III - Dando Uma Medalha À Madame Sun Yat Sem
À MADAME SUN YAT SEN
Esta medalha que Ehrenburg te deixou no peito
é uma espiga de ouro da colheita do grande país da
paz, da União Soviética.
Teu peito é digno desta espiga de ouro, Sung Sin Ling.
Nós te conhecemos daqueles tempos em que a China
despertou,
e logo quando a China foi traída e martirizada,
uma vez mais pelos seus velhos inimigos,
e desde o primeiro dia te vemos quando a China
foi libertada na primeira fila, na vanguarda com os libertadores
Assim te vemos, querida amiga, ao chegar ao aeroporto:
pareceste-nos mais jovem de quanto pensamos e mais simples,
como teu povo que sofreu e combateu tanto
e que, na vitória, sorri e saúda todos os povos do mundo.
Nós, os homens da Latino-América, conhecemos
vossos inimigos.
Nosso continente tem toda a riqueza, o petróleo,
o cobre, o açúcar, o nitrato, o estanho,
mas tudo isto pertence a nossos inimigos, aos mesmos
que expulsastes para sempre.
Enquanto nossa gente dos campos e aldeias não tem
sapatos nem cultura,
eles levantaram, com o produto do saque, casas
de cinquenta andares em Nova York
e com nossas riquezas fabricaram as armas para
escravizar outros povos.
Por isso a vitória do povo chinês é nossa vitória.
Por isso a nova China é amada e respeitada
por todos os povos.
Uns quantos diplomatas em São Francisco e em Washington
não querem “reconhecer” a China Popular. Estes
senhores não sabem que existe.
Poderiam também não “reconhecer” a Terra e apesar
disso esta se move,
e se move para adiante, não para trás, como eles
quiseram.
Os senhores de São Francisco não “reconhecem”
à nova China,
mas poderiam fazer eles uma encosta ao longo da América
e se perguntassem a milhões de mineiros, de
camponeses, ao professor e ao poeta, ao velho e ao jovem,
desde o Alaska até o Pólo Sul, teriam a resposta:
“Reconhecemos e amamos Mao Tse-Tung. É nosso
grande irmão”.
Por isso, querida amiga da paz, Sung Sin Ling,
esta espiga de ouro que lá da generosa terra de Stalin
chegou a teu peito de mulher grande e simples,
não chegou ali por casualidade ou capricho,
mas porque te amamos
e amamos a paz que defendes não só para teu povo,
mas para que todos os povos
se reconheçam e possam construir sua vida livremente.
II - o Desfile
Diante de Mao Tse-Tung
o povo desfilava.
Não eram aqueles
famintos e descalços
que desceram
as áridas gargantas,
que viveram em covas,
que comeram raízes,
e que quando baixaram
foram vento de aço,
vento de aço de Yennan e o Norte.
Hoje outros homens desfilavam,
sorridentes e seguros,
decididos e alegres,
pisando fortemente a terra libertada
da pátria mais larga.
E assim passou a jovem orgulhosa,
vestida de azul operário, e junto a seu sorriso,
como uma cascata de neve,
quarenta mil bocas têxteis,
as fábricas de seda que marcham e sorriem,
os novos construtores de motores,
os velhos artesãos do marfim,
andando, andando
diante de Mao,
toda reunida a China, grão a grão,
de férreos cereais,
e a seda escarlate palpitando no céu
como as pétalas enfim conjugadas
da rosa terrestre,
e o grande tambor pesava
diante de Mao,
e um trovão escuro
dele subia
saudando-o.
Era a voz antiga
da China, voz de coro,
voz de tempo enterrado,
a velha voz, os séculos
o saudavam.
E então como uma árvore
de flores repentinas
os meninos,
aos milhares,
saudaram, e assim
os novos frutos e a velha terra,
o tempo, o trigo,
as bandeiras do homem por fim reunidas,
ali estavam.
Ali estavam, e Mao sorria
porque lá das alturas
sedentas do Norte
nasceu este rio humano,
porque das cabeças
de moças
cortadas pelos norte-americanos
(ou por Chiang, seu lacaio),
nas praças,
nasceu esta vida enorme.
Porque do ensinamento do Partido,
em pequeninos livros mal impressos,
saiu esta lição para o mundo.
