IX - Os homens
Nos ensinaram a respeitar a igreja,
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.
Os Presidios
Porém,
português da rua,
entre nós,
ninguém nos escuta,
sabes
onde
está Álvaro Cunhal?
Reconheces a ausência
do valente
Militão?
Moça portuguesa,
passas como bailando
pelas ruas
rosadas de Lisboa,
porém,
sabes onde caiu Bento Gonçalves,
o português mais puro,
a honra de teu mar e de tua areia?
Sabes
que existe
uma ilha,
a Ilha do Sal,
e Tarrafal nela
verte sombra?
Sim, o sabes, moça,
rapaz, sim, o sabes.
Em silêncio
a palavra
anda com lentidão mas percorre
não só Portugal, mas a terra.
Sim sabemos,
em remotos países,
que há trinta anos
uma lápide
espessa como tumba ou como túnica
de clerical morcego
afoga, Portugal, teu triste gorjeio,
borrifa tua doçura
com gotas de martírio
e mantém suas cúpulas de sombra.
Veio a Morte de Paul
Nestes dias recebi a morte
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
Anjo, Oh Camarada
Guerreiro solitário, anjo de todas
as latitudes, apareces
talvez nas sombrias cavidades
da mina, quando a repressão e a fadiga
vão dobrar teus braços, e levantas
tuas asas minerais como escudo.
Estão naquela sombra entre os povoados,
quando teu voo organizado cruza
as difíceis terras do espinho,
os aramados negros da morte.
Camarada, te espera o que sucumbe,
te espera o que reserva
sua energia, o que brota do perigo
e o que torna ao perigo. Estás no meio
do tempo tempestuoso, da cólera
com chapéu sovado, semelhante
a todo o mundo, com as asas listas
sob a luz comum de uma pobre jaqueta.
Destes destinos és a unidade.
Sobre a terra inteira estás voando.
Ninguém te reconhece salvo aqueles
que também lêem na noite negra
a radiante escrita de amanhã.
Sem ver-te muitos homens
junto a ti passarão, junto à esquina
em que apoiado ao muro serás rua
ou árvore sem nome no arvoredo humano.
Mas o que vem a ti sabe que existes.
E esse, por trás de teus comuns olhos,
adivinha a espada dos povos.
Ou melhor em plena luz nas regiões
libertadas do Este nos recebes a todos,
não como a desterrados, mas sorridente
para dar-nos
a paz, e o pão, as chaves
da terra.
O Anjo Dos Pampas
Oh lua inabarcável, nas campinas,
oh sol azul sobre todo o espaço,
pampa de solidão, estrela reta
estendida em desertas dimensões.
Erva argentina, terra interminável,
olor de céu cereal, caminho
feito de todos os caminhos, larga
primavera sem pálpebras, planura.
Eu fui de cabo a cabo, trepidando
na velocidade, transpondo o dia
e a noite nua do planeta.
E ali perdido na distância, quando
o avestruz errante ou a pomba
da terra selvagem apareceram,
quando cansaço e solidão encheram
a taça transparente do pampa,
quando pude sentir-me desamparado e último, quando fui só ausência, sonho, suor e pó,
rumo à liberdade com os olhos abertos,
com outro rosto,
amarradas as mãos ao volante,
sem sonho e sorrindo através da noite,
ali estava de novo, ali
estava defendendo minha fadiga:
não sei como se chama, talvez López,
talvez Ibieta, o anjo
do Comitê Central.
Este Sino Roto
Este sino roto
quer ainda cantar,
o metal agora é verde,
o sino tem a cor da selva,
cor da água de poça no bosque,
cor do dia nas folhas.
O bronze roto e verde,
o sino de bruços
e dormido
foi enredado pelas enredadeiras
e a cor de ouro duro do bronze
passou à cor da rã,
foram as mãos da água,
a umidade da costa
que deu verdura ao metal,
ternura ao sino.
Este sino roto
arrastado no brusco matagal
do meu jardim selvagem,
sino verde, ferido,
funde suas cicatrizes na erva,
não chama a mais ninguém,
não congrega
junto à sua copa verde
mais que uma borboleta que palpita
sobre o metal caído e voa
fugindo com asas amarelas.
