Lista de Poemas

Com os dez dedos da mão

Falhei
de tudo o pouco que ainda pude:
se o ser real não pôde ser virtude,
e o irreal ser só pôde , em represália
dizer ao ser real, sem que o abale a
vida em mim a ser só da ilusão:
de ti já sou, por fim, teu falso irmão,
eis o peso da angústia, o enxofre do ouro,
onde enterrei meu possível tesouro.
Feito de quê? De sombra mais que luz,
na assombração debaixo de uma cruz.
descobri-me à verdade, enfim capaz
de oferecer-se a mim - dela incapaz -
mas, sobretudo, pão, rosa ou dejeto,
Uma verdade feita de alfabeto.
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Caxangá

Há um desespero
real na palavra
um desespero contra o desespero
enlouquecido em tudo que é palavra
incapaz de dizer o real nela,
e um desespero dentro, um desespero
da palavra assentada na palavra,
da palavra assentada nela mesma,
canal e boca de uma angustia virgem,
de um dia novo contra a noite fora
envolvendo de luto os nomes todos:
antônio, ténis, sonho, árvore, morte.
sombra dentro de sombra, mas girando
em rodopio eterno, o pião da sombra,
o que fazer da voz, senão clamar
em uivos de absurda sombra , á noite
geradora de braços e destroços
vogando intérminos no extinto brado?

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Apenas uma Coisa

Existe amor?
Palpável como o dia,
como a matéria com que é feito o objeto
chamado mesa, catedral ou baço
nitrindo em tantas coisas?

Como amar
esta incorpórea substância carnal,
este lampejo de chão no infinito?
Existe amor?

Palpável como a terra?
Debaixo ou sobre a terra, ainda carne,
algum finado saberá do amor,
essa chama votiva a brilhar ainda?
Amou Torquato a Maria? Amou deveras?
Digam-nos os anjos corcundas do além,
a ave agoureira ao céu crucificada,
o revoar de asas na papal coroa.
Amou Torquato a Maria, ainda carne?
Ama Maria a esse pó apenas nome
legado aos filhos como letra morta,
como moeda gasta em mão mendiga?
Chupando um dedo só, o amor se alimenta.

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Contumácia

Maldita a vida me seja,
três vezes maldita seja
a vida que me desastra
e que por ser-me finita,
três vezes seja maldita
e amaldiçoada madrasta.

Quem me fez como um qualquer,
dormindo aonde estiver,
saiba deste desprazer,
para sempre e desde saiba,
para que o seu Ser não caiba
na pequenez do meu ser,

que eu não pedi para estar
com minhas pernas no andar,
com minha emoção a sentir
este universo que tapa
a minha boca num tapa
e a minha língua sem Ti,

essa coisa que fede a iodo,
como a água do mar ou do
envelhecimento o rim,
essa coisa que derrama
seu púbis velho de chama
a extinguir-se quase ao fim,

corpo de Deus! Corpus Christi!
Viste-O algum dia? Tu O viste
sequer um dia como tu?
Integral e à dor exposto,
desde o cio ao suor do rosto,
desde impotente até nu?

Os meus membros são crepúsculos!
São sangue e iodo os meus músculos,
é iodo e sangue a minha cruz.
Por que não nasci não sendo?
Por que, ao amanhecer, acendo,
noutra treva, cega luz?

Se além da terra existe ar,
se além da terra ainda há
por menor que seja, um seja,
como à noite volta o dia,
como, ao corpo, o que o procria,
como, em mim, meu ser esteja!

Dentro ou fora, qual gaveta,
para que, em mim, o ser meta
quem, em mim, é este meu ser,
olho, em volta, à minha volta,
e olho nada — só o que solta
de qualquer um: quem ou o quê?

Nada é, pois tudo se sonha.
E se alguém me falar: ponha
tudo o que lhe resta, e resta
no que, ao pôr-se, se me põe,
para que em mim meu ser sonhe,
vivo morto — e a morte empesta!

Como dar à vida pôde
o nada ser que sou de
outro feito pelo ser?
De outro ser, igual a mim,
mas de outro início a outro fim,
noutra vida até morrer?

Ó envelhecer do meu estar!
Da leitura de Balzac,
de La Comédie Humaine,
se passaram tantos anos
nos malogros desenganos,
sem disfarce ou mise-en-scène.

