Paulo Teixeira

Paulo Teixeira

n. 1962 MZ MZ

Paulo Teixeira é um poeta português contemporâneo, cuja obra se caracteriza pela exploração de temas universais como a memória, o tempo, a identidade e as relações humanas, com uma linguagem lírica e introspectiva. Sua poesia, muitas vezes marcada por uma sensibilidade aguçada e uma profunda reflexão sobre a condição humana, tem vindo a conquistar um lugar de destaque na literatura portuguesa recente, através de uma voz autêntica e com forte capacidade de ressonância.

n. 1962-09-14, Maputo

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Berghain

A cidade desliza lá fora com o luar.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.

O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,    
a telegrafia sem fios:                 
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.

O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos             
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.

O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.

A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.   
 
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Paulo Teixeira é um poeta português contemporâneo, cuja obra se insere no panorama literário do final do século XX e início do século XXI. A sua produção poética é marcada por uma forte componente lírica e reflexiva, explorando a condição humana em suas diversas facetas.

Infância e formação

A infância e formação de Paulo Teixeira, embora não amplamente documentadas em fontes públicas de fácil acesso, parecem ter-lhe fornecido uma base sólida para a sua sensibilidade e para a forma como aborda os temas da memória e da identidade em sua obra.

Percurso literário

O percurso literário de Paulo Teixeira tem sido marcado por uma evolução consistente na exploração de temas como a memória, o tempo, a identidade e as complexidades das relações humanas. Sua escrita demonstra uma procura contínua por aprofundar a expressão lírica e a reflexão existencial, consolidando uma voz poética distinta no panorama literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Paulo Teixeira é caracterizada por um lirismo introspectivo e uma linguagem cuidada, que explora com profundidade a passagem do tempo, a efemeridade da existência e a busca por significado. Os seus poemas frequentemente abordam temas como a memória, a saudade, a identidade pessoal e a universalidade das experiências humanas. O tom é muitas vezes melancólico, mas sempre permeado por uma esperança subtil e por uma profunda empatia. A sua poesia convida à reflexão sobre a condição humana, utilizando uma linguagem acessível, mas rica em imagens e simbolismos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Paulo Teixeira insere-se no contexto cultural e histórico de Portugal contemporâneo, um período marcado por rápidas transformações sociais e tecnológicas, que inevitavelmente se refletem na produção literária. A sua obra dialoga com as preocupações e inquietações da sociedade atual, abordando temas universais através de uma perspetiva pessoal e intimista.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Paulo Teixeira são escassos em fontes públicas, mas a sua poesia sugere uma personalidade reflexiva e uma profunda conexão com as emoções e experiências humanas. A forma como aborda temas como a memória e as relações sugere uma vida interior rica e uma sensibilidade aguçada.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Paulo Teixeira tem vindo a ser reconhecida pela sua qualidade lírica e pela profundidade das suas reflexões. Embora possa não ter atingido a fama de autores de outras épocas, a sua poesia tem conquistado leitores e críticos pela sua autenticidade e pela capacidade de tocar em questões existenciais de forma sensível e pertinente.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Paulo Teixeira podem residir em poetas que exploraram o lirismo introspectivo e a reflexão sobre a condição humana. O seu legado, ainda em construção, parece apontar para uma contribuição significativa na poesia portuguesa contemporânea, através de uma voz que se distingue pela sua autenticidade e pela universalidade dos temas abordados.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Paulo Teixeira permite diversas interpretações, mas um fio condutor é a exploração da fragilidade da existência humana, a importância da memória e a busca por um sentido nas relações e nas experiências. A sua obra convida a uma introspeção profunda, promovendo um diálogo entre o leitor e as suas próprias inquietações.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações específicas sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da vida de Paulo Teixeira não são facilmente acessíveis em fontes públicas. No entanto, a própria natureza introspectiva da sua poesia sugere um autor dedicado à observação atenta do mundo interior e exterior.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Como autor contemporâneo, Paulo Teixeira continua a sua produção literária, e a sua obra póstuma ainda está por ser escrita e revelada. A sua memória, contudo, está a ser construída através da sua poesia, que ressoa com os leitores e se integra na memória literária portuguesa.

Poemas

16

Berghain

A cidade desliza lá fora com o luar.
Dentro, vai-se enchendo o silo de cimento.
Sobe-se por esta realidade arborescente
até à sala parlamentar onde,
sob uma vagina de Wolfgang Tillmans,
os olhos falam com o medo
a constelar as faces de desejo.

O desespero busca exprimir-se
no movimento acelerado dos braços,
no puro dinamismo dos ossos,    
a telegrafia sem fios:                 
a ela se entregam os funâmbulos
sobre altos cubos negros;
para ninguém ensaiam as suas acrobacias
e sortes de prestidigitação.

