Manhã - XXVI
Nem a cor das dunas terríveis em Iquique,
nem o estuário do Rio Doce da Guatemala,
mudaram teu perfil conquistado no trigo,
teu estilo de uva grande, tua boca de guitarra.
Oh coração, oh minha desde todo o silêncio,
dos cumes onde reinou a trepadeira
até as desoladas planícies da platina,
em toda pátria pura te repetiu a terra.
Mas nem a intratável mão de montes minerais,
nem neve tibetana, nem pedra da Polônia,
nada alterou tua forma de cereal viageiro,
como se greda ou trigo, guitarras ou cachos
do Chile defendessem em ti seu território
impondo o mandato da lua silvestre.
Manhã - IV
Recordarás aquela quebrada caprichosa
onde os aromas palpitantes subiram,
de quando em quando um pássaro vestido
com água e lentidão: traje de inverno.
Recordarás os dons da terra:
irascível fragrância, barro de ouro,
ervas do mato, loucas raízes,
sortílegos espinhos como espadas.
Recordarás o ramo que trouxeste,
ramo de sombra e água com silêncio,
ramo como uma pedra com espuma.
E aquela vez foi como nunca e sempre:
vamos ali onde não espera nada
e achamos tudo o que está esperando.
Chegada a Porto Picasso
Desembarquei em Picasso às seis dos dias de outono,
recém
o céu anunciava seu desenvolvimento rosa, olhei ao
redor, Picasso
se estendia e acendia como o fogo do amanhecer. Longe atrás
ficavam as cordilheiras azuis e entre elas levantando-se no vale o Arlequim de cinza.
Eis aqui: eu vinha de Antofagasta e de Maracaibo, eu vinha de Tucumán
e da terceira Patagônia, aquela de dentes gelados roídos pelo trovão, aquela de bandeira submersa na neve perpétua.
E eu então desembarquei, e vi grandes mulheres de cor de maçã
nas margens de Picasso, olhos desmedidos, braços que reconheci:
talvez a Amazônia, talvez era a Forma.
E ao oeste eram saltimbancos desvalidos rodando para o amarelo,
e músicos com todos os quadros da música, e ainda mais,
além a geografia
povoou-se de uma desgarrada emigração de mulheres, de arestas,
de pétalas e chamas,
e no meio de Picasso entre as duas planícies e a árvore de vidro.
vi uma Guernica em que permaneceu o sangue como um
grande rio, cuja corrente
se converteu na taça do cavalo e a lâmpada:
ardente sangue sobe aos focinhos,
úmida luz que acusa para sempre.
Assim, pois, nas terras de Picasso de Sul a Oeste,
toda a vida e as vidas faziam de morada
e o mar e o mundo ali foram acumulando
seu cereal e sua salpicadura.
Encontrei ali o arranhado fragmento
do giz, a casca do cobre,
e a ferradura morta que lá de suas feridas
para a eternidade dos metais cresce,
e vi a terra entrar como o pão nos fornos
e a vi aparecer com um filho sagrado.
Também o galo negro de encefálica espuma
encontrei, com um ramo de arame e arrabaldes,
o gato azul com seu leque de unhas,
o tigre adiantado sobre os esqueletos.
Eu fui reconhecendo as marcas que tremeram
na foz da água em que nasci.
Primeiro foi esta pedra com espinhos, ali onde
sobressaiu, ilusório, o ramo desgarrado
e a madeira em cuja rota genealogia
nascem as bruscas aves de meu fogo natal.
Mas o touro assomou lá dos corredores
no centro terrestre, eu vi sua voz, chegava
escavando as terras de Picasso, cobria
a efígie com os mantos da tinta violeta,
e vi chegar o colo de sua escura catástrofe
e todos os bordados de sua baba invencível.
Picasso de Altamira, Touro do Orinoco,
torres de águas pelo amor endurecidas,
terra de minerais mãos que converteram
como o arado, em parto a inocência do musgo.
Aqui está o touro de quem a cauda arrasta
o sal e a aspereza, e em seu rodo
treme o colar da Espanha com um ruído seco,
como um saco de ossos que a lua derrama.
Oh circo em que a seda continua ardendo
como um esquecimento de papoulas na areia
e já não há senão dia, tempo, terra, destino
para enfrentar, touro do ar desaguado.
Esta corrida tem todo o lilás luto,
a bandeira do vinho que rompeu as vasilhas:
e ainda mais: é a planta de pó do arrieiro
e as acumuladas vestiduras que guardam
o distante silêncio da carnificina.
Sobe Espanha por estas escadas, rugas
de ouro e de fome, e o rosto fechado da cólera
e ainda mais, examinai seu leque: não há pálpebras.
Há uma negra luz que nos fita sem olhos.
Pai da Pomba, que com ela
desprendida na luz chegaste ao dia,
recém-fundada em seu papel de rosa,
recém-limpa de sangue e de orvalho,
na clara reunião das bandeiras.
Paz ou pomba, gesto radiante!
Círculo, reunião do terrestre!
Espiga pura entre as flechas rubras!
Súbita direção da esperança!
Contigo estamos no fundo revolto
da argila, e hoje no duradouro
metal da esperança.
“É Picasso”,
diz a pescadora, atando prata,
e o novo outono arranha
o estandarte
do pastor: o cordeiro que recebe uma folha
do céu em Vallauris,
e ouve passar as agremiações em sua colméia, perto
do mar e sua coroa de cedro simultâneo.
Forte é nossa medida quando
arrojamos — amando o simples homem —
tua brasa na lança, na bandeira.
Não estava nos desígnios do escorpião teu rosto.
Quis morder às vezes e encontrou teu cristal
desmedido,
tua lâmpada sob a terra,
e então?
Então pela margem da terra crescemos,
rumo à outra margem da terra crescemos.
Quem não escuta estes passos ouve teus passos. Ouve
lá da infinidade do tempo este caminho.
Larga é a terra. Não está tua mão sozinha.
Ampla é a luz. Acende-a sobre nós.
O Herói
Em uma rua de Santiago
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
Este Sino Roto
Este sino roto
quer ainda cantar,
o metal agora é verde,
o sino tem a cor da selva,
cor da água de poça no bosque,
cor do dia nas folhas.
O bronze roto e verde,
o sino de bruços
e dormido
foi enredado pelas enredadeiras
e a cor de ouro duro do bronze
passou à cor da rã,
foram as mãos da água,
a umidade da costa
que deu verdura ao metal,
ternura ao sino.
Este sino roto
arrastado no brusco matagal
do meu jardim selvagem,
sino verde, ferido,
funde suas cicatrizes na erva,
não chama a mais ninguém,
não congrega
junto à sua copa verde
mais que uma borboleta que palpita
sobre o metal caído e voa
fugindo com asas amarelas.
Então Te Ocultavas
Ali onde estavas, anjo da Guarda?
Eras tu a vivenda com espinhos
em que devi dormir? Eras a mesa
da pobreza que me preparavam?
Eras o ódio, arame interminável
que tive que cortar, ou talvez eras
a miséria de seres infelizes,
o que fui encontrando nos caminhos,
nas cidades, nos socavões
dos abandonados? Aí, foste invisível,
posto que só a lances de infortúnio,
só rompendo portas inumanas,
vi crescer na minha voz todas as vozes,
e saí entre as vidas ao combate.
Noite - XCIX
Outros dias virão, será entendido
o silêncio de plantas e planetas
e quantas coisas puras passarão!
Terão cheiro de lua os violinos!
O pão será talvez como tu és:
terá tua voz, tua condição de trigo,
e falarão outras coisas com tua voz:
os cavalos perdidos do outono.
Ainda que não seja como está disposto
o amor encherá grandes barricas
como o antigo mel dos pastores,
e tu no pó de meu coração
(onde haverá imensos armazéns)
irás e voltarás entre melancias.
Agora Sabemos
Sabemos todo o dia,
a noite,
todo o mês sabemos,
todo o ano sabemos.
Noutro tempo o homem
esteve ilhado,
o prazer tapava-lhe os ouvidos,
o céu o reclamava,
chamava-o
o inferno,
e ademais
era obscura
a geografia humana.
Não podia afirmar com precisão
se eram homens
os outros,
os homens das ilhas,
os remotos,
aqueles que de repente
mostravam num dente de elefante
tanta sabedoria
como a porta de uma catedral.
Mas
lá longe
entre nuvens e fumaça,
as colônias,
os vegetais mesmos
se confundiam
com a pele dos sáurios.
Agora
tudo
é diferente.
Pobre amigo,
sabes,
sabes que o homem existe.
Cada dia
te pedem uma assinatura
para arrancar um ser vivente
de um cárcere vivente,
e oprimido
vais conhecendo
os subterrâneos da geografia.
Sabes, sabemos,
cada dia sabemos,
dormindo conhecemos:
já é impossível
cobrir-nos os ouvidos
com o céu.
A terra nos visita
na manhã
e nos dá o desjejum:
sangue e aurora,
trevas ou edifício,
guerra ou agricultura,
e há que escolher, amigo,
cada dia,
sabendo agora,
sabendo melhor agora
onde estão colocadas
tanto a nova vida
como a velha morte.
Primeira Aparição do Anjo
E ali transpondo o rio,
quando as águas duplicavam
a ação das cavalgaduras,
e de repente uma aragem entrava
como uma flecha na minha garganta,
quando tropeçava a besta
e eram as águas a meu lado
um torrencial lance de agulhas,
e a catarata esperava
como um relâmpago nas pedras,
olhei ali atrás de mim,
e sem barbear-se, enrugado,
com uma pistola e um laço
vi pela primeira vez o anjo.
Ia cuidando-me o anjo,
ia sem asas junto a mim
o anjo do Comitê Central.
IX - Os homens
Nos ensinaram a respeitar a igreja,
a não tossir, a não cuspir no átrio,
a não lavar roupa no altar
e não é assim: a vida rompe as religiões
e é esta ilha em que habitou o Deus Vento
a única igreja viva e verdadeira:
− vão e vêm as vidas, morrendo e fornicando −
aqui na ilha de Páscoa, onde tudo é altar,
onde tudo é oficina do desconhecido,
a mulher amamenta sua nova criatura
sobre os mesmos degraus que pisaram seus deuses.
Aqui, para viver! Más também nós?
Nós, os transeuntes, os equivocados de estrela,
naufragaríamos na ilha como em uma lagoa,
num lago em que todas as distâncias terminam,
na aventura imóvel mais difícil do homem.