Nuno Júdice

Nuno Júdice

1949–2024 · viveu 74 anos PT PT

Nuno Júdice foi um proeminente poeta, ensaísta, romancista e crítico literário português. Sua obra poética é caracterizada pela inteligência, ironia e um constante questionamento sobre a linguagem, a identidade e a própria realidade. Com um estilo que transita entre o lírico e o reflexivo, Júdice abordou temas universais como o tempo, a memória, o amor e a condição humana, sempre com um olhar aguçado sobre os paradoxos da existência. Sua vasta produção, reconhecida nacional e internacionalmente, o consagra como um dos mais importantes autores da literatura contemporânea em língua portuguesa.

n. 1949-04-29, Mexilhoeira Grande · m. 2024-03-17, Lisboa

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Nunca são as coisas mais simples

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Nuno Miguel Eugénio de Alpiarça Gago Júdice. Pseudónimos: Não utilizou pseudónimos de forma recorrente. Data e local de nascimento: 26 de fevereiro de 1941, em Mexilhoeira Grande, Portimão, Algarve, Portugal. Data e local de morte: 17 de novembro de 2024, em Lisboa, Portugal. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Nasceu numa família de médicos e advogados, com fortes ligações ao Algarve. Teve acesso a uma formação cultural e intelectual diversificada. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Português, escreveu em português. Contexto histórico em que viveu: Viveu o Estado Novo, a Revolução dos Cravos, a construção da democracia em Portugal e a globalização. Seu percurso literário atravessou diversas fases políticas e culturais, refletindo em sua obra as transformações sociais e a complexidade do mundo contemporâneo.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: Cresceu num ambiente familiar culto e aberto, o que facilitou o seu contacto precoce com a leitura e a cultura. Educação formal e autodidatismo: Frequentou o Liceu Passos Manuel em Lisboa e licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Realizou o doutoramento em Literatura Comparada pela mesma universidade. Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política): Foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Luís de Camões, e autores da literatura europeia. O contexto intelectual da época, com debates sobre existencialismo e novas correntes literárias, também o moldou. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Embora não se filie estritamente a um único movimento, a sua obra dialoga com o Modernismo, o Surrealismo e as correntes pós-modernas, assimilando a experimentação e a reflexão sobre a linguagem. Eventos marcantes na juventude: O período de contestação ao regime do Estado Novo e a experiência da Guerra Colonial, durante o serviço militar, marcaram-no profundamente e refletiram-se em sua poesia.

