IX - Palavras À Europa
Eu, americano das terras pobres,
das metálicas mesetas,
onde o golpe do homem contra o homem
se reúne ao da terra sobre o homem.
Eu, americano errante,
órfão dos rios e dos
vulcões que me procriaram,
a vós, simples europeus
das ruas tortuosas,
humildes proprietários da paz e o azeite,
sábios tranquilos como o fumo,
eu vos digo: aqui vim
aprender de vós,
de uns e outros, de todos,
porque de que me serviria
a terra, para que se fizeram
o mar e os caminhos,
senão para ir olhando e aprendendo
de todos os seres um pouco.
Não me fecheis a porta
(como as portas negras, salpicadas de sangue
de minha materna Espanha).
Não me mostreis a gadanha inimiga
nem o esquadrão blindado,
nem as antigas forcas para o novo ateniense,
nas amplas vias gastas
pelo resplendor das uvas.
Não quero ver um soldadinho morto
com os olhos comidos.
Mostra-me de uma pátria a outra
o infinito fio da vida
cosendo o traje da primavera.
Mostra-me uma máquina pura,
azul de aço sob o grosso azeite,
lesta para avançar nos trigais.
Mostra-me o rosto cheio de raízes
de Leonardo, porque esse rosto
é vossa geografia,
e no alto dos montes,
tantas vezes descritos e pintados,
vossas bandeiras juntas
recebendo
o vento eletrizado.
Trazei água do Volga fecundo
à água do Arno dourado.
Trazei sementes brancas
da ressurreição da Polônia,
e de vossas vinhas levai
o doce fogo rubro
ao norte da neve!
Eu, americano, filho
das mais largas solidões do homem,
vim aprender a vida de vós
e não a morte, e não a morte!
Eu não cruzei o oceano,
nem as mortais cordilheiras,
nem a pestilência selvagem
das prisões paraguaias,
para vir ver
junto aos mirtos que só conhecia
nos livros amados,
vossas órbitas sem olhos e vosso sangue seco
nos caminhos.
Eu ao mel antigo e ao novo,
esplendor da vida, vim.
Eu a vossa paz e a vossas portas,
a vossas lâmpadas acesas,
a vossas bodas vim.
A vossas bibliotecas solenes
de tão longe vim.
A vossas fábricas deslumbrantes
chego a trabalhar um momento
e a comer entre os trabalhadores.
Em vossas casas entro e saio.
Em Veneza, na Hungria a bela,
em Copenhague me vereis,
em Leningrado, conversando
com o jovem Pushkin, em Praga
com Fucik, com todos os mortos
e todos os vivos, com todos
os metais verdes do Norte
e os cravos de Salerno.
Eu sou a testemunha que vem
visitar vossa morada.
Oferecei-me a paz e o vinho.
Amanhã cedo me vou.
Me está esperando em toda parte a primavera.
Noite - XC
Pensei morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti deixava:
tua boca eram meu dia e minha noite terrestres
e tua pele a república fundada por meus beijos.
Nesse instante terminaram os livros,
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados,
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser, menos teus olhos.
Porque o amor, enquanto a vida nos acossa,
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas,
mas quando a morte vem tocar a porta
há teu olhar apenas para tanto vazio,
só tua claridade para não seguir sendo,
só teu amor para fechar a sombra.
Solo de Sol
Hoje, este momento, este hoje destapado, aqui fora,
o penhor oferecido ao espaço como um sino,
o contato do sol com minha meditação e tua fronte
nas redes rotundas que alçou o meio-dia
com o sol como um peixe palpitando no céu.
Bem-amada, este longe está feito de espigas e urtigas:
a distância trabalhou o cordel do rancor e do amor
até que sacudiram a nave os cães babosos do ódio
e entregamos ao mar outra vez a vitória e a fuga.
Apaga o ar, amor meu, violento, a inicial da dor na terra,
ao passar reconhece teus olhos e tocou teu olhar de novo
e parece que o vento de Abril contra a nossa arrogância
se vai sem voltar e sem ir-se jamais: é o mesmo,
é o mesmo que abriu o olhar total deste dia,
derramou no retângulo um racimo de abelhas
e criou na safira a multiplicação das rosas.
