Pablo Neruda

Pablo Neruda

1904–1973 · viveu 69 anos CL CL

Pablo Neruda foi um dos mais proeminentes poetas do século XX, laureado com o Prémio Nobel da Literatura em 1971. A sua obra abrange desde o lirismo amoroso e melancólico da juventude até à poesia social e política engajada, refletindo as suas experiências de vida como diplomata, ativista e exilado. A sua escrita é marcada por uma linguagem rica, imagética exuberante e uma profunda conexão com a natureza, o povo e as causas humanitárias. Neruda é celebrado pela sua capacidade de expressar tanto a intimidade do ser quanto a amplitude dos grandes temas universais, tornando-se um dos poetas de maior alcance popular e reconhecimento internacional.

n. 1904-07-12, Parral · m. 1973-09-23, Santiago

1 212 541 Visualizações

É assim que te quero, amor

É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Pablo Neruda, nome de registo Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, nasceu em 1904 e faleceu em 1973. Foi um poeta, diplomata e político chileno, considerado um dos mais importantes e influentes poetas do século XX em língua espanhola. Usou o pseudónimo Pablo Neruda, que mais tarde adotou legalmente. Escreveu em espanhol. Viveu num período de intensas transformações políticas e sociais na América Latina e no mundo.

Infância e formação

Nasceu em Parral, Chile. Perdeu a mãe poucos meses após o nascimento e foi criado pelo pai e pela madrasta em Temuco. A sua infância foi marcada pela natureza exuberante do sul do Chile, que viria a ser uma fonte de inspiração constante. Desde cedo demonstrou aptidão para a escrita, publicando os seus primeiros poemas na adolescência. Estudou francês no Instituto Pedagógico da Universidade do Chile, em Santiago.

Percurso literário

Começou a publicar poesia muito jovem. Ganhou notoriedade internacional com "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" (1924), que o consagrou como uma voz lírica poderosa. A sua carreira literária foi paralela à sua atividade diplomática e política. Foi cônsul em Rangum, Ceilão (atual Sri Lanka), Benares (Índia), Buenos Aires, Barcelona e Madrid. A Guerra Civil Espanhola teve um impacto profundo na sua poesia, levando-o a um engajamento político mais explícito, visível em "Espanha no coração" (1937).

Obra, estilo e características literárias

"Vinte poemas de amor e uma canção desesperada" (1924) é uma obra seminal do lirismo amoroso juvenil. "Residência na Terra" (1933, 1935) revela um tom mais sombrio, existencial e surrealista. "Canto Geral" (1950) é uma obra épica e monumental que narra a história e a geografia da América Latina sob uma perspetiva social e política. "Ode Simples" (1954) e "Estravagário" (1958) mostram um retorno a formas mais simples e coloquiais. Os temas abordados são vastos: amor, erotismo, natureza, história, política, a condição humana. O seu estilo é marcado pela força da imagem, pela musicalidade do verso, pela linguagem direta e acessível em muitas das suas fases, e por uma profunda empatia com o mundo que o rodeava. Foi associado ao surrealismo em certas fases, mas desenvolveu um estilo próprio e inconfundível. Sua voz poética é simultaneamente íntima e cósmica, pessoal e coletiva.

Contexto cultural e histórico

Neruda viveu e escreveu num período de grandes convulsões históricas: a ascensão do fascismo, a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e as lutas de libertação na América Latina. Foi um intelectual engajado, filiado ao Partido Comunista do Chile e membro do Senado. A sua obra reflete essas turbulências e o seu compromisso com a justiça social e a soberania dos povos. Manteve relações com muitos dos grandes escritores e artistas da sua época, como Federico García Lorca e Miguel Ángel Asturias.

Vida pessoal

Teve três casamentos. A sua vida como diplomata levou-o a viajar extensivamente, o que enriqueceu a sua visão de mundo. A Guerra Civil Espanhola e a perseguição política no Chile foram momentos difíceis na sua vida pessoal, levando-o ao exílio em várias ocasiões. Foi amigo de Salvador Allende e desempenhou um papel na sua campanha presidencial.

Reconhecimento e receção

Pablo Neruda é um dos poetas mais lidos e traduzidos do mundo. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1971 "pela sua poesia que, com a ação de uma força elementar, dá vida ao destino e aos sonhos de um continente". Foi também galardoado com o Prémio Lenin da Paz e outros importantes reconhecimentos internacionais. A sua popularidade é imensa, transcendendo o meio académico.

Influências e legado

Foi influenciado por poetas como Rubén Darío, Walt Whitman e Arthur Rimbaud. O seu legado é colossal, tendo influenciado gerações de poetas na América Latina e em todo o mundo com a sua capacidade de aliar lirismo, engajamento social e uma profunda conexão com a realidade. A sua obra continua a ser estudada, declamada e admirada pela sua universalidade e pela força das suas palavras.

Interpretação e análise crítica

A obra de Neruda tem sido objeto de inúmeras interpretações, desde a análise do seu lirismo amoroso até ao estudo do seu compromisso político. A sua poesia é vista como um espelho das lutas e esperanças da América Latina, e um testemunho da condição humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade é que Neruda foi nomeado embaixador do Chile em França por Salvador Allende. Após o golpe militar no Chile, em 1973, pouco antes da sua morte, a sua casa e biblioteca foram saqueadas. Há suspeitas de que a sua morte possa ter sido acelerada por envenenamento, algo que tem sido objeto de investigação.

Morte e memória

Morreu em setembro de 1973, poucos dias após o golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende. A sua morte ocorreu num hospital em Santiago, oficialmente devido a um cancro da próstata, mas as circunstâncias ainda geram debate. A sua obra e a sua memória continuam vivas, sendo um símbolo de resistência e de identidade para muitos.

Poemas

561

VIII - Ehrenburg

Quantos cães hirsutos,
focinhos de ponta brilhante,
rabos por trás de um móvel,
e logo mais pêlos,
mechas cinzentas, olhos
mais velhos que o mundo,
e uma mão
sobre o papel,
implantando a paz,
derrubando mitos,
vomitando fogo e silvando,
ou falando de simples amor
com a ternura
de um pobre padeiro.
É Ehrenburg.
É sua casa
em Moscou.
Ai quantas vezes,
fechado em sua casa,
pensei que não tinha paredes.
Ali entre quatro muros
o rio da vida,
o rio humano
entra e sai deixando
vidas, feitos, combates,
e o antigo Ehrenburg,
o jovem Ilya,
com este rio de terras e vidas
recolhe aqui e além
fragmentos, chispas,
ondas, beijos, chapéus,
e elabora
como um bruxo.
Tudo deita em seu forno,
de dia e de noite.
Dali saltam metais,
saltam espadas rubras,
grandes pães de fogo,
saltam vagas de ira,
bandeiras,
armas para dois séculos,
ferro para milhões,
e ele muito tranquilo,
hirsuto,
com suas mechas cinzentas,
fumando e cheio
de cinza.

De quando em quando
sai do forno
e quando julgas
que te vai fulminar,
o vês andando,
sorridente,
com as mais enrugadas calças do mundo:
vai plantar um jasmim
em sua casa de campo:
abre o vão,
mete as mãos,
como se fossem de seda
trata as raízes,
as enterra,
as rega,
e então com passinhos curtos,
com cinza, com barro, com folhas,
com jasmim, com história,
com todas as coisas do mundo
sobre os ombros,
afasta-se fumando.

Se queres saber algo de jasmins,
escreve-lhe uma carta.
1 143

VII - a Grande Marcha

Mas ocorria algo no mundo.
Teu retrato não nos satisfazia.
Era formosa tua pobre majestade,
mas não nos bastava.
A bandeira soviética ondulava
beijada pela pólvora
entre os corações dos homens.
Tu, China, nos faltavas, e através dos mares
ouvimos de repente que a voz do vento
já não cantava só por teus largos caminhos.

Incorpora-se Mao
e ao longo da China
e ao longo
de tantos sofrimentos,
vimos subir seus ombros
envoltos pela aurora.
De longe, da América, a cuja margem
meu povo escuta cada onda do mar,
vimos surgir sua tranqüila cabeça,
e seus sapatos dirigirem-se rumo ao Norte.
Para Yennan com poeirento traje
se encaminha seu grave movimento:
e vimos desde então que as nuas terras
da China lhe entregavam homens,
pequenos homens, enrugados velhos,
sorrisos infantis.

Vimos a vida.

