Vallejo
Mais tarde na Rua Delambre com Vallejo bebendo calvados
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
O canto
A torre do pão, a estrutura que o arco constrói na altura
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
XLVIII
São os seios das sereias
os redondos caracóis?
Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?
Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?
Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
Noite - XCIV
Se morro sobrevive-me com tanta força pura
que despertes a fúria do pálido e do frio,
de Sul a Sul levanta teus olhos indeléveis,
de sol a sol que soe tua boca de guitarra.
Não quero que vacilem teu riso nem teus passos,
não quero que pereça minha herança de alegria,
não chames a meu peito, estou ausente.
Vive em minha ausência como numa casa.
É uma casa tão grande a ausência
que passarás nela através dos muros
e penderás os quadros no ar.
É uma casa tão transparente a ausência
que eu sem vida te verei viver
e se sofres, meu amor, morrerei outra vez.
País
Pequeno país que sobre os montes bravios e a água infinita
transcorres levando entre torvas rugas a luz mineral e as uvas do vinho
e de um lugar a outro ao chileno moreno e errante
que fura a pedra de sua sepultura vulcânica
com a calça remendada e os olhos feridos.
Vem visitar-me estrangeiro entre Arica e a Terra do Fogo:
faz frio nas ilhas e o mar hasteia o moinho de seu movimento,
as moradas se encolhem ao passo do céu que como um cavalo irritado
galopa na noite frenética golpeando os tetos do homem.
Abriu o vendaval a janela e entrou na cozinha buscando
o fogo que coze as pobres batatas do povo perdido.
País, torre erguida na altura do agroplaneta,
queimado por uma coroa de cruéis relâmpagos
e depois entregado às locomotivas dos terremotos
e depois à fervente imundície dos arrabaldes
e depois ao deserto que espera e devora o viajante
e depois os mares hirsutos que rompem os olhos dos pescadores
e depois no campo a sede da terra, a sede amarela,
e depois o carvão que em sua cova aniquila os heróis negros
e depois a pobre família atacada pelos buracos
do teto e da roupa, olhando a sapataria,
divisa os pés dos anjos com sapatos novos no Paraíso.
Manhã - VIII
Senão fosse porque têm cor de lua teus olhos,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.
se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,
oh, bem-amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,
e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.
A doce pátria
A terra, minha terra, meu barro, a luz sanguinária do orto vulcânico
a paz claudicante do dia e a noite dos terremotos,
o boldo, o loureiro, a araucária ocupando o perfil do planeta,
o pastel de milho, a corvina saindo do forno silvestre,
o pulsar do condor subindo na ascética pele da neve,
o colar dos rios que ostentam as uvas de lagos sem nome,
os patos selvagens que emigram para o polo magnético riscando o crepúsculo dos litorais,
o homem e sua esposa que leem após a comida novelas heroicas,
as ruas de Rengo, Rancágua, Renaico, Lancoche,
a fumaça do campo no outono perto de Quirihue,
ali onde minha alma parece uma pobre guitarra que chora
cantando e caindo a tarde nas águas escuras do rio.
Noite - LXXXI
Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
Os amantes de Capri
A ilha sustenta em seu centro a alma como uma moeda
que o tempo e o vento limparam deixando-a pura
como amêndoa intacta e agreste cortada na pele da safira
e ali nosso amor foi a torre invisível que treme na fumaça,
o orbe vazio deteve sua cauda estrelada e a rede com os peixes do céu
porque os amantes de Capri fecharam os olhos e um rouco relâmpago cravou no silvante circuito marinho
o medo que fugiu dessangrando-se e ferido de morte
como a ameaça de um peixe espantoso por súbito arpão derrotado:
e depois no mel oceânico navega a estátua de proa,
nua, enlaçada pelo incitante ciclone masculino.
XVI - Os homens
O fatigado, o órfão
das multidões, o eu,
o triturado, o do asfalto,
o apátrida dos restaurantes repletos,
o que queria ir mais longe, sempre,
não sabia o que fazer na ilha,
queria e não queria ficar ou voltar,
o vacilante, o híbrido, o enredado em si mesmo
aqui não teve lugar: a retidão de pedra,
o olhar infinito do prisma de granito,
a solidão redonda o expulsaram:
foi-se com suas tristezas para outra parte,
regressou às suas agonias natais,
às indecisões do frio e do verão.