Os invulneráveis
Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
Fala um transeunte das Américas chamado Chivilcoy
I.
Eu mudo de rumo, de emprego, de bar e de barco, de pelo
de renda e mulher, lancinante, de propósito não existo,
talvez sou mexibiano, argentuaio, bolívio,
caribião, panamante, colomvenechilenomalteco:
aprendi nos mercados a vender e comprar caminhando;
me inscrevi nos partidos díspares e mudei de camisa
impulsionado
pelas necessidades rituais que jogam à merda o crepúsculo
e confesso saber mais que todos sem ter aprendido:
o que ignoro não vale a pena, não se paga na praça, senhores.
Me acostumo a sapatos quebrados, gravatas surradas, cuidado,
quando menos pensarem levo um grande solitário em um dedo
e me engomam por dentro e por fora, me perfumam, me cuidam, me penteiam.
Casei-me na Nicarágua: perguntem vocês pelo general Allegado
que teve a honra de ser sogro de seu servidor, e mais tarde
na Colômbia fui esposo legítimo de uma Jaramillo Restrepo.
Se meus matrimônios terminam mudando de clima, não importa.
(Falando entre homens: Minha chola18 de tambo19: Algo sério na cama.)
Vendi manteiga e chancaca20 nos partos peruanos
e medicamentos de um povoado a outro da Patagônia:
vou envelhecendo nas más pensões sem dinheiro,
passando por rico,
e passando por pobre entre ricos, sem ter ganho nem
perdido nada.
II.
Da janela que me corresponde na vida
vejo o mesmo jardim poeirento de terra mesquinha
com cães errantes que urinam e ainda buscam a felicidade,
ou excrementícios e eróticos gatos que não se interessam por vidas alheias.
III.
Eu sou aquele homem rodado por tantos quilômetros e sem existência:
sou pedra em um rio que não tem nome no mapa,
sou o passageiro dos ônibus gastos de Oruro
e ainda que pertença às cervejarias de Montevidéu
na Boca andei vendendo guitarras do Chile
e sem passaporte entrava e saía pelas cordilheiras.
Suponho que todos os homens deixam bagagem;
eu vou deixar como herança o mesmo que o cão;
é o que levei entre as pernas: meus bens são esses.
IV.
Se desapareço apareço com outra visão: dá no mesmo.
Sou um herói imperecível não tenho começo nem fim
e minha moral consiste em um prato de peixe frito.
Artigas
I.
Artigas crescia entre os matagais e foi tempestuoso seu passo
porque nas pradarias crescendo o galope de pedra ou sino
chegou a sacudir a inclemência do páramo como repetida centelha,
chegou a acumular a cor celestial estendendo os cascos sonoros
até que nasceu uma bandeira empapada no uruguaio orvalho.
II.
Uruguai, Uruguai, uruguaiam os cantos do rio uruguaio,
as aves turpiales17, a rola de voz malferida, a torre do trovão uruguaio
proclamam o grito celeste que diz Uruguai no vento
e se a cascata redobra e repete o galope dos cavaleiros amargos
que para a fronteira recolhem os últimos grãos de sua vitoriosa derrota
se estende o uníssono nome do pássaro puro,
a luz de violino que batiza a pátria violenta.
III.
Oh, Artigas, soldado do campo crescente, quando para toda a tropa bastava
teu poncho estrelado por constelações que tu conhecias,
até que o sangue corrompe e redime a aurora, e acordam teus homens
marchando atormentados pelas poeirentas ramagens do dia.
Oh pai constante do itinerário, caudilho do rumo, centauro da poeirada!
IV.
Passaram-se os dias de um século e se seguiram as horas atrás de teu exílio,
atrás da selva enredada por mil teias de aranha de ferro,
atrás do silêncio em que só caíam os frutos podres sobre os pântanos,
as folhas, a chuva desencadeada, a música do urutau,
os passos descalços dos paraguaios entrando e saindo no sol da sombra,
a trança do látego, os cepos, os corpos roídos por
escaravelhos:
um grave ferrolho se impôs apartando a cor da selva
e o arroxeado crepúsculo fechava com seus cinturões
os olhos de Artigas que buscam em sua desventura a luz uruguaia.
V.