Não estava só o velho território.
Não era a lua de água
enchendo a espectral arqueologia.
De cada pedra um homem,
um novo coração com um fuzil,
e te vimos povoada, China, pelos teus soldados,
pelos teus, enfim, comendo pasto,
sem pão, sem água, andando o comprido dia
para que a aurora pudesse nascer.
1 176

V - As Cigarras

Enchia a manhã da aldeia
o outono estridente
das cigarras sonoras.
Me acerquei: as cativas
em suas pequenas jaulas
eram a companhia dos meninos,
eram o violoncelo inumerável
da pequena aldeia
e da China o rumor
e o movimento de ouro.

Divisei apenas às prisioneiras
em suas jaulas minúsculas
de bambu fresco,
mas quando voltei para partir,
os camponeses
puseram o castelo de cigarras
em minhas mãos.

Recordo em minha infância os peões
do trem em que meu pai trabalhava,
os coléricos filhos
da intempérie, apenas
vestidos com farrapos,
os rostos maltratados pela chuva ou a areia,
as testas divididas
por cicatrizes ásperas,
e eles me levavam
ovos empavonados de perdiz,
escaravelhos verdes,
cantáridas de cor de lua,
e todo esse tesouro
das mãos gigantes maltratadas
às minhas mãos de menino,
tudo isso
me fez rir e chorar,
me fez pensar e cantar,
lá nos bosques
chuvosos
de minha infância.

E agora
estas cigarras
em seu castelo de bambu oloroso,
do fundo da terra chinesa,
rascando sua estridente
nota de ouro,
chegavam às minhas mãos
de mãos batizadas pela pólvora
que conquistou a liberdade, chegavam
lá das amplas terras
libertadas,
mas eram as mãos do povo,
as grandes mãos,
que nas minhas deixavam
seu tesouro.
Eu recordei minha infância
e quando pela terra
fui medindo
e cantando,
mas nada,
nada
como isto,
este tesouro vivo.
E então comigo andaram,
me acompanharam
durante meus dias de China.

Na manhã, em minha peça de hotel,
trinta cigarras
diziam meu nome
com um som agudo
de aço verde
e eu lhes dava folhas
que comiam,
tirando de suas jaulas pequenas máscaras
de guerreiros pintados, e na tarde,
quando nas vastas terras
o sol tombava,
um dia mais havia afirmado na pátria
a liberdade do povo.

Em minha janela
as cigarras com uma só voz
metálica
cantavam
paia os campos,
para os meninos,
para as outras cigarras,
para as folhas e para as colheitas,
para toda a terra:
despediam o dia
com a altura incrível de seu canto,
e assim, de minha janela,
de dia e de noite,
te saudava, China,
uma voz da terra
que as mãos do povo
me entregaram,
uma multiplicada voz que vai cantando
comigo, nos caminhos.
1 261

Ix - Com Meu Amigo de Praga

Feliz tua pátria, Tchecoslováquia, mãe
de olhos de aço, pétala preferida
da Europa, coroada
pela paz de teu povo!
Doces colinas, águas, telhados vermelhos,
e trêmulos como chuva verde
eleva o lúpulo seus fios verticais,
enquanto em Gotwaldov uma colmeia
de inteligência e de razão sustenta
a nova rosa do trabalho humano.
Oh, Fucik, vem, visita
comigo,
comigo o limpo chão de tua pátria,
verde, branco e dourado,
e nela iluminando-a,
a claridade do povo!
Honra ao novo sulco
e à nova jornada,
e ao aço invencível de Kladno!
Ao homem novo que penetra
nas oficinas e nas praças,
às novas pontes seguras
sobre o tremor do velho rio,
através de Fucik, meu amigo,
meu companheiro silencioso,
que foi comigo mostrando tudo
na cor do inverno de Praga,
com seu velho chapéu invisível
e seu doce sorriso mudo,
pela vida e pela morte,
a herança e o dom que nos fez.
Julius Fucik, eu te saúdo,
Tchecoslováquia renovada,
mãe de rapazes simples,
terra dos calados heróis,
república de névoa e cristal,
cacho, espiga, aço, povo!
1 193

Canto I - A Lâmpada Mágica

Amor América (1400)

Antes do chinó e do fraque
foram os rios, rios arteriais:
foram as cordilheiras em cuja vaga puída
o condor ou a neve pareciam imóveis;
foi a umidade e a mata, o trovão,
sem nome ainda, as pampas planetárias.


O homem terra foi, vasilha, pálpebra
do barro trêmulo, forma de argila,
foi cântaro caraíba, pedra chibcha,
taça imperial ou sílica araucana.

Terno e sangrento foi, porém no punho
de sua arma de cristal umedecido
as iniciais da terra estavam escritas.


Ninguém pôde
recordá-las depois: o vento
as esqueceu, o idioma da água
foi enterrado, as chaves se perderam
ou se inundaram de silêncio ou sangue.


Não se perdeu a vida, irmãos pastorais.

Mas como uma rosa selvagem
caiu uma gota vermelha na floresta
e apagou-se uma lâmpada da terra.


Estou aqui para contar a história.

Da paz do búfalo
até as fustigadas areias
da terra final, nas espumas
acumuladas de luz antártica,
e pelas Lapas despenhadas
da sombria paz venezuelana,
te busquei, pai meu,
jovem guerreiro de treva e cobre,
ou tu, planta nupcial, cabeleira indomável,
mãe jacaré, pomba metálica.


Eu, incaico do lodo,
toquei a pedra e disse:
Quem me espera? E apertei a mão
sobre um punhado de cristal vazio.

Porém andei entre flores zapotecas
e doce era a luz como um veado
e era a sombra como uma pálpebra verde.


Terra minha sem nome, sem América,
estame eguinocial, lança de púrpura,
teu aroma me subiu pelas raízes
até a taça que bebia, até a mais delgada
palavra não nascida de minha boca.




I
Vegetações
Às terras sem nomes e sem números
baixava o vento de outros domínios,
trazia a chuva fios celestes,
e o deus dos altares impregnados
devolvia as flores e as vidas.


Na fertilidade crescia o tempo.


O jacarandá levantava espuma
feita de resplendores transmarinos,
a araucária de lanças eriçadas
era magnitude contra neve,
a primordial árvore acaju,
de sua copa destilava sangue,
e no sul dos lariços,
a árvore trovão, a árvore vermelha,
a árvore do espinho, a árvore mãe,
o ceibo vermelhão, a árvore borracha,
eram volume terrenal, a ressoar,
eram existências territoriais.


Um novo aroma propagado
enchia, pelos interstícios
da terra, as respirações
convertidas em fumo e fragrância:
o tabaco silvestre erguia
seu rosal de ar imaginário.

Qual lança terminada em fogo
surgiu o milho, e sua estatura
debulhou-se e de novo nasceu,
disseminou sua farinha, teve
mortos sob as suas raízes,
e, logo, em seu berço, viu
crescer os deuses vegetais.

Ruga e extensão, disseminava
a semente do vento
sobre as plumas da cordilheira,
espessa luz de gérmen e mamilos,
aurora cega amamentada
pelos ungüentos terrenais
da implacável latitude chuvosa,
das cerradas noites mananciais
e das cisternas matutinas.

E ainda nas planuras
como lâminas de planeta,
sob uma suave povoação de estrelas,
rei da selva, o umbuzeiro detinha
o ar livre, o vôo rumoroso
e cavalgava o pampa, dominando-o
com seu ramal de rédeas e raízes.


América arvoredo,
sarça selvagem entre os mares,
de pólo a pólo balançavas,
tesouro verde, a tua mata.


Germinava a noite
em cidades de cascas sagradas,
em sonoras madeiras,
extensas folhas que cobriam
a pedra germinal, os nascimentos.

Útero verde, americana
savana seminal, adega espessa,
um ramo nasceu como uma ilha,
uma folha foi forma da espada,
uma flor foi relâmpago e medusa,
um cacho arredondou seu resumo,
uma raiz desceu às trevas.




II
Algumas bestas

Era o crepúsculo do iguano.

Da arcoirisada rosácea
sua língua como um dardo
fundia-se na verdura,
o formigueiro monacal pisava
com melodioso pé a selva,
o guanaco fino como o oxigênio
nas largas alturas pardas
ia calçando botas de ouro,
enquanto a lhama abria cândidos
olhos na delicadeza do mundo cheia de rocio.

Os macacos trançavam um fio
interminavelmente erótico
nas ribeiras da aurora,
derrubando muros de pólen
e espantando o vôo violeta
das borboletas de Muzo.

