poucos meses de isolamento comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas caídas sobre a mesa poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras poucos meses de fome de penumbra de ausência de amor
subitamente toco as letras de um caderno: coisas vivas de há poucos meses acenam de algum lugar da eternidade – quem escreveu estas coisas? quem encarnou estas preocupações?
eu não lembrava
havia vida aqui: havia uma casa, um orquidário, havia planos traçados, o escarlate da vontade sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas, poeira, fome e penumbra, como agora as minhas mãos parecem implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita, uma canção sempre a descobrir; poemas embrionários, sincera comoção pelos vencidos. um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi? (pode um lírio desfazer-se sem legar qualquer perfume?) quanto desta repentina piedade será só culpa, falta de cautela, miragem?
e, no entanto, eu sei: sou eu
tanta coisa minha que eu nem lembro de ter esquecido
eu não lembrava, céus, eu não lembrava
não é o esquecimento tão mais belo quanto mais terrível do que a morte?
569
ophiuchus
eu vou estender até o infinito o breve conteúdo do recorte, e nele hei de criar o nunca dito, para além da ausência e para além da morte
eu vou colocar a todos, lado a lado, em uma prateleira bem polida, em que não pese a palavra passado, nem possa o tempo ditar a partida
eu vou organizar toda a mobília e esculpir cada ilusão à apoteose; diluviar o lar de maravilhas até esquecer seu semblante de hipótese
eu vou segurar com força o monstro que, entre velas, rasteja pra devorar tudo o que quero prender nos meus braços
e tudo estará bem. e eis que demonstro: cada coisa em seu lugar na casa caindo aos pedaços
569
canção para o teu silêncio
em teu primeiro silêncio, deixei todas as palavras, supondo que nunca mais delas eu precisaria.
em teu último silêncio, precisei de todas elas, e não pude nem morrer quando notei que as não tinha.
as letras são só relevo, agora, do teu semblante, onde a espera exasperada fez-se nula, mas completa.
fora da palavra morte, não morro. levo comigo. de teu último silêncio não regressarei poeta.
em teu primeiro silêncio, construí a minha casa; pus mais flores e mobília do que na casa cabia.
em teu último silêncio, desabaram as paredes ao redor da porta aberta, por qual jamais entrarias.
e fiquei de mãos vazias sem verdade ou movimento, vendo os símbolos quebrados nas marés entreabertas.
fora da palavra vida, só me resta carregá-la. de teu último silêncio não regressarei poeta.
520
fotocópia
mil poemas depois e ainda não encontrei conclusão aos teus olhos.
por mais que eu parta e desafie o tempo, por mais que eu me debruce longamente sobre as grandes questões e doenças, e percorra, nômade, os labirintos da palavra, é sempre à infinita banalidade dos teus olhos que regresso.
dois faróis doloridos resistindo sobre as sombras das ilhas naufragadas. mais esquecidos a cada lembrança. mais vivos a cada vez que os mato.
onde até mesmo o esquecimento se torna modalidade da memória.
555
fóssil
amor é espécie que somente em eventos de extinção em massa desaparece
extingue-se do que permanece, e o permanecido parece desaparecer: leva consigo lugares que não retornam nunca à matéria pré-amorosa,
leva consigo a neutralidade mesmo de certas sílabas, que não mais cortam o silêncio sem cortar a lembrança (nome, faca sutil amolada entre gestos e signos, desenhando no ar um par de olhos, uma boca, indicando, no mapa, um endereço para o qual não há caminhos)
consigo extingue da cidade geral a cidade específica, que humildemente se recolhe à poeira da caixa, e ali se exerce sem novas obras, sem aniversários, festas, pique niques, sem luzes de natal
cafés, cheiros, plantas, bancos, canções por toda a parte e em lugar nenhum, coisas consumidas em marcas antigas de garras ausentes e dentes ferozes outrora tão doces
cataclismo de sua própria fera único fóssil que ruge
562
decurso
o que em minhas mãos se aflora e no corpo experimento dura não mais que um agora e então se desfaz no vento
mas não sem que antes traduza de seu ínfimo momento o infinito que o conduza ao verso, seu monumento
para que de cada corte reste a beleza incontida e quando enfim me transporte
o tempo ao cais da partida, eu leve só minha morte e deixe aqui minha vida
548
a casa
dentro da casa cabem muitas casas. as paredes empurram contra as formas todos os tempos nelas sublimados, e em cada gesto a casa se transforma.
