Embarcam as vozes de trigos outonais Estranhos moinhos de águas fluem Desde as sombras do outono pressinto Os cachos abertos e úmidos retornarem
Pisadas de ventos voltam a abandonar As folhas. E de tão caídas abrem-se sozinhas Os caminhos. Eu as possuo todas em mim. Todas as folhas multiplicadas em cacho.
E desprende-se do limbo o lírio que de tão pequeno Fecunda a saudade como um só golpe. E lá fora onde termina as estradas de barro Eu vou procurando os retalhos que sobrou de mim.
Começou a escrever na adolescência sob a influencia de seu tio, Eugênio Lyra, poeta consagrado. É autor da " A lira desgovernada" que ainda está em processo de conclusão, ( começou a escrever a lira por volta dos 18 anos de idade) livro que reúne versos de amor, angustia, solidão - e por vezes existenciais.
É formado em Pedagogia, também músico, educador e poeta.
Atualmente está envolvido em atividades acadêmicas, educativas, e pesquisas afins.
Embarcam as vozes de trigos outonais Estranhos moinhos de águas fluem Desde as sombras do outono pressinto Os cachos abertos e úmidos retornarem
Pisadas de ventos voltam a abandonar As folhas. E de tão caídas abrem-se sozinhas Os caminhos. Eu as possuo todas em mim. Todas as folhas multiplicadas em cacho.
E desprende-se do limbo o lírio que de tão pequeno Fecunda a saudade como um só golpe. E lá fora onde termina as estradas de barro Eu vou procurando os retalhos que sobrou de mim.
Tiago B. Lyra in " A lira desgovernada"
603
Poema do sonâmbulo
A noite é um barco vazio Indo num túnel sem fim. Para longe sem naufrágio, Para longe para longe.
Eu durmo. Meu sonho, Pobre espuma. Vai erma, longe dos olhos, Meu sonho.
Os dias são sinos, badala horas. E uma canção triste é tudo Que acorda, Agora.
Tiago B. Lyra in " A lira desgovernada"
526
Desapego
As longas trepadeiras Onde se prende a terra, As raízes vão deixando as cicatrizes, E sobe-me até a boca, e o peso ardente Do que não se passou ainda, Fica preso na garganta. Mas desce-me por vezes a aurora E caem folhas que de longe se tornam puras Longe do barro que os calcanhares afundam, Outras raízes em tormentos menores Vão deixando aos poucos a compreensão da terra.
Tiago B. Lyra in " A lira desgovernada"
466
Hoje
Hoje me fez sol e me fez lua E me fez sereno - o vento. Que dia estranho e dístico Quando mora qualquer momento.
Hoje me fez saudade. E me fez chuva Fez-me errante.Hoje me fez claro o que Era inconstante e oculto.
Hoje me fez espelho e sombra Fez-me areia e brasas vulcânicas Hoje sou ambíguo como uma abelha Hoje sou um dia a continuar-se sempre
Tiago B Lyra in " A lira desgovernada"
428
A valsa
Cai à chuva e a janela aberta ulula coisas, ternuras que sempre solitárias tramam carinhos noturnos...
Velo sobre as ondas e as ruas desvelo de ais de asas de sonhos enquanto teu sonho se assemelha a um mastro de proa oceânica...
Rios solitários correm em minhas veias comboios, procissões de preces, luares. refulgor de lâmpadas me acena, aterradas profundo de signos que ninguém entende....
II
TUA face de águas longes brilha no céu, e na terra fecunda semeiam espigas cor- de- prata.
Abraço a brisa e desde então caminho com o vento, com as conchas marinhas sonoras, edificantes, serenizadas.
Longe, longe das vozes dos bichos e dos homens sinto toda a brancura da lua sinto o escurecer das tardes sem estrela.
Mas se a luz clareia os meus olhos hirsutos minha memória é um piano mudo uma canção, uma trova sem substância.
Supérflua e bela é essa música que eu canto sem voz, atônita, esvoaça e vai quando no íntimo dispõe alegrar o infinito.