Era a noite dos jacarés,
a noite pura e pululante
dos focinhos saindo do lodo,
e dos lamaçais sonolentos
um ruído opaco de armaduras
retornava à origem terrestre.


O jaguar tocava as folhas
com a sua ausência fosforescente,
o puma corre nas ramagens
como o fogo devorador
enquanto ardem nele os olhos
alcoólicos da selva.

Os texugos coçam os pés
do rio, farejam o ninho
cuja delícia palpitante
atacarão com dentes rubros.


E no fundo da água magna,
como o círculo da terra,
está a sucuri gigante
coberta de barros rituais,
devoradora e religiosa.




III
Vêm os pássaros

Tudo era vôo em nossa terra.

Como gotas de sangue e plumas
os cardeais mergulhavam em sangue
o amanhecer de Anáhuac.

O tucano era uma adorável
caixa de frutas envernizadas,
o colibri guardou as chispas
originais do relâmpago
e suas minúsculas fogueiras
ardiam no ar imóvel.


Os ilustres papagaios enchiam
as profundidades da folhagem
como lingotes de ouro verde
recém-saídos da massa
dos pântanos submersos,
e de seus olhos circulares
mirava uma argola amarela,
velha como os minerais.

Todas as águias do céu

nutriam sua estirpe sangrenta
no azul não-habitado,
e sobre as penas carnívoras
voava acima do mundo
o condor, rei assassino,
frade solitário do céu,
talismã negro da neve,
furacão da falcoaria.


A engenharia do joão-de-barro
fazia do barro fragrante
pequenos teatros sonoros
onde aparecia cantando.


O atalha-caminhos ia
dando o seu grito umedecido
na margem dos poços.

A torcaz araucana fazia
ásperos ninhos de mato
onde deixava a real prenda
de seus ovos azulados.


A loica do sul, fragrante,
doce carpinteira de outono,
mostrava o seu peito estrelado
de constelação escarlate,
e o chincol austral erguia
sua flauta recém-recolhida
da eternidade da água.


Mas, úmido como um nenúfar,
o flamingo abria as suas portas
de rosada catedral
e voava como a aurora
longe do bosque bochornoso
onde se pendura a pedraria
do quetzal, que de repente acorda,
se mexe, desliza, fulgura
e faz voar a sua brasa virgem.


Voa uma montanha marinha
para as ilhas, uma lua
de aves que vão para o sul,
sobre as ilhas fermentadas
do Peru.

É um rio vivo de sombra,
é um cometa de pequenos
corações inumeráveis
que escurecem o sol do mundo
como um astro de cauda espessa
palpitando para o arquipélago.


E no final do iracundo
mar, na chuva do oceano,
surgem as asas do albatroz
como dois sistemas de sal.

instituindo no silêncio,
entre as rajadas torrenciais.

com a sua espaçosa hierarquia,
a ordem das soledades.




IV Os rios acodem

Amada dos rios, combatida
por água azul e gotas transparentes,
uma árvore de veias é teu espectro
de deusa escura que morde maçãs:
então ao acordares despida
eras tatuada pelos rios,
e nas alturas molhadas a tua cabeça
enchia o mundo de novos orvalhos.

A água te estremecia na cintura.

Eras de mananciais construída
e lagos te brilhavam na fronte.

De tua floresta mãe recolhias
a água como lágrimas vitais,
e arrastavas as torrentes às areias
- através da noite planetária,
cruzando ásperas pedras dilatadas,
quebrando no caminho
todo o sal da geologia,
cortando bosques de compactos muros,
separando os músculos do quartzo.



Orinoco
Orinoco, deixa-me em tuas margens
daquela hora sem hora:
deixa-me como outrora partir despido
em tuas trevas batismais.

Orinoco de água escarlate,
deixa-me mergulhar as mãos que retornam
a tua maternidade, a teu transcurso,
rio de raças, pátria de raízes,
teu largo rumor, tua lâmina selvagem
vem de onde eu venho, das pobres
e altivas soledades, dum segredo
como um sangue, de uma silenciosa
mãe de argila.



Amazonas
Amazonas,
capital das sílabas da água,
pai patriarca, és
a eternidade secreta
das fecundações,
te caem os rios como aves, te cobrem
os pistilos cor de incêndio,
os grandes troncos mortos te povoam de perfume,
a lua não pode vigiar-te ou medir-te.

És carregado de esperma verde
como árvore nupcial, és prateado
pela primavera selvagem,
és avermelhado de madeiras,
azul entre a lua das pedras,
vestido de vapor ferruginoso,
lento como um caminho de planeta.



Tequendama
Tequendama, lembras
tua passagem solitária nas alturas
sem testemunha, fio
de solidões, vontade fina,
linha celeste, flecha de platina,
lembras passo a passo
abrindo muros de ouro
até cair do céu no teatro
aterrador da pedra vazia?


Bío-bío
Fala-me no entanto, Bío-Bío,
são as tuas palavras na minha boca
as que deslizam, tu me deste
a linguagem, o canto noturno
mesclado de chuva e folhagem.

Tu, sem que ninguém olhasse um menino,
me contaste o amanhecer
da terra, a poderosa
paz de teu reino, o machado enterrado
com um ramo de flechas mortas,
o que as folhas da caneleira
em mil anos te relataram.

e logo te vi ao entregar-te ao mar
dividido em bocas e seios,
largo e florido, murmurando
uma história cor de sangue.




V
Minerais

Mãe dos metais, te queimaram,
te morderam, te martirizaram,
te corroeram, te apodreceram
mais tarde, quando os ídolos
já não podiam defender-te.

Cipós subindo aos cabelos
da noite selvática, acajus
formadores do centro das Flechas,
ferro agrupado no desvão florido,
garra altaneira das condutoras
águias de minha terra,
água desconhecida, sol malvado,
vaga de cruel espuma,
tubarão espreitante, dentadura
das cordilheiras antárticas,
deusa serpente vestida de plumas
e enrarecida por azul veneno,
febre ancestral inoculada
por migrações de asas e formigas,
tremedais, borboletas
de aguilhão ácido, madeiras
avizinhando-se do mineral,
por que o coro dos hostis
não defendeu o tesouro?

Mãe das pedras
escuras que tingiam
de sangue as tuas pestanas!
A turquesa
de suas etapas, do brilho larvário
apenas nascia para as jóias
do sol sacerdotal, dormia o cobre
em seus sulfúricos estratos,
e o antimônio ia de camada em camada
à profundidade de nossa estrela.

A hulha brilhava em resplendores-negros
como o total reverso da neve,
negro gelo enquistado na secreta
tormenta imóvel da terra,
quando um fulgor de pássaro amarelo
enterrou as correntes do enxofre
ao pé das glaciais cordilheiras.

O vanádio vestia-se de chuva
para entrar na câmara do ouro,
afiava facas o tungstênio
c o bismuto trançava
medicinais cabeleiras.


Os vaga-lumes equivocados
ainda continuavam nos altos,
soltando goteiras de fósforo
nos sulcos dos abismos
e nos cumes ferruginosos.


São as vinhas do meteoro,
os subterrâneos da safira.

O soldadinho nas mesetas
dorme com roupa de estanho.


O cobre funda os seus crimes
nas trevas insepultas
carregadas de matéria verde,
e no silêncio acumulado
dormem as múmias destrutoras.

Na doçura chibcha o ouro
sai de opacos oratórios
lentamente até os guerreiros,
converte-se em rubros estames,
em corações laminados,
em fosforescência terrestre,
em dentadura fabulosa.

Durmo então com o sonho
de uma semente, de uma larva,
e as escadas de Querétaro
desço contigo.

Me esperaram
as pedras de lua indecisa,
a jóia pesqueira da opala,
a árvore morta numa igreja
gelada pelas ametistas.


Como podias, Colômbia oral,
saber que tuas pedras descalças
ocultavam uma tormenta
de ouro iracundo,
como, pátria
da esmeralda, ias perceber
que a jóia de morte e mar,
o fulgor no seu calafrio,
escalaria as gargantas
dos dinastas invasores?

Eras pura noção de pedra,
rosa educada pelo sal,
maligna lágrima enterrada,
sereia de artérias adormecidas,
beladona, serpente negra.

(Enquanto a palmeira dispersava
sua coluna em altas travessas,
ia o sal destituindo
o resplendor das montanhas,
convertendo em veste de quartzo
as gotas de chuva nas folhas
e transmutando os abetos
em avenidas de carvão.
)

Corri pelos ciclones até o perigo
e desci à luz da esmeralda,
ascendi ao pâmpano dos rubis,
mas calei-me para sempre na estátua
do nitrato estendido no deserto.