Bem-amada, nosso amor, que buscou a intempérie, navega
na luz conquistada, no vértice dos desafios,
e não há sombra arrastando-se dos dormitórios do mundo
que cubra esta espada cravada na espuma do céu.
Oh, água e terra és tu, sortilégio de relojoaria,
convenção da torre marinha com a greda do meu território!
Bem-amada, a felicidade, a cor do amor, a estátua do Sul na chuva,
o espaço por ti reunido para satisfação de meus beijos,
a grandiosa onda fria que rompe sua pompa acesa pelo amaranto,
e eu, escurecido por teu resplendor cereal,
oh amor, meio dia de sal transparente, Matilde no vento,
temos a forma de fruta que a primavera elabora
e persistiremos em nossos deveres profundos.
O Lago
(Fala o lago Rupanco
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)
Os sinos da Rússia
Andando, movendo os pés sobre um amplo silêncio de neve
escuta-me agora, amor meu, um sucesso sem rumo:
estava deserta a estepe e o frio exibia suas duras alfaias,
a pele do planeta brilhava cobrindo as costas nuas da Rússia
e eu no crepúsculo imenso entre os esqueletos das bétulas,
andando, sentindo o espaço, pesando o pulsar das solidões.
Então saiu do silêncio a voz da noite terrestre,
uma voz, outra voz, ou o total das vozes do mundo:
era baixo e profundo o estímulo, era imenso o metal da sombra,
era lento o caudal da voz misteriosa do céu,
e subia na altura redonda aquele golpe de pedra celeste
e descia aquele rio de prata sombria caindo na sombra
e é assim como eu, caminhante, escutei os sinos da Rússia
desatarem entre o céu e a sombra o profundo estupor de seu canto.
Sinos, sinos do orbe infinito, distantes
na gravidade do inverno que oscila cravado no Polo
como um estandarte fustigado por esta brancura furiosa,
sinos de guerra cantando com rouco ademane no ar
os fatos, o sangue, a amarga derrota, as casas queimadas,
e logo a luz coroada pelas vitoriosas bandeiras.
Disse a esmo, à neve, ao fulgor, a mim mesmo, às ruas de barro com neve
a guerra se foi, levou nosso amor e os ossos queimados
cobriram a terra como uma safra de atrozes sementes
e ouvi os sinos remotos tangindo na luz submersa
como um espelho, como em uma cidade sepultada em um lago
e assim o campanário furioso guardou em seu tremendo tangido,
senão a vingança, a lembrança de todos os heróis ausentes.
De cada sino caía a folhagem do trovão e do canto
e aquele movimento de ferro sonoro voava à luz da lua nevada,
varria os bosques amargos que em um batalhão de esqueletos
erguiam as lanças imóveis do calafrio
e sobre a noite passou o sino arrastando como uma cascata
raízes e rezas, enterros e noivas, soldados e santos,
abelhas e lágrimas, colheitas, incêndios e recém-nascidos.
Da cabeça do Tzar e sua solitária coroa forjada na névoa
por medievais ferreiros, a fogo e a sangue,
voou uma esmeralda sangrenta do campanário
e como o gado na chuva o vapor e o cheiro dos servos rezando na igreja,
acompanhou a coroa de ouro no voo da badalada terrível.
Agora através destes roucos sinos divisa o relâmpago:
a revolução inflamando o rocio enlutado das bétulas;
a flor estalou estabelecendo uma grande multidão de pétalas vermelhas
e sobre a estepe adormecida cruzou um regimento de raios.
Ouçamos a aurora que sobe como uma papoula
e o canto comum dos novos sinos que anunciam o sol de Novembro.
Eu sou, companheira, o errante poeta que canta a festa do mundo,
o pão na mesa, a escola florida, a honra do mel, o som do vento silvestre,
celebro em meu canto a casa do homem e sua esposa, desejo
a felicidade crepitante no centro de todas as vidas
e tudo que acontece recolho como um sino e devolvo à vida
o grito e o canto dos campanários da primavera.
