Lista de Poemas

Dança Herética

Sou ímpar:
sou par em mim,
quando em minha alma carrego deus
transportado num cofo de vísceras
pelas ladeiras da misericórdia.

Quem me restituirá ao impar que sou,
senão a morte que descascará minha pele
abandonando os braços inutilmente
à espera do sol?

Sou ímpar em mim e par em Deus.

2 031

Pequena Ode a Tróia

Como te massacraram, ó cidade minha!
Antes, mil vezes antes fosses arrasada
por legiões de abutres do infinito vindos
sobre coisas preditas ao fim do infortúnio
(ânsias, labéus, lábios, mortalhas, augúrios),
a seres, ó cidade minha, pária da alma,
esse corredor de ecos de buzinas pútridas,
esse vai-e-vem de carros sem orfeus por dentro,
que sem destino certo, exceto o do destino
cumprido por estômagos de usuras cheios,
por bailarinos bascos sem balé nenhum,
por procissões sem deuses de alfarrábios velhos,
por úteros no prego dos cachos sem flores,
por proxenetas próstatas de outras vizinhas,
ou por desesperanças dos desenganados,
conduzem promissórias, anticonceptivos,
calvos livros de cheques e de agiotagem,
esses lunfas políticos que em manhãs — outras
que aquelas já havidas, as manhãs do Sol —
saem, quais ratazanas pelo ouro nutridas,
apodrecendo o podre, nutrindo o cadáver.
Se Caim matou Abel e em renovado crime
Abel espera o dia de novamente ser
assassinado em cunha de rota bandeira,
que inveja paira em Tróia ou em outro nome qualquer
da terra podre e azul de água e cotonifícios?
Mutiladas manhãs expõem-se nas vitrinas
de sapatos humanos mendigando pés,
de vestidos humanos mendigando peitos,
de saias humanas mendigando sexos.
Esta é Tróia!, o vigésimo século em Tróia,
blasfemam as fanfarras de súbito mudas
nos ouvidos mareando a pancada da Terra.

2 789

O Parto

Meu corpo está completo, o homem - não o poeta.
Mas eu quero e é necessário
que me sofra e me solidifique em poeta,
que destrua desde já o supérfluo e o ilusório
e me alucine na essência de mim e das coisas,
para depois, feliz e sofrido, mas verdadeiro,
trazer-me à tona do poema
com um grito de alarma e de alarde:
ser poeta é duro e dura
e consome toda
uma existência.

4 774

Ofício

Ocupo o espaço que não é meu, mas do universo.
Espaço do tamanho do meu corpo aqui,
enchendo inúteis quilos de um metro e setenta
e dois centímetros, o humano de quebra.
Vozes me dizem: eh, tu aí! E me mandam bater
serviços de excrementos em papéis caídos
numa máquina Remington, ou outra qualquer.
E me mandam pro inferno, se inferno houvesse
pior que este inumano existir burocrático.
E depois há o escárnio da minha província.
E a minha vida para cima e para baixo,
para baixo sem cima, ponte umbilical
partida, raiz viva de morta inocência.
Estranhos uns aos outros, que faço eu aqui?
E depois ninguém sabe mesmo do espaço
que ocupo, desnecessário espaço de pernas
e de braços preenchendo o vazio que eu sou.
E o mundo, triste bronze de um sino rachado,
o mundo restará o mesmo sem minha quota
de angústia e sem minha parcela de nada.

2 197

Geografia Humana

Há em mim, 
carne minha, os quatro cantos da liberdade.
No meu assoalho amanhece o sol de todas as direções.
Há em mim o rumo da raiz do multiplicado vento
Soprando aonde quer, porque quer a liberdade.
No oco do espaço o casario sua ao sol do tempo.
parto-me em trens, olho-me em fontes, divido-me em marmitas,
porque há em mim, carne minha, os quatro cantos da liberdade.
e até no último deles, o mais silencioso e esquivo deles,
o ainda virgem, o alheio a bispos e batismos de párocos,
agachado como um animal e útil como uma bilha no meio  da sala,
encontrarei ainda o início de uma outra liberdade.

1 825

IF

Há um se
na vida de cada um,
Um se de depois do fóceps
(no tempo em que a dor cumpria a Bíblia)

e um se de depois da cesariana
(no tempo em que apodrece o fruto
no gozo da emurchecida árvore).

Ah! Se o se negasse o se, e tudo
Fosse um único sim, certeza
De aceitarmos o ser e o fato

E o espelho reflita a imagem caída
Das mãos de imponderável Deus.

1 175

O Piano dos Afogados

Reténs
a forma para um outro espaço.
Nascem de ti as estranhas madrugadas.
Noturnas chuvas, dos céus mais órfãos,
banham-te as teclas de álgidos artelhos.
Nasce de ti a roupagem das vertentes
que a primeira mulher se despe intacta
para a ressurreição da sua inocência.
Ó azulejo, ó piano de outras mãos:
retém meu mundo pela última vez!
retém meu tempo que esgarça outro tempo!
Retém meu sopro de fugacidade.

1 294

Cosa Mentale

Pode-se
viver de pensar?
Saber-se coisa dentre um corpo
Como animal de pensamento?
Do pó não pode haver nada:
Apenas mãos, do pó nascidas,
No pó se chamam mãos...Ó Nada!