Bela Eugénie Grandet:
sois lembrança a anoitecer
pelas tardes do meu Carmo,
quem me traz a quem não sou
na usura do pai Goriot
que me a mim dá, para dar-mo

no meu duplo a ser mais dois,
quais búfalos que são bois,
ao mar meu a ser mais mar de
ontem que ao ser-te, alma, foi-te,
nas noites que são mais noite,
nas tardes que são sem tarde.

Só me lembro das andorinhas,
que hoje são luas-vinhas
que iam e vinham às seis,
só me lembro das sequazes
na imprecisão de alguns quases,
na distância de vocês!

Róseas ruas da memória,
róseas ruas hoje escória
que a soçobrar mais me sobe,
afundai-me na lembrança
hoje cravos da criança
que meu cadáver descobre.

Como, à noite, acendo a lâmpada,
para imitar (rampa da
noite) uma inútil manhã,
como o como que mais como,
assumo, na idéia, o pomo
da primitiva maçã.

Assumo o dia original.
Nascimento à morte igual,
nascimento em morte assumo
nesta página onde, em branco,
minha vida inteira arranco
do nada em que subi. E sumo.

E sumo a sós. Mas prossigo:
"na idéia é bem maior o trigo
que na boca o próprio pão,
na idéia janto a sós, comigo,
o pão real que mastigo
feito de imaginação".

Azul manhã em contumácia!
Negra noite, azul, te amasse
a idéia sem pensamento,
te amasse a própria Idéia
reduzida a uma hiléia
sem ar, floresta, rio, vento.

Locador de um condomínio
frustrador de um hímen híneo,
frustrador de um hímem são,
locador que loca um louco,
de carne e ossos sou reboco
deste barro em maldição.

Tudo é farsa, menor dor.
Sou, em mim, o que me sou
desde o ventre que me fez.
E contemplo a arraia, e raia
dela, como de uma praia,
a noite toda. Ei-la aqui. Eis:

andaime, sucata, ferro,
vagido, vagina e berro,
viatura e papelório,
passa tudo, e é a viatura
conduzindo à sepultura
meu ser morto. E sem velório.

Pois viu a terra e além bebeu-a,
pois viu o tempo e disse: é meu, à
solidão cerzindo a roupa
onde, se me dispo, visto
o sexo nu de algum Cristo
que, despido, não me poupa.

Dez anos de coito cego
são as metáforas que lego
à solitária da escrita,
aonde não chega ninguém
exceto o vazio que vem
de uma montanha infinita.

Ao ouvir da tarde: fracasso!,
conquanto, vergando, os braços
dissessem: pára, enfim finda!
e morre, ó alma desgraçada,
eu ousei retornar do nada,
ousei retornar ainda.

Abandona, ó rei, abandona
o abono de qualquer cona
além do sangue e da queixa.
Cerca a tua casa e a mura
com o suor da tua estatura,
e deixa o remorso, deixa-o!

Senhor do teu sofrimento,
vai-te com o diabo e o vento,
vai-te com a noite e o monte.
E fala, ainda que mudo,
que, do nada, igual a tudo,
sobre ambos nasces. E põe-te!

Elimina todo se
da pretensão de existir
na existência que é demérito,
e no não haver nascido
elimina-te existido,
elimina-te pretérito!

Eliminar o talvez.
Não saber dia, hora ou mês,
não saber até o minuto
em que me vim sendo feito
plantando a morte no peito
e o espinhaço no meu fruto.

Por que o vemeversoverbo
da herbívora erva que eu erbo
no meu plantio masculino,
inverte o chão do seu galho
arrancado do assoalho
repicando como um sino?

Ter olhos-Deus! olhos-sóis
tem-no o Deus que cego a sós,
tem-no o horizonte a pôr-se
como colírio em dordolhos,
tem-no quem me olha nos olhos
como se cego eu já fosse!

Ah!, se a pedra me fizesse
fazer-me cobrir quem desce
à região do ser meu se,
para não haver nascido
ou o houvesse enfim já sido
sem que eu dissera: nasci!