Às vezes perdoa se a badalada que cai de minha alma noturna
golpeia com mãos de sombra as portas do dia amarelo,
mas nos sinos há tempo e há canto selado que espera soltar suas pombas
para soltar a alegria como um leque mundial e sonoro.
Sinos de ontem e amanhã, profundas corolas do sonho do homem,
sinos da tempestade e do fogo, sinos do ódio e da guerra,
sinos do trigo e das reuniões rurais à beira do rio,
sinos nupciais, sinos de paz na terra,
choremos sinos, bailemos sinos
cantemos sinos pela eternidade do amor, pelo sol e a lua e o mar e a terra e o homem.
Meio-Dia - LII
Cantas e a sol e a céu com teu canto
tua voz debulha o cereal do dia,
falam os pinheiros com sua língua verde:
trinam todas as aves do inverno.
O mar enche seus porões de passos,
de sinos, cadeias e gemidos,
tilintam metais e utensílios,
chiam as rodas da caravana.
Mas só tua voz escuto e sobe
tua voz com voo e precisão de flecha,
desce tua voz com gravidade de chuva,
tua voz esparge altíssimas espadas
volta tua voz pesada de violetas
e logo me acompanha pelo céu.
VIII - Ehrenburg
Quantos cães hirsutos,
focinhos de ponta brilhante,
rabos por trás de um móvel,
e logo mais pêlos,
mechas cinzentas, olhos
mais velhos que o mundo,
e uma mão
sobre o papel,
implantando a paz,
derrubando mitos,
vomitando fogo e silvando,
ou falando de simples amor
com a ternura
de um pobre padeiro.
É Ehrenburg.
É sua casa
em Moscou.
Ai quantas vezes,
fechado em sua casa,
pensei que não tinha paredes.
Ali entre quatro muros
o rio da vida,
o rio humano
entra e sai deixando
vidas, feitos, combates,
e o antigo Ehrenburg,
o jovem Ilya,
com este rio de terras e vidas
recolhe aqui e além
fragmentos, chispas,
ondas, beijos, chapéus,
e elabora
como um bruxo.
Tudo deita em seu forno,
de dia e de noite.
Dali saltam metais,
saltam espadas rubras,
grandes pães de fogo,
saltam vagas de ira,
bandeiras,
armas para dois séculos,
ferro para milhões,
e ele muito tranquilo,
hirsuto,
com suas mechas cinzentas,
fumando e cheio
de cinza.
De quando em quando
sai do forno
e quando julgas
que te vai fulminar,
o vês andando,
sorridente,
com as mais enrugadas calças do mundo:
vai plantar um jasmim
em sua casa de campo:
abre o vão,
mete as mãos,
como se fossem de seda
trata as raízes,
as enterra,
as rega,
e então com passinhos curtos,
com cinza, com barro, com folhas,
com jasmim, com história,
com todas as coisas do mundo
sobre os ombros,
afasta-se fumando.
Se queres saber algo de jasmins,
escreve-lhe uma carta.
II - Os homens
É a verdade do prólogo. Morte ao romanticão,
e ao perito nas incomunicações:
sou igual à professora da Colômbia,
ao rotário de Filadélfia, ao comerciante
de Paysandú que juntou dinheiro
para chegar aqui. Chegamos de ruas diferentes,
de idiomas desiguais, ao Silêncio.
Regresso
Ontem regressamos cortando o caminho da água, do ar e a neve
e ao aterrissar na palma, na mão do Chile,
vagamente inquietos da permanência em confins distantes,
abrumadamente adormecidos ainda no sonho do voo
sem tocar apenas nem reconhecendo a terra temível e amada,
veio a bondade com seu traje cinza e a imóvel grandeza que ninguém conhece
e tive à minha vista a estrela que te reconhece
e assim com valises que apenas tocavam os dedos dos aduaneiros,
rodeados por três automóveis de amigos amados,
entrei com Matilde na sala dos candelabros do mundo,
em minha pátria pequena que acende suas velas vulcânicas
entre o esplendor das neves intactas e o coro da água marinha.