“Amargo trabalho o exílio” escreveu aquele irmão de minha alma
e assim o entretanto da América caiu como pálpebra escura
sobre o olhar de Artigas, ginete do calafrio,
oprimido no imóvel olhar de vidro de um déspota, em um reino vazio.
VI.
Tua América tremia com penitenciais dores:
Oribes, Alveares, Carreras, nus corriam para o sacrifício;
morriam, nasciam, caíam; os olhos do cego matavam; a voz dos mudos
falava. Os mortos, por fim encontraram partido,
por fim conheceram seu bando patrício na morte.
E todos aqueles sangrentos souberam que pertenciam
à mesma fila: a terra não tem adversários.
VII.
Uruguai é palavra de pássaro, ou idioma da água,
é sílaba de uma cascata, é tormento de cristalaria,
Uruguai é a voz das frutas na primavera fragrante,
é um beijo fluvial dos bosques e a máscara azul do Atlântico.
Uruguai é a roupa estendida no ouro de um dia de vento,
é o pão na mesa da América, a pureza do pão na mesa.
VIII.
E se Pablo Neruda, o cronista de todas as coisas te devia, Uruguai, este canto,
este canto, este conto, esta migalha de espiga, este Artigas,
não faltei a meus deveres nem aceitei os escrúpulos do intransigente:
esperei uma hora quieta, espreitei uma hora inquieta, recolhi os herbários do rio,
submergi minha cabeça em tua areia e na prata dos
peixes-reis,
na clara amizade de teus filhos, em teus desmantelados mercados
acender-me-ei até sentir-me devedor de teu olor e de teu amor.
E talvez está escrito o rumor que teu amor e teu olor me outorgaram
nestas palavras escuras, que deixo em memória de teu capitão luminoso.
Pássaros
Oh delgada cascata de música silvestre!
Oh borbulha lavrada pela água na luz!
Oh som metálico do céu transparente!
Oh círculo do mundo convertido em pureza!
Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!
Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.
Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!
O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.
Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!
Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.
Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.
Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.
Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
Santos Revisitado
I.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
Solo de Sal
(De repente o dia rápido se transformou em tristeza
e assim a barcarola que crescia cantando
se cala e permanece a voz sem movimento.)
Sabereis que naquela região que cruzava com medo
crispava a noite os ruídos secretos, a sombra selvática,
e eu me arrastava com os ônibus no misterioso universo:
Ásia negra, treva do bosque, cinza sagrada,
e minha juventude trêmula com asas de mosca
saltando daqui para lá pelos reinos escuros.
De repente se imobilizaram as rodas, desceram os
desconhecidos
e ali fiquei, ocidental, na solidão da selva:
ali sem sair daquele carro perdido na noite,
com vinte anos de idade esperando a morte, refugiado em meu idioma.
De repente um tambor na selva, uma tocha, um rumor da rota,
e aqueles que predestinei como meus assassinos
bailavam ali, sob o peso da escuridão da selva,
para entreter o viajante perdido em remotas regiões.
Assim quando tantos presságios levavam ao final de
minha vida,
os altos tambores, as tranças floridas, os cintilantes tornozelos
dançavam sorrindo e cantando para um estrangeiro.
Canto-te este conto, amor meu, porque o ensino
do homem se cumpre apesar do estranho atavio
e ali se fundaram em mim os princípios da alba,
ali despertou minha razão à fraternidade dos homens.
Foi no Vietnã, no Vietnã no ano de mil novecentos e vinte e oito.
Quarenta anos depois da música de meus companheiros
chegou o gás assassino queimando os pés e a música,
queimando o silêncio ritual da natureza
incendiando o amor e matando a paz das crianças.
Maldição ao atroz invasor! Diz agora o tambor reunindo
o pequeno país no nó de sua resistência.
Amor meu, cantei para ti os transcursos de mar e de dia,
e foi sonolenta a lua de minha barcarola na água
porque o dispôs o sistema de minha simetria
e o beijo incitante da primavera marinha.
Disse-te: levar pelo mundo da viagem teus olhos amados!
A rosa que em meu coração estabelece seu povo fragrante!
E, disse, dou-te além disso a lembrança de pícaros e heróis,
o trovão do mundo acompanha com seu poderio meus beijos,
e assim foi a barca barqueira deslizando em minha barcarola.