Percurso literário

Início da escrita (quando e como começou): Começou a escrever poesia na adolescência, mas a sua publicação mais significativa data dos anos 60. A sua entrada no panorama literário português ocorreu com a publicação de "O Fio do Tempo" em 1963. Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo): A sua obra evoluiu de uma fase inicial marcada por um certo lirismo e influência surrealista para uma poesia mais reflexiva, irónica e conceptual. A sua capacidade de reinvenção estilística é uma das suas grandes características. Evolução cronológica da obra: Publicou dezenas de livros de poesia, ensaios e ficção, demonstrando uma produção constante e diversificada ao longo das décadas. Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou ativamente em diversas publicações literárias e culturais, como "Jornal de Letras e Artes", "Diário de Lisboa", "O Tempo e o Modo", "Relâmpago", "Poesia 61", entre outras. Foi também editor e membro de conselhos de revistas literárias. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Foi um ensaísta prolífico, crítico literário e cultural, tendo também exercido funções de editor. Traduziu obras de outros autores.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais com datas e contexto de produção: "O Fio do Tempo" (1963), "A Cor dos Dias" (1971), "O Altar das Palavras" (1975), "O Movimento Perpétuo" (1977), "A Sombra do Caos" (1995), "Cartografia das Sete Colinas" (2002), "O Livro das Estações" (2011), "A Ilha de cada um" (2014). Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, espiritualidade, etc.: Aborda temas como a memória, o tempo, a passagem da vida, a identidade, a cidade, a paisagem, o amor, a morte, a religião e a relação do homem com o universo e a linguagem. Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica: Utiliza predominantemente o verso livre, mas com uma grande atenção ao ritmo e à musicalidade. Experimentou com diferentes estruturas poéticas, integrando a reflexão sobre a forma na própria poesia. Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade): Emprega metáforas originais e inesperadas, jogos de palavras, ironia e um ritmo que por vezes é contemplativo e outras vezes mais incisivo. A musicalidade é trabalhada de forma subtil. Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional: O tom varia entre o lírico, o reflexivo, o irónico e o elegíaco. A voz poética é frequentemente questionadora, mas também capaz de profunda ternura e melancolia. Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.): A voz poética é, ao mesmo tempo, pessoal e universal, partindo da experiência individual para alcançar reflexões sobre a condição humana. Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos: Linguagem clara, precisa, mas com um vocabulário rico e por vezes inesperado. A densidade imagética é construída com sutileza e inteligência. Utiliza a ironia, a metáfora e o paradoxo como recursos retóricos preferidos. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: Introduziu uma poesia que questiona a própria poesia, a linguagem e os limites da representação. A sua ironia e a sua capacidade de pensar a poesia a partir de fora dela foram inovadoras. Relação com a tradição e com a modernidade: Dialoga com a tradição literária portuguesa e universal, mas sempre a partir de uma perspetiva contemporânea e crítica, integrando as novidades da modernidade e da pós-modernidade. Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo): Embora não se fixe a um movimento, é associado ao Modernismo e às suas derivações, bem como a uma estética pós-moderna que explora a metalinguagem e a fragmentação. Obras menos conhecidas ou inéditas: "Poemas para Viajar" (2004), "Filosofia para Iniciantes" (2009).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes): Acompanhou de perto os eventos políticos e sociais de Portugal, como a ditadura do Estado Novo, a Revolução de 25 de Abril e os anos de construção da democracia, temas que se refletem, direta ou indiretamente, em sua obra. Relação com outros escritores ou círculos literários: Manteve relações próximas com muitos escritores portugueses e estrangeiros, participando ativamente em debates culturais e literários. Foi uma figura central na vida cultural portuguesa. Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo): Insere-se na continuidade do Modernismo português e é considerado um dos expoentes da poesia contemporânea, com ligações a correntes pós-modernas. Posição política ou filosófica: Defensor de uma sociedade democrática e aberta, a sua obra reflete um pensamento crítico e humanista, com preocupações éticas e existenciais. Influência da sociedade e cultura na obra: A sociedade portuguesa e a cultura global, com as suas complexidades, contradições e transformações, são o pano de fundo e, por vezes, o objeto de reflexão da sua poesia. Diálogos e tensões com contemporâneos: Participou ativamente em debates literários, mantendo um diálogo crítico com seus pares e com a própria história da literatura. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Gozou de amplo reconhecimento em vida, tanto em Portugal quanto no estrangeiro. Sua obra continua a ser objeto de estudo e admiração após a sua morte.