Vi como na cinza
do ossudo altiplano
levantava o estanho
suas corais ramagens de veneno
até estender como uma selva
a névoa equinocial, até cobrir o sinete
de nossas cereais monarquias.




VI
Os homens

Como a taça da argila era a raça mineral, o homem
feito de pedras e atmosfera,
limpo como os cântaros, sonoro.

A lua fez a massa dos caraíbas,
extraiu oxigênio sagrado,
macerou as flores e as raízes.

Andou o homem das ilhas
tecendo ramos e grinaldas,
de panos cor de enxofre,
e soprando o tritão marinho
à beira das espumas.


O tarahumara vestiu-se de aguilhão
e nas extensões do noroeste
com sangue e pederneiras criou o fogo,
enquanto o universo ia nascendo
outra vez na argila do tarasco:
os mitos das terras amorosas,
a exuberância úmida de onde
lodo sexual e frutas derretidas
viriam a ser atitudes dos deuses
ou pálidas paredes de vasilhas.


Como faisões deslumbrantes
desciam os sacerdotes
das escadarias astecas.

Os degraus triangulares
sustinham o inumerável
relâmpago das vestimentas.

E a pirâmide augusta,
pedra por pedra, agonia e ar,
em sua estrutura dominadora
guardava como uma amêndoa
um coração sacrificado.

Num trovão como um uivo
caía o sangue pelas
escarlinatas sagradas.

Mas multidões de povoados
teciam a fibra, guardavam
o porvir das colheitas,
trançavam o fulgor da pluma,
convenciam a turquesa,
e em trepadeiras têxteis
expressavam a luz do mundo.


Maias, havíeis derrubado
a árvore do conhecimento.

Com aroma de raças celeiras
erguiam-se as estruturas
do exame e da morte,
e perscrutáveis nos poços,
arrojando-lhes noivas de ouro,
a permanência dos germes.


Chichén, teus amores cresciam
no amanhecer da selva.

Os trabalhadores iam fazendo
a simetria dos favos de mel
em tua cidade amarela,
e o pensamento ameaçava
o sangue dos pedestais,
desmontava o céu na sombra,
conduzia a medicina,
escrevia sobre as pedras.


Era o sul um assombro dourado.

As altas soledades
de Machu Picchu na porta do céu
estavam cheias de azeite e cantos,
o homem desfizera as moradas.

e no novo domínio, entre os cumes,
o lavrador tocava a semente
com seus dedos feridos pela neve.


O Cuzco amanhecia como um
trono de torreões e celeiros
e era a flor pensativa do mundo
aquela raça de pálida sombra
em cujas mãos abertas tremulavam
diademas de imperiais ametistas.

Germinava nos terraços
o milho das altas serras
e nas vulcânicas sendas
iam os vasos e os deuses.

A agricultura perfumava
o reino das cozinhas
e estendia sobre os tetos
um manto de sol debulhado.


(Doce raça, folha de serras,
estirpe de torre e turquesa;
fecha-me os olhos agora,
antes de irmos ao mar
de onde as dores chegam.
)

Aquela selva azul era uma gruta
e no mistério de árvores e treva
o guarani cantava como
o fumo que sobe na tarde,
a água sobre as folhagens,
a chuva mim dia de amor,
a tristeza junto aos rios.


No fundo da América sem nome
estava Arauco entre as águas
vertiginosas, apartado
por todo o frio do planeta.

Olhai o grande sul solitário.

Não se vê a fumaça nas alturas.

Vêem-se apenas as nevascas
e o vendaval rechaçado
pelas ásperas araucárias.

Não procures sob o verde fechado
o canto da olaria.


Tudo é silêncio de água e vento.


Mas nas folhas espia o guerreiro.

Entre os lariços um grito.

Uns olhos de tigre ao meio
das alturas da neve.


Olha as lanças a descansar.

Escuta o sussurro do ar
atravessado pelas flechas.

Olha os peitos e as pernas
e as cabeleiras sombrias
brilhando à luz da lua.


Olha o vazio dos guerreiros.


Não há ninguém.
Trina a diuca
feito água na noite pura.


Cruza o condor o seu vôo negro.


Não há ninguém.
Escutas? É o passo
do puma no ar e nas folhas.


Não há ninguém.
Escuta.
Escuta a árvore,
escuta a árvore araucana.


Não há ninguém.
Olha as pedras.


Olha as pedras de Arauco.


Não há ninguém, somente as árvores.


Somente as pedras, Arauco.
1 306

I - Voando Para o Sol

Desde as extensões enrugadas
do Norte, Noroeste, fui voando
até Pequim alaranjado e verde.
Yennan sob meu voo
era uma só casca amarela
de lua mineral e de vazio.
Os motores e o vento,
o sol aéreo,
saudaram a terra sagrada,
as covas desde onde
a liberdade acumulou sua pólvora.
Já os heróis não estavam
entre as cicatrizes da terra:
sua semente
alta e livre crescia
debulhada e reunida.
Ardia a pele seca
do deserto de Gobi, as regiões
das fronteiras lunares,
os ramos arenosos
de teu largo mundo, China,
até que o vôo baixo
decifrou as campinas,
as águas, os jardins,
e de repente em tua margem,
Pequim, antigo e novo,
me recebeste. Então
rumor de terra e trigo e primavera,
passos nos caminhos,
ruas povoadas até o infinito,
como se reunisses
num copo puro
todo o rumor da água
para mim levantaste
as vidas de teu povo:
os agudos silvados,
os ruídos do aço,
tremor de céu e seda.
Eu levantei em meu copo
tuas numerosas vidas
e o antigo silêncio.

Era o dom que me davas, uma força
de antiga pedra que canta,
de velho rio que fecunda
a jovem primavera.

Vislumbrei de repente
a velha árvore do mundo
coberta de flores e frutas.
Ouvi de repente
o rio da vida
passar cumulado e firme
de idiomas cristalinos.
Bebi em teu antigo copo
a dura transparência,
o novo dia:
sabor de estrela e terra se fundiram
em minha boca. E divisei teu rosto entre os rostos,
antiga e jovem mãe
sorridente,
semeando com teu traje de guerrilha,
e resguardando o trigo
e a paz de teu povo
com teu sorriso armado
e tua doçura de aço.
1 352

Canto III - Os Conquistadores

I
Chegam pelas ilhas (1493)

Os carniceiros desolaram as ilhas.

Guanahaní foi a primeira
nesta história de martírios.

Os filhos da argila viram partido
seu sorriso, ferida
sua frágil estatura de gamos,
e nem mesmo na morte entendiam.

Foram amarrados c feridos,
foram queimados e abrasados,
foram mordidos e enterrados.

E quando o tempo deu sua volta de valsa
dançando nas palmeiras,
o salão verde estava vazio.


Só ficavam ossos
rigidamente colocados
em forma de cruz, para maior
glória de Deus e dos homens.


Das gredas ancestrais
e da ramagem de sotavento
até as agrupadas coralinas
foi cortando a faca de Narváez.

Aqui a cruz, ali o rosário,
aqui a Virgem do Garrote.

A jóia de Colombo, Cuba fosfórica,
recebeu o estandarte e os joelhos
em sua areia molhada.




II Agora é Cuba

E foi logo o sangue e a cinza.


Depois ficaram as palmeiras sozinhas.


Cuba, meu amor, te amarraram ao potro,
te cortaram a cara,
te apartaram as pernas de ouro pálido,
te partiram o sexo de romã,
te atravessaram de facas,
te dividiram, te queimaram.


Pelos vales da doçura
desceram os exterminadores,
e nos altos montes a cimeira
de teus filhos se perdeu na névoa,
mas ali foram atingidos
um por um até a morte,
despedaçados no tormento
sem sua terra tépida de flores
que fugia sob os seus pés.


Cuba, meu amor, que calafrio
te sacudiu de espuma a espuma,
até que te fizeste pureza,
solidão, silêncio, mato,
e os ossinhos de teus filhos
fossem disputados pelos caranguejos.




III
Chegam ao Mar do México (1519)

A Veracruz vai o vento assassino.

Em Veracruz desembarcaram os cavalos.

As barcas vão atochadas de garras
e barbas vermelhas de Castela.

São Arias, Reyes, Rojas, Maldonados,

filhos do desamparo castelhano,
conhecedores da fome no inverno
e dos piolhos nos albergues.


Que olham debruçados nos navios?
Quanto do que vem e do perdido
passado, do errante
vento feudal na pátria açoitada?