Anjo Vyka
Anjo hirsuto da Polônia, Vyka,
tenho que fazer-te estas perguntas:
atravessando toda a vida
de teu país, o resplendor ardente
do ferro dominando em Katowicz,
os trigais que estendem sua ondulada alegria
sobre toda a tua terra, as procissões
de medieval catolicismo, a fumaça
do território do carvão, o ar
de Cracóvia, ar de livro seco,
o Báltico outra vez empurrando suas brancas
asas e ondas entre novas gruas,
o tijolo amassado com o pó
da infinita destruição subindo
outra vez no céu de Varsóvia,
e o metálico aroma dos pinheiros em cima
dos lagos masures, testemunhas transparentes
da carnificina,
e de aldeia em aldeia
sobre a destroçada arquitetura
o homem recobrou a beleza
de tua terra, enchendo com sementes
de sua ressurreição todo o silêncio.
Esta fecundidade inesperada
até ontem, este leite transmitido
de boca em boca como um sinal novo,
e essa terra que canta e se reparte
sem evadir-se como a água, mas
outorgando metais e celeiros,
dize-me, anjo Vyka, tu que acompanhaste
com descuidoso coração meus passos,
que tens, que temos que ocultar,
por que intentam negar estas regiões,
estas colheitas, este mel singelo,
por que intentam apagar esta grandeza
e afastar esta vitória humana?
Foste diariamente o silencioso
anjo amigo de estirpe obscura,
apenas para que o bosque resguardasse
as mínimas porções de seus morangos
para teu companheiro de outros mares,
ou o redondo caracol penetrasse
na minha ternura de naturalista,
e assim entre areias e pinhais ou entre
marítimos de Gdansk ou entre motores
toda tua pátria aberta me mostraste
iluminada como um sorriso.
O Porto Cor de Céu
Quando tu desembarcas
em Lisboa,
céu celeste e rosa rosa,
estuque branco e ouro,
pétalas de ladrilho,
as casas,
as portas,
os telhados,
as janelas
salpicadas do ouro limoeiro,
do azul ultramar dos navios.
Quando desembarcas
não conheces,
não sabes que detrás das janelas
escutam,
rondam
carcereiros de luto,
retóricos, corretos,
arreiando presos às ilhas,
condenando ao silêncio,
pululando
como esquadras de sombras
sob janelas verdes,
entre montes azuis,
a polícia
sob as outonais cornucopias
buscando portugueses,
rasgando o solo,
destinando os homens à sombra.
Dedos Queimados
Romênia antiga, Bucareste dourada,
como te assemelhavas
às nossas infernais e celestes
repúblicas
da América.
Pastoril eras e sombria.
Espinhos e asperezas resguardavam
tua miséria terrível,
enquanto Mme. Charmante
divagava em francês pelos salões.
O látego caía
sobre as cicatrizes de teu povo,
enquanto os elegantes literários
em sua revista Sur (seguramente)
estudavam Lawrence, o espião,
ou Heidegger ou a “notre petit Drieu”.
“Tout allait bien a Bucarest.”
O petróleo
deixava queimaduras nos dedos
e enegrecia rostos
de romenos sem nome,
mas se fazia coro
de libras esterlinas
em Nova York e em Londres.
Por isso
era tão elegante Bucareste,
tão suaves as senhoras.
“Ah quel charme, monsieur.”
Enquanto a fome
rondava levantando
seu possuidor vazio
pelos subúrbios negros
e o campo infortunado.
Ah, sim senhores, era
exatamente como Buenos Aires,
como Santiago ou Lima,
Bogotá e São Paulo.
Dançavam uns poucos na sala
permutando suspiros,
o Clube e as revistas literárias
eram muito europeus,
a fome era romena,
o frio era romeno,
o pranto dos pobres
no comum ossário era romeno,
e assim andava a vida
de flor em flor como no meu continente
com as prisões repletas
e a valsa nos jardins.
Oui, Madame, que mundo
se foi, que irreparável
perda para toda
a gente distinta!
Bucareste já não existe.
Esse gosto, essa linha,
essa primorosa mescla
de podridão e de “pâtisserie”!
Terrível me parece.
Contam-me
que até a cor local,
os pinturescos trajes esfarrapados,
os mendigos retorcidos como pobres raízes,
as meninas que tremendo
esperavam a noite
às portas do baile,
tudo isso, horror, desapareceu.
Que faremos, chère Madame?
Em outra parte faremos
uma revista Sur de fazendeiros
profundamente preocupados
com a “métaphisique”.
A Boca Que Canta
Vou desde os pinhais
até as bocas descidas do Danúbio,
o ar azul sacode
as vidas e a vida.
O ar limpa o fundo
dos salões, entra
pelas janelas
um vento de bandeiras populares.
Apagando nesta hora,
Romênia, com tuas mãos os farrapos
de teu povo, mostraste
uma nova cabeça, novos olhos,
nova boca que canta,
e não só uma raça de pastores
mostras hoje na terra,
mas uma deslumbrante
construção que caminha.