Oh pátria, ao beijar tua cintura de vespa vulcânica,
ao erguer o olhar a teus cerros de pálpebras negras
e descer a beijar na areia do mar a andrajosa formosura
de teus pés maltratados que sobem e descem pelas
cordilheiras,
recebi de repente o cheiro da costa marinha
e quanta dor iracunda esmagou meus pequenos irmãos,
misérias que matam com mãos mais duras que os terremotos,
injustiça vertendo o sal na ferida, queimando a pedra da alma,
tudo isso voou desprendido na rajada do mar majestoso,
do único oceano, da rosa gigante que se abre e se fecha na orla
perfumando tua hirsuta beleza com seus movimentos azuis.
Aqui está o estilo, sem dúvida, vejamos, salta! Suponho,
coração de papel, que minha nave cruzaste bailando à moda,
à moda de andar, à moda de ver, e é verdade que olhamos
com os olhos cambiantes e abrimos a porta com chaves futuras,
mas aqui entre o matagal sacudido e a insólita névoa de Janeiro
chamuscada a relva, sedenta a lua, sem sol e sem ninguém a areia,
e o vaivém da onda que cava sua tumba infinita
e o cheiro extenso de sal soberano que se desenrola
como um episódio do frio, cantando com trovões,
aqui, onde encontro, pergunto, o conselho?
E é claro o leio na rajada, no rastro da ave queltehue7,
na rouca advertência do mar, na noite que conta e que soma,
e nas cicatrizes abertas dos rochedos
pelas quebraduras do gelo de antigas catástrofes.
A borrasca que acende a espuma coroando o zênite do marulho
me ensinou a limpar as escuras ferramentas de meu desvario,
me ensinou a estender e secar no vento a linhagem da minha profecia,
e nestas rugas de pedra, na rocha quebrada pela eternidade movediça,
achei um ninho recente de barro e de palha fragrante
como os ovos do mar e as asas da travessia.
De modo que um beijo sem nome com lábios de terra
ou um nome com lábios de sombra marinha ou mel da costa selvagem
ou os surdos sussurros que indicam ao mês de Setembro
que a primavera enterrada começa a arranhar com suas unhas o féretro
ou melhor o chuvoso chamado de um menino que tem meu rosto
e que encontro nas dunas, perdido, e que não reconheço,
tudo isto, agregando o barril das más ações que voltam e assustam,
ou o ramo de nardos inúteis que talvez apodreceu em uma porta
sem que aquela à que foi destinado tocasse ou beijasse seu aroma,
tudo isto é o livro, o manual de minha sabedoria;
e não posso aprender outras coisas porque chego da desventura
e já descarreguei tantos sacos da cor amaranto na chuva
que só me fica uma hora para fazer-me feliz; é cedo,
é cedo e é tarde, é cedo: amanhece com lua
e no sol da noite recolho as melhores espigas do céu.
Canto I - A Lâmpada Mágica
Amor América (1400)
Antes do chinó e do fraque
foram os rios, rios arteriais:
foram as cordilheiras em cuja vaga puída
o condor ou a neve pareciam imóveis;
foi a umidade e a mata, o trovão,
sem nome ainda, as pampas planetárias.
O homem terra foi, vasilha, pálpebra
do barro trêmulo, forma de argila,
foi cântaro caraíba, pedra chibcha,
taça imperial ou sílica araucana.
Terno e sangrento foi, porém no punho
de sua arma de cristal umedecido
as iniciais da terra estavam escritas.
Ninguém pôde
recordá-las depois: o vento
as esqueceu, o idioma da água
foi enterrado, as chaves se perderam
ou se inundaram de silêncio ou sangue.
Não se perdeu a vida, irmãos pastorais.
Mas como uma rosa selvagem
caiu uma gota vermelha na floresta
e apagou-se uma lâmpada da terra.
Estou aqui para contar a história.
Da paz do búfalo
até as fustigadas areias
da terra final, nas espumas
acumuladas de luz antártica,
e pelas Lapas despenhadas
da sombria paz venezuelana,
te busquei, pai meu,
jovem guerreiro de treva e cobre,
ou tu, planta nupcial, cabeleira indomável,
mãe jacaré, pomba metálica.