Não deixaram os portos do sul
para colocar as mãos do povo
no saque e na morte:
eles enxergam terras verdes, liberdades,
cadeias rompidas, construções,
e do alto do navio as ondas que se extinguem
sobre as costas do compacto mistério.

Iriam morrer ou reviver atrás
das palmeiras no ar quente
que, como um forno estranho, a total baforada
para eles dirigem as terras abrasadoras?
Eram povo, cabeças hirsutas de Montiel,
mãos duras e quebradas de Ocaña e Piedrahita,
braços de ferreiros, olhos de meninos
a mirar o sol terrível e as palmeiras.


A fome antiga da Europa, fome como a cauda
dum planeta mortal, povoava o brigue,
a fome lá estava, desmantelada,
errante machado frio, madrasta
dos povos, a fome lança os dados
na navegação, sopra as velas:
“Mais além, senão te como, mais além,
senão regressas
à mãe, ao irmão, ao juiz e ao cura,
aos inquisidores, ao inferno, à peste.

Mais além, mais além, longe do piolho
do chicote feudal, do calabouço,
das galeras cheias de excremento”.


E os olhos de Núñez e Bernales
fixavam na ilimitada
luz o repouso,
uma vida, outra vida,
a inumerável e castigada
família dos pobres do mundo.




IV
Cortés

Cortés não tem povo, é raio frio,
coração morto na armadura.

“Ferazes terras, meu Senhor e Rei,
templos em que o ouro, coalhado
está por mãos de índio.


E avança mergulhando punhais, ferindo
as terras baixas, as escarvantes
cordilheiras dos perfumes,
parando a sua tropa entre orquídeas
e coroações de pinheiros,
atropelando os jasmins,
até as portas de Tlaxcala.


(Irmão aterrado, não tomes
por amigo o abutre cor-de-rosa:
do musgo te falo, das
raízes de nosso reino.

Vai chover sangue amanhã,
as lágrimas serão capazes
de formar névoa, vapor, rios,
até derreteres os teus olhos.
)

Cortés recebe uma pomba,
recebe um faisão, uma cítara
dos músicos do monarca
mas quer a câmara do ouro,
quer mais um passo e tudo cai
nas arcas dos vorazes.

O rei assoma aos balcões:

“É meu irmão”, diz.
As pedras
do povo voam respondendo,
e Cortés afia punhais
sobre os beijos traídos.

Volta a Tlaxcala, o vento trouxe
um surdo rumor de dores.




V
Cholula

Em Cholula os jovens vestem
seu melhor tecido, ouro e plumagens,
e calçados para o festival
interrogam o invasor.


A morte lhes deu resposta.


Lá estão milhares de mortos.

Corações assassinados
que ali palpitam estendidos
e que, na úmida furna que abriram,
guardam o fio daquele dia.

(Entraram matando a cavalo,
cortaram a mão que fazia
a homenagem de ouro e flores,
fecharam a praça, cansaram
os braços até o arrocho,
matando a flor do reinado,
metidos até os cotovelos no sangue
de meus irmãos surpreendidos.
)



VI
Alvarado

Alvarado, com garras e facas,
caiu sobre as choupanas, arrasou
o patrimônio do ourives,
raptou a rosa nupcial da tribo,
agrediu raças, prédios, religiões,
foi a caixa caudal dos ladrões,
o falcão clandestino da morte.

Até o grande rio verde, o Papaloapan,
rio das Borboletas, foi mais tarde
levando sangue em seu estandarte.


O grave rio viu os seus filhos
morrerem ou sobreviverem escravos,
viu arder nas fogueiras perto d'água
raça e razão, cabeças juvenis.

Mas não se esgotaram as dores
como à sua passagem endurecida
para novas capitanias.




VII
Guatemala

Guatemala, a doce, cada laje
de tua mansão leva uma gota
de sangue antigo devorado
pelo focinho dos tigres.

Alvarado massacrou tua estirpe,
violou as estrelas austrais,
espojou-se em seus martírios.


Em Yucatán entrou o bispo
atrás dos pálidos tigres.

Reuniu a sabedoria
mais profunda ouvida no ar
do primeiro dia do mundo,
quando o primeiro maia escreveu
anotando o tremor do rio,
a ciência do pólen, a ira
dos Deuses do Envoltório,
as migrações através
dos primeiros universos,
as leis da colméia,
o segredo da ave verde,
o idioma das estrelas,
segredos do dia e da noite
colhidos nas margens
da evolução terrestre!



VIII
Um bispo

O bispo ergueu o braço,
queimou os livros na praça
em nome de seu Deus pequeno
tornando em fumaça as velhas folhas
gastas pelo tempo escuro.


E a fumaça não volta do céu.




IX
A cabeça num pau

Balboa, morte e garra
levaste aos rincões da doce
terra central, e entre os cães
caçadores, o teu era a tua alma:
leãozinho de beiço sangrento
apanhou o escravo que fugia,
enfiou caninos espanhóis
nas gargantas palpitantes,
e das, unhas dos cachorros
saía a carne para o martírio
e a jóia caía na bolsa.


Malditos sejam cão e homem,
o uivo infame na selva
original, a desafiante
passagem de ferro do bandido.

Maldita seja a espinhenta
Coroa da sarça agreste
que não saltou como um ouriço
para defender o berço invadido.


Mas entre os capitães
sangüinários se ergueu na sombra
a justiça dos punhais,
o acerbo ramo da inveja.


No regresso estava a meio
de teu caminho o apelido
de Pedrarias qual uma corda.


Te julgaram entre os latidos
de cães matadores de índios.

Agora que morres, ouves
o silêncio puro, partido
por teus lebréus açulados?
Agora que morres nas mãos
dos torvos chefes,
sentes o aroma dourado
do reino destruído?

Quando cortaram a cabeça
de Balboa, ficou enfiada
num pau.
Seus olhos mortos
decompuseram seu relâmpago
e rolaram pela lança
numa grande gota de imundice
que desapareceu na terra.




X
Homenagem a Balboa

Descobridor, o vasto mar, minha espuma,
latitude da lua, império da água,
depois de séculos te fala pela minha boca.

Tua plenitude chegou antes da morte.

Ergueste até o céu a fadiga,
e da noite dura das árvores
conduziu-te o suor até a beira
da soma do mar, do grande oceano.

Em teu olhar se fez o matrimônio
da luz estendida e do pequeno
coração do homem, encheu-se a taça
jamais antes erguida, uma semente
de relâmpagos chegou contigo
e um trovão torrencial encheu a terra.

Balboa, capitão, quão diminuta
a tua mão na viseira, misterioso
boneco do sal descobridor,
noivo da oceânica doçura,
filho do novo útero do mundo.


Por teus olhos entrou como um galope
de flores de laranjeira o aroma escuro
da roubada majestade marinha,
caiu em teu sangue uma aurora arrogante
até povoar-te a alma, possesso!
Quando voltaste às terras rudes,
sonâmbulo do mar, capitão verde,
eras um morto que esperava
a terra para receber os teus ossos.


Noivo mortal, a traição cumpria-se.


Não em vão pela história
entrava o crime espezinhado, o falcão devorava
seu ninho e se juntavam as serpentes
que se atacavam com línguas de ouro.


Entraste no crepúsculo frenético
e os passos perdidos que levavas,
ainda empapado de profundidades,
vestido de fulgor e desposado
pela maior espuma, te traziam
às praias de outro mar: a morte.




XI
Dorme um soldado
Extraviado nas fronteiras espessas
chegou o soldado.
Era total fadiga
e caiu entre os cipós e as folhas
ao pé do grande deus emplumado:
este
estava só com o seu mundo mal
surgido da selva.

Olhou o soldado,
estranho nascido do oceano.

Olhou seus olhos, sua barba sangrenta,
sua espada, o brilho negro
da armadura, o cansaço tombado
como bruma sobre essa cabeça
de menino carniceiro.


Quantas zonas
de obscuridade para que o Deus de Pluma
nascesse e enroscasse seu volume
sobre os bosques, na pedra rosada,
quanta desordem de águas loucas
e de noite selvagem, o transbordado
leito da luz sem nascer, o fermento raivoso
das vicias, a destruição, a farinha
da fertilidade e logo a ordem.

a ordem da planta e da seita,
a elevação das rochas cortadas.

a fumaça das lâmpadas rituais,
a firmeza do solo para o homem,
a fundação das tribos,
o tribunal dos deuses terrestres.


