Epílogo - o Canto Repartido
Entre a cordilheira
e o mar do Chile
escrevo.
A cordilheira branca.
O mar cor de ferro.
Regressei de minhas viagens
com os novos cachos.
E o vento.
O vento sacudia
a terra, as raízes.
Eu viajei com o vento.
Hoje entre mar e neve
e terra minha
eu ordenei os dons
que recolhi no mundo.
Estabeleci meu amor
como uma sarça ardendo
sobre a primavera
de minha pátria.
Regressei cantando.
Onde esteve, a vida
criadora
me revestiu de germes
e frutos.
Regressei vestido
de uvas e cereais.
Eu trouxe a semente
de escolas transparentes,
a folhagem acerada
das novas usinas,
o latejo
da tenacidade e o movimento
da extensão povoando-se de aroma.
Num lugar qualquer
vi o pão diminuído
e mais além estender-se
os reinos da espiga.
Vi nos povos a guerra
como despedaçada
dentadura
e vi a paz redonda
noutras terras
crescer como uma taça
como o filho na mãe.
Eu vi.
Ali onde estive, ainda
nos espinhos
que quiseram ferir-me,
achei que uma pomba
ia cosendo
em seu voo
meu coração com outros
corações.
Achei por toda parte
pão, vinho, mãos,
ternura.
Dormi sob todas
as bandeiras
reunidas
como debaixo dos ramos
de um só bosque verde
e as estrelas eram
minhas estrelas.
De minhas encarniçadas
lutas, de minhas dores,
não conservo nada
que não possa servir-vos.
Também como a terra,
eu pertenço a todos.
Não há uma só gota
de ódio em meu peito. Abertas
vão minhas mãos
espargindo as uvas
no vento.
Regressei de minhas viagens.
Naveguei construindo
a alegria.
Que o amor nos defenda.
Que levante suas novas
vestiduras
a rosa. Que a terra
continue sem fim florida
florescendo.
Entre as cordilheiras
e as ondas nevadas
do Chile,
renascido no sangue
de meu povo,
para vós todos,
para vós canto.
Que seja repartido
todo canto na terra.
Que subam os cachos.
Que os propague o vento.
Assim seja.
10
Perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu esta tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Tenho visto da minha janela
a festa do poente entre as serras distantes.
Às vezes como uma moeda
acendia um pedaço de sol em minhas mãos.
Eu te recordava com a alma apertada
dessa tristeza que me conheces.
Então, onde estavas?
Entre que gentes?
Dizendo que palavras?
Por que me chega todo o amor num golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?
Caiu o livro que sempre se toma ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou aos meus pés a capa.
Sempre, sempre te afastas às tardes
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
Manhã - XXXII
A casa na manhã com a verdade revolta
de lençóis e plumas, a origem do dia
sem direção, errante como uma pobre barca,
entre os horizontes da ordem e do sonho.
As coisas querem arrastar vestígios,
aderências sem rumo, heranças frias,
os papéis escondem vogais enrugadas
e na garrafa o vinho quer continuar seu ontem.
Ordenadora, passas vibrando como abelha
tocando as regiões perdidas pela sombra,
conquistando a luz com tua branca energia.
E se constrói então de novo a claridade:
obedecem as coisas ao vento da vida
e a ordem estabelece seu pão e sua pomba.
Outra Coisa
Sucedem-se tão poucas coisas
que devo sempre recontá-las.
Ninguém me dá asfodelos
e ninguém me faz suspirar.
Porque cheguei à encruzilhada
de um arrevesado destino
quando se apagam os relógios
e cai o céu sobre o céu
até que o dia moribundo
tira a lua para passear.
Até quando se desenreda
esta beleza equinocial
que de verde passa à redonda,
de onda marinha à catarata,
de sol soberbo à lua branca,
de solidão a capitólio,
sem que se altere a equação
do mundo em que não ocorre nada.
Não ocorre nada senão um dia
que como exemplar estudante
se senta com seus galardões
atrás de outro dia premiado,
até que o coro semanal
se converteu num anel
que nem a noite transfigura
porque chega tão adornada,
tão portentosa como sempre.