Eu, incaico do lodo,
toquei a pedra e disse:
Quem me espera? E apertei a mão
sobre um punhado de cristal vazio.
Porém andei entre flores zapotecas
e doce era a luz como um veado
e era a sombra como uma pálpebra verde.
Terra minha sem nome, sem América,
estame eguinocial, lança de púrpura,
teu aroma me subiu pelas raízes
até a taça que bebia, até a mais delgada
palavra não nascida de minha boca.
I
Vegetações
Às terras sem nomes e sem números
baixava o vento de outros domínios,
trazia a chuva fios celestes,
e o deus dos altares impregnados
devolvia as flores e as vidas.
Na fertilidade crescia o tempo.
O jacarandá levantava espuma
feita de resplendores transmarinos,
a araucária de lanças eriçadas
era magnitude contra neve,
a primordial árvore acaju,
de sua copa destilava sangue,
e no sul dos lariços,
a árvore trovão, a árvore vermelha,
a árvore do espinho, a árvore mãe,
o ceibo vermelhão, a árvore borracha,
eram volume terrenal, a ressoar,
eram existências territoriais.
Um novo aroma propagado
enchia, pelos interstícios
da terra, as respirações
convertidas em fumo e fragrância:
o tabaco silvestre erguia
seu rosal de ar imaginário.
Qual lança terminada em fogo
surgiu o milho, e sua estatura
debulhou-se e de novo nasceu,
disseminou sua farinha, teve
mortos sob as suas raízes,
e, logo, em seu berço, viu
crescer os deuses vegetais.
Ruga e extensão, disseminava
a semente do vento
sobre as plumas da cordilheira,
espessa luz de gérmen e mamilos,
aurora cega amamentada
pelos ungüentos terrenais
da implacável latitude chuvosa,
das cerradas noites mananciais
e das cisternas matutinas.
E ainda nas planuras
como lâminas de planeta,
sob uma suave povoação de estrelas,
rei da selva, o umbuzeiro detinha
o ar livre, o vôo rumoroso
e cavalgava o pampa, dominando-o
com seu ramal de rédeas e raízes.
América arvoredo,
sarça selvagem entre os mares,
de pólo a pólo balançavas,
tesouro verde, a tua mata.
Germinava a noite
em cidades de cascas sagradas,
em sonoras madeiras,
extensas folhas que cobriam
a pedra germinal, os nascimentos.
Útero verde, americana
savana seminal, adega espessa,
um ramo nasceu como uma ilha,
uma folha foi forma da espada,
uma flor foi relâmpago e medusa,
um cacho arredondou seu resumo,
uma raiz desceu às trevas.
II
Algumas bestas
Era o crepúsculo do iguano.
Da arcoirisada rosácea
sua língua como um dardo
fundia-se na verdura,
o formigueiro monacal pisava
com melodioso pé a selva,
o guanaco fino como o oxigênio
nas largas alturas pardas
ia calçando botas de ouro,
enquanto a lhama abria cândidos
olhos na delicadeza do mundo cheia de rocio.
Os macacos trançavam um fio
interminavelmente erótico
nas ribeiras da aurora,
derrubando muros de pólen
e espantando o vôo violeta
das borboletas de Muzo.
Era a noite dos jacarés,
a noite pura e pululante
dos focinhos saindo do lodo,
e dos lamaçais sonolentos
um ruído opaco de armaduras
retornava à origem terrestre.
O jaguar tocava as folhas
com a sua ausência fosforescente,
o puma corre nas ramagens
como o fogo devorador
enquanto ardem nele os olhos
alcoólicos da selva.
Os texugos coçam os pés
do rio, farejam o ninho
cuja delícia palpitante
atacarão com dentes rubros.
E no fundo da água magna,
como o círculo da terra,
está a sucuri gigante
coberta de barros rituais,
devoradora e religiosa.
III
Vêm os pássaros
Tudo era vôo em nossa terra.
Como gotas de sangue e plumas
os cardeais mergulhavam em sangue
o amanhecer de Anáhuac.