Mas anos impuros, o sangue do homem distante
recai na espuma, nos mancha na onda, salpica a lua: são nossos,
são nossas dores aquelas distantes dores
e a resistência dos destruídos é parte concreta de minha alma.
Talvez esta guerra se irá como aquelas que nos compartiram,
deixando-nos mortos, matando-nos com os que mataram
mas a desonra deste tempo toca-nos a fronte com dedos queimados
e quem apagará o inflexível que teve o sangue inocente?
Amor meu, ao longo da costa longa
de uma pétala à outra a terra constrói o aroma
e já o estandarte da primavera proclama
nossa eternidade não por breve menos lacerante.
Se nunca a nave em seu império regressa com dedos intactos,
se a barcarola seguia seu rumo no trovão marinho
e se tua cintura dourada verteu sua beleza em minhas mãos
aqui submetemos neste regresso do mar, o destino,
e sem mais exame cumprimos com a labareda.
Quem ouve a essência secreta da sucessão,
da sucessiva estação que nos enche de sol ou de pranto?
Escolhe a terra calada uma folha, a ramificada póstuma
e cai na altura amarela como o testemunho de um advento.
O homem trepou em seus motores, se fizeram terríveis
as obras de arte, os quadros de chumbo, as tristes estátuas enfileiradas,
os livros que se dedicaram a falsificar o relâmpago,
os grandes negócios se fizeram com manchas de sangue no barro dos arrozais,
e da esperança de muitos ficou um esqueleto imprevisto:
o fim deste século pagava no céu o que nos devia,
e enquanto chegava à lua e deixava cair ferramentas de ouro,
não soubemos nós, os filhos do lento crepúsculo,
se se descobria outra forma de morte ou se tínhamos um novo planeta.
De minha parte e tua parte, cumprimos, compartilhamos esperanças e invernos
e fomos feridos não só pelos inimigos mortais
mas por mortais amigos (e isto pareceu mais amargo),
porém não me parece mais doce meu pão ou meu livro entretanto:
agregamos vivendo a cifra que falta à dor
e seguimos amando o amor e com nossa conduta direta
enterramos os mentirosos e vivemos com os verdadeiros.
Amor meu, a noite chegou galopando sobre as extensões do mundo.
Amor meu, a noite apaga o signo do mar e a nave resvala e repousa.
Amor meu, a noite acendeu seu instituto estrelado.
No vazio do homem adormecido a mulher navegou desvelada
e desceram os dois no sonho pelos rios que levam ao pranto
e cresceram de novo entre os animais escuros e os trens carregados de sombra
até que não chegaram a ser senão pálidas pedras noturnas.
É a hora, amor meu, de apartar esta rosa sombria,
cerrar as estrelas, enterrar a cinza na terra:
e na insurreição da luz, despertar com os que despertaram
ou seguir no sonho alcançando a outra margem do mar que não tem outra margem.
Manhã - XXV
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
vacilei pelas ruas e as coisas:
nada contava nem tinha nome:
o mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
túneis habitados pela lua,
hangares cruéis que se despediam,
perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
caído, abandonado e decaído,
tudo era inalienavelmente alheio,
tudo era dos outros e de ninguém,
até que tua beleza e tua pobreza
de dádivas encheram o outono.
Solidões
Estava redonda a lua e estático o círculo negro
do fuzilado silêncio regido por um palpitante grupo:
o lácteo infinito que cruza como um rio branco a sombra,
os úberes do céu espargiram a extensa substância ou Andrômeda
e Sírio jogaram deixando semeado de sêmen celeste a noite do Sul.
Fragrantes estrelas abertas voando sem pressa e atadas
à misteriosa ordem da viagem dos universos,
vespas metálicas, elétricos números, prismáticas rosas com pétalas de água ou de neve,
e ali fulgurando e pulsando a noite eletrônica nua e vestida, povoada e vazia,
cheia de nações e páramos, planetas e um céu detrás de outro céu,
ali, incorruptíveis brilhavam os olhos perdidos do tempo com os utensílios do orbe,
cozinhas com fogo, ferraduras que viram rodar o sombrio cavalo, martelos, níveis, espadas,
ali circulava a noite nua apesar do austral atavio, de suas amarelas alfaias.
A quem pertence minha fronte, meus pés ou meu exame remoto?
