O Mar
Ali combateram mexendo-se na turbulência
os germes, a espora túrgida, as gomas da alga,
as ovas de um mar diminuto que ferve à beira do mar,
até que a rede quebrantada vasa na areia
os descendentes rotos, os tristes corais, os nardos do frio,
e ali se alimenta o outono, o espaço, a costa litúrgica,
com a podridão minguante e crescente que lança à areia o enlace infinito.
O Mar
As moscas de Abril no ventre inferior do outono
se multiplicaram saindo a voar com suas asas de água
com suas gotas de água amanhecem na transparência
raiando a luz ou deixando imóvel o ar vazio.
As algas apodrecem vestidas de ferro molhado
e sobre as ávidas rochas que o trovão estremece
no estupor do outono vacila um certame de ovários.
Porque sobre o rosto de pedra que o mar atormenta e destrói
as máscaras verdes da alga marinha, a tapeçaria do frio,
subjugam à eternidade da pedra, ao mar, ao conflito.
A rua
Também te amo, rua repleta de rostos que arrastam sapatos, sapatos
que riscam a roda do orbe insultando armazéns,
e vivo no leito de um rio infinito de mercadorias,
retiro as mãos da devorante cinza que cai,
que envolvem a roupa que sai do cinema,
colo-me aos vidros olhando com fome chapéus que comeria
ou alfaias que querem matar-me com olhos de cólera verde
ou sabonetes tão suaves que se fizeram com suco de lua
ou livros de pele incitante que me ensinariam talvez a morrer
ou máquinas óticas que fotografam até tua tristeza
ou divãs dispostos às seduções mais inoxidáveis
ou o claro alumínio das caçarolas especializadas em ovos e aspargos
ou os trajes de bispo que a miúdo levam bolsos do Diabo
ou ferrarias amadas pela exatidão da minha alma
ou farmácias pálidas que ocultam, como as serpentes, sob o algodão
presas de arsênico, dentes de estricnina e unguentos letais,
ou tapetes vinílicos, estocolmos, brocados, milanos8
terylén, canhamaço, borlón9 e colchões de todo sossego
ou relógios que vão medir-nos e por fim tragar-nos
ou cadeiras de praia dobráveis adaptáveis a todo traseiro
ou teares com ratier, 1,36 Diederich, complicados e abstratos,
ou baixelas completas ou sofás floreados com capa
ou implacáveis espelhos que esperam demonstrar a
vingança da água
ou escopetas de repetição tão suavíssimas como um
focinho de lebre
ou adegas que se atulharam de cimento; e eu fecho os olhos:
são os ovos de Deus estes sacos terríveis que continuam parindo este mundo.
Regresso
Ardente é voltar à espuma que acossa minha casa, ao vazio
que deixa o oceano depois de entregar sua carreta de trovões,
tocar outra vez com o sangue a rajada de frio e salmoura
que morde a beira do Chile aventando a areia amarela.
É azul regressar à terra escolhida durante o combate,
levantar a bandeira de um homem sem reino
e esperar da luz uma rede que aprisione a trêmula prata
dos peixes escuros que povoam o pélago puro.
É eterno comer outra vez com o vinho ancestral no copo
a carne enrolada, os tomates de Janeiro com a linguiça,
a pimenta cuja fresca fragrância te ataca e te morde,
e a esta hora de sol as humitas6 de sal e delícia
desenroladas de suas folhas de ouro como virgens no sacrifício.
XI - Os homens
Vê-se que nascemos para nos ouvir e nos ver,
para nos medir (quanto saltamos, quanto ganhamos,
ganhamos, etc.),para nos ignorar (sorrindo), para nos mentir,
para o acordo, para a indiferença ou para comer juntos.
Mas que ninguém não nos mostre a terra, adquirimos
olvido, olvido até os sonhos de ar,
e nos ficou somente um desejo de sangue e pó
na língua: engolimos a lembrança
entre vinho e cerveja, longe, longe daquilo,
longe daquilo, da mãe, da terra, da vida.
Tarde - LXXV
Esta é a casa, o mar e a bandeira.
Errávamos por outros longos muros.
Não achávamos a porta nem o som
desde a ausência como desde mortos.
E ao fim a casa abre seu silêncio,
entramos a pisar o abandono,
os momentos mortos, o adeus vazio,
a água que chorou no encanamento.
Chorou, chorou a casa noite e dia,
gemeu com as aranhas4, entreaberta,
se desgastou desde seus olhos negros,
e agora de repente a revolvemos viva,
a povoamos e não nos reconhece:
tem que florescer, e não se acorda.
4 Aranhas – pequenas carruagens puxadas por cavalos. (N.T.)
Amor
Oh amor, oh vitória de tua cabeleira agregando a minha vida
a velocidade da música que se eletrizou na tormenta
e fora do âmbito puro que se desenvolve queimando
aquelas raízes cobertas pela poeira do tempo
contigo, amorosa, viveram o dia de chuva remota
e meu coração recebeu teu palpitar palpitando.
Tarde - LVII
Mentem os que disseram que eu perdi a lua,
os que profetizaram meu porvir de areia,
asseveraram tantas coisas com línguas frias:
quiseram proibir a flor do universo.
“Já não cantará mais o âmbar insurgente
da sereia, não tem senão povo.”
E mastigavam seus incessantes papéis
patrocinando para minha guitarra o esquecimento.
Eu lhes lancei aos olhos as lanças deslumbrantes
de nosso amor cravando teu coração e o meu,
eu reclamei o jasmim que deixavam tuas pegadas,
eu me perdi de noite sem luz sob tuas pálpebras
e quando me envolveu a claridade
nasci de novo, dono de minha própria treva.
Introdução a Meu Tema
Para a Ilha de Páscoa e as presenças
parto, saciado de portas e ruas,
buscando algo que ali não perdi.
O mês de janeiro, seco,
se parece com uma espiga:
colhe do Chile sua luz amarela
até que o mar a apague
e eu parto outra vez, para regressar.
Estátuas que a noite construiu
e debulhou em um círculo fechado
para que não as visse senão o mar.
(Viajei para recuperá-las e erigi-las
em meu domicilio desaparecido.)
E aqui rodeado de presenças cinzas,
de brancura espacial, de movimento
azul, água marinha, nuvens, pedra,
recomeço as vidas de minha vida.
Tarde - LXXVI
Diego Rivera com a paciência do osso
buscava a esmeralda do bosque na pintura
ou o vermelhão, a flor súbita do sangue,
recolhia a luz do mundo em teu retrato.
Pintava o imperioso talhe de teu nariz,
a centelha de tuas pupilas desbocadas,
tuas unhas que alimentam a inveja da lua,
e em tua pele estival, tua boca de melancia.
Te pôs duas cabeças de vulcão acesas
por fogo, por amor, por estirpe araucana,
e sobre os dois rostos dourados da greda
te cobriu com o casco de um incêndio bravio
e ali secretamente ficaram enredados meus olhos
em tua torre total: tua cabeleira.