O tucano era uma adorável
caixa de frutas envernizadas,
o colibri guardou as chispas
originais do relâmpago
e suas minúsculas fogueiras
ardiam no ar imóvel.
Os ilustres papagaios enchiam
as profundidades da folhagem
como lingotes de ouro verde
recém-saídos da massa
dos pântanos submersos,
e de seus olhos circulares
mirava uma argola amarela,
velha como os minerais.
Todas as águias do céu
nutriam sua estirpe sangrenta
no azul não-habitado,
e sobre as penas carnívoras
voava acima do mundo
o condor, rei assassino,
frade solitário do céu,
talismã negro da neve,
furacão da falcoaria.
A engenharia do joão-de-barro
fazia do barro fragrante
pequenos teatros sonoros
onde aparecia cantando.
O atalha-caminhos ia
dando o seu grito umedecido
na margem dos poços.
A torcaz araucana fazia
ásperos ninhos de mato
onde deixava a real prenda
de seus ovos azulados.
A loica do sul, fragrante,
doce carpinteira de outono,
mostrava o seu peito estrelado
de constelação escarlate,
e o chincol austral erguia
sua flauta recém-recolhida
da eternidade da água.
Mas, úmido como um nenúfar,
o flamingo abria as suas portas
de rosada catedral
e voava como a aurora
longe do bosque bochornoso
onde se pendura a pedraria
do quetzal, que de repente acorda,
se mexe, desliza, fulgura
e faz voar a sua brasa virgem.
Voa uma montanha marinha
para as ilhas, uma lua
de aves que vão para o sul,
sobre as ilhas fermentadas
do Peru.
É um rio vivo de sombra,
é um cometa de pequenos
corações inumeráveis
que escurecem o sol do mundo
como um astro de cauda espessa
palpitando para o arquipélago.
E no final do iracundo
mar, na chuva do oceano,
surgem as asas do albatroz
como dois sistemas de sal.
instituindo no silêncio,
entre as rajadas torrenciais.
com a sua espaçosa hierarquia,
a ordem das soledades.
IV Os rios acodem
Amada dos rios, combatida
por água azul e gotas transparentes,
uma árvore de veias é teu espectro
de deusa escura que morde maçãs:
então ao acordares despida
eras tatuada pelos rios,
e nas alturas molhadas a tua cabeça
enchia o mundo de novos orvalhos.
A água te estremecia na cintura.
Eras de mananciais construída
e lagos te brilhavam na fronte.
De tua floresta mãe recolhias
a água como lágrimas vitais,
e arrastavas as torrentes às areias
- através da noite planetária,
cruzando ásperas pedras dilatadas,
quebrando no caminho
todo o sal da geologia,
cortando bosques de compactos muros,
separando os músculos do quartzo.
Orinoco
Orinoco, deixa-me em tuas margens
daquela hora sem hora:
deixa-me como outrora partir despido
em tuas trevas batismais.
Orinoco de água escarlate,
deixa-me mergulhar as mãos que retornam
a tua maternidade, a teu transcurso,
rio de raças, pátria de raízes,
teu largo rumor, tua lâmina selvagem
vem de onde eu venho, das pobres
e altivas soledades, dum segredo
como um sangue, de uma silenciosa
mãe de argila.
Amazonas
Amazonas,
capital das sílabas da água,
pai patriarca, és
a eternidade secreta
das fecundações,
te caem os rios como aves, te cobrem
os pistilos cor de incêndio,
os grandes troncos mortos te povoam de perfume,
a lua não pode vigiar-te ou medir-te.
És carregado de esperma verde
como árvore nupcial, és prateado
pela primavera selvagem,
és avermelhado de madeiras,
azul entre a lua das pedras,
vestido de vapor ferruginoso,
lento como um caminho de planeta.
Tequendama
Tequendama, lembras
tua passagem solitária nas alturas
sem testemunha, fio
de solidões, vontade fina,
linha celeste, flecha de platina,
lembras passo a passo
abrindo muros de ouro
até cair do céu no teatro
aterrador da pedra vazia?
Bío-bío
Fala-me no entanto, Bío-Bío,
são as tuas palavras na minha boca
as que deslizam, tu me deste
a linguagem, o canto noturno
mesclado de chuva e folhagem.