De que me serviu o alvedrio, a rouca advertência da vontade enterrada?
Por que me disputam a terra e a sombra e a que materiais que ainda não conheço
estão destinados meus ossos e a destruição de meu sangue?
E eu, estremecido na viagem, com o coração constelado
baixei a cabeça e fechando os olhos guardei o que pude,
um negro fragmento do ferro noturno, um jasmim
penetrante do céu.
E ainda mais misterioso como um nascimento infinito de abelhas
o dia prepara seus ovos de ouro, seus firmes favos dispõe no útero escuro do mundo
e na claridade, sobre o mar despertou a baleia bestial e pintou com um negro pincel
uma linha noturna na aurora que sai do mar trêmula
e caminha no labirinto o fermento do tifo que está
encarcerado
e saem do banho à rua os peixes simultâneos de Montevidéu
ou descem escadas em Valparaíso as roupas azuis da multidão
para os mercados e os escritórios, os embarcadouros, farmácias, navio
para a razão e a dúvida, os ciúmes, a tenra rotina dos inocentes:
um dia, um quebranto entre duas longas noites copiosas de estrelas ou chuva,
uma quebradura de sol soberano que desencadeia
explosões de espigas.
Viajantes
Recordo a fina cinza celeste que se desprendia
caindo em teus olhos, cobrindo a veste celeste,
azul, extrazul azulado era o céu desnudo
e o ouro era azul nos seios sagrados com que Samarkanda
entornava suas taças azuis sobre tua cabeça
dando-te o prestígio de um vento enterrado que volta à vida
derramando presentes azuis e frutos de pompa celeste.
Eu escrevo a lembrança, o recente viajante, a perdida
homenagem
que minha alma traçou navegando as duras regiões
em que se encontraram os séculos mais velhos, cobertos de pó e de sangue,
com a irrigação florescente das energias:
tu sabes, amor, que pisamos a estepe recém-entregada ao cravo;
recém amassavam o pão os que ordenam que cantem as águas;
recém se deitavam ao lado do rio inventado por eles
e vimos chegar o aroma depois de mil anos de ausência.
Acordo na noite, acordas de noite, perdido na paz cinzenta
daquelas cidades que tombam a tarde com torres de ouro
e em cima cachos de mágicas cúpulas onde a turquesa
forjou um hemisfério secreto e sagrado de luz feminina
e tu no crepúsculo, perdida em meu sonho repetes
com dois cereais dourados o sonho do céu perdido.
O novo que traçam os homens, o riso do claro engenheiro
que deu-nos a provar o produto orgulhoso nascido na
estepe maldita
talvez esqueçamos tecendo no sonho a continuidade do silêncio
porque assim determina o viajante que aquela cinza sagrada,
as torres de guerra, o hotel dos deuses calados,
tudo aquilo que ouviu os galopes guerreiros, o grito
do agonizante enredado na cruz ou na roda,
tudo aquilo que o tempo acendeu com sua lâmpada e depois
tremeu no vazio e gastou a corrente infinita de outonos e luas
parece no sonho mais vivo que todos os vivos
e quando este ovo, este mel, este hectare de linho,
este assado de reses que pastam as novas pradarias,
este canto de amor kolkosiano na água que corre
parecem irreais, perdidos no meio do sol de Bukhara,
como se a terra sedenta, violada e nutritiva,
quisesse estender o mandato, e o punho vazio
de cúpulas, tumbas, mesquitas, e de seu esplendor angustiado.
VI. O Sul do Planeta
(Meu povo recém despertava e os pobres louros
manchados de sangue e de chuva
jaziam nas estradas confusas da alba: minha pátria
envolta em roupagem de neve, como um monumento que ainda não inauguram,
dormia e sangrava sem voz, esperando.)
Mineral e marinha é minha pátria como uma figura de proa,
talhada pelas duras mãos de deuses terríveis,
na Araucânia a selva não tem outro idioma que os trovões verdes,
o Norte lunário te oferece sua fronte de areia sedenta,
o Sul a coroa da fumaça nascendo das cicatrizes vulcânicas,
e a Patagônia caminha agachada no vento
até que as estepes da Terra do Fogo elevaram a última estrela
e acendem com mãos imóveis o Polo Sul no céu.