não. as nossas canções não tocam nos bares nem nas ruas nem nas festas nem nos carnavais.
e entanto nas ruas nos carnavais nos bares e nas festas as nossas canções tocam em mim.
e eu nunca estou nos carnavais nem nas festas nem nas ruas nem nos bares. não.
estou sempre nos lugares imateriais aos quais me remetem as nossas canções.
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Das Perdas
De todas as perdas, A mais áspera É a do tempo.
— É dentro dela Que estão Todas as outras.
133
Entendimento
Nunca tive em minhas mãos Um passarinho que não me bicasse, Nem em meus olhos Um sonho que não me doesse, Nem em minha vida Um amor que não fenecesse.
E entanto, o entendimento de que, Um dia,
Um passarinho pousou em minhas mãos, E um sonho viveu em meus olhos, E um amor me aconteceu em vida,
Encerra todas as minhas mágoas.
263
O Lirismo do Perdido
Se lhe pudesse ter devorado, No perdido instante, O mais puro lirismo de teus Olhos vertentes e amorosos, Hoje meu coração Não padeceria de fome...
75
O Espelho
Meus dedos tamborilavam Os alvos ombros dela, Enquanto meus olhos fitavam O doiro de sua cabeça.
E a limpidez daqueles cabelos, Ora tocando meus dedos, Era como um espelho Para a minha cobardia.
A angústia, esta boa peralta, Espetava-me o peito E incentivava-me, boba, A abraçar, só abraçar...
De repente, cessou-se a hora. Os dedos saíram dos ombros... Os olhos ficaram no espelho... Abraço não houve.
...Mas trago nos braços O tato desse abraço.
81
Despejo
Os versos que fiz dela ainda estão em mim, E são muito belos para que não os despeje, Ainda que, para tal, tenha de fazê-lo A outros ouvidos que não os dela. É algo como se pôr num jarro torpe O bom vinho pertencido a uma Garrafa nobre, porém, Irrecuperavelmente Estilhaçada.
129
Retrospecto Porvir
Se ontem me vi na esquina, Como criança jocosa que fui, Hoje me vejo no ontem mais próximo – Jovem a matar a juventude.
Assim há também de ser o amanhã, Quando vier a me ver no banco de hoje: Humano incerto a pintar páginas De versos brancos e angustiados.
E o que então sentirei, por pensar, De alívio ou de eventual saudade, É uma verdade que não me compete – Pertence tão somente ao futuro.
Serei, contudo, um sempre vital projeto A atravessar poentes, matinas, Calçadas, praças, e avenidas; Caminhos distintos que convergem.
55
Coruja
De tanto olhar para trás, Perdeu de vista o futuro E só ganhou torcicolos.
186
Hidra
A solidão é um bicho De uma única cabeça Que inventa outras seis Para culpar.
93
Quantas Mortes Tem a Vida?
Quanto mais hei de morrer Até a morte final? Qual eu meu terei de ser Para que viva, afinal?
Qual óbito bastará Para abster-me de crisálidas Vindouras? E qual será A maior das mortes cálidas?
Não sei... Caço o coração Que não está ainda em mim... Se tanto morrer foi vão, Saberei apenas no fim.
Quantas mortes tem a vida No intercurso de sofrer? Eis a minha eterna dúvida, Quanta morte hei de viver?