Viajantes
Recordo a fina cinza celeste que se desprendia
caindo em teus olhos, cobrindo a veste celeste,
azul, extrazul azulado era o céu desnudo
e o ouro era azul nos seios sagrados com que Samarkanda
entornava suas taças azuis sobre tua cabeça
dando-te o prestígio de um vento enterrado que volta à vida
derramando presentes azuis e frutos de pompa celeste.
Eu escrevo a lembrança, o recente viajante, a perdida
homenagem
que minha alma traçou navegando as duras regiões
em que se encontraram os séculos mais velhos, cobertos de pó e de sangue,
com a irrigação florescente das energias:
tu sabes, amor, que pisamos a estepe recém-entregada ao cravo;
recém amassavam o pão os que ordenam que cantem as águas;
recém se deitavam ao lado do rio inventado por eles
e vimos chegar o aroma depois de mil anos de ausência.
Acordo na noite, acordas de noite, perdido na paz cinzenta
daquelas cidades que tombam a tarde com torres de ouro
e em cima cachos de mágicas cúpulas onde a turquesa
forjou um hemisfério secreto e sagrado de luz feminina
e tu no crepúsculo, perdida em meu sonho repetes
com dois cereais dourados o sonho do céu perdido.
O novo que traçam os homens, o riso do claro engenheiro
que deu-nos a provar o produto orgulhoso nascido na
estepe maldita
talvez esqueçamos tecendo no sonho a continuidade do silêncio
porque assim determina o viajante que aquela cinza sagrada,
as torres de guerra, o hotel dos deuses calados,
tudo aquilo que ouviu os galopes guerreiros, o grito
do agonizante enredado na cruz ou na roda,
tudo aquilo que o tempo acendeu com sua lâmpada e depois
tremeu no vazio e gastou a corrente infinita de outonos e luas
parece no sonho mais vivo que todos os vivos
e quando este ovo, este mel, este hectare de linho,
este assado de reses que pastam as novas pradarias,
este canto de amor kolkosiano na água que corre
parecem irreais, perdidos no meio do sol de Bukhara,
como se a terra sedenta, violada e nutritiva,
quisesse estender o mandato, e o punho vazio
de cúpulas, tumbas, mesquitas, e de seu esplendor angustiado.
Pássaros
Oh delgada cascata de música silvestre!
Oh borbulha lavrada pela água na luz!
Oh som metálico do céu transparente!
Oh círculo do mundo convertido em pureza!
Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!
Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.
Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!
O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.
Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!
Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.
Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.
Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.
Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
Os invulneráveis
Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
Fala a cabeça de Murieta
Ninguém me escuta, posso falar por fim,
um menino nas trevas é um morto.
Não sei por que tinha que morrer
para seguir sem rumo no deserto.
De tanto amar cheguei a tanta tristeza,
de tanto combater fui destruído
e agora entre as mãos de Tereza
dormirá a cabeça de um bandido.
Foi meu corpo primeiro separado,
degolado depois de ter caído,
não clamo pelo crime consumado,
só reclamo por meu amor perdido.
Minha morta me esperava e tenho chegado
pelo caminho duro que tenho seguido
para juntar-me com ela no estado
que matando e morrendo tenho conseguido.
Sou só uma cabeça dessangrada,
não se movem meus lábios com meu acento,
os mortos não deviam dizer nada
a não ser através da chuva e do vento.
Mas como saberão os que virão
entre a névoa, a verdade desnuda?
Daqui a cem anos, peço, companheiros,
que cante para mim Pablo Neruda.
Não pelo mal que tenha ou não tenha feito,
nem pelo bem, tampouco, que sustive,
mas porque a honra foi meu direito
quando perdi o único bem que tive.
E assim na inquebrantável primavera
passará o tempo e se saberá minha vida,
que em sendo amarga também é justiceira
não a dou por ganha nem perdida.
E como toda vida passageira
foi talvez como um sonho confundida.
Os violentos mataram minha quimera
e por herança deixo minhas feridas.
Piedade para sua sombra! Entreguemos a rosa que levam à sua amada adormecida,
a todo o amor e à dor e ao sangue vertido, e nas portas do ódio esperemos
que regresse à sua cova a escura violência e que suba a clara consciência
à altura madura do trigo e o ouro não seja testemunha de crime e fúria e o pão de amanhã na terra
não tenha o sabor do sangue do homem caído na guerra.