O ideograma das luzes banha-os
como num palco.
Desatrelados, soltos,
os corpos secos e nervosos             
deixam ver o íncubo,
o duplo espectral:
aqui acedem a um breve estatuto icónico,
emaciados cristos de tronco nu
e leather pants.

O WC é logo ali ao lado
e nas guaritas ao fundo do salão
perde-se em manobras de bastidores
quem não arrisca ir mais longe,
descer às fundas minas de estanho,
avançar às apalpadelas por território desconhecido,
o labirinto onde o Minotauro se alimenta
da carne de sete rapazes —
há que habituar os olhos à penumbra,
ao movimento dos corpos a tremeluzir
numa silente inquirição.

A música é um moscardo que zumbe ao longe
e o mundo apenas esse estrondo residual.   
 
No triclínio, sobre um colchão sujo,
ou contra os pilares —
o stalker vigia a solidão
que aqui abriu a sua cerca.
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Carta do Pacífico

Rot ist der Abend auf der Insel von Palau
                                    und die Schatten sinken —

                                                                              Gottfried Benn


Querem-me de volta
deste posto avançado do Império
e eu quero ser só massa de gelo do Norte
à deriva em águas quentes.

Vaguear de ilha em ilha
seguindo a pista que os seus nomes
gravaram num mapa mudo,
tendo por religião esta imoralidade
amável de quem mostra as partes sem pudor,    
e meditar sob um telhado em forma de cone
a um deus sem nome ainda.

Apanhar o que o mar traz à praia,             
as mercadorias lançadas pelos vapores de passagem,
folhas de palma, mangas e papaias,                   
no bolso escondido um punhal malaio.    

Podia morrer aqui — esplendidamente.

Proscrito, exilado,                             
banido eu mesmo da Fama,
só, mas valente e leal ao meu nome,
sem armas nem mea culpa,
com um grande vazio na memória —           
sob outra constelação zodiacal.

Querem-me salvo e praticável
e eu desejo é estar à margem,         
ser orla, limítrofe,
lá onde no molhe rebenta a onda      
que vem de longe e chega aos pés da casa.

Nada me redime
e sei que nada mereço —
honras e comendas,
rendas e reparações de guerra.

A minha réplica preferida é a brisa.

Este o meu cavalete —             
curvas, meandros,
uma enseada na hora
em que se atenuam os contornos
e se resolve, num misto de fumo e de névoa,    
a última disposição atmosférica.

A floresta das chuvas
abriu clareiras de verde
no Pacífico azul.

O mundo é uma elegia distante
e a Europa: esta ficção retrospectiva.
693

Auto de fé

Quando o amor é como os papéis velhos
e anseia por mais arte que a do poema
o coração é o forno onde ardem palavras.

Nesse dia  elas foram, amarradas com barbante,
viúvas precipitando-se dentro da pira.
Fiquei a vê-las abrirem-se como pétalas
para  logo definharem a meus olhos
numa florescência não cumprida.
O seu frémito era ainda uma ânsia minha.

Remexi as cinzas, agitei o ar com as mãos.
Vi como um poema se mostra servil ante o fogo.
E pensei: ardessem também os meus dedos!
Para que o poema não deixe crias ao morrer
e não mais confira o direito à vida
do que nele vai escrito.

Porque o amor é a arte que fica além do poema,
no dia em que não escrever mais poemas
sei que o amor resgatará o meu corpo da chama.
1 202

Árvore dos corvos

I
São uma coroa fúnebre
nos ramos da árvore posta.

II
O bater das suas asas é agora
o rumor das folhas que lhe faltam.

III
Nublada pelo círculo das suas vozes
e cativa como moldura para o sono.

IV
O vento estuda-lhe os gestos,
não se sabe se numa dança ébria

V
ou em acenos que ficaram gravados
como serpente enleada até às raízes em pleno ar.

VI
Sabe como demora deixar de ser,
sumir-se a partir de dentro,

VII
cadáver decompondo-se ainda em vida
num outeiro com vista sobre o mar.
669

Paisagem de inverno com igreja

«Nem braçada de lenha ou polvorinho de chifre
assinalam à maneira de cascos o caminho.
Nem berro de animal ou som de corneta acústica
se ouvem no deserto que vai de mim ao vulto
das montanhas como velas enfunadas na bruma.
A terra mudamente foi lavada pela neve
que a noite ilumina com a luz de branca cambraia
ou linho. Descarnadas foram as peles
e passada a carne pelo fumeiro.
Todos beberam esse licor de pétalas maceradas
sentados na távola redonda do entardecer.
Mas nem a luz das candeias nas janelas
ou o vapor doce da comida me dizem,
enquanto um rosário fremente passa
nas mãos frias, “Vem”, “É aqui a tua casa”.»
533

1063 TWENTY-SIXTH ST. SANTA MONICA

(Brecht na Califórnia)

Pede-se-nos complacência     
para com os bons selvagens,
se olham com expressão amável    
e vazia a nobreza romana banida
de uma vez para o Ponto.

