não dava mais, com um pouco mais de sorte chegaria ainda antes do anoitecer no mínimo na fazenda do tio Orosimbo, assim pensava eu.De repente um trovão esbravejou de tal modo fazendo um grande eco no vale lá em baixo na mata. Outros raios e trovões se sucederam, cada vez mais fortes e de repente veio a chuva que preencheu todos os cantos que minha vista alcançava. O que fazer ? Senti que os sacos de massa de mandioca seca já não eram mais secos e certamente o peso duplicaram no lombo do animal. Desci, tomei as rédias e a dianteira e num grande esforço continuei debaixo daquela chuva a puxar e conduzir a égua que antes me transportava. Ficar ali, debaixo daquela chuva, debaixo de árvores não era bom, havia muitos raios. Tinha que chegar naquele sítio lá em baixo e pedir auxílio! A noite antecipou sua vinda, tudo ficou escuro mal podia ver a trilha a minha frente e cada vez mais eu me esforçava para puxar a égua que não estava mais suportando o peso, mas não podia fazer nada, eu nem agüentaria tirar de seu lombo aqueles sacos, cada um do meu tamanho e agora encharcados muito pesados. Conversava com a égua, pedindo-lhe calma e que colaborasse para que pudéssemos chegar num abrigo. Na medida do possível ela procurou entender-me e seguiu-me. Já podia avistar uma fraca luz a cerca de uns mil metros, sabia que estava chegando no sítio lá na baixada, ufa que alívio! Sai da trilha e rumei em direção daquele sítio, a luz de lamparina agora estava mais forte e podia ter a certeza de que havia alguém lá. Abri a porteira do curral e levei minha égua para uma cobertura e dirigi-me a porta da sala e chamei: - Ó de casa? - Tem alguém ai? - De casa? - Oi, quem é? - Nossa, marido tem um menino aqui todo molhado! Fui logo dizendo a dona: - Sou filho do Walter, neto da Anita e do João Dolores. - Uai, entra menino, vamos trocar esta roupa molhada. Nisto o marido foi lá no curral retirar os sacos e a sela do lombo da égua. A dona tratou de arrumar uma calça e camisa do marido, embora grande, vesti e me aqueceu depois de me secar com uma toalha que ela me deu. Na casa só havia o casal, já era tarde e a dona tratou de arrumar a cama no quarto de hóspedes e disse para eu ir deitar e seguir viagem no dia seguinte eu agradeci e fui me recolher. No dia seguinte, bem cedinho levantei, vi que o tempo havia melhorado, já não chovia mais e o sol estava para nascer. Tomei um gole de café com leite quentinho com uns biscoitos de polvilho. Logo agradeci a pousada, a acolhida e segui minha viagem, um pouco adiante passei pela casa do Osmar, um camarada do tio Orosimbo, logo depois passei pela fazenda do tio Orosimbo que já estava na lida lá pelo curral. Sem mesmo descer da égua tomei a benção e segui ao meu destino.Por volta das sete horas da manhã, ao cruzar o Morro da Onça o sol já brilhava no céu agora límpido ! Já podia avistar a fazenda da Mata. A fumaça branca saindo da chaminé denunciava já a Vó Anita em sua lida diária. Chegando apeei de minha égua, antes mesmo de retirar-lhe a carga subi pelas escadas do alpendre lá da sala e fui direto a cozinha onde surpreendi minha vó que olhou espantada. - Nossa menino, chegou cedo hein? Mal sabia ela o que sucedera na noite anterior. Ai comecei a narrar o que aconteceu e onde busquei abrigo. Ela confessou então que havia pensado em mim e achava que eu não viria devido ao mal tempo e ficou aliviada por ver me bem e a salvo. Missão cumprida ! A tardezinha, depois de assegurar-me que o tempo não iria piorar retornei ao Morro Grande para não preocupar meus pais. Naquela época não havia como se comunicar, não havia telefone. A volta foi tranqüila pelo bom tempo e pelo fato de agora não estar carregando nenhuma carga pesada. E para quem já cavalgou deve saber que o animal caminha melhor quando está retornando. Cheguei em casa antes do sol se por e encontrei meus pais ansiosos pois meu pai havia tido alguns pressentimentos na noite anterior e inclusive mamãe me contara que ele ouvira um grande ruído, um estrondo muito forte lá na encosta do morro e havia ficado muito preocupado comigo. Contei tudo o que havia ocorrido e que apesar do susto, do frio e do medo consegui abrigo e depois seguir viagem com tranqüilidade. Hoje, lembro destes fatos com saudade e até me orgulho de situações que enfrentei apesar da tenra idade naquela época. .
236
Poeta
“O poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”