III. A Nave
A nave é a rosa mais dura do mundo: floresce no sol
tempestuoso
e se abre no mar a corola de seus imponentes pistilos.
Assobiante é o vento nas pétalas,
a onda levanta a rosa nas torres da água
e o homem resolve o caminho fechado, cortando a grande esmeralda.
Minha pátria chamou o marinheiro: Olhai-o na proa do século!
Se o tempo não quis mover-se nos velhos relógios cansados
ele faz do tempo uma nave e dirige este século ao oceano,
ao amplo e sonoro Pacífico, semeado pelos arquipélagos,
onde uma espada de pedra delgada suspensa das cordilheiras
espera as mãos de Cochrane para combater as trevas.
Minha pátria é a espada de pedra das cordilheiras andinas.
Minha pátria é o mar oprimido que espera por Tomás Marinheiro.
Pássaros
Oh delgada cascata de música silvestre!
Oh borbulha lavrada pela água na luz!
Oh som metálico do céu transparente!
Oh círculo do mundo convertido em pureza!
Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!
Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.
Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!
O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.
Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!
Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.
Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.
Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.
Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
Quase Soneto
Mas, ai, aquela tarde o mataram:
foi deixar flores à sua esposa morta
e de repente o heroico acurralado
viu que a vida lhe fechou a porta.
De cada nicho um ianque disparava,
o sangue resvalava por seus braços
e quando cem covardes dispararam
um valente caiu com cem balaços.
E caiu entre as tumbas debulhado
ali onde seu amor assassinado,
sua esposa, o chamava ainda.
Seu sangue vingador e verdadeiro
pôde beijar assim a sua companheira
e ardeu o amor ali onde morria.
O ouro recebe este morto de pólvora e ouro enlutado,
o descabelado, o chileno sem cruz de soldado, nem sol, nem estandarte,
o filho sangrento e sangrante do ouro e a fúria terrestre,
o pobre violento e errante que na Califórnia dourada
seguiu alucinante uma luz desditada: o ouro seu leite nutritício
deu-lhe, com a vida e a morte, espreitado e vencido por ouro e cobiça.
Noturno chileno arrastado e ferido pelas circunstâncias do dano incessante,
o pobre soldado e amante sem a companheira nem a
companhia,
sem a primavera do Chile distante nem as alegrias que amamos e que ele defendia
em forma importuna atacando em seu escuro cavalo à luz da lua:
certeiro e seguro este raio de janeiro vingava os seus.
E morto em seu orgulho se foi bandoleiro não sei nem me importa, chegou a hora
de uma grande aurora que todas as sombras sepulta e
oculta com mãos de rosa fragrante,
a hora, o minuto em que achamos a eterna doçura do
mundo e buscamos
na desventura o amor que sustenta a cúpula da primavera.
E Joaquín Murieta não teve bandeira a não ser só uma dor assassina. E aquele desditado
achou assassinado seu amor por mascarados e assim um estrangeiro que saiu para viver e vencer
nas mãos do ouro tornou-se bandoleiro e chegou a
padecer, a matar e morrer.
Estou longe
É minha a hora infinita da Patagônia,
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
Fala a cabeça de Murieta
Ninguém me escuta, posso falar por fim,
um menino nas trevas é um morto.
Não sei por que tinha que morrer
para seguir sem rumo no deserto.
De tanto amar cheguei a tanta tristeza,
de tanto combater fui destruído
e agora entre as mãos de Tereza
dormirá a cabeça de um bandido.
Foi meu corpo primeiro separado,
degolado depois de ter caído,
não clamo pelo crime consumado,
só reclamo por meu amor perdido.
Minha morta me esperava e tenho chegado
pelo caminho duro que tenho seguido
para juntar-me com ela no estado
que matando e morrendo tenho conseguido.
Sou só uma cabeça dessangrada,
não se movem meus lábios com meu acento,
os mortos não deviam dizer nada
a não ser através da chuva e do vento.
Mas como saberão os que virão
entre a névoa, a verdade desnuda?
Daqui a cem anos, peço, companheiros,
que cante para mim Pablo Neruda.