Palpitou cada escama da pedra,
Sentiu o pavor que tombou
Como uma invasão de insetos,
Recolheu todo o seu poderio,
fez chegar a chuva às raízes,
falou com as correntezas da terra,
escuro em sua vestimenta
de pedra cósmica imobilizada,
e não pôde mover nem garras nem dentes,
nem rios, nem tremores.

nem meteoros que silvaram
na abóbada do reinado,

e ali ficam, pedra imóvel, silêncio,

enquanto Beltrán de Córdoba dormia.




XII
Ximénez de Quesada (1536)

Tá vão, já vão, já chegam,
coração meu, olha as naus,
as naus pelo Magdalena,
as naus de Gonzalo Jiménez
já chegam, já chegam as naus,
detém-nas, rio, fecha
tuas margens devoradoras,
submerge-as em teu palpitar,
arrebata-lhes a cobiça,
lança-lhes tua trompa de fogo,
teus vertebrados sanguinários,
tuas enguias comedoras de olhos,
atravessa o jacaré espesso
com os seus dentes cor de lodo
c sua primitiva armadura,
estende-o como ponte
sobre tuas águas arenosas,
dispara o fogo do jaguar
do alto das árvores, nascidas
de tuas sementes, rio mãe,
atira-lhes moscas de sangue,
cega-os com estercos negro,
afunda-os em teu hemisfério,
submete-os entre as raízes
na escuridão de teu leito,
apodrece-lhes o sangue todo
devorando-lhes os pulmões
e os lábios com teus caranguejos.


Já entraram na floresta:
já roubam, já mordem, já matam.

Ó Colômbia! Defende o véu
de tua secreta selva rubra.


Já ergueram o punhal
sobre o oratório de Iraka,
agora agarram o cacique,
agora o amarram.
“Entrega
as jóias do deus antigo”,
e brincavam com o orvalho
da manhã da Colômbia.


Agora atormentam o príncipe.

Degolaram-no, sua cabeça
me espia com olhos que ninguém
pode fechar, olhos amados
de minha pátria verde e nua.

Agora queimam a casa solene,
agora seguem os cavalos,
os tormentos, as espadas,
agora restam umas brasas
e entre as cinzas os olhos
do príncipe que não se fecharam.




XIII
Encontro de corvos

No Panamá uniram-se os demônios.

Foi aí o pacto dos furões.

Uma vela apenas iluminava
quando os três chegaram por um.

Primeiro chegou Almagro antigo e torto,
Pizarro, o velho porcino
e o frade Luque, cônego entendido
em trevas.
Cada um
escondia o punhal para as costas
do associado, cada um
com ensebado olhar nas escuras
paredes adivinhava sangue,
e o ouro do longínquo império os atraía
como a lua às pedras malditas.

Quando pactuaram, Luque ergueu
a hóstia na eucaristia,
os três ladrões amassaram
a obréia com torvo sorriso.

“Deus foi dividido, irmãos,
entre nós”, garantiu o cônego,
e os carniceiros de dentes
roxos disseram “Amém”.

Bateram na mesa cuspindo.

Como não sabiam de letras
encheram de cruzes a mesa,
o papel, os bancos, os muros.


O Peru, escuro, submerso,
estava marcado de cruzes,
pequenas, negras, negras cruzes
pelo sul saíram navegando:
cruzes para as agonias,
cruzes peludas e afiadas,
cruzes com ganchos de réptil,
cruzes salpicadas de pústulas,
cruzes como pernas de aranha,
sombrias cruzes caçadoras.




XIV
As agonias

Em Cajamarca começou a agonia.


O jovem Atahualpa, estame azul,
árvore insigne, ouviu o vento
trazer rumor de aço.

Era um confuso
brilho e tremor desde a costa,
um incrível galope
- patear e poderio -
de ferro e ferro entre a relva.

Chegaram os capitães.


O Inca saiu da música
rodeado pelos senhores.


As visitas
de outro planeta suadas e barbudas,
iam prestar reverência.

O capelão
Valverde, coração traidor, chacal podre,
avança um estranho objeto, um pedaço
de cesto, um fruto
talvez daquele planeta
de onde vieram os cavalos.

Atahualpa o segura.
Não sabe
de que se trata: não brilha, não soa,
e o deixa cair sorrindo.


“Morte,
vingança, matai, que vos absolvo”,
grita o chacal da cruz assassina.

O trovão acode aos bandoleiros.

Nosso sangue em seu berço é derramado.

Os príncipes rodeiam como um coro
o Inca, na hora agonizante.


Dez mil peruanos caem
debaixo de cruzes e espadas, o sangue
molha as vestimentas de Atahualpa.

Pizarro, o porco cruel de Extremadura,
faz amarrar os delicados braços
do Inca.
A noite desceu
sobre o Peru como brasa negra.




XV
A linha avermelhada

Mais tarde ergueu a fatigada
mão o monarca, e acima
das caras dos bandidos,
tocou os muros.

Aí traçaram
a linha avermelhada.

Três câmaras
era preciso encher de ouro e prata,
até essa linha de seu sangue.

Rodou a roda de ouro, noite e noite.

A roda do martírio dia e noite.


Arranharam a terra, retiraram
jóias feitas com amor e espuma,
arrancaram o bracelete da noiva,
desampararam os seus deuses.

O lavrador entregou a sua medalha,
o pescador sua gota de ouro,
e as relhas tremeram respondendo
enquanto voz e mensagem nas alturas
ia a roda de ouro rodando.

Aí tigre e tigre se juntaram
e repartiram o sangue e as lágrimas.


Atahualpa esperava levemente
triste no escarpado dia andino.

Não se abriram as portas.
Até a última
jóia os abutres dividiram:
as turquesas rituais, salpicadas
pela carnificina, o vestido
laminado de prata: as unhas bandoleiras
iam medindo e a gargalhada
do frade entre os verdugos
o rei escutava com tristeza.


Era seu coração um vaso cheio
de uma angústia amarga como
a essência amarga da quina.

Pensou em suas fruteiras, no alto Cuzco,
nas princesas, em sua idade,
no calafrio de seu reino.

Maduro estava por dentro, sua paz
desesperada era tristeza.
Pensou em Huáscar.

Viriam dele os estrangeiros?
Tudo era enigma, tudo era faca.

Tudo era solidão, só a linha rubra
palpitava vivente,
tragando as entranhas amarelas
do reino emudecido que morria.


Entrou Valverde então com a morte.

“Te chamarás Juan”, lhe disse
enquanto preparavam a fogueira.

Gravemente respondeu: “Juan,
Juan me chamo até morrer”,
já sem compreender nem mesmo a morte.


Ataram-lhe o pescoço e um gancho

penetrou na alma do Peru.




XVI
Elegia

Só, nas soledades
quero chorar como os rios, quero
escurecer, dormir
como tua antiga noite mineral.

Por que chegaram as chaves radiantes
até às mãos do bandido? Levanta-te,
materna Oello, descansa teu segredo
na fadiga longa desta noite
e deita em minhas veias teu conselho.

Não te peço ainda o sol do Yupanquis.

Te falo adormecido, chamando
de terra a terra, mãe
peruana, matriz, cordilheira.

Como entrou em teu arenoso recinto
a avalanche dos punhais?

Imóvel em tuas mãos,
sinto estenderem-se os metais
nos canais do subsolo.


Estou feito de tuas raízes,
mas não entendo, não me entrega
a terra a sua sabedoria.

Vejo apenas noite e noite
sob as terras estreladas.


Que sonho sem sentido, de serpente,
arrastou-se até a linha avermelhada?
Olhos do luto, planta tenebrosa.

Como chegaste a este vento vinagre,
como entre os penhascos da ira
não ergueu Capac a sua tiara
de argila deslumbrante?

Deixai-me sob os pavilhões
padecer e afundar-me como
a raiz curta que não dará esplendor.

Sob a dura noite dura
descerei pela terra até chegar
à boca do ouro.


Quero estender-me na pedra noturna.


Quero chegar aí com a desgraça.




XVII
As guerras

Mais tarde ao Relógio de Granito
chegou uma chama incendiária.

Almagros e Pizarros e Valverdes,
Castillos e Urías e Beltranes
se apunhalaram repartindo
as traições adquiridas,
se roubavam a mulher e o ouro,
disputavam a dinastia.

Enforcavam-se nos currais,
debulhavam-se na praça,
agarravam-se aos Cabildos.

Tombava a árvore do saque
entre estocadas e gangrena.


Desse galope de Pizarros
nos territórios linhosos
nasceu um silêncio estupefato.