Já dorme o adormecido e repousa em sua fossa a rosa.
Já jaz o bandido acossado e caído: descansa na paz de sua esposa.
E sobe a lua escarlate pelas escadas do céu.
A noite engole quem mata e o morto e rolam por seu veludo
as estrelas frias, a sombra estrangeira se enche de espigas de prata
e aqui terminou minha cantata na paz da morte e da noite.
Não é meu o reproche por sua cavalgada de fogo e espanto.
Quem pode julgar seu quebranto? Foi um homem valente e perdido
e para estas almas ardentes não existe um caminho elegido:
o fogo os leva em seus dentes, os queima, os alça, os devolve a seu ninho
e se sustiveram voando na chama; seu fogo os tem consumido.
Murieta violento e rebelde regressa em meu canto ao
metal e às minas do Chile,
já seu juramento termina entre tanta vingança cumprida,
a pátria olvidou aquele espanto e sua pobre cabeça cortada e caída
é só a sombra do sonho distante e errante que foi sua romântica vida.
Regressa e descansa e galopa no ar para o Sul seu cavalo escarlate;
os rios natais o cantam com sua boca de prata e o canta também o poeta.
Foi amargo e violento o destino de Joaquín Murieta.
Desde esse minuto o Povo repete como um sino enterrado minha longa cantata de luto.
Santos Revisitado
I.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
Regresso
Ontem regressamos cortando o caminho da água, do ar e a neve
e ao aterrissar na palma, na mão do Chile,
vagamente inquietos da permanência em confins distantes,
abrumadamente adormecidos ainda no sonho do voo
sem tocar apenas nem reconhecendo a terra temível e amada,
veio a bondade com seu traje cinza e a imóvel grandeza que ninguém conhece
e tive à minha vista a estrela que te reconhece
e assim com valises que apenas tocavam os dedos dos aduaneiros,
rodeados por três automóveis de amigos amados,
entrei com Matilde na sala dos candelabros do mundo,
em minha pátria pequena que acende suas velas vulcânicas
entre o esplendor das neves intactas e o coro da água marinha.
Oh pátria, ao beijar tua cintura de vespa vulcânica,
ao erguer o olhar a teus cerros de pálpebras negras
e descer a beijar na areia do mar a andrajosa formosura
de teus pés maltratados que sobem e descem pelas
cordilheiras,
recebi de repente o cheiro da costa marinha
e quanta dor iracunda esmagou meus pequenos irmãos,
misérias que matam com mãos mais duras que os terremotos,
injustiça vertendo o sal na ferida, queimando a pedra da alma,
tudo isso voou desprendido na rajada do mar majestoso,
do único oceano, da rosa gigante que se abre e se fecha na orla
perfumando tua hirsuta beleza com seus movimentos azuis.
Aqui está o estilo, sem dúvida, vejamos, salta! Suponho,
coração de papel, que minha nave cruzaste bailando à moda,
à moda de andar, à moda de ver, e é verdade que olhamos
com os olhos cambiantes e abrimos a porta com chaves futuras,
mas aqui entre o matagal sacudido e a insólita névoa de Janeiro
chamuscada a relva, sedenta a lua, sem sol e sem ninguém a areia,
e o vaivém da onda que cava sua tumba infinita
e o cheiro extenso de sal soberano que se desenrola
como um episódio do frio, cantando com trovões,
aqui, onde encontro, pergunto, o conselho?
E é claro o leio na rajada, no rastro da ave queltehue7,
na rouca advertência do mar, na noite que conta e que soma,
e nas cicatrizes abertas dos rochedos
pelas quebraduras do gelo de antigas catástrofes.
A borrasca que acende a espuma coroando o zênite do marulho
me ensinou a limpar as escuras ferramentas de meu desvario,
me ensinou a estender e secar no vento a linhagem da minha profecia,
e nestas rugas de pedra, na rocha quebrada pela eternidade movediça,
achei um ninho recente de barro e de palha fragrante
como os ovos do mar e as asas da travessia.