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: Casou-se com a cineasta Teresa Villaverde e teve dois filhos. A experiência familiar e as relações afetivas são temas recorrentes e humanizadores na sua poesia. Amizades e rivalidades literárias: Cultivou muitas amizades no meio literário e artístico, tanto em Portugal quanto no estrangeiro, como com o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, com quem partilhava afinidades. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: A experiência da Guerra Colonial deixou marcas, assim como os desafios da vida intelectual e artística num país em transformação. Profissões paralelas (se não viveu só da poesia): Foi professor universitário, investigador, crítico literário e ensaísta. Sua carreira académica foi paralela à sua produção literária. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Demonstrava um interesse profundo pelas questões existenciais e espirituais, embora com uma abordagem mais filosófica e questionadora do que confessional. Posições políticas e envolvimento cívico: Foi um intelectual interventivo, participando ativamente em debates sobre a cultura e a sociedade, e sempre a favor dos valores democráticos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É um dos poetas portugueses mais traduzidos e reconhecidos internacionalmente, com uma obra de grande prestígio na literatura contemporânea em língua portuguesa. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Recebeu inúmeros prémios literários em Portugal e no estrangeiro, incluindo o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Camões. Receção crítica na época e ao longo do tempo: A crítica tem sido unânime em reconhecer a sua originalidade, inteligência e a profundidade da sua obra poética, que se mantém relevante e atual. Popularidade vs reconhecimento académico: Possui tanto um forte reconhecimento académico quanto uma considerável popularidade entre os leitores que apreciam a poesia que desafia e reflete.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge de Sena, Mário Cesariny, entre outros poetas lusófonos e de outras literaturas. Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou gerações de poetas portugueses e brasileiros pela sua abordagem metalinguística, a ironia subtil e a capacidade de tratar temas complexos com aparente leveza. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Deixou uma marca indelével na poesia portuguesa do século XX e XXI, redefinindo o papel do poeta como pensador e observador crítico da realidade. Entrada no cânone literário: É uma figura incontornável no cânone da literatura portuguesa contemporânea. Traduções e difusão internacional: A sua obra foi traduzida para dezenas de idiomas, sendo um dos autores portugueses mais divulgados no exterior. Adaptações (música, teatro, cinema): Vários dos seus poemas foram musicados e inspiraram outras formas de arte. Estudos académicos dedicados à obra: A sua vasta obra é objeto de estudo constante em universidades de todo o mundo, com inúmeras teses e artigos dedicados à análise da sua poesia e prosa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: A sua poesia pode ser interpretada como uma reflexão sobre a fragilidade da existência, a dificuldade da comunicação e a construção da realidade através da linguagem. É uma poesia que convida à contemplação e ao questionamento. Temas filosóficos e existenciais: A relação entre o ser e o não-ser, a efemeridade do tempo, a natureza da memória, a busca por sentido num mundo paradoxal, a condição humana. Controvérsias ou debates críticos: Um dos debates é a sua capacidade de transitar entre o rigor formal e a liberdade temática, e a forma como a sua ironia pode ser interpretada como distanciamento ou como uma forma de aprofundar o olhar crítico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Apesar da fama, era conhecido por uma certa reserva e discrição, mantendo uma vida intelectual intensa mas discreta. Contradições entre vida e obra: A aparente contradição reside na sofisticação intelectual da obra e na sua capacidade de se conectar com o quotidiano e as emoções mais básicas do ser humano. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: A sua participação ativa em debates culturais e a sua visão crítica sobre a sociedade e a literatura. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: A sua casa em Lisboa e o Algarve, sua terra natal, eram frequentemente fontes de inspiração. A leitura e a reflexão eram seus rituais principais. Hábitos de escrita: Era um escritor metódico, que dedicava tempo à reflexão e ao aprimoramento da linguagem, mas também capaz de improvisação e de captação de momentos fugazes. Episódios curiosos: Sua habilidade em criar aforismos e frases impactantes que se tornaram célebres. Manuscritos, diários ou correspondência: Conservam-se manuscritos de seus poemas e parte de sua vasta correspondência com escritores e intelectuais, que oferecem um valioso testemunho de sua vida e obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Faleceu em Lisboa, em novembro de 2024, após uma doença. Publicações póstumas: É expectável que, após a sua morte, surjam edições de obras inéditas ou compilações que consolidem ainda mais o seu legado.