a cada porta que se abre ou fecha, a cada coisa que se sente ou solta, de dentro da caixa ou do álbum de fotos, desdobra-se, como uma matriosca.
num canto da sala, a casa da infância se abre, por exemplo, num tropeço, ali, com suas presenças ausentes, com seus brinquedos e rostos que esqueço,
e que esquecidos crio e tento achar, rostos líquidos de voz e de sombra, vívidos, sensíveis, invisíveis: sem querer me ferem – e eu desvio o olhar.
dentro da casa cabem muitas casas. logo no canto oposto à pueril casa da infância, fechada na pálpebra, reside a casa que ninguém mais viu,
desmoronando, roída de traças, sobre seu alicerce imaginário, cercada de acontecimentos ternos que não puderam nunca entrar ali.
e na cozinha, no banheiro e quartos diversas casas se mantêm à espreita surgem, como na sala, de qualquer canto, bem como da cama, quando se deita.
também é outra a casa no sofá, se o corpo se reúne a outro instante que tenha por acaso ali vivido em uma casa – a mesma – já distante.
e o mesmo se aplica a cada objeto, e a casa comporta em seus corredores viagens maiores que as de avião: em qualquer cômodo, a um toque da mão,
a casa de quando ela ainda vinha, aberta pela chave do perfume, e a casa de logo depois da morte, trazida pela roupa no cabide.
e o que dizer dos que a casa habitam? em cada vida, quantas casas cabem? a casa se reparte em cada peito, e se projeta, múltipla, tal como
a luz num prisma, em dispersão, e torna impossível determinar onde vivemos – e eu quase sufoco entre estruturas de concreto e sonho
se paro e olho em seus olhos cansados, que pousam, bem como os meus também pousam, sobre a matéria que, em silêncio, guarda inglórias histórias – e quase morro
sob o peso de tanta casa, nômade, andarilho de passo dividido, retendo em mim esta dor singular de não reter, de tanta casa, um lar.
dentro da casa cabem muitas casas. o tempo as adormece e não corrói. nenhuma das casas desaparece, e mesmo quando alegre a casa dói.
dentro da casa cabem muitas casas. é claro à vista por trás das janelas. dentro da casa cabem muitas casas, porém já não caibo em nenhuma delas.
582
ouroboros
o tempo reúne a obra à natureza do obreiro. naquilo que afinal sobra reside o que é verdadeiro.
a vida em si o desdobra até que se mostre inteiro, na inteira volta da cobra aonde estava primeiro.
assim se vê claramente no olhar dos restos do lar: silente, longínquo, velho...
onde vagarosamente começa a se humanizar a infinda face do espelho.
563
arte
carregar aquilo que morre ao infinito chama-se eternidade
devolver a eternidade àquilo que morre chama-se arte
605
das partes que não partiram
das partes que não partiram é que somos compostos. somente através de regressos amamos e vivemos.
o tempo nos fere e divide. despedimo-nos de nós mesmos e das coisas a cada mínimo instante, e, no entanto, não abandonamos nada.
parte a estação, resta-nos a pétala. apertando-a contra o peito, sangramos. e mal percebemos que é por meio dela mesma que chegamos a novas primaveras.
parte o beijo para o impossível, mas a reminiscência do beijo, nos lábios, permanece – e assim, em nós, o anseio de revivê-lo, de acalorar o corpo morno, de vencer a morte.
para cada história em nós decepada uma busca incessante em nós se elabora. traços vagos no meio da noite nos guiam a sonhos incríveis.
e mal percebemos que amamos. e mal percebemos que vivemos. o coração se consome em música e a poeira, à luz de um novo dia, cintila como estrelas.