Estava tudo cheio de morte
e sobre a agonia arrasada
de seus filhos desventurados,
no território (roído
até os ossos pelas ratazanas),
sujeitavam-se as entranhas
antes de matar e se matarem.


Magarefes de cólera e força,
centauros tombados na lama
da cobiça, ídolos
partidos pela luz do ouro,
exterminastes vossa própria
estirpe de unhas sanguinárias
e junto às rochas murais
do alto Cuzco coroado.

diante do sol de espigas mais altas,
representastes no pó
dourado do Inca, o teatro
dos infernos imperiais:
a Rapina de focinho verde,
a Luxúria azeitada em sangue,
a Cobiça de unhas de ouro,
a Traição, avessa dentadura,
a Cruz como um réptil rapace,
a Forca mm fundo de neve,

e a Morte fina como o ar

imóvel em sua armadura.




XVIII Descobridores do Chile

Do norte trouxe Almagro sua rugosa centelha.

E sobre o território, entre explosão e ocaso,
inclinou-se dia e noite como sobre uma carta
Sombra de espinhos, sombra de cardo e cera,
o espanhol reunido com a sua seca figura,
mirando as sombrias estratégias do solo.


Noite, neve e areia fazem a forma
de minha pátria delgada,
todo o silêncio está em sua longa linha,
toda a espuma sai de sua barba marinha,
todo o carvão a enche de beijos misteriosos.

Como brasa o ouro arde em seus dedos
e a prata ilumina como lua verde
sua endurecida forma de tétrico planeta.

O espanhol sentado junto à rosa um dia,
junto ao azeite, junto ao vinho, junto ao antigo céu,
não imaginou este ponto de colérica pedra
nascer sob o esterco da águia marinha.




XIX
A terra combatente
Primeiro resistiu a terra.


A neve araucana queimou
como uma fogueira de brancura
a marcha dos invasores.

Caíam de frio os dedos,
as mãos, os pés de Almagro
e as garras que devoraram
e sepultaram monarquias
eram na neve um ponto
de carne gelada, eram silêncio.

Foi no mar das cordilheiras.


O ar chileno chicoteava
marcando estrelas, derrubando
cobiças e cavalarias.


Cedo, a fome andou atrás
de Almagro como invisível
mandíbula que atacava.

Os cavalos eram comidos
naquela festa glacial.


E a morte do sul debulhou
o galope dos Almagros,
até que voltou seu cavalo
para o Peru, onde esperava
o descobridor rechaçado,
a morte do norte, sentada
no caminho, com um machado.




XX
Unem-se a Terra e o Homem

Araucania ramo de carvalhos torrenciais,
c5 Pátria despiedosa, amada escura,
solitária em teu reino chuvoso:
eras apenas gargantas minerais,
mãos de frio, punhos
acostumados a cortar penhascos,
eras, Pátria, a paz da dureza
e teus homens eram rumor,
áspera aparição, vento bravio.


Não tiveram os meus pais araucanos
elmos de plumagem luminosa,
não descansaram em flores nupciais,
não fiaram ouro para o sacerdote:
eram pedra e árvore, raízes
dos matagais sacudidos,
folhas com forma de lança,
cabeças de metal guerreiro.

Pais, apenas levantastes
a orelha ao galope, apenas no cimo
dos montes, cruzou
o raio de Araucania.

Tornaram-se sombra os pais de pedra,
ataram-se ao bosque, às trevas
naturais, tornaram-se luz de gelo,
asperezas de terras e espinhos,
e assim esperaram nas profundezas
da solidão indomável:
um era uma árvore vermelha que olhava,
outro um fragmento de metal que ouvia,
outro uma lufada de vento e verruma,
outro tinha a cor do caminho.

Pátria, nave de neve,
folhagem endurecida:
aí nasceste, quando o homem teu
pediu à terra o seu estandarte,
e quando terra e ar e pedra e chuva,
folha, raiz, uivo, perfume,
cobriram como um manto o filho
que amaram e defenderam.

Assim nasceu a pátria unânime:
a unidade antes do combate.




XXI
Valdivia (1544)

Mas voltaram (Pedro se chamava).

Valdivia, o capitão intruso,
cortou minha terra com a espada
entre ladrões: “Isto é teu,
isto é teu.
Valdés, Montero,
isto é teu, Inés, este lugar
é o cabido”.

Dividiram minha pátria
como sé fosse um asno morto.

“Leva
este pedaço de lua e arvoredo,
devora este rio com crepúsculo”,
enquanto a grande cordilheira
erguia bronze e brancura.


Assomou Arauco.
Adobes, torres,
ruas, o silencioso
dono da casa levantou sorrindo.

Trabalhou com as mãos empapadas
de sua água e de seu barro, trouxe
a greda e verteu a água andina:
mas não pôde ser escravo.

Então Valdivia, o verdugo,
atacou a fogo e morte.

Assim começou o sangue,
o sangue de três séculos, o sangue oceano,
o sangue atmosfera que cobriu a minha terra
e o tempo imenso, como guerra nenhuma.

Saiu o abutre iracundo
da armadura enlutada
e mordeu o chefe, rompeu
o pacto escrito no silêncio
de Huelén, no ar andino.


Arauco começou a ferver seu prato
De sangue e pedras.

Sete príncipes
vieram para lamentar.

Foram presos.

Diante dos olhos da Araucania,
cortaram as cabeças dos caciques.

Animavam-se os verdugos.
Toda
empapada de vísceras, uivando,
Inés Suárez, a mercenária,
subjugava os pescoços imperiais
com os seus joelhos de infernal harpia.

E as lançou sobre a paliçada,
banhando-se de sangue nobre,
cobrindo-se de barro escarlate.

Acreditaram assim dominar Arauco.

Porém aqui a unidade sombria
de árvore e pedra, lança e rosto,
transmitiu o crime ao vento.

Soube disso a árvore da fronteira,
o pescador, o rei, o mago,
soube disso o lavrador antártico,
souberam-no as águas mães
do Bío-Bío.

Assim nasceu a guerra pátria.

Valdivia enfiou a lança gotejante
nas entranhas pedregosas
de Arauco, meteu a mão
no palpitar, apertou os dedos
no coração araucano,
derramou as veias silvestres
dos labregos,
exterminou
o amanhecer pastoril,
ordenou martírio
ao rei do bosque, incendiou
a casa do dono do bosque,
cortou as mãos do cacique,
devolveu os prisioneiros
com orelhas e narizes cortados,
empalou o toqui, assassinou
a moça guerrilheira
e com a sua luva ensangüentada
marcou as pedras da pátria,
deixando-a cheia de mortos
e solidão e cicatrizes.




XXII
Ercilla


Pedras de Arauco e desatadas rosas
fluviais, territórios de raízes,
encontraram-se com o homem que chegou de Espanha.

Invadem a sua armadura com gigantesco líquen.

Atropelam a sua espada as sombras do feto.

A hera original põe mãos azuis
no recém-chegado silêncio do planeta.

Homem, Ercilla sonoro, ouço o pulso da água
de teu primeiro amanhecer, um frenesi de pássaros
e um trovão na folhagem.

Deixa, deixa a tua pegada
de águia rubra, destroça
a tua face contra o milho silvestre,
tudo será na terra devorado.

Sonoro, somente tu não beberás a taça
de sangue, sonoro, só ao rápido
fulgor de ti nascido
cm vão chegará a boca secreta do tempo
para dizer-te: em vão.

Em vão, em vão
sangue pelas ramagens de cristal salpicado,
em vão pelas noites do puma
o desafiador passo do soldado,
as ordens,
os passos
do ferido.

Tudo torna ao silêncio coroado de plumas
onde um rei remoto devora trepadeiras.




XXIII
Enterram-se as lanças

Assim ficou repartido o patrimônio.

O sangue dividiu a pátria inteira.

(Contarei em outras linhas
a luta do meu povo.
)
Mas foi cortada a terra
pelas facas invasoras.

Depois vieram povoar a herança
usurário de Euzkadi, netos
de Loyola.
Da cordilheira
do oceano
dividiram com árvores e corpos
a sombra recostada do planeta.

As comendas sobre a terra
sacudida, ferida, incendiada,
o reparte de selva e água
nos bolsos, os Errázuriz
que chegam com seu escudo de armas:
um chicote e uma alpargata.




XXIV
O coração magalhânico (1519)

De onde sou, às vezes me pergunto, de que diabos
venho, que dia é hoje, que acontece,
ronco, no meio do sonho, da árvore, da noite,
e uma onda se levanta como pálpebra, um dia
dela nasce, um relâmpago com focinho de tigre.



Desperto de repente na noite pensando no extremo sul
Vem o dia e me diz: “Ouves
a água lenta, a água
sobre a Patagônia?”
E eu respondo: “Sim, senhor, escuto”.

Vem o dia e me diz: “Uma ovelha selvagem,
longe, na região, lambe a cor gelada
duma pedra.
Não escutas o balido, não reconheces
o vendaval azul em cujas mãos
a lua é uma taça, não vês a tropa, o dedo
rancoroso do vento
tocar a onda e a vida com o seu anel vazio?”


Recordo a solidão do estreito
A longa noite, o pinheiro, vêm aonde vou.

E se transtorna o ácido surdo, a fadiga,
a tampa do tonel, quanto tenho na vida.

Uma gota de neve chora e chora à minha porta
mostrando o seu vestido claro e desatado
de pequeno cometa que me procura e soluça.

Ninguém olha a lufada, a extensão, o uivo
do ar nas pradarias.

Me aproximo e digo: vamos.
Toco o sul, desemboco
na areia, vejo a planta seca e negra, toda raiz e rocha,
as ilhas arranhadas pela água e pelo céu,
o Rio da Fome, o Coração de Cinza,
o Pátio do Mar Lúgubre, e onde assovia
a solitária serpente, onde cava
o último zorro ferido e esconde seu tesouro sangrento
encontro a tempestade e sua voz de ruptura,
sua voz de velho livro, sua boca de cem lábios,
algo me diz, algo que o ar devora cada dia.



Os descobridores da América aparecem e deles nada fica
Recorda a água quanto aconteceu ao navio.

A dura terra estranha guarda as suas caveiras
que soam no pânico austral como cornetas
e olhos de homem e de boi dão ao dia o seu vazio,
o seu anel, o seu ressoar de implacável sulco.

O velho céu busca a vela, ninguém
já sobrevive: o brigue destruído
vive com a cinza do marinheiro amargo,
e dos entrepostos de ouro, das casas de couro
do trigo pestilento, e da
chama fria das navegações
(quanto golpe noite [rocha e baixel] no casa,)
fica apenas o domínio queimado e sem cadáveres,
a incessante intempérie apenas partida
por um negro fragmento
de fogo falecido.



Só se impõe a desolação
Esfera que destroça lentamente a noite, a água, o gelo,
extensão combatida pelo tempo e pelo fim,
com sua marca violeta, com o final azul
do arco-íris selvagem
se afogam os pés de minha pátria em tua sombra
e uiva e agoniza a rosa triturada.

Recordo o velho descobridor
Pelo canal navega novamente
o cereal gelado, a barca do combate,
0 outono glacial, o transitório ferido.

Com ele, com o antigo, com o morto,
com o destituído pela água raivosa,
com ele em sua tormenta, com seu rosto.

Ainda o segue o albatroz c a soga de couro
comida, com os olhos fora do olhar
e o rato devorado cegamente olhando
entre paus partidos o esplendor iracundo,
enquanto no vazio o anel e o osso
caem, resvalam pela vaca-marinha.



Magalhães
Qual é o deus que passa? Olhai sua barba cheia de vermes
e seus calções aos quais a espessa atmosfera
se agarra e morde como um cão náufrago:
e tem peso de âncora maldita a sua estatura,
e silva o pélago e o aquilão acorre
até seus pés molhados.
Caracol da escura
sombra do tempo, espora
carcomida, velho senhor de luto litoral, caçador
sem estirpe, manchado manancial, o esterco
do estreiro te manda,
e de cruz tem o seu peito só um grito
do mar, um grito branco, de luz marinha,
e de tenaz, de tombo em tombo, de aguilhão demolido.



Chega ao Pacífico
Porque o sinistro dia do mar termina um dia,
e a mão noturna corta seus dedos um a um
até não ser, até que o homem nasce
e o capitão descobre dentro de si o aço
e a América sobe a soa borbulha
e a costa levanta o seu pálido arrecife
sujo de aurora, turvo de nascimento
até que da nau sai um grito e se afoga
e outro grito e a alba que nasce da espuma.



Todos morreram
Irmãos de água e piolho, de planeta carnívoro:
vistes, enfim, a árvore do mastro encolhida
pela tormenta? Vistes a pedra esmagada
sob a louca neve brusca da lufada?
Enfim, já tendes o vosso paraíso perdido,
enfim, tendes a vossa guarnição maldizente,
enfim, vossos fantasmas atravessados pelo ar
beijam sobre a areia o rasto da foca.


Enfim, a vossos dedos sem anel
chega o pequeno sal do páramo, o dia morto,
tremendo, em seu hospital de ondas e pedras.




XXV
Apesar da ira

Roídos elmos, ferraduras mortas!

Mas através do fogo e da ferradura
como de um manancial iluminado
pelo sangue sombrio,
com o metal fundido no tormento
derramou-se uma luz sobre a terra:
número, nome, linha e estrutura.


Página de água, claro poderio
de idiomas rumorosos, doces gotas
elaboradas como cachos de uvas,
sílabas de platina na ternura
de uns peitos puros aljofarados,
e uma clássica boca de diamantes
deu seu fulgor nevado ao território.


Já longe a estátua depunha
seu mármore morto, e na primavera
do mundo, amanheceu a maquinaria.


A técnica elevava o seu domínio
e o tempo foi velocidade e lufada
na bandeira dos mercadores.


Lua de geografia
que descobriu a planta e o planeta
estendendo geométrica formosura
em seu desenvolvido movimento.


Ásia entregou o seu virginal aroma.

A inteligência com um fio gelado
foi atrás do sangue a fiar o dia.


O papel repartiu a pele nua
guardada nas trevas.


Um vôo
de pombal saiu da pintura
com arrebol e azul ultramarino.


E as línguas do homem se juntaram
na primeira ira, antes do canto.


Assim, com o sangrento
titã de pedra,
falcão encarniçado,
não só chegou o sangue mas o trigo.


A luz veio apesar dos punhais.
1 079

Ii - Ali Estava Meu Irmão

Ali estive.
Ali vi
não só areia e ar,
não só camelos e metais,
mas o homem,
o remoto
irmão meu,
nascendo agora no meio
da solidão planetária,
diferenciando-se
da natureza,
conhecendo
o mistério
da eletricidade e da vida,
dando a mão ao Este
e ao Oeste,
dando a mão ao céu
e à terra
repartindo,
existindo,
assegurando
o pão e a ternura
entre seus filhos.
Oh territórios duros,
contrafortes lunares,
em vós
ascende
a semente
do tempo socialista
e sobe
da pedra
a flor e a formosura,
a usina que fala ao céu
com palavras de fumo
e com os minerais dominados elabora ferramentas e alegria.
1 175

Viii - Radiante Julius

Radiante Julius — do favo das vidas
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
1 159

I. Prólogo

A voz de Lord Cochrane:
“Um tenente que perde um braço recebe uma pensão de 91 libras.
Um capitão que perde um braço recebe 41 libras.
Um tenente que perde uma perna, 40 libras.
Um tenente que perde ambas as pernas em batalha recebe 80 libras.
“Mas
Lord Arden goza de uma sinecura de 20.358 libras esterlinas.
Lord Campden recebe 20.536 Iibras.
Lord Buckingham, 20.683 Iibras.
Quer dizer,
que o que dão a todos os feridos da frota britânica
e às viúvas e filhos dos mortos em combate
nem sequer alcança a sinecura de Lord Arden.
Os Welleslley recebem 34.720 libras ao ano.
Quer dizer,
recebem uma soma
igual a 426 pares de pernas de tenentes
e a sinecura de Lord Arden equivale a 1.022 braços
de capitão de navio!”

Uma voz
“Cochrane, isto é uma insolência – pagarás por ela!”
1 040

Livros

15

Videos

50

Comentários (2)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Anabil Martins Diniz
Anabil Martins Diniz

Porque não publicar o texto original e, junto, o texto verido para o portugues? Seria mais rico.

Adriano Moreira/escritor.
Adriano Moreira/escritor.

Pablo Neruda é simplesmente a essência da mais pura e legítima poesia.Sua alma canta e nos mostra os mais límpidos sentimentos contidos/incontidos no coração humano.Um ícone! uma voz pujante e delirante no mais doce leito da poesia/biografia/história.Neruda ,a voz que ecoa nas cordilheiras das andes,como sopro divinal e eterno...