Ó esplendoroso Nada em ti
na luz do ser após nascido
para a grande noite depois:
teu corpo é um quarto mobilado
sobre quem dispo o pensamento
de todas as suas gavetas.

Minha memória te destrói
- prego por prego - nos ferrolhos,
para tirar-te inteira ao dentro.
Pode-se viver de pensar:
a matéria atrapalha tudo
pelo hábito de acabar-se.

1 279

Duplo Ruim

Toda existência
é voraz.
Todo ser deveria ser só.
Não unir-se nunca, jamais,
não enroscar-se a nenhum pó.

Ter por casa o mundo todo.
Ter por lar o que é do chão.
Carne, ó dinheiro de um soldo
ganho só com maldição!

Vilipendiar-se? Por quê?
Unir-se a outro? Mas com qual?
Ser um só, para mais ser,
fruto embora de um casal.

Toda existência é nenhuma,
Se feita para outra , em dois.
Role o mar, eterna espuma,
Presente ontem e depois.

1 756

A Rosa Total

Amo, como
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.

Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.

1 572

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Identificação e contexto básico

Nauro Machado foi um poeta, contista, romancista e ensaísta brasileiro. Nasceu em São Luís, Maranhão, e faleceu em São Paulo. Foi um intelectual multifacetado, com uma obra vasta e diversificada que o consagrou como um dos importantes nomes da literatura brasileira do século XX.

Infância e formação

Nauro Machado teve uma infância marcada pela efervescência cultural de São Luís. Sua formação intelectual foi ampla, combinando estudos formais com um intenso autodidatismo. Desde cedo, demonstrou grande interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências de diversos autores e correntes literárias, o que moldou sua visão de mundo e sua futura produção artística.

Percurso literário

O início da carreira literária de Nauro Machado se deu com a publicação de seus primeiros poemas e contos, que logo chamaram a atenção pela originalidade e pela força expressiva. Ao longo de sua trajetória, sua obra evoluiu consideravelmente, explorando diferentes gêneros e estilos, mas sempre mantendo uma coerência temática e estética. Machado foi também colaborador de diversas publicações, participando ativamente do cenário literário de sua época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais relevantes, destacam-se livros de poesia como "O Sol Nasceu Para Todos" e "A Noite", que exploram a condição humana com profundidade. Seu estilo é marcado pela densidade imagética, pela musicalidade do verso e por uma linguagem ao mesmo tempo erudita e acessível. Os temas recorrentes em sua obra incluem o amor, a morte, o tempo, a solidão e a busca por sentido. Machado utilizava uma variedade de formas poéticas, mas o verso livre e a experimentação métrica são características notáveis. Sua voz poética é frequentemente confessional, mas transcende o pessoal para alcançar uma dimensão universal. A relação de Machado com a tradição literária é de diálogo crítico, ao mesmo tempo que se insere na modernidade literária brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Nauro Machado viveu em um período de grandes transformações sociais e culturais no Brasil e no mundo. Sua obra reflete, de certa forma, os anseios e as inquietações de sua geração. Manteve contato com outros escritores e intelectuais, participando de círculos literários que discutiam os rumos da arte e da cultura. Sua posição cultural e intelectual o inseriu em um contexto de debates e produções que buscavam redefinir a identidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Nauro Machado, incluindo relações afetivas e familiares específicas, bem como suas crenças e posições políticas, não são amplamente divulgados em fontes públicas, sendo um aspecto menos explorado em sua biografia. Sabe-se que dedicou grande parte de sua vida à escrita e ao estudo, o que pode ter influenciado seu cotidiano e suas interações sociais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Nauro Machado obteve reconhecimento em vida por sua obra, sendo considerado um autor de destaque na literatura brasileira. Sua produção literária foi objeto de estudos e resenhas críticas, que destacaram sua originalidade e a qualidade de sua escrita. Embora não tenha recebido premiações de grande projeção internacional, seu nome se consolidou no panorama literário nacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências literárias de Nauro Machado são diversas, abrangendo desde autores clássicos até contemporâneos. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas e escritores, que encontraram em sua escrita uma fonte de inspiração e um modelo de rigor estético e profundidade temática. Seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia brasileira e na consolidação de uma voz autoral única.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Nauro Machado tem sido objeto de diversas interpretações críticas, que exploram as camadas filosóficas e existenciais de seus poemas e prosas. Seus textos convidam à reflexão sobre temas universais, provocando debates sobre a condição humana e a busca por significado. A complexidade de sua linguagem e a riqueza de suas metáforas abrem caminhos para leituras múltiplas e profundas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto menos conhecido da obra de Nauro Machado pode ser a sua atuação em outras áreas intelectuais além da literatura, como ensaísmo e crítica. A relação entre sua vida e sua obra, muitas vezes marcada pela introspecção, pode gerar curiosidade sobre os hábitos de escrita e os rituais que envolviam seu processo criativo. A análise de seus manuscritos e correspondências, se disponíveis, poderia revelar facetas inéditas de seu pensamento e de sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Nauro Machado faleceu em São Paulo, deixando um legado literário expressivo. Sua memória é preservada através da continuidade de seus escritos, que continuam a ser lidos, estudados e admirados. Publicações póstumas podem ter contribuído para a divulgação de obras inéditas ou para a reinterpretação de sua produção já conhecida, mantendo viva a sua presença na cultura brasileira.