O Incompetente
Nasci tão mau para competir
que Pedro e Juan ganhavam tudo:
as bolas,
as garotas,
as aspirinas e os cigarros.
É difícil a infância para um tonto
e como eu fui
sempre mais tonto que os outros tontos
me surrupiaram os lápis, as borrachas
e os primeiros beijos de Temuco.
Ah, aquelas moças!
Nunca vi princesas como elas,
eram todas azuis ou enlutadas,
claras como cebolas, como o nácar,
mãos de precisão, narizes puros,
olhos insuportáveis de cavalo,
pés como peixes ou como açucenas.
O certo é que andei
mirrado e escondendo com orgulho
minha condição de apaixonado idiota,
sem atrever-me a olhar uma perna
nem aquele cabelo atrás da cabeça
que caía como uma catarata
de águas escuras sobre meus desejos.
Depois, senhores, aconteceu-me o mesmo
por todos os caminhos onde andei,
com uma cotovelada ou dois olhos frios
eliminavam-me da competição,
não me deixavam ir à sala de jantar,
todos iam embora com suas louras.
E eu não sirvo para rebelar-me.
Isso de andar ostentando
méritos ou medalhas escondidas,
nobres ações, títulos secretos,
não vai com minha pasmada idiossincrasia:
eu me afundo em meu agulheiro
e a cada empurrão que me concedem
retrocedendo na zoologia
fui, como as toupeiras, por terra abaixo,
buscando um subterrâneo confortável
onde nem as moscas me visitem.
Essa é minha triste história
embora possivelmente menos triste
que a sua, senhor,
já que também possivelmente penso
penso que é ainda mais tonto.
XXVI
Aquele solene senador
que me atribuía um castelo
devorou já com seu sobrinho
a torta do assassinato?
A quem engana a magnólia
com sua fragrância de limões?
Onde deixa o punhal a águia
quando se deita em uma nuvem?
Morte E Perseguição Dos Pardais
Eu estava na China
naqueles dias,
quando Mao Tsé-Tung, sem entusiasmo,
decretou o imediato
falecimento de todos os pardais.
Com a mesma admirável
disciplina
com que se construiu a grande muralha
a multichina se multiplicou
e cada chinês procurou o inimigo.
Os meninos, os soldados, os astrônomos,
as meninas, as soldadas, as astrônomas,
os aviadores, os coveiros,
os cozinheiros chineses, os poetas,
os inventores da pólvora, os
camponeses do arroz sagrado,
os inventores de brinquedos, os
políticos de sorriso chinês,
todos se dirigiram
ao pardal
e este caiu com milionária morte
até que o último, um pardal supremo,
foi fuzilado por Mao Tsé-Tung.
Com admirável disciplina então
cada chinês partiu com um pardal,
com um triste, pequeno cadáver de pardal
no bolso,
cada um
de setecentos e trinta
milhões de
cidadãos chineses
com um pardal em
cada um
de setecentos e trinta
milhões de bolsos,
todos marcharam entoando antigos
hinos de glória e guerra
para enterrar lá longe,
nas montanhas da Lua Verde
um por um os pardais mortos.
Durante dezessete anos seguidos
cada um em pequeno mausoléu,
ossário individual, tumba florida
ou rápido cemitério coletivo
um por um sucessivamente
ficaram sepultados
completamente os pardais chineses.
Mas aconteceu algo estranho.
Quando se foram os enterradores
cantaram os pequenos enterrados:
um trovão de pardais
passou trovejando pela terra chinesa:
a voz de uma trombeta planetária.
E aquela voz despertou os mortais,
os antigos mortos,
os séculos de chineses enterrados.
Voltaram às suas vidas
aos seus arados, à sua economia.
Não faço censuras. Deixem-me tranquilo.
Mas assim fica bem claro
porque há mais chineses e menos pardais
a cada dia no mundo.
XXVII
Morreram talvez de vergonha
estes trens que se extraviaram?
Quem nunca viu o aloés?
Onde plantaram os olhos
do camarada Paul Éluard?
Há lugar para uns espinhos?
perguntaram à roseira.
V - Os Convidados
E nós os mortos, os escalonados no tempo,
semeados em cemitérios utilitários e arrogantes
ou caídos em ossários de pobres bolivianos,
nós, os mortos de 1925, 26,
33, 1940, 1918, mil novecentos e cinco,
mil novecentos e mil, enfim, nós,
os falecidos antes desta estúpida cifra
em que já não vivemos, que acontece conosco?
Eu, Pedro Páramo, Pedro Semente, Pedro Ninguém,
não tive direito a quatro números e à ressurreição?
Quero ver os ressuscitados para cuspir-lhes na cara,
os precoces que estão a ponto de cair
em aviões, bondes, nas guerras do ódio,
os que apenas tiveram tempo de nascer e apresentar
armas ao novo século e ficaram derrubados,
apodrecendo na metade dos festejos e do vinho!
Quero sair de minha tumba, eu morto, por que não?
Por que os prematuros vão ser esquecidos?
Todos são convidados à reunião!
É um ano mais, é um século mais, com mortos e vivos,
e tem-se que cuidar do protocolo, por não só a vida,
mas também as flores secas, as coroas apodrecidas, o silêncio,
porque o silêncio tem direito à formosura
e nós, indicados da morte,
queremos existir um só minuto florido
quando se abrirem as portas da honra vindoura!
Cabeça de Pássaros
O cavalheiro Marcenac
veio ver-me no final do dia
com mais brancura na cabeça
cheia de pássaros ainda.
Tem pombas amarelas
dentro de seu nobre crânio,
estas pombas circundam-no
dormindo no anfiteatro
de seu cerebelo-pombal,
e depois o íbis escarlate
passeia por sobre sua testa
uma besta ensanguentada.
Ah, que opulento privilégio!
Levar perdizes, codornizes,
proteger faisões vistosos
plumagens de ouro que repelem
o foguetório terreno,
mas também pardais, aves
azuis, calhandras, canários
e carpinteiros, pintarroxos,
carriças, diucas, rouxinóis.
Dentro de sua clara cabeça
que o tempo cobriu de luz
o cavalheiro Marcenac
com seu celeste passaredo
vai pelas ruas. E de repente
as pessoas imaginam ouvir
súbitos cânticos selvagens
ou clarinadas do amanhecer,
mas como ele não sabe disso
continua seu passo transitório
e por onde passa seguem-no
pálidos olhos assustados.
O cavalheiro Marcenac
já dormiu em Saint Denis:
há um grande silêncio na casa dele
porque sua cabeça está repousando.
Passou Por Aqui
Que companheiro saudável!
Dá voltas pelo picadeiro
de minha república, e me parece
que seu sorriso já caía
lá do tablado, da bicicleta,
ou na praça taurina, planetária,
maior ainda sob a luz política,
e nada, nunca, sempre o impertérrito.
o intergérrimo e sua dentadura.
Este outro com sua verdade e a minha,
a verdade verdadeira,
amarrada a um lenho, a uma ameaça,
buscando a quem acertar na cabeça
com o frágil nariz da justiça.
E assim, através de séculos, que saúde
este meu amigo na verdade, e o outro
em outro picadeiro, e na mentira.
Assim aplaudo e bem, com reticência,
certo pudor de pobre que vai ao circo
e tem que voltar de noite à aldeia
pelos maus caminhos de minha terra.
E ao outro, saudável e adversário,
frenético malvado, com seu círculo
sim, sim, de estupefatos roedores,
eu, sectário, condeno e destituo.
Com quem, irmão de manhã,
com quem me ficarás, te ficarei?
Qual das duas metades energúmenas
terá seu monumento no caminho?
Façamos com que se juntem a fogo e lágrimas,
que se reúnam de uma vez por todas
e não molestem com tanta bondade
nem com tanta maldade: já compreendemos
que nunca conseguiremos ser tão bons,
nem chegaremos a ser tão perversos:
muito cuidado com mudar a vida
e ficarmos vivendo de um só lado!
Manhã - XV
De há muito tempo a terra te conhece:
és compacta como o pão ou a madeira,
és corpo, cacho de segura substância,
tens peso de acácia, de legume dourado.
Sei que existes não só porque teus olhos voam
e dão luz às coisas como janela aberta,
mas porque de barro te fizeram e cozeram
no Chile, num forno de adobe estupefato.
Os seres se derramam como ar ou água ou frio e vagos são, se apagam ao contato do tempo,
como se antes de mortos fossem fragmentados.
Tu cairás comigo como pedra na tumba
e assim por nosso amor que não foi consumido
continuará vivendo conosco a terra.
XIII. Cochrane do Chile
E agora pergunto ao vazio, ao passado de sombra, quem era
este cavaleiro intranquilo da liberdade e das ondas?
É este quem seus inimigos revestem de escuras cores?
É este o desviado que esconde uma bolsa de ouro na selva de Londres?
É esta a espada expulsa das abadias patrícias?
É este quem ainda o encarniçado inimigo persegue através dos livros?
Almirante, teus olhos se abrem saindo do mar cada dia!
Com teu invulnerável esplendor se ilumina o delgado hemisfério
e na noite teus olhos se fecham sobre as cordilheiras do Chile!
Meio-Dia - XXXVII
Oh amor, oh raio louco e ameaça purpúrea,
me visitas e sobes por tua viçosa escada
o castelo que o tempo coroou de neblinas,
as pálidas paredes do coração fechado.
Ninguém saberá que só foi a delicadeza
construindo cristais duros como cidades
e que o sangue abria túneis inditosos
sem que sua monarquia derrubasse o inverno.
Por isso, amor, tua boca, teu pé, tua luz, tuas penas,
foram o patrimônio da vida, os dons
sagrados da chuva, da natureza
que recebe e levanta a gravidez do grão,
a tempestade secreta do vinho nas cantinas,
a chama do cereal no solo.