III
Vinhas de longe a madrugada solene abri a porta aos marulhos espinhosos E vinhas distante trazendo salinas areias meu rosto, meus pés, me permeavam entre as roseiras e minha infância caía sobre a noite e sobre a noite caiam mulheres com seus vestidos de luva. Chorosas mulheres que foram meninas agora adormecidas vão ao meu encontro
Que solidão! Que desespero de raízes antigas! O que fizeste contigo? Qual culpa afugentou o tornadiço?
Pouco me importa se o outono traz-me o olvido ou se a primavera renova os botões das rosas Pois o amor é um exercício sem precisão de sê-lo
Tiago. B. Lyra in "A lira desgovernada"
445
Poema da tarde
Porque é tarde e tens a tarde sobre a tua cabeleira E porque é tarde e somente há um grande crepúsculo Ouço as raízes e os estalos que promovem o regresso Como sinal cravado nos olhares que ninguém esconde Como ventos que trazem aos meus ouvidos o ruído
E porque eu olho a luz que vem cegar meus olhos Voam-se os pássaros para a tua última brigada Abrem-se os caminhos de pedra e a chuva então anoitece.
E a tarde que me trazia o perfume fresco das árvores A tua morada regressa e só o coração entende e fica Para todas as luas indeléveis que em teu rosto habita Para todas as rosas tristes que teu peito abrigou
Tiago B. Lyra in " A lira desgovernada"
438
Dos caminhos
Os vastos caminhos nunca envelhecem a tua morada Nem os troncos atrapalham o trajeto dos relógios
Tiago B. Lyra in " A lira desgovernada"
428
Minha avó eu tenho medo
Minha avó, também tenho medo, vó do vento e do frio. do sonho vivido Tenho medo desse quarto sem luz, do ar estático, dos móveis também.
Deste sono que alarma as sombras, desta realidade não contada, tenho medo vó, dos carros que passam da alvorada, do rio plácido e bravio.
Não pense vó, que meu pensamento voa sem ter sido apreendido na gaiola, não, do ínfimo minuto, dos salões e cristais a luzir sobre as cortinas, sobre as fumaças...
Tenho medo, de ser somente eu, minha avó E quando a porta se fecha, tenho medo também. dos chinelos, dos rostos, dos jarros molhados em que as raízes afundas os seus olhos ausente, vó.
Tenho medo de atravessar a rua, vó, sabia?e vê profundo dentro de mim, dentro das multidões confusas , o ermo, o rude espantalho, sem a sua cor verde de oliva, vó.
Mais o meu maior medo minha avó, é de não ter sido capaz de beijar teu rosto ainda, mesmo que os anjos não tenha conversado com os anjos do senhor, vó.
Tiago B. Lyra in " A lira desgovernada"
519
Da entrega
As tuas lágrimas de sal e flechas voam Há tanta volúpia escondida nos corais Que a tua carne fornece a uva ao trigal
Tiago B Lyra in " A lira desgovernada"
422
Permissão
Eu te permito olhar nos meus olhos dos cílios até os pés onde a pálpebra tirita doidamente dos bálsamos que não chegam aos portos das bátegas ao chão das tardes de angústia...
Eu te permito o teu olhar comprido e virginal onde as gaivotas pousam no regaço onde uma rosa tende a cair desesperada
Eu te permito olhar em meus olhos que são calmos porque agora tudo flui como um rio que corre placidamente ao mar porque a tua natureza é pura e perto da aurora ainda chora e teu desejo não trai as lágrimas sentidas pela saudade e a cor da esperança vive dignamente acesa quando dormes eu passo a sonhar contigo cerrando meu peito frágil como tuas palavras que são barcos e me leva para as pedras e corais e nunca me firo. Nunca sangro. Nunca morro.
E tu és a única rosa púrpura se abrindo para o som das aves quietas, porque o teu riso espalhou-se pelas sombras ou pela luz, e os centeios perdidos na terra brilham o colmo e o fruto, como as águas translúcidas espelham-se o céu visto ao alto, e porque para ti vão-se todos os seres de minha alma, ah, eu te amo pelo meu olhar que te ama.