De modo que um beijo sem nome com lábios de terra
ou um nome com lábios de sombra marinha ou mel da costa selvagem
ou os surdos sussurros que indicam ao mês de Setembro
que a primavera enterrada começa a arranhar com suas unhas o féretro
ou melhor o chuvoso chamado de um menino que tem meu rosto
e que encontro nas dunas, perdido, e que não reconheço,
tudo isto, agregando o barril das más ações que voltam e assustam,
ou o ramo de nardos inúteis que talvez apodreceu em uma porta
sem que aquela à que foi destinado tocasse ou beijasse seu aroma,
tudo isto é o livro, o manual de minha sabedoria;
e não posso aprender outras coisas porque chego da desventura
e já descarreguei tantos sacos da cor amaranto na chuva
que só me fica uma hora para fazer-me feliz; é cedo,
é cedo e é tarde, é cedo: amanhece com lua
e no sol da noite recolho as melhores espigas do céu.
III. A Nave
A nave é a rosa mais dura do mundo: floresce no sol
tempestuoso
e se abre no mar a corola de seus imponentes pistilos.
Assobiante é o vento nas pétalas,
a onda levanta a rosa nas torres da água
e o homem resolve o caminho fechado, cortando a grande esmeralda.
Minha pátria chamou o marinheiro: Olhai-o na proa do século!
Se o tempo não quis mover-se nos velhos relógios cansados
ele faz do tempo uma nave e dirige este século ao oceano,
ao amplo e sonoro Pacífico, semeado pelos arquipélagos,
onde uma espada de pedra delgada suspensa das cordilheiras
espera as mãos de Cochrane para combater as trevas.
Minha pátria é a espada de pedra das cordilheiras andinas.
Minha pátria é o mar oprimido que espera por Tomás Marinheiro.
Fala um transeunte das Américas chamado Chivilcoy
I.
Eu mudo de rumo, de emprego, de bar e de barco, de pelo
de renda e mulher, lancinante, de propósito não existo,
talvez sou mexibiano, argentuaio, bolívio,
caribião, panamante, colomvenechilenomalteco:
aprendi nos mercados a vender e comprar caminhando;
me inscrevi nos partidos díspares e mudei de camisa
impulsionado
pelas necessidades rituais que jogam à merda o crepúsculo
e confesso saber mais que todos sem ter aprendido:
o que ignoro não vale a pena, não se paga na praça, senhores.
Me acostumo a sapatos quebrados, gravatas surradas, cuidado,
quando menos pensarem levo um grande solitário em um dedo
e me engomam por dentro e por fora, me perfumam, me cuidam, me penteiam.
Casei-me na Nicarágua: perguntem vocês pelo general Allegado
que teve a honra de ser sogro de seu servidor, e mais tarde
na Colômbia fui esposo legítimo de uma Jaramillo Restrepo.
Se meus matrimônios terminam mudando de clima, não importa.
(Falando entre homens: Minha chola18 de tambo19: Algo sério na cama.)
Vendi manteiga e chancaca20 nos partos peruanos
e medicamentos de um povoado a outro da Patagônia:
vou envelhecendo nas más pensões sem dinheiro,
passando por rico,
e passando por pobre entre ricos, sem ter ganho nem
perdido nada.
II.
Da janela que me corresponde na vida
vejo o mesmo jardim poeirento de terra mesquinha
com cães errantes que urinam e ainda buscam a felicidade,
ou excrementícios e eróticos gatos que não se interessam por vidas alheias.
III.
Eu sou aquele homem rodado por tantos quilômetros e sem existência:
sou pedra em um rio que não tem nome no mapa,
sou o passageiro dos ônibus gastos de Oruro
e ainda que pertença às cervejarias de Montevidéu
na Boca andei vendendo guitarras do Chile
e sem passaporte entrava e saía pelas cordilheiras.
Suponho que todos os homens deixam bagagem;
eu vou deixar como herança o mesmo que o cão;
é o que levei entre as pernas: meus bens são esses.
IV.
Se desapareço apareço com outra visão: dá no mesmo.
Sou um herói imperecível não tenho começo nem fim
e minha moral consiste em um prato de peixe frito.
Pucatrihue
Em Pucatrihue vive
a voz, o sal, o ar.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue cresce
a tarde como quando
uma bandeira
nasce.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue um dia
perdeu-se e não voltou
da selva.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue creio
não sei por que nem quando
nasceram
minhas raízes.