Sorria, pensando
nos ásperos anos
passados,
a terra cheia de estrangeiros, fome
nas humildes choças,
o Yang Tsé mostrando em seu lombo
os répteis de aço
encouraçados
dos imperialistas invasores,
a pátria saqueada
e hoje, agora,
limpa a terra,
a vasta China límpida,
e pisando o seu.
Respirando a pátria
desfilavam os homens
diante de Mao
e com sapatos novos
golpeavam a terra, desfilando,
enquanto o vento nas bandeiras vermelhas
brincava e no alto
Mao Tse-Tung sorria.
Ii - Primavera No Norte
Eu percorri a primavera
verde e abrasadora
da Polônia.
Tremiam na luz os cereais
da abundância, o leite deslizava
um rio branco
para o mar
lá da agricultura coletiva,
os campos úmidos, olor de chão,
flores como relâmpagos azuis
ou pontuações rápidas de sangue.
Desde o inverno longo os pinhais
moviam seus costados de navio
como embarcando na primavera,
e debaixo, na sombra turbadora,
os morangos entreabriam suas hastes.
O ar era metálico,
um ar novo de ressurreição,
porque não só o bosque,
o mar, a terra,
mas o homem,
ali ressuscitavam.
Ali o dilúvio foi de sangue,
a arca clandestina da luta
navegou entre os mortos.
Por isso a violenta primavera
da Polônia tinha
sabor ferruginoso
para minha boca, era
um elétrico líquido,
o beijo da terra,
o coração do homem
na taça estrelada da vida!
Iv - Construindo a Paz
Mas a vida
ali também estava.
Em outra parte e outras horas
de minha vida, a morte
me esperou nas esquinas.
Aqui a vida espera.
Vi em Gdansk a vida
repovoando-se.
Beijaram-me
os motores com lábios de aço.
A água trepidava.
Avistei majestosas
passar como castelos sobre a água
as gruas de ferro marinho,
recém-reconstruídas.
Vi o gigantesco
novelo machucado
do ferro sobre o ferro
bombardeado
dar à luz pouco a pouco
a forma das gruas,
e despertar do fundo da morte
a majestade azul do estaleiro.
VII - Picasso
Em Villauris em cada casa
há um prisioneiro.
É o mesmo sempre.
É o fumo.
Às vezes o vigiam
pais de sobrancelhas brancas,
moças de cor de aveia.
Quando passas
notas que os guardiões
do fumo
adormeceram,
e pelos telhados, entre vasilhas quebradas,
uma conversa azul
entre o céu e o fumo.
Mas no lugar em que trabalha
em liberdade o fogo,
e o fumo é uma rosa de alcatrão
que tingiu de negro as paredes,
ali Picasso,
entre as linhas e o inferno,
com seu pão de barro,
cozendo-o,
polindo-o, rompendo-o
até que o barro se torne cintura,
pétala de sirena,
guitarra.de ouro úmido.
E então com um pincel o lambe,
e o oceano vem
ou a vindima.
O barro entrega seu cacho oculto
e por fim imobiliza sua anca calcárea.
Depois Picasso volta a sua oficina.
Os pequenos centauros que o esperam
crescem, galopam.
O silêncio nasceu
nos ubres
da cabra de ferro.
E outra vez Picasso em sua gruta
entra ou sai deixando
paredes arranhadas,
estalactites vermelhas
ou pisadas genitais.
E durante as horas que seguem
fala com o barbeiro.
Viii - Radiante Julius
Radiante Julius — do favo das vidas
célula férrea e doce, feita de mel e fogo! —
dá-nos hoje como o pão diário
tua essência, tua presença,
tua simples retidão de raio puro.
Vem a nós hoje, amanhã, sempre,
porque, singelo herói,
és a arquitetura
do homem de amanhã.
Quando te feriu a morte, a luz
brilhou sobre o planeta
com a cor de abelha de teus olhos,
e o germe do mel e da luta,
da doçura e da dureza,
ficaram implantados
na vida do homem.
Tua decisão destruiu o medo,
e tua ternura, a escuridão.
Entraste, homem nu,
na boca de nosso inferno
e com o corpo lacerado,
intacto, sem quebrar foi teu gesto
e a verdade ativa
que apesar da morte preservaste.
Explicação
Para este país, para estes cântaros de greda:
para este jornal sujo que voa com o vento na praia:
para estas terras quebradas que esperam um rio de inverno:
quero pedir algo e não sei a quem pedi-lo.
