Retrospecto Porvir
Se ontem me vi na esquina,
Como criança jocosa que fui,
Hoje me vejo no ontem mais próximo
– Jovem a matar a juventude.
Assim há também de ser o amanhã,
Quando vier a me ver no banco de hoje:
Humano incerto a pintar páginas
De versos brancos e angustiados.
E o que então sentirei, por pensar,
De alívio ou de eventual saudade,
É uma verdade que não me compete
– Pertence tão somente ao futuro.
Serei, contudo, um sempre vital projeto
A atravessar poentes, matinas,
Calçadas, praças, e avenidas;
Caminhos distintos que convergem.
Coruja
De tanto olhar para trás,
Perdeu de vista o futuro
E só ganhou torcicolos.
Hidra
A solidão é um bicho
De uma única cabeça
Que inventa outras seis
Para culpar.
Quantas Mortes Tem a Vida?
Quanto mais hei de morrer
Até a morte final?
Qual eu meu terei de ser
Para que viva, afinal?
Qual óbito bastará
Para abster-me de crisálidas
Vindouras? E qual será
A maior das mortes cálidas?
Não sei... Caço o coração
Que não está ainda em mim...
Se tanto morrer foi vão,
Saberei apenas no fim.
Quantas mortes tem a vida
No intercurso de sofrer?
Eis a minha eterna dúvida,
Quanta morte hei de viver?
As Mortes Que a Vida Tem
Em vida, mais se morre que se vive.
Um rol de morte pautado em vivência
Que cresce no decurso da existência
À luz de um finado ser que revive.
Morre-se a criança, ainda que a cultive.
Bem como morre a breve adolescência.
Morre-se o jovem à intransigência
Do tempo que corre e morre em declive.
Deixa no passado a vela apagada,
Criança adulta de pulso inconstante...
– Em cada morte, uma nova jornada.
Não é a última a mais importante,
Qual tudo finda e reduz a pó, nada...
Bem mais vale a morte de cada instante.
Soneto do Seminarista
Em memória de Machado de Assis.
Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura!
Avisto-a e rego-a em plena terra errante
E a candura de teu néctar distante
Irradia de luz minha alma obscura!
Oh! Esperança alva! Oh! Sonho de brandura!
Desabrocha em meu peito a cada instante
Vosso nobre propósito exultante
Qual só se alcança através da ternura!
E de sonhar-te a macieza em vida
Não temo, jamais, a vinda da mortalha!
Minha vontade de ti, comovida,
Aufere as sementes do céu e as espalha,
Aos que me hão de acenar despedida.
Perde-se a vida, ganha-se a batalha!
Cigarro
É morte que rasteja entredente.
Através do fundo trago no pavio
Recebo-a aos pulmões, sem brio,
Para que se instaure lentamente.
Sem culpa a tenho, inconsequente
A preencher, de fumaça, o vazio
Aquecendo-me, de pigarro, o frio
E me desfazendo gradualmente...
Por não ser súbita, não causa dor.
Arde em doença como ardo em vida
Entorpecendo a garganta sem pudor.
Pavio que queima em despedida!
Esvaindo, em câncer, qualquer candor
Na jazida de sua cinza arrefecida...
Sussurro
Eram versos teus
Moldados
À tua imagem
E semelhança.
Concebidos
Numa inocência
Como que de criança.
Sussurrei-os ao teu ouvido
No mais íntimo
De todos os momentos.
Por intermédio dos versos,
Dei-te, inconsequente,
O coração
Que os forjou.
Possa o sussurro ter
Entrado por um ouvido
E por outro
Saído
Para que hoje os versos
Por ti tenham sido
Esquecidos.
Eram versos teus.
Já não são mais.
Tampouco versos meus,
Embora de mim escapem
(Pois não há porta de saída
No coração).
São tão somente versos.
E nada mais.
Óbice
O beijo é um tropeço
Na trilha da amizade.
Soneto do Ósculo
E quantos beijos ficaram perdidos
Nas vãs molduras da imaginação?
Condenados a serem esquecidos
Pelos lábios findados de paixão.
E ardem, ainda que jamais concebidos,
E, desse ardor, se aquece o coração.
Impossibilidade dos sentidos
Tornar em ósculo tanta ilusão!
Beijos não dados são mais saborosos.
A paixão inventada é mais bonita.
E quadros alheios são mais vistosos.
E de toda história de amor, contrita,
Com elementos bem mais que ditosos
A mais bela é a jamais escrita.