Tu, sem que ninguém olhasse um menino,
me contaste o amanhecer
da terra, a poderosa
paz de teu reino, o machado enterrado
com um ramo de flechas mortas,
o que as folhas da caneleira
em mil anos te relataram.
e logo te vi ao entregar-te ao mar
dividido em bocas e seios,
largo e florido, murmurando
uma história cor de sangue.
V
Minerais
Mãe dos metais, te queimaram,
te morderam, te martirizaram,
te corroeram, te apodreceram
mais tarde, quando os ídolos
já não podiam defender-te.
Cipós subindo aos cabelos
da noite selvática, acajus
formadores do centro das Flechas,
ferro agrupado no desvão florido,
garra altaneira das condutoras
águias de minha terra,
água desconhecida, sol malvado,
vaga de cruel espuma,
tubarão espreitante, dentadura
das cordilheiras antárticas,
deusa serpente vestida de plumas
e enrarecida por azul veneno,
febre ancestral inoculada
por migrações de asas e formigas,
tremedais, borboletas
de aguilhão ácido, madeiras
avizinhando-se do mineral,
por que o coro dos hostis
não defendeu o tesouro?
Mãe das pedras
escuras que tingiam
de sangue as tuas pestanas!
A turquesa
de suas etapas, do brilho larvário
apenas nascia para as jóias
do sol sacerdotal, dormia o cobre
em seus sulfúricos estratos,
e o antimônio ia de camada em camada
à profundidade de nossa estrela.
A hulha brilhava em resplendores-negros
como o total reverso da neve,
negro gelo enquistado na secreta
tormenta imóvel da terra,
quando um fulgor de pássaro amarelo
enterrou as correntes do enxofre
ao pé das glaciais cordilheiras.
O vanádio vestia-se de chuva
para entrar na câmara do ouro,
afiava facas o tungstênio
c o bismuto trançava
medicinais cabeleiras.
Os vaga-lumes equivocados
ainda continuavam nos altos,
soltando goteiras de fósforo
nos sulcos dos abismos
e nos cumes ferruginosos.
São as vinhas do meteoro,
os subterrâneos da safira.
O soldadinho nas mesetas
dorme com roupa de estanho.
O cobre funda os seus crimes
nas trevas insepultas
carregadas de matéria verde,
e no silêncio acumulado
dormem as múmias destrutoras.
Na doçura chibcha o ouro
sai de opacos oratórios
lentamente até os guerreiros,
converte-se em rubros estames,
em corações laminados,
em fosforescência terrestre,
em dentadura fabulosa.
Durmo então com o sonho
de uma semente, de uma larva,
e as escadas de Querétaro
desço contigo.
Me esperaram
as pedras de lua indecisa,
a jóia pesqueira da opala,
a árvore morta numa igreja
gelada pelas ametistas.
Como podias, Colômbia oral,
saber que tuas pedras descalças
ocultavam uma tormenta
de ouro iracundo,
como, pátria
da esmeralda, ias perceber
que a jóia de morte e mar,
o fulgor no seu calafrio,
escalaria as gargantas
dos dinastas invasores?
Eras pura noção de pedra,
rosa educada pelo sal,
maligna lágrima enterrada,
sereia de artérias adormecidas,
beladona, serpente negra.
(Enquanto a palmeira dispersava
sua coluna em altas travessas,
ia o sal destituindo
o resplendor das montanhas,
convertendo em veste de quartzo
as gotas de chuva nas folhas
e transmutando os abetos
em avenidas de carvão.
)
Corri pelos ciclones até o perigo
e desci à luz da esmeralda,
ascendi ao pâmpano dos rubis,
mas calei-me para sempre na estátua
do nitrato estendido no deserto.
Vi como na cinza
do ossudo altiplano
levantava o estanho
suas corais ramagens de veneno
até estender como uma selva
a névoa equinocial, até cobrir o sinete
de nossas cereais monarquias.
VI
Os homens
Como a taça da argila era a raça mineral, o homem
feito de pedras e atmosfera,
limpo como os cântaros, sonoro.