Vamos ver se pescam peixes loucos
que subam como ornitorrincos
pelas paredes de minha casa
e rompam o novo equilíbrio
que me persegue e me atormenta.
Aqui Vem Nazim Hikmet
Nazim, das prisões
recém-saído,
presenteou-me sua camisa bordada
com fios de ouro vermelho
como sua poesia.
Fios de sangue turco
são seus versos,
fábulas verdadeiras
com antiga inflexão, curvas ou retas,
como alfanjes ou espadas,
seus clandestinos versos
feitos para defrontar
todo o meio-dia da luz,
hoje são como as armas escondidas,
brilham sob os andares,
esperam nos poços,
debaixo da escuridão impenetrável
dos olhos escuros
de seu povo.
De suas prisões veio
para ser meu irmão
e percorremos juntos
as neves das estepes
e a noite acesa
com nossas próprias lâmpadas.
Aqui está seu retrato
para que não se esqueça sua figura:
É alto
como uma torre
levantada na paz das campinas
e acima
duas janelas:
seus olhos
com a luz da Turquia.
Errantes
encontramos
a terra firme sob nossos pés,
a terra conquistada
pelos heróis e poetas,
pelas ruas de Moscou, a lua cheia
florescendo nos muros,
as moças
que amamos,
o amor que adoramos,
a alegria,
nossa única seita,
a esperança total que compartilhamos,
e mais que tudo
uma luta
de povos
onde são uma gota e outra gota,
gotas do mar humano,
seus versos e meus versos.
Mas
detrás da alegria de Nazim
há feitos,
feitos como madeiros
ou como fundações de edifícios.
Anos
de silêncio e presídio.
Anos
que não conseguiram
morder, comer, engolir
sua heróica juventude.
Contava-me
que por mais de dez anos
deixaram-lhe
a luz da lâmpada elétrica
toda a noite e hoje
esquece cada noite,
deixa na liberdade
ainda a luz acesa.
Sua alegria
tem raízes negras
fundidas em sua pátria
como flor de pântanos.
Por isso
quando ri,
quando Nazim ri,
Nazim Hikmet,
não é como quando ris:
é mais alvo seu riso,
nele sorri a lua,
a estrela,
o vinho,
a terra que não morre,
todo o arroz saúda com seu riso,
todo seu povo canta por sua boca.
IV
ALBÂNIA
Nunca na Albânia
estive,
áspera terra amada,
pedregosa
pátria dos pastores.
Hoje
espero
chegar a ti como a uma festa,
uma nova
festa terrestre: o sol
sobre a musculosa empunhadura
de tuas serras
e vislumbrar entre penhascos
como cresce
o novo lírio terno,
a cultura,
as letras que se estendem,
o respeito ao antigo camponês,
a origem do operário,
o monumento insigne
da fraternidade, o crescimento
da bondade como uma jovem planta
que floresce nas velhas terras pobres.
Albânia, pequeninha,
forte, firme, sonora,
tua corda na guitarra
— fio de água e aço —
conjuga-se ao som da História,
ao canto do tempo invencível,
com uma voz de bosques
e edifícios,
aromas e brancuras,
canto de todo o homem e todo o bosque,
pássaros e macieiras,
ventos e ondas.
Força, firmeza e flor são teu regalo
na construção do terrestre.
Manhã Com Ar
Do ar livre prisioneiro vai
um homem no meio da manhã
como um globo de cristal.
Que pode saber e conhecer
se está encerrado como um peixe
entre o espaço e o silêncio,
se as folhagens inocentes
lhe escondem as moscas do mal?
Ê meu dever de sacerdote,
de geógrafo arrependido,
de naturalista enganado,
abrir os olhos do viageiro.
Paro no meio do caminho
e detenho sua bicicleta:
Olvidas, digo-lhe, vilão,
ignorante cheio de oxigênio,
o tugúrio das desditas
e os rincões humilhados?
Ignoras que ali com punhal,
aqui com garrote e pedrada,
mais além com revólver negro
e em Chicago com tenazes
se assassinam as alimárias,
se despedaçam as pombas
e se degolam as melancias?