Para nossas cidades pestilentas e encarniçadas, onde há no entanto
escolas com sinos e cinemas cheios de sonhos,
e para os pescadores e as pescadoras dos arquipélagos do Sul
(onde faz tanto frio e dura tanto o ano)
quero pedir algo agora, e não sei o que pedir.
Já se sabe que os vulcões errantes das idades anteriores
juntaram-se aqui como barracas de circo
e ficaram imóveis no território:
nós que aqui nascemos nos acostumamos ao fogo
que ilumina a neve como uma cabeleira.
Mas logo a terra se converte em cavalo
que se sacode como se se queimasse vivo
e caímos rodando do planeta para a morte.
Quero pedir que não se mova a terra.
Somos tão poucos os que aqui nascemos.
Somos tão poucos os que padecemos
(e menos ainda os ditosos aqui nas cordilheiras)
há tantas coisas que fazer entre a neve e o mar:
ainda as crianças descalças atravessam os invernos;
não há tetos contra a chuva, faltam roupa e comida;
e assim se explica que eu tenha que pedir algo
sem saber bem a quem nem como fazê-lo.
(Quando já a memória do que fui se apague
com a repetição da onda na areia
e não lembre ninguém o que fiz ou não fiz
quero que me perdoem de antemão,
não tive tempo nunca de fazer ou não fazer nada:
porque a vida inteira eu a passei pedindo,
para que os demais alguma vez pudessem
viver tranquilos.)
Tarde - LXX
Talvez ferido vou sem ir sangrento
por algum dos raios de tua vida
e a meia selva me detém a água:
a chuva que tomba com seu céu.
Então toco o coração chovido:
ali sei que teus olhos penetraram
pela região extensa de minha pena
e um sussurro de sombra surge só:
Quem é? Quem é? Mas não teve nome
a folha ou a água escura que palpita
a meia selva, surda, no caminho,
e assim, amor meu, soube que fui ferido
e ninguém falava ali senão a sombra,
a noite errante, o beijo da chuva.
VIII - Ehrenburg
Quantos cães hirsutos,
focinhos de ponta brilhante,
rabos por trás de um móvel,
e logo mais pêlos,
mechas cinzentas, olhos
mais velhos que o mundo,
e uma mão
sobre o papel,
implantando a paz,
derrubando mitos,
vomitando fogo e silvando,
ou falando de simples amor
com a ternura
de um pobre padeiro.
É Ehrenburg.
É sua casa
em Moscou.
Ai quantas vezes,
fechado em sua casa,
pensei que não tinha paredes.
Ali entre quatro muros
o rio da vida,
o rio humano
entra e sai deixando
vidas, feitos, combates,
e o antigo Ehrenburg,
o jovem Ilya,
com este rio de terras e vidas
recolhe aqui e além
fragmentos, chispas,
ondas, beijos, chapéus,
e elabora
como um bruxo.
Tudo deita em seu forno,
de dia e de noite.
Dali saltam metais,
saltam espadas rubras,
grandes pães de fogo,
saltam vagas de ira,
bandeiras,
armas para dois séculos,
ferro para milhões,
e ele muito tranquilo,
hirsuto,
com suas mechas cinzentas,
fumando e cheio
de cinza.
De quando em quando
sai do forno
e quando julgas
que te vai fulminar,
o vês andando,
sorridente,
com as mais enrugadas calças do mundo:
vai plantar um jasmim
em sua casa de campo:
abre o vão,
mete as mãos,
como se fossem de seda
trata as raízes,
as enterra,
as rega,
e então com passinhos curtos,
com cinza, com barro, com folhas,
com jasmim, com história,
com todas as coisas do mundo
sobre os ombros,
afasta-se fumando.
Se queres saber algo de jasmins,
escreve-lhe uma carta.
Meio-Dia - XXXVIII
Tua casa ressoa como um trem ao meio-dia,
zumbem as vespas, cantam as caçarolas,
a cascata enumera os feitos do orvalho
teu riso desenvolve seu trinar de palmeira.
A luz azul do muro conversa com a pedra,
chega como um pastor silvando um telegrama
e, entre as duas figueiras de voz verde,
Homero sobe com sapatos sigilosos.
Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto,
nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzina
mas um discurso de cascata e de leões,
e tu que sobes, cantas, corres, caminhas, desces,
plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas
ou te foste e se sabe que começou o inverno.