A lua fez a massa dos caraíbas,
extraiu oxigênio sagrado,
macerou as flores e as raízes.
Andou o homem das ilhas
tecendo ramos e grinaldas,
de panos cor de enxofre,
e soprando o tritão marinho
à beira das espumas.
O tarahumara vestiu-se de aguilhão
e nas extensões do noroeste
com sangue e pederneiras criou o fogo,
enquanto o universo ia nascendo
outra vez na argila do tarasco:
os mitos das terras amorosas,
a exuberância úmida de onde
lodo sexual e frutas derretidas
viriam a ser atitudes dos deuses
ou pálidas paredes de vasilhas.
Como faisões deslumbrantes
desciam os sacerdotes
das escadarias astecas.
Os degraus triangulares
sustinham o inumerável
relâmpago das vestimentas.
E a pirâmide augusta,
pedra por pedra, agonia e ar,
em sua estrutura dominadora
guardava como uma amêndoa
um coração sacrificado.
Num trovão como um uivo
caía o sangue pelas
escarlinatas sagradas.
Mas multidões de povoados
teciam a fibra, guardavam
o porvir das colheitas,
trançavam o fulgor da pluma,
convenciam a turquesa,
e em trepadeiras têxteis
expressavam a luz do mundo.
Maias, havíeis derrubado
a árvore do conhecimento.
Com aroma de raças celeiras
erguiam-se as estruturas
do exame e da morte,
e perscrutáveis nos poços,
arrojando-lhes noivas de ouro,
a permanência dos germes.
Chichén, teus amores cresciam
no amanhecer da selva.
Os trabalhadores iam fazendo
a simetria dos favos de mel
em tua cidade amarela,
e o pensamento ameaçava
o sangue dos pedestais,
desmontava o céu na sombra,
conduzia a medicina,
escrevia sobre as pedras.
Era o sul um assombro dourado.
As altas soledades
de Machu Picchu na porta do céu
estavam cheias de azeite e cantos,
o homem desfizera as moradas.
e no novo domínio, entre os cumes,
o lavrador tocava a semente
com seus dedos feridos pela neve.
O Cuzco amanhecia como um
trono de torreões e celeiros
e era a flor pensativa do mundo
aquela raça de pálida sombra
em cujas mãos abertas tremulavam
diademas de imperiais ametistas.
Germinava nos terraços
o milho das altas serras
e nas vulcânicas sendas
iam os vasos e os deuses.
A agricultura perfumava
o reino das cozinhas
e estendia sobre os tetos
um manto de sol debulhado.
(Doce raça, folha de serras,
estirpe de torre e turquesa;
fecha-me os olhos agora,
antes de irmos ao mar
de onde as dores chegam.
)
Aquela selva azul era uma gruta
e no mistério de árvores e treva
o guarani cantava como
o fumo que sobe na tarde,
a água sobre as folhagens,
a chuva mim dia de amor,
a tristeza junto aos rios.
No fundo da América sem nome
estava Arauco entre as águas
vertiginosas, apartado
por todo o frio do planeta.
Olhai o grande sul solitário.
Não se vê a fumaça nas alturas.
Vêem-se apenas as nevascas
e o vendaval rechaçado
pelas ásperas araucárias.
Não procures sob o verde fechado
o canto da olaria.
Tudo é silêncio de água e vento.
Mas nas folhas espia o guerreiro.
Entre os lariços um grito.
Uns olhos de tigre ao meio
das alturas da neve.
Olha as lanças a descansar.
Escuta o sussurro do ar
atravessado pelas flechas.
Olha os peitos e as pernas
e as cabeleiras sombrias
brilhando à luz da lua.
Olha o vazio dos guerreiros.
Não há ninguém.
Trina a diuca
feito água na noite pura.
Cruza o condor o seu vôo negro.
Não há ninguém.
Escutas? É o passo
do puma no ar e nas folhas.
Não há ninguém.
Escuta.
Escuta a árvore,
escuta a árvore araucana.
Não há ninguém.
Olha as pedras.
Olha as pedras de Arauco.
Não há ninguém, somente as árvores.
Somente as pedras, Arauco.