Arrepende-te do oxigênio,
disse ao viageiro surpreendido,
não se tem direito de entregar a vida
à exclusiva transparência.
E preciso entrar na casa escura,
entrar no beco da morte,
tocar o sangue e o terror,
compartir o mal espantoso.
O transeunte me cravou
seus dois olhos incompreensivos
e se afastou na luz do sol
sem responder nem compreender.
E me deixou — triste de mim —
Falando só pelo caminho.
Todos
Todos
Eu talvez eu não serei, talvez não pude,
não fui, não vi, não estou:
— que é isto? E em que Junho, em que madeira
cresci até agora, continuarei crescendo?
Não cresci, não cresci, segui morrendo?
Eu repeti nas portas
o som do mar,
dos sinos,
eu perguntei por mim, com encantamento
(com ansiedade mais tarde),
com chocalho, com água,
com doçura,
sempre chegava tarde.
Já estava longe minha anterioridade,
já não me respondia eu a mim mesmo,
eu me havia ido muitas vezes.
Eu fui à próxima casa,
à próxima mulher,
a todas as partes
a perguntar por mim, por ti, por todos,
e onde eu não estava já não estavam,
tudo estava vazio
porque simplesmente não era hoje,
era amanhã.
Por que buscar em vão
em cada porta em que não existiremos
porque não chegamos ainda?
Assim foi como soube
que eu era exatamente como tu
e como todo o mundo.
3
Ah vastidão de pinhos, rumor de ondas quebrando,
lento jogo das luzes, campana solitária,
crepúsculo caindo em teus olhos, boneca,
caracol terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e minha alma neles se perde
tal como tu desejas e para onde tu queres.
Marca meu caminho em teu arco de esperança e
soltarei em delírio uma revoada de flechas.
Em torno de mim vejo tua cintura de névoa
e teu silêncio acossa mias horas perseguidas,
e és com teus braços de pedra transparente onde os
meus beijos ancoram e a minha úmida ânsia aninha.
Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim em horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrarem-se as espigas na boca do vento.
Desde Dobris a Aurora
Em dobris, junto a Praga,
conversando com
Jorge Amado,
meu companheiro de anos e de lutas:
De onde
vens agora?
Eu, dos largos rios
da Guatemala e México,
do fulgor verde
do rio Doce, adentro.
Levava
fogo de aves selvagens,
orvalho
de foz.
Contei-lhe meus caminhos.
Ele regressava
da Bulgária, trazia
luz de roseiras vermelhas
no peito,
e contou-me as coisas,
os homens, as empresas,
o socialismo em marcha
naquela
terra eriçada, agora construtora.
Era tarde, as brasas
ardiam
na lareira de pedra.
Fora
o vento removia sussurrando
as folhas das faias.
Juntos peregrinamos,
perseguidos,
e eis que aqui a paz
nos reunia.
Tínhamos
pão,
luz,
fogo,
terra,
castelo.
Não eram só nossos,
eram de todos.
Não queríamos
falar. O vento
falava por nós.
Estendia-se
no bosque,
voava
com as folhas desprendidas.
O vento
ia ensinando,
cantando
o que nós éramos,
éramos e tínhamos.
A claridade terrestre
nos rodeava.
Solene era o silêncio.
Longos haviam sido os caminhos.
E a aurora batia as janelas
de novo
para ir conosco pelo mundo.
2
Em sua chama mortal a luz te envolve.
Absorta, doente pálida, assim voltada
contra as velhas hélices do crepúsculo
que em torno de ti dá voltas.
Muda, minha amiga,
Só na solidão desta hora de mortes
e cheia das vidas do fogo,
pura herdeira do dia destruído.
Do sol cai um cacho em teu vestido escuro.
Da noite as grandes raízes
crescem de súbito de tua alma,
e ao exterior regressam as coisas em ti ocultas,
de modo que um povo pálido e azul
de ti recém nascido se alimenta.
Ó grandiosa e fecunda e magnética escrava
círculo que em negro e dourado aparece:
erguida, tece e goza uma criação tão viva
que sucumbem tuas flores, e és plena de tristeza.