Aqui prossegue uma existência insular
essa Weimar das sombras,                                    
com a sua moral rígida e os costumes austeros,
as disputas vãs e recorrentes
sobre os sentidos que toma a guerra
na Europa, como se aí um outro vivesse
o prolongamento das suas vidas amputadas
nesta margem leve e frívola da América.

Ei-la reduzida a assistir de longe,     
com um oceano e um continente de permeio,
às mortes na família.                                             

Trocam currículos e carreiras,      
affidavit e declarações de rendimentos válidas por cinco anos,
pelo direito de habitar este litoral de palmeiras     
e limoeiros de meridional Itália,
mas onde a musa se não demora
a soprar ventos da Cítia                 
entre barcos, redes de pesca
e ninfas de praia (californianas).

Vieram para morrer entre os Getas,    
adeptos do surf & da bricolage,
entre casinos, estúdios de cinema
e poços de petróleo.

Sabemos como a vida imita os filmes.

Os mitos no tempo da física
são como as estrelas poeira sem brilho
num mundo de luz artificial
e poesia impossível —
pois como compor uma ode            
ao deus menor que move,
acima do rumor de pneumáticos e motores,   
os mecanismos da sorte
em Sunset Boulevard?
582

Os contendores

Eles lutaram a medir a sua por uma força maior,
tendo na penumbra lêveda do quarto
o campo de batalha e no outro o fim a alcançar.

Entre investidas e recuos, golfes desferidos
no ar com os punhos e sevícia nas palavras,
um adiantou-se a deitar o outro por terra.

Este buscava, furtando-se ao peso do corpo, breve,
um suprimento de ar, mas enlanguescia a demorar
depois essa intimidade no espaço fechado.

O primeiro olhava com faces sanguíneas
do alto, como presa ao seu alcance,
o amigo confinado nesse abraço circunpolar.

Ao reduzir uma antiga distância pronominal,
aproximou-lhe do ouvido a boca a segredar
cantada, como um sentimento, a sua vitória.
642

O quarto selo

… ceux qui se suffisent de l’ homme et de son
pauvre et terrible amour.
ALBERT CAMUS, La Peste


Obscuramente adivinhada era entre as sombras
e os reflexos de uma carne defendida
contra as marés do princípio do tempo.
Sobre este corpo duas vezes convertido
em mito, os seus escudos indestrutíveis,
labirintos onde se perdiam sonho e amor
e receio, repousa hoje uma fatalidade garantida.
Satisfeito de ti, em ti guardas espaço
para esse cancro imaginado, sorrindo
consolado nas pretensões de uma religião
que declina com a coragem no só desejo de morrer
frente ao crepúsculo, com a janela em chamas.
Iludido por imagens sempre falsas
de um fim tão próximo, podes esperar,
corpo meu, o teu demandado cumprimento
683

Monge na orla do mar

I
Com a santidade de quem se deixou ficar
sobre um chão de cal apagada,
olha a amplidão do espaço à sua frente
num cabo lançado sobre o mar.

Permanece hirto como osso temporal
depois que o tempo passou. Presciência a sua,
imóvel, neste fundo brenhoso da noite.
Pergaminho enrugado onde lesse os sinais,

o mar fumega frases obscuras para o céu.
As gaivotas ouvem-se gritando em roda,
indo, esmoleres do escuro e das horas.
Mas nem o oceano revolto nem o céu baço

espelham verdades que lhe sirvam, hoje,
com o seu rosto de ave nocturna perscrutando
sobre um manto de basalto que lhe pesa
à imposição do Seu dono e Senhor.

Enquanto a brisa lhe cristaliza as faces,
espera que nessa fenda escura do espaço
um astro apareça e brilhe. Apoia a cabeça na mão -
pudesse e desejava para o sono a eternidade.
705

Cidade ao nascer da lua

A toda a largura do pano vê-se a cidade
com o seu perfil a velar-se, bizantino,
no poente. Abismada está na própria imagem,
onde o brilho do crisólito lembra,
num relance, o seu esplendor perdido:
invólucro fetal lançado, noite calada,
na água que ressuma, lenta, junto às margens.

O ouro foi todo acrisolado na água
em que ferveram as cinzas e a escória
de metais. A chuva e o vento vão
exfoliando as paredes, moendo as tintas,
até se não reconhecer mais o festo às fachadas.
Entre a solidão hirta das duas torres
a lua, mormosa, insinua-se.
662

Obras

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