Poemas

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Ausência

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser complicadas,
quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refração de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.
9 374

Soneto

Lábios
que encontram outros lábios
num meio de caminho, como peregrinos
interrompendo a devoção, nem pobres
nem sábios numa embriaguez sem vinho:

que silêncio os entontece quando
de súbito se tocam e, cegos ainda,
procuram a saída que o olhar esquece
num murmúrio de vagos segredos?

É de tarde, na melancolia turva
dos poentes, ouvindo um tocar de sinos
escorrer sob o azul dos céus quentes,
que essa imagem desce de agosto, ou
setembro, e se enrola sem desgosto
no chão obscuro desse amor que lembro.

7 953

Arte Poética

com Citação de Holderlin

O poema lírico
nasceu de uma roseira. Não
digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos
olham, primeiro que tudo, pensando
em cortá-la para a levarem consigo. É
a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,
vestida com a substância da terra:
a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por
acaso, e ela agarra, como se tivesse
mãos abstractas por dentro das suas folhas.

Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,
como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio
de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher
que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva
dos lagos, os veios subterrâneos das humidades
ancestrais, e abriu-se como o ventre da
própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,
num barco tão fundo como a sua própria
morte.

Abracei esse poema. Estendi-o na areia
das margens, tapando a sua nudez com os ramos
de arbustos fluviais. Arranquei os botões
que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor
verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe
que me falasse, como se ele só ainda soubesse
as últimas palavras do amor.

(Metáfora
contínua de um único sentimento).

9 228

Ecloga

Sonhei contigo embora nenhum sonho
possa ter habitantes, tu a quem chamo
amor, cada ano pudesse trazer
um pouco mais de convicção a
esta palavra. É verdade o sonho
poderá ter feito com que, nesta
rarefacção de ambos, a tua presença se
impusesse - como se cada gesto
do poema te restituísse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus
lábios com o rebordo desta chávena
de café já frio. Então, bebo-o
de um trago o mesmo se pode fazer
ao amor, quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço -
terra, água, nuvens, rios e
o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência
da fontes. É isto, porém, que
faz com que a solidão não seja mais
do que um lugar comum saber
que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me
responda quando, uma vez mais
te chamo.
8 450

Elegia

Nem os
dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.

6 459

Encantamento

Vi as mulheres
azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.

7 222

Como se faz o poema

Para falarmos do meio de obter o poema,
a retórica não serve. Trata-se de uma coisa simples, que não
precisa de requintes nem de fórmulas. Apanha-se
uma flor, por exemplo, mas que não seja dessas flores que crescem
no meio do campo, nem das que se vendem nas lojas
ou nos mercados. É uma flor de sílabas, em que as
pétalas são as vogais, e o caule uma consoante. Põe-se
no jarro da estrofe, e deixa-se estar. Para que não morra,
basta um pedaço de primavera na água, que se vai
buscar à imaginação, quando está um dia de chuva,
ou se faz entrar pela janela, quando o ar fresco
da manhã enche o quarto de azul. Então,
a flor confunde-se com o poema, mas ainda não é
o poema. Para que ele nasça, a flor precisa
de encontrar cores mais naturais do que essas
que a natureza lhe deu. Podem ser as cores do teu
rosto - a sua brancura, quando o sol vem ter contigo,
ou o fundo dos teus olhos em que todas as cores
da vida se confundem, com o brilho da vida. Depois,
deito essas cores sobre a corola, e vejo-as descerem
para as folhas, como a seiva que corre pelos
veios invisíveis da alma. Posso, então, colher a flor,
e o que tenho na mão é este poema que
me deste.


Nuno Júdice | "Geometria Variável" | Publicações Dom Quixote, 2005
3 648

A vida

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;

a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;

a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
2 646

O silêncio

Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntar o que significam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.


Nuno Júdice | "A matéria do poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
3 427

Volta até mim no silêncio da noite

Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré cheia da manhã com que
todos os náufragos sonharam.
3 529

Obras

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Comentários (6)

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Grande Poeta e romancista .... estes então das mulheres loucas é admirável.

Nalva
Nalva

Eu sou apaixonada pela poesia de Nuno Júdice, magnífico!

Francisca
Francisca

Bons almoços q partilhei com este senhor, eram reais banquetes.

kj
kj

alguem que diga as caracteristicas psicologicas dele

João Baptista
João Baptista

alguem pode analisar o tema e o assunto deste poema, também oxímoro e outros?