Manhã - VIII
Senão fosse porque têm cor de lua teus olhos,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.
se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,
oh, bem-amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.
Tarde - LXIV
De tanto amor minha vida se tingiu de violeta
e fui de rumo em rumo como as aves cegas
até chegar a tua janela, amiga minha:
tu sentiste um rumor de coração quebrado
e ali da escuridão me levantei a teu peito,
sem ser e sem saber fui à torre do trigo,
surgi para viver entre tuas mãos,
me levantei do mar a tua alegria.
Ninguém pode contar o que te devo, é lúcido
o que te devo, amor, e é como uma raiz
natal de Araucânia, o que te devo, amada.
É sem dúvida estrelado tudo o que te devo,
o que te devo é como o poço de uma zona silvestre
onde guardou o tempo relâmpagos errantes.
País
Pequeno país que sobre os montes bravios e a água infinita
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.
Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.
Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.
País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
Os amantes de Capri
A ilha sustenta em seu centro a alma como uma moeda
que o tempo e o vento limparam deixando-a pura
como amêndoa intacta e agreste cortada na pele da safira
e ali nosso amor foi a torre invisível que treme na fumaça,
o orbe vazio deteve sua cauda estrelada e a rede com os peixes do céu
porque os amantes de Capri fecharam os olhos e um rouco relâmpago cravou no silvante circuito marinho
o medo que fugiu dessangrando-se e ferido de morte
como a ameaça de um peixe espantoso por súbito arpão derrotado:
e depois no mel oceânico navega a estátua de proa,
nua, enlaçada pelo incitante ciclone masculino.
Manhã - VII
“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.
Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!
Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado
que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.
Tarde - LXXIII
Recordarás talvez aquele homem afilado
que da escuridão saiu como uma faca
e, antes de que soubéssemos, sabia:
viu a fumaça e decidiu que vinha do fogo.
A pálida mulher de cabeleira negra
surgiu como um peixe do abismo
e entre os dois alçaram ao encontro do amor
uma máquina armada de dentes numerosos.
Homem e mulher talaram montanhas e jardins,
desceram aos rios, ascenderam pelos muros,
subiram pelos montes sua atroz artilharia.
O amor soube então que se chamava amor.
E quando levantei meus olhos a teu nome
teu coração logo dispôs de meu caminho.
X - Os homens
Sim, próximos desenganados, antes de regressar
ao curral, à colmeia das tristes abelhas,
turistas convencidos de voltar, companheiros
de rua negra com casas de antiguidades
e latas de lixo, meio irmãos
do número trinta e três mil quatrocentos e vinte e sete,
sexto andar, apartamento A, B ou J
diante do armazém "Astorquiza, Williams e Companhia"
sim, meu pobre irmão que sou eu mesmo,
agora que sabemos que não ficaremos
aqui, nem condenados, que sabemos
de hoje, que este esplendor nos ofusca,
a solidão nos aperta como a roupa de um menino
que cresce demais ou como quando
a escuridão se apodera do dia.
XVI - Os homens
O fatigado, o órfão
das multidões, o eu,
o triturado, o do asfalto,
o apátrida dos restaurantes repletos,
o que queria ir mais longe, sempre,
não sabia o que fazer na ilha,
queria e não queria ficar ou voltar,
o vacilante, o híbrido, o enredado em si mesmo
aqui não teve lugar: a retidão de pedra,
o olhar infinito do prisma de granito,
a solidão redonda o expulsaram:
foi-se com suas tristezas para outra parte,
regressou às suas agonias natais,
às indecisões do frio e do verão.
Noite - LXXXVII
As três aves do mar, três raios, três tesouras,
cruzaram pelo céu frio para Antofagasta,
por isso ficou o ar tremuloso,
tudo tremeu como bandeira ferida.
Solidão, dá-me o sinal de tua incessante origem,
o apenas caminho dos pássaros cruéis,
e a palpitação que sem dúvida precede
o mel, a música, o mar, o nascimento.
(Solidão sustentada por um constante rosto
como uma grave flor sem cessar estendida
até abarcar a pura multidão do céu.)
Voavam asas frias do mar, do Arquipélago,
para a areia do Noroeste do Chile.
E a noite fechou seu celeste ferrolho.
Ressurreições
Amiga, é teu beijo quem canta como um sino na água
da catedral submergida por cujas janelas
entravam os peixes sem olhos, as algas viciosas,
embaixo no lodo do lago Llanquihue que adora a neve,
teu beijo desperta o som e propaga para as ilhas do vento
uma encubação de nenúfar e sol submarino.
Assim do letargo cresceu a corrente que nomeia as coisas:
teu amor sacudiu os metais que afundou a catástrofe,
teu amor amassou as palavras, dispôs a cor da areia,
e levantou no abismo a torre terrestre e celeste.