Perdi-as pelo mundo,
ou as deixei esquecidas
em um hotel escuro,
carcomido, da Europa.
Busquei-as no entanto
e só achei as minas,
os velhos esqueletos
de mármore amarelo.
Ai, Délia, minhas raízes
estão em Pucatrihue.
Não sei por que, nem como,
nem desde quando, mas
estão em Pucatrihue.
Sim.
Em Pucatrihue.
Os sinos da Rússia
Andando, movendo os pés sobre um amplo silêncio de neve
escuta-me agora, amor meu, um sucesso sem rumo:
estava deserta a estepe e o frio exibia suas duras alfaias,
a pele do planeta brilhava cobrindo as costas nuas da Rússia
e eu no crepúsculo imenso entre os esqueletos das bétulas,
andando, sentindo o espaço, pesando o pulsar das solidões.
Então saiu do silêncio a voz da noite terrestre,
uma voz, outra voz, ou o total das vozes do mundo:
era baixo e profundo o estímulo, era imenso o metal da sombra,
era lento o caudal da voz misteriosa do céu,
e subia na altura redonda aquele golpe de pedra celeste
e descia aquele rio de prata sombria caindo na sombra
e é assim como eu, caminhante, escutei os sinos da Rússia
desatarem entre o céu e a sombra o profundo estupor de seu canto.
Sinos, sinos do orbe infinito, distantes
na gravidade do inverno que oscila cravado no Polo
como um estandarte fustigado por esta brancura furiosa,
sinos de guerra cantando com rouco ademane no ar
os fatos, o sangue, a amarga derrota, as casas queimadas,
e logo a luz coroada pelas vitoriosas bandeiras.
Disse a esmo, à neve, ao fulgor, a mim mesmo, às ruas de barro com neve
a guerra se foi, levou nosso amor e os ossos queimados
cobriram a terra como uma safra de atrozes sementes
e ouvi os sinos remotos tangindo na luz submersa
como um espelho, como em uma cidade sepultada em um lago
e assim o campanário furioso guardou em seu tremendo tangido,
senão a vingança, a lembrança de todos os heróis ausentes.
De cada sino caía a folhagem do trovão e do canto
e aquele movimento de ferro sonoro voava à luz da lua nevada,
varria os bosques amargos que em um batalhão de esqueletos
erguiam as lanças imóveis do calafrio
e sobre a noite passou o sino arrastando como uma cascata
raízes e rezas, enterros e noivas, soldados e santos,
abelhas e lágrimas, colheitas, incêndios e recém-nascidos.
Da cabeça do Tzar e sua solitária coroa forjada na névoa
por medievais ferreiros, a fogo e a sangue,
voou uma esmeralda sangrenta do campanário
e como o gado na chuva o vapor e o cheiro dos servos rezando na igreja,
acompanhou a coroa de ouro no voo da badalada terrível.
Agora através destes roucos sinos divisa o relâmpago:
a revolução inflamando o rocio enlutado das bétulas;
a flor estalou estabelecendo uma grande multidão de pétalas vermelhas
e sobre a estepe adormecida cruzou um regimento de raios.
Ouçamos a aurora que sobe como uma papoula
e o canto comum dos novos sinos que anunciam o sol de Novembro.
Eu sou, companheira, o errante poeta que canta a festa do mundo,
o pão na mesa, a escola florida, a honra do mel, o som do vento silvestre,
celebro em meu canto a casa do homem e sua esposa, desejo
a felicidade crepitante no centro de todas as vidas
e tudo que acontece recolho como um sino e devolvo à vida
o grito e o canto dos campanários da primavera.
Às vezes perdoa se a badalada que cai de minha alma noturna
golpeia com mãos de sombra as portas do dia amarelo,
mas nos sinos há tempo e há canto selado que espera soltar suas pombas
para soltar a alegria como um leque mundial e sonoro.
Sinos de ontem e amanhã, profundas corolas do sonho do homem,
sinos da tempestade e do fogo, sinos do ódio e da guerra,
sinos do trigo e das reuniões rurais à beira do rio,
sinos nupciais, sinos de paz na terra,
choremos sinos, bailemos sinos
cantemos sinos pela eternidade do amor, pelo sol e a lua e o mar e a terra e o homem.