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Identificação e contexto básico

Nauro Machado foi um poeta, contista, romancista e ensaísta brasileiro. Nasceu em São Luís, Maranhão, e faleceu em São Paulo. Foi um intelectual multifacetado, com uma obra vasta e diversificada que o consagrou como um dos importantes nomes da literatura brasileira do século XX.

Infância e formação

Nauro Machado teve uma infância marcada pela efervescência cultural de São Luís. Sua formação intelectual foi ampla, combinando estudos formais com um intenso autodidatismo. Desde cedo, demonstrou grande interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências de diversos autores e correntes literárias, o que moldou sua visão de mundo e sua futura produção artística.

Percurso literário

O início da carreira literária de Nauro Machado se deu com a publicação de seus primeiros poemas e contos, que logo chamaram a atenção pela originalidade e pela força expressiva. Ao longo de sua trajetória, sua obra evoluiu consideravelmente, explorando diferentes gêneros e estilos, mas sempre mantendo uma coerência temática e estética. Machado foi também colaborador de diversas publicações, participando ativamente do cenário literário de sua época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras mais relevantes, destacam-se livros de poesia como "O Sol Nasceu Para Todos" e "A Noite", que exploram a condição humana com profundidade. Seu estilo é marcado pela densidade imagética, pela musicalidade do verso e por uma linguagem ao mesmo tempo erudita e acessível. Os temas recorrentes em sua obra incluem o amor, a morte, o tempo, a solidão e a busca por sentido. Machado utilizava uma variedade de formas poéticas, mas o verso livre e a experimentação métrica são características notáveis. Sua voz poética é frequentemente confessional, mas transcende o pessoal para alcançar uma dimensão universal. A relação de Machado com a tradição literária é de diálogo crítico, ao mesmo tempo que se insere na modernidade literária brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Nauro Machado viveu em um período de grandes transformações sociais e culturais no Brasil e no mundo. Sua obra reflete, de certa forma, os anseios e as inquietações de sua geração. Manteve contato com outros escritores e intelectuais, participando de círculos literários que discutiam os rumos da arte e da cultura. Sua posição cultural e intelectual o inseriu em um contexto de debates e produções que buscavam redefinir a identidade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Nauro Machado, incluindo relações afetivas e familiares específicas, bem como suas crenças e posições políticas, não são amplamente divulgados em fontes públicas, sendo um aspecto menos explorado em sua biografia. Sabe-se que dedicou grande parte de sua vida à escrita e ao estudo, o que pode ter influenciado seu cotidiano e suas interações sociais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Nauro Machado obteve reconhecimento em vida por sua obra, sendo considerado um autor de destaque na literatura brasileira. Sua produção literária foi objeto de estudos e resenhas críticas, que destacaram sua originalidade e a qualidade de sua escrita. Embora não tenha recebido premiações de grande projeção internacional, seu nome se consolidou no panorama literário nacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências literárias de Nauro Machado são diversas, abrangendo desde autores clássicos até contemporâneos. Sua obra, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas e escritores, que encontraram em sua escrita uma fonte de inspiração e um modelo de rigor estético e profundidade temática. Seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia brasileira e na consolidação de uma voz autoral única.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Nauro Machado tem sido objeto de diversas interpretações críticas, que exploram as camadas filosóficas e existenciais de seus poemas e prosas. Seus textos convidam à reflexão sobre temas universais, provocando debates sobre a condição humana e a busca por significado. A complexidade de sua linguagem e a riqueza de suas metáforas abrem caminhos para leituras múltiplas e profundas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto menos conhecido da obra de Nauro Machado pode ser a sua atuação em outras áreas intelectuais além da literatura, como ensaísmo e crítica. A relação entre sua vida e sua obra, muitas vezes marcada pela introspecção, pode gerar curiosidade sobre os hábitos de escrita e os rituais que envolviam seu processo criativo. A análise de seus manuscritos e correspondências, se disponíveis, poderia revelar facetas inéditas de seu pensamento e de sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Nauro Machado faleceu em São Paulo, deixando um legado literário expressivo. Sua memória é preservada através da continuidade de seus escritos, que continuam a ser lidos, estudados e admirados. Publicações póstumas podem ter contribuído para a divulgação de obras inéditas ou para a reinterpretação de sua produção já conhecida, mantendo viva a sua presença na cultura brasileira.