Não pelo mal que tenha ou não tenha feito,
nem pelo bem, tampouco, que sustive,
mas porque a honra foi meu direito
quando perdi o único bem que tive.
E assim na inquebrantável primavera
passará o tempo e se saberá minha vida,
que em sendo amarga também é justiceira
não a dou por ganha nem perdida.
E como toda vida passageira
foi talvez como um sonho confundida.
Os violentos mataram minha quimera
e por herança deixo minhas feridas.
Piedade para sua sombra! Entreguemos a rosa que levam à sua amada adormecida,
a todo o amor e à dor e ao sangue vertido, e nas portas do ódio esperemos
que regresse à sua cova a escura violência e que suba a clara consciência
à altura madura do trigo e o ouro não seja testemunha de crime e fúria e o pão de amanhã na terra
não tenha o sabor do sangue do homem caído na guerra.
Já dorme o adormecido e repousa em sua fossa a rosa.
Já jaz o bandido acossado e caído: descansa na paz de sua esposa.
E sobe a lua escarlate pelas escadas do céu.
A noite engole quem mata e o morto e rolam por seu veludo
as estrelas frias, a sombra estrangeira se enche de espigas de prata
e aqui terminou minha cantata na paz da morte e da noite.
Não é meu o reproche por sua cavalgada de fogo e espanto.
Quem pode julgar seu quebranto? Foi um homem valente e perdido
e para estas almas ardentes não existe um caminho elegido:
o fogo os leva em seus dentes, os queima, os alça, os devolve a seu ninho
e se sustiveram voando na chama; seu fogo os tem consumido.
Murieta violento e rebelde regressa em meu canto ao
metal e às minas do Chile,
já seu juramento termina entre tanta vingança cumprida,
a pátria olvidou aquele espanto e sua pobre cabeça cortada e caída
é só a sombra do sonho distante e errante que foi sua romântica vida.
Regressa e descansa e galopa no ar para o Sul seu cavalo escarlate;
os rios natais o cantam com sua boca de prata e o canta também o poeta.
Foi amargo e violento o destino de Joaquín Murieta.
Desde esse minuto o Povo repete como um sino enterrado minha longa cantata de luto.
Manhã - XVI
Amo o pedaço de terra que tu és,
porque das campinas planetárias
outra estrela não tenho. Tu repetes
a multiplicação do universo.
Teus amplos olhos são a luz que tenho
das constelações derrotadas,
tua pele palpita como os caminhos
que percorre na chuva o meteoro.
De tanta lua foram para mim teus quadris,
de todo o sol tua boca profunda e sua delícia,
de tanta luz ardente como mel na sombra
teu coração queimado por longos raios rubros,
e assim percorro o fogo de tua forma beijando-te,
pequena e planetária, pomba e geografia.
Os invulneráveis
Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
Bosque
Hora verde, hora esplêndida! Voltei a dizer sim
ao pertencente silêncio, ao oxigênio verde,
à aveleira rota pelas chuvas de então,
ao pavilhão de orgulho que assume a araucária,
a mim mesmo, a meu canto cantado pelos pássaros.
Escutem, é o trino repetido, o cristal
que a puro céu clama, combate, modifica,
é um fio que a água, a flauta e a platina
mantêm no ar, de ramo em ramo puro,
é o jogo simétrico da terra que canta,
é a estrofe que cai como uma gota de água.
Pucatrihue
Em Pucatrihue vive
a voz, o sal, o ar.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue cresce
a tarde como quando
uma bandeira
nasce.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue um dia
perdeu-se e não voltou
da selva.
Em Pucatrihue.
Em Pucatrihue creio
não sei por que nem quando
nasceram
minhas raízes.
Perdi-as pelo mundo,
ou as deixei esquecidas
em um hotel escuro,
carcomido, da Europa.
Busquei-as no entanto
e só achei as minas,
os velhos esqueletos
de mármore amarelo.
Ai, Délia, minhas raízes
estão em Pucatrihue.
Não sei por que, nem como,
nem desde quando, mas
estão em Pucatrihue.
Sim.
Em Pucatrihue.
O Lago
(Fala o lago Rupanco
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)