O Tempo
Outono de fábula, oh ventre remoto do mar apagado
piscar de estrela redonda repleta de impuros racimos,
oh ressurreições da ânfora, oh planta pletórica,
oh imenso arvoredo compacto que mexe a lua em sua copa,
começa o desfile delgado das migrações, extensa
é a côncava névoa e nela vai o coro e a flecha:
é a procissão procelária, é o Polo que emigra em suas asas.
Parecem imóveis aves dormindo na raia invisível dos
hemisférios,
progridem suspensas ao céu, ao rumor desse mar oxidado,
e no ar navega a linha impecável de flechas famintas;
as plumagens que até ontem sustinham sua estirpe de luto
sobre a primavera do tímpano, como uma auréola de neve sombria.
Dali, de meu inferno puído, dos iracundos farrapos da Patagônia,
da negra desordem voou este bando de espinhos, de
plumas, de pássaros,
a onda nua no céu, a luz dirigida, a lança formada no vento
pela necessária grandeza das unidades unidas.
Meio-Dia - XLIII
Um sinal teu busco em todas as outras,
no brusco, ondulante rio das mulheres,
tranças, olhos apenas submergidos,
pés claros que resvalam navegando na espuma.
De repente me parece que diviso tuas unhas
oblongas, fugitivas, sobrinhas de uma cerejeira,
e outra vez é teu pelo que passa e me parece
ver arder na água teu retrato de fogueira.
Olhei, mas nenhuma levava teu latejo,
tua luz, a greda escura que trouxeste do bosque,
nenhuma teve tuas mínimas orelhas.
Tu és total e breve, de todas és uma,
e assim contigo vou percorrendo e amando
um amplo Mississipi de estuário feminino.
LIX
Por que não nasci misterioso?
Por que cresci sem companhia?
Quem me mandou desvencilhar
as portas de meu próprio orgulho?
E quem saiu para viver por mim
quando eu dormia ou adoecia?
Que bandeira se desatou
ali onde não me esqueceram?
Lento
Dom Rápido Rodriguez
não me convém;
Dona Pirilampa Aguda
não é meu amor;
para andar com meus passos amarelos
tem que viver dentro
das coisas espessas:
— barro, madeira, quartzo,
metais,
construções de ladrilho
— tem que saber fechar os olhos
na luz,
os abrir na sombra,
esperar.
Um
Por incompleto e fusiforme
me entendi com as agulhas
e logo me foram fiando
sem haver nunca terminado.
Por isso o amor que te dou,
minha mulher, mulher agulha,
se enrola em tua orelha molhada
pelo vendaval de Chillán
e se desenrola em teus olhos
desatando melancolias.
Não acho explicação amável
pra meu destino intermitente,
vaidade me conduzia
a inauditos heroísmos:
pescar debaixo da areia,
fazer buracos no ar,
comer mesmo todos os sinos.
E no entanto fiz pouco
ou não fiz nada no entanto
senão entrar por uma guitarra
e com ela sair cantando.
Noite - XCVI
Penso, esta época em que tu me amaste
irá por outra azul substituída,
será outra pele sobre os mesmos ossos,
outros olhos verão a primavera.
Nenhum dos que amarraram esta hora,
dos que conversaram com o fumo,
governos, traficantes, transeuntes,
continuarão movendo-se em seus fios.
Irão os cruéis deuses com óculos,
os peludos carnívoros com livro,
os pulgões e os pipipasseiros5.
E quando estiver recém-lavado o mundo
nascerão outros olhos na água
e crescerá sem lágrimas o trigo.
5 Pipipasseiros – palavra composta, invenção nerudiana. (N.T.)
LV
Por que não mandam as toupeiras
e as tartarugas à lua?
Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras
não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
XX - A ilha
De outro lugares (Ceilão, Orenoco, Valdívia)
saí com lianas, com esponjas, com fios
da fecundidade, com as trepadeiras
e as negras raízes da umidade terrestre
− de ti, rosa do mar, pedra absoluta,
saio limpo, vertendo a claridade do vento −
revivo azul, metálico, evidente.
Noite - LXXXVII
As três aves do mar, três raios, três tesouras,
cruzaram pelo céu frio para Antofagasta,
por isso ficou o ar tremuloso,
tudo tremeu como bandeira ferida.
Solidão, dá-me o sinal de tua incessante origem,
o apenas caminho dos pássaros cruéis,
e a palpitação que sem dúvida precede
o mel, a música, o mar, o nascimento.
(Solidão sustentada por um constante rosto
como uma grave flor sem cessar estendida
até abarcar a pura multidão do céu.)
Voavam asas frias do mar, do Arquipélago,
para a areia do Noroeste do Chile.
E a noite fechou seu celeste ferrolho.
O canto
A torre do pão, a estrutura que o arco constrói na altura
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.