Desde Dobris a Aurora
Em dobris, junto a Praga,
conversando com
Jorge Amado,
meu companheiro de anos e de lutas:
De onde
vens agora?
Eu, dos largos rios
da Guatemala e México,
do fulgor verde
do rio Doce, adentro.
Levava
fogo de aves selvagens,
orvalho
de foz.
Contei-lhe meus caminhos.
Ele regressava
da Bulgária, trazia
luz de roseiras vermelhas
no peito,
e contou-me as coisas,
os homens, as empresas,
o socialismo em marcha
naquela
terra eriçada, agora construtora.
Era tarde, as brasas
ardiam
na lareira de pedra.
Fora
o vento removia sussurrando
as folhas das faias.
Juntos peregrinamos,
perseguidos,
e eis que aqui a paz
nos reunia.
Tínhamos
pão,
luz,
fogo,
terra,
castelo.
Não eram só nossos,
eram de todos.
Não queríamos
falar. O vento
falava por nós.
Estendia-se
no bosque,
voava
com as folhas desprendidas.
O vento
ia ensinando,
cantando
o que nós éramos,
éramos e tínhamos.
A claridade terrestre
nos rodeava.
Solene era o silêncio.
Longos haviam sido os caminhos.
E a aurora batia as janelas
de novo
para ir conosco pelo mundo.
A Noite Na Ilha
Toda a noite dormi contigo
junto ao mar, na ilha.
Eras selvagem e doce entre o prazer e o sonho,
entre o fogo e a água.
Talvez fosse já muito tarde
quando os nossos sonhos se uniram
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.
Talvez o teu sonho
se tivesse separado do meu
e pelo mar obscuro
me procurasse
como antes,
quando ainda não existias,
quando sem dar por ti
naveguei por onde andavas,
e os teus olhos procuravam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.
Toda a noite dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra obscura roda
com vivos e com mortos,
e ao acordar subitamente
no meio da sombra
o meu braço enlaçava-te a cintura.
Nem a noite, nem o sonho
nos puderam separar.
Dormi contigo
e ao acordar, a tua boca,
saída do teu sonho,
deu-me o sabor de terra,
de água marinha, de algas,
do fundo da tua vida,
e recebi o teu beijo
húmido com a madrugada
como se me tivesse chegado
do mar que nos rodeia.
Manhã - V
Não te toque a noite nem o ar nem a aurora,
só a terra, a virtude dos cachos,
as maçãs que crescem ouvindo a água pura,
o barro e as resinas de teu país fragrante.
Desde Quinchamalí onde fizeram teus olhos
aos teus pés criados para mim na Fronteira
és a greda escura que conheço:
em teus quadris toco de novo todo o trigo.
Talvez tu não saibas, araucana,
que quando antes de amar-te me esqueci de teus beijos
meu coração ficou recordando tua boca
e fui como um ferido pelas ruas
até que compreendi que havia encontrado
amor, meu território de beijos e vulcões.
XXIII - Os homens
Porque si coincidíssemos ali
como os elefantes moribundos
dispostos ao oxigênio total,
se armados os saciados e os famintos,
os árabes e os bretões, os de Tehuantepec
e os de Hamburgo, os duros de Chicago e os senegaleses,
todos, si compreendêssemos que ali guardam as chaves
da respiração, do equilíbrio
baseados na verdade da pedra e do vento,
se assim fosse e corressem as raças despovoando as nações,
se navegássemos em tropel até a Ilha,
se todos ficassem sábios de repente e fossemos
a Rapa Nui, a mataríamos,
a mataríamos com imensas pisadas, com dialetos,
escarros, batalhas, religiões,
y ali também acabaria o ar,
cairiam ao solo as estátuas,
virariam mastros sujos os narizes de pedra
y tudo morreria amargamente.
O Herói
Em uma rua de Santiago
tem vivido um homem desnudo
por tantos longos anos, sim,
sem calçar-se, não, sem vestir-se
e com chapéu, no entretanto.
Sem mais roupagem que seus pêlos
este varão filosofante
mostrou-se no balcão às vezes
e viu-o a cidadania
como um nudista solitário
inimigo das camisas,
da calça e da casaca.
Assim passavam as modas,
desapareciam os coletes
e voltavam certas lapelas,
certas bengalas em desuso:
tudo era ressurreição
e eram enterros na roupa,
tudo, menos aquele mortal
tão nu quanto veio ao mundo,
desdenhoso como os deuses
dedicados à ginástica.
(Os testemunhos e as testemunhas
do habitante singular
dão detalhes que me estremecem
ao mostrar a transformação
do homem e sua fisiologia.)
Depois daquela nudez
com quarenta anos de nu
da cabeça até os pés
se cobriu com escamas negras
e os cabelos lhe cobriram
de tal maneira os olhos
que nunca mais pôde ler,
nem do dia os jornais.
Assim ficou seu pensamento
fixo em um ponto do passado
como o antigo editorial
de um jornal desaparecido.
(Curioso caso o daquele varão
que morreu quando perseguia
seu canário no terraço.)
Fica provado nesta história
que a boa fé não resiste
às investidas do inverno.
Sim, Camarada
Sim, camarada, é hora de jardim
e é hora de batalha, cada dia
é sucessão de flor e sangue,
nosso tempo nos entregou amarrados
a regar os jasmins
ou a dessangrar-nos numa rua escura,
a virtude ou a dor se repartiram
em zonas frias, em mordentes brasas,
e não havia outra coisa que eleger,
os caminhos do céu,
antes tão transitados pelos santos,
estão hoje povoados por especialistas.
Já desapareceram os cavalos.
Os heróis vão vestidos de batráquios,
os espelhos vivem vazios
porque a festa é sempre em outra parte,
onde já não estamos convidados
e há briga nas portas.
Por isso este é o penúltimo chamado,
o décimo sincero toque
do meu sino,
ao jardim, camarada, à açucena,
à macieira, ao cravo intransigente,
à fragrância da flor de laranjeira,
e logo aos deveres da guerra.
Delgada é nossa pátria
e em seu despido fio de faca
arde nossa bandeira delicada.
Filosofia
Fica provada a certeza
da árvore verde na primavera
e do córtex terrestre
— alimentam-nos os planetas
apesar das erupções
e o mar nos oferece peixes
apesar de seus maremotos —
somos escravos da terra
que também é dona do ar.
Passeando por uma laranja
eu passei mais de uma vida
repetindo o globo terrestre
— a geografia e a ambrosia —
os jogos cor de jacinto
e um cheiro branco de mulher
como as flores da farinha.
Nada se consegue voando
para se escapar deste globo
que te aprisionou ao nascer.
E há que confessar esperando
que o amor e o entendimento
vêm de baixo, se levantam
e crescem dentro de nós
como cebolas, azinheiras,
como tartarugas ou flores,
como países, como raças,
como caminhos e destinos.
Faz Tempo
Faz tempo, numa viagem
descobri um rio,
era apenas um menino, um cão,
um pássaro, aquele rio nascente.
Sussurrava e gemia
entre as pedras
da ferruginosa cordilheira,
implorava existência
entre a solidão de céu e neve,
lá longe, acima.
Eu me senti cansado
como um cavalo velho
junto à criatura natural
que começava a correr,
a saltar e crescer,
a cantar com voz clara,
a conhecer a terra,
as pedras, o transcurso,
a caminhar noite e dia,
a converter-se em trovão,
até chegar a ser vertiginoso,
até chegar à tranqüilidade,
até ser largo e presentear a água,
até ser patriarcal e navegado,
este pequeno rio,
pequeno e torpe
como um peixe metálico
deixando aqui escamas ao passar,
gotas de prata agredida,
um rio
que chorava ao nascer,
que ia crescendo
ante meus olhos.
Ali nas cordilheiras de minha pátria
alguma vez e faz tempo
eu vi, toquei e ouvi
o que nascia:
um latido, um som entre as pedras
era o que nascia.
Manhã - XXXII
A casa na manhã com a verdade revolta
de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direção, errante como uma pobre barca,
entre os horizontes da ordem e do sonho.
As coisas querem arrastar vestígios,
aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer continuar seu ontem.
Ordenadora, passas vibrando como abelha
tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.
E se constrói então de novo a claridade:
obedecem as coisas ao vento da vida
e a ordem estabelece seu pão e sua pomba.
VI - A ilha
Oh Melanésia, espiga poderosa,
ilhas de vento genital, criadas,
cedo multiplicadas pelo vento.
De argila, bosques, barro, de sêmen que voava
nasceu o colar selvagem dos mitos:
Polinésia: pimenta verde, espargida
na área do mar pelos dedos errantes
do dono de Rapa Nui, o Senhor Vento.
A primeira estátua foi de areia molhada,
ele a formou e a desfez alegremente.
Construiu de sal a segunda estátua
e o mar hostil a derrubou cantando.
Mas a terceira estátua que fez o Senhor Vento
foi um moai de granito, e este sobreviveu.
Esta obra que lavraram as mãos do ar,
as luvas do céu, a turbulência azul,
este trabalho fizeram os dedos transparentes:
um torso, a ereção do Silêncio desnudo,
o olhar secreto da pedra,
o nariz triangular da ave ou da proa
e na estátua o prodígio de um retrato:
− porque a solidão tem este rosto,
porque o espaço é esta retidão sem rincões,
y a distância é esta claridade do retângulo.