XVII - A ilha
Oh torre da luz, triste formosura
que dilatou no mar estátuas e colares,
olho calcário, insígnia da água extensa, grito
de albatroz enlutado, dente do mar, esposa
do vento oceânico, oh rosa separada
do tronco do rosal despedaçado
que a profundidade converteu em arquipélago,
oh estrela natural, diadema verde,
só em tua solitária dinastia,
inatingível ainda, evasiva, deserta
como uma gota, como uma uva, como o mar.
Manhã - VII
“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.
Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!
Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado
que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.
X
Que pensarão de meu chapéu
daqui a cem anos os polacos?
Que dirão de minha poesia
os que não tocaram meu sangue?
Como se mede a espuma
que resvala da cerveja?
Que faz uma mosca encarcerada
em um soneto de Petrarca?
A doce pátria
A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
Manhã - XXI
Oh que todo o amor propague em mim sua boca,
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido
que busca entre as folhas da noite tuas mãos,
o contato do trigo que tu me comunicas,
um rapto cintilante de sombra e energia.
Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
Serenata de Paris
Formosa é a Rua da Huchette, pequena como uma romã
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.
Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.
Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
Meio-Dia - XLI
Desventuras do mês de janeiro quando o indiferente
meio-dia estabelece sua equação no céu,
um ouro duro como o vinho de uma taça repleta
satura a terra até seus limites azuis.
Desventuras deste tempo semelhantes a uvas
pequenas que agruparam verde amargo,
confusas, escondidas lágrimas dos dias,
até que a intempérie publicou seus cachos.
Sim, germes, dores, tudo o que palpita
aterrado, à luz crepitante de janeiro,
madurará, arderá como arderam os frutos.
Divididos serão os pesares: a alma
dará um golpe de vento, e a morada
ficará limpa como o pão novo na mesa.
A nostalgia
Daquelas aldeias que cruzam o inverno e as ferrovias
invicto saía apesar dos anos meu escuro relâmpago
que ainda ilumina as ruas adversas onde se uniram o frio
e a lama como as duas asas de uma ave terrível:
agora ao chegar à minha vida teu aroma escarlate
tremeu minha memória na sombra perdida como se no bosque
rompesse um elétrico canto a palpitação da terra.
Meio-Dia - XXXV
Tua mão foi voando de meus olhos ao dia.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colmeia cortada nas turquesas.
Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.
A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva.
E tua mão voltou de seu voo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra.
O Porto Porto
O porto porto de Valparaiso
mal vestido de terra
Contou-me: — não sabe navegar —
suporta a investida,
vendaval, terremoto,
onda marinha,
todas as forças batem
nos seus narizes rotos.
Valparaiso, cão pobre
ladrando pelos cerros,
os pés da terra
e as mãos do mar
lhe batem.
Porto porto que não pode sair
a seu destino aberto na distância
e uiva
sozinho
como um trem de inverno